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Mulher na praia, 1992
Manuel Anoro (Espanha, 1943)
óleo e acrílica sobre tela, 79 x 99 cm
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“Há mais tesouros nos livros do que nas pilhas saqueadas pelos piratas na Ilha do Tesouro”.
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Walt Disney
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Mulher na praia, 1992
Manuel Anoro (Espanha, 1943)
óleo e acrílica sobre tela, 79 x 99 cm
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Walt Disney
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Menino lendo, ilustração Claire Louise Milne.–
Só, eu vivo bem comigo,
pois sou boa companhia;
nem preciso de um amigo
para sentir harmonia.
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(Lygia Lopes dos Santos)
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Neste esfacelar de usos e tradições, poucas pessoas encontram ainda encanto em seguir costumes de avós que se foram há muito tempo, e de quem as caveiras, lá no fundo das covas, já não guardam nem resquícios de pele!
A nossa vida agitada precisa de um esforço para relembrar os divertimentos antigos, e não é senão por condescendência que muita gente faz horas para ir à missa do galo ou que deixa o espetáculo pela ceia caseira, obrigada a certos pratos que o desuso tornou para muitos paladares simplesmente abomináveis.
Noites quentes, maravilhosas noites de verão, banhadas de luar, impregnadas do aroma da magnólia e do jasmim-manga, convidando por certo muito mais aos passeios pelos arredores da cidade, ouvindo cigarras e violas de serenatas, do que a fecharmo-nos em uma sala, em frente a um prato de canja fumegante, entre os globos de gás a toda a luz e uma toalha branca onde a louçaria brilhe com o seu luzimento de esmalte.
Estas festas são doces às mamães, porque chamam para o seu redil as ovelhas soltas por diversos pontos da cidade. Nestes dias, como que se ouvem badaladas de sinos de ouro que, a cada repique, dizem assim:
— Vinde para casa! Vinde para casa! É aqui que vos amam! E as ovelhas param, escutam, torcem caminho e voltam para o aprisco de onde tinham partido.
A amante que espere, pensam os rapazes; que se estorça de raiva vendo-se preferida. É preciso também contentar a mamãe, que sorri acudindo a tudo e a todos com a mesma paciência de há trinta anos, quando os filhos eram pequenos e não sabiam de nada na vida que igualasse à sua companhia!
“Boa mamãe! dizem-lhe eles agora, perdoai os nossos desvarios de rapazes! Nós cá estamos no teu regaço, olhando para o teu rosto, beijando as nossas irmãs.”
E a mamãe vai e vem, com os lábios risonhos e os olhos brilhantes. E o sino de ouro da casa, cujas badaladas se ouvem ao longe, mal ela o sabe! É o seu coração angustiado, pisado de sofrimentos, de dúvidas, de saudades, mas que todo se enflora ainda de esperanças, porque é de mãe!
Festas familiares sois peregrinamente bondosas e dementes para os velhos!
Sim, é por condescendência que muita gente deixa a noitada ao relento pela ceia caseira, em que se comem coisas suculentas, se ouvem valsas marteladas ao piano, ou se conversam assuntos repisados.
Na roça é que estas festas do Natal e do Ano-Bom têm uma cor mais brasileira. Aqui na cidade fazemo-las seguindo os costumes portugueses. O frio do Natal europeu impele as famílias para o interior das suas casas, para o calor dos fogões e das ceias fumegantes. O nosso Natal é tão diverso! Em vez da neve temos o sol; em vez da ventania áspera, que obriga as pobres criaturas a irem para a igreja envoltas em capotes, salpicadas de lama e de chuva, temos noites estreladas, cheirosas, em que moças e rapazes vão à meia-noite ouvir a missa do galo, com trajes alegres, sem recear bronquites, podendo folgar pelos caminhos à luz das estrelas palpitantes e coloridas. Na roça é assim. A criançada come ao ar livre pinhões cozidos e faz a algazarra que apraz. As moças dançam no terreiro com os namorados, e os velhos, sentados sob o alpendre, contam anedotas, rememoram visitas a presépios antigos, até que o sino os chame e eles partam todos, aos magotes, para a capela tão sua conhecida, tão sua amada!
Se fosse possível deveríamos inventar festas adequadas ao nosso clima, estabelecê-las, fixá-las, torná-las nossas.
