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Cartão postal virada do século XX.
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“Ao ano passado pertence a linguagem do ano passado
E as palavras do próximo ano esperam por uma nova voz.”
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T.S. Eliot
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Cartão postal virada do século XX.–
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T.S. Eliot
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Fuga para o Egito, 1881
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela, 333 x 226 cm
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
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Cartão Postal.–
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Charles N. Barnard
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Mulher descansando, s/d
Heinrich Lossow (Alemanha, 1847-1897)
óleo sobre tela
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Hilaire Belloc
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Um dia de chuva, ilustração: ignoro a autoria.–
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Lêdo Ivo
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Chove sobre a cidade
e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam apenas — graça plena — as estrelas.
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Os trovões reboam, espantando os pássaros
que vieram refugiar-se no meu quarto.
Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que passam
— são outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.
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As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos os barcos de papel
que navegam buscando os reinos fantásticos, os inaccessíveis!
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A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia
para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um himeneu, uma écloga deploratória.
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Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os grandes temas poéticos.
O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.
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Em: Central Poética: poemas escolhidos, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Aguilar:1976
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Em homenagem ao poeta Lêdo Ivo, falecido hoje, aos 88 anos.
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Natal em Moçambique, ilustração autoria desconhecida.–
Junto