Os costumes europeus não podem, em absoluto, ser reproduzidos aqui. Há no Brasil climas mais frios do que em alguns países da Europa; no alto Paraná o gelo quebra os galhos das árvores e o aldeão tirita lavrando terra. Mas de que vale isso, se as estações são trocadas e o nosso Natal desabrocha em pleno verão! O nosso Natal! Bem que ele precisa de outro emblema. O velho de longas barbas brancas, nariz cor de morango maduro, capote espesso lanzudo e gorro de peles, é filho das terras nevadas, cortadas pelos uivos do vento, tão cruel para os pobres. O nosso Natal é moço, é risonho, é caritativo; abriga os sem vintém, e as criancinhas nuas não o temem, porque ele afaga-as o seu bafo cheiroso e veste-as com a sua luz quente e doirada!
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Em: Livro das Donas e Donzelas, Julia Lopes de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1906 — EM DOMÍNIO PÚBLICO
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Roy L. Smith
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Em um jardim florentino, 2008
Ghislaine Gagna (França)
óleo e pastel sobre tela
80 x 100 cm
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Confesso que andei muito curiosa a respeito do crítico literário Rodrigo Gurgel. Não o conhecia. Só ouvi falar nele depois da controvérsia sobre sua participação na seleção do Prêmio Jabuti. Depois disso, procurei por ele, passei no blog Rodrigo Gurgel algumas vezes, simpatizei bastante com suas opiniões. No início desta semana, li a entrevista que ele deu a Márcia Abos, do jornal O GLOBO [ 3/12/2012] e me enfureci. Não com Rodrigo Gurgel – esse sobrenome anda muito famoso hoje em dia e sempre do lado certo — mas com a arrogância das questões colocadas pela jornalista, inconformada com a diferença de opinião do crítico literário em comparação com a dos demais membros do juri.
As perguntas começaram pedindo que ele enunciasse os critérios que usou para dar notas na segunda etapa do prêmio. [É importante notar, no entanto, que a pergunta não foi feita aos outros integrantes do júri]. E continuou: “Mas você avaliou o romance de Ana Maria Machado”? e depois, em ordem, a entrevistadora pergunta: Você ao dar nota zero, definiu sozinho a categoria. Esperava que isso acontecesse?, Decepcionou-se com “Infâmia”, de Ana Maria Machado; Fez uma espécie de leitura às cegas? E finalmente, a joia de toda a entrevista: Depois da polêmica, arrepende-se de suas notas?
Mas o que quer a jornalista Márcia Abos? Pelas perguntas fica a sensação de que Ana Maria Machado já era considerada a vencedora,com o livro Infâmia, mesmo antes dos votos terem sido contados. Rodrigo Gurgel foi, então, o estraga-prazeres, um lunático, um jurado que não sabia o que fazia? Mas por que? Por que ele não gostou do livro de Ana Maria Machado? Por que não se submeteu à corrente que precisava premiar a autora?
Escritores têm bons e maus momentos. Têm livros bons e ruins. Será que Ana Maria Machado está acima desse patamar? Por que a opinião de um crítico, conceituado o suficiente para fazer parte do júri do Jabuti, tem que concordar com a opinião dos outros? Neste prêmio ninguém é para ser premiado pela obra passada. E tampouco pela obra ainda não produzida. O que teoricamente está em julgamento é aquele livro, específico. Este ano eram Infâmia de Ana Maria Machado, Ninhonjin e outros. Mas nessa entrevista não houve a pergunta mais important de todas, ao entrevistar Rodrigo Gurgel: Quais as características do romance de Oscar Nakasato, Ninhonjin, que agradaram ao critico Rodrigo Gurgel, que levaram este escritor a ganhar o prêmio? Mas esta pergunta, a única realmente válida nesse caso, não foi feita. E ainda, Ninhonjin, o vencedor do prêmio, não foi mencionado durante a entrevista publicada, exceto na introdução da seguinte maneira: “O crítico literário Rodrigo Gurgel, o polêmico jurado C da categoria romance do mais antigo e tradicional prêmio de literatura no Brasil, explica em entrevista ao GLOBO por que [sic] distribuiu notas zero para romances de autores consagrados, como Ana Maria Machado, e notas dez para obras de estreantes, como Oskar Nakamoto”. Como assim? O premiado não mereceu uma única menção? Afinal o que teria esse livro para receber nota 10? E Rodrigo Gurgel polêmico? Por que não gostou de certos livros? Aos olhos de quem?
A entrevista acabou aí. Acusatória. Não deveria haver uma opinião divergente; o resultado eram favas contadas. Foi uma cobrança pública de um voto. Como se para ser jurado no Prêmio Jabuti o crítico tivesse a obrigação não de votar no que acreditasse ser o melhor, mas no que outros imaginavam ser o romance que deveria ganhar. “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, no mundo literário, nos prêmios, quando se espera que só certos autores, abençoados pelas igrejinhas, pelas coronéis editoriais, pela moldes políticos ou críticos da moda sejam os premiados.
O Prêmio Jabuti anda por demais nas manchetes dos jornais. Recentemente sofreu grande pressão quando premiou Chico Buarque de Holanda. Talvez, se mais críticos como o independente Rodrigo Gurgel fizessem parte do júri, o prêmio deixasse as manchetes de escândalo nos jornais para realmente abrir caminhos para uma verdadeira literatura brasileira, tão estagnada hoje pelos espartilhos das versões críticas da moda.
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Que venham chuva e calor,
que os ventos desçam ou subam,
pois ninhos feitos de amor
tempestades não derrubam…
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(Ademar Macedo)
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Il Pesarese, Simone Cantarini (Itália, 1612-1648)
óleo sobre tela, 72 x 55 cm
Museu do Prado, Madri
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Sabino de Campos
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Natal. É noite silente.
Numa pobre manjedoura,
Maria, divinamente,
No venttre um Deus entesoura.
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José murmura, almo e crente,
Uma prece. Do Alto, loura
Réstia de luz, docemente,
A face calma lhe doura.
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Para reger o destino
Do mundo, nasce o Menino
Entre glórias na amplidão.
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Os galos cantam nos prados
E seus clarins reiterados
Ecoam na solidão!
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(Versos da meninice)
Cachoeira, Ba
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Em: Natureza, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti, 1960
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Voltando do mar, 1924
Félix Vallotton (Suiça, 1865 – 1925)
óleo sobre tela, 80 x 100 cm
Musée d’Art et d’Histoire, Genebra, Suíça
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Louisa May Alcott
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![Gari Melchers, O sermão, 1886, ost, [EUA, 1860-1932]](https://peregrinacultural.com/wp-content/uploads/2012/12/gari-melchers-o-sermc3a3o-1886-ost-eua-1860-1932.jpg?w=510&h=361)
O sermão, 1886
Gari Melchers (EUA, 1860-1932)
óleo sobre tela, 159 x 219 cm
Smithsonian American Art Museum, Washington DC
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“ O professor saiu da janela e sentou-se à mesinha onde estavam seus livros. Abriu o bloco de papel branco; experimentou a caneta tinteiro; desenhou um arremedo de templo grego bem no alto da página. Primeiro faria um esboço do seu livro, sobre o qual ainda há pouco pensara tanto, anotando as cenas principais, as personagens que iria criar ou reproduzir, as ideias que precisava desenvolver. Mais tarde, quando voltasse para casa, completaria o que estivesse apenas esboçado. O cenário do livro seria Santo Estefânio, cujo nome talvez trocasse, e a história se desenvolveria partindo de um núcleo: seu amor de quarentão pela jovem Madalena, amor que recordaria sua paixão por Lenora, paixão que o faria refluir à sua pequena cidade do nordeste, à Elsie, a protestante, e à sua igrejinha, que ficava de frente para a lagoa enorme de águas tranquilas. Adolescente, rapaz, quarentão, nos meios mais diferentes, o seu amor não variava de estilo, seguia sempre os mesmos caminhos, embora diferisse o objeto do seu amor. E mostraria no livro, sem piedade para consigo mesmo, a constância das situações ridículas em que se enleiava sempre que se apaixonava. A cena da festa de natal na Igreja dos protestantes, o rosto em fogo, sem saber onde colocar as mãos, atento aos movimentos e à expressão do rosto do Pastor, sem ânimo para fugir, as irmãs de Elsie cochichando, contendo o riso, olhando de soslaio em sua direção. E depois a passagem do Pastor, alto e seco, pelo tapete que ia do púlpito à porta de entrada, acompanhado da esposa, Elsie de olhos brilhantes, sorrindo e sem ohar para os lados, as irmãs de cabeça baixa, contendo o riso, e ele sem poder fugir, morrer, não existir, tal como era o seu desejo naquele momento”.
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Em: A estrela e o professor, Plínio Bastos, Rio de Janeiro, Liv. Império: 1956.
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Plínio Bastos, (Brasil) professor, romancista, poeta e historiador.
Obras:
A vida comercial, 1954
A Estrela e o Professor, romance, 1956
Talvez Alguém se Salve, romance, 1958
Um Crime, romance, 1961
Justiça Triste, romance, 1962
História do Mundo, história, 1960
História do Brasil, história, 1959
As Grandes Mitologias do Mundo, 1959
Galeria de brasileiros ilustres, biografias, 1953
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Qual imagem, na redoma,
que sem a fé jamais cura,
de nada vale um diploma
sem o primor da cultura.
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(Alberto Fernando Bastos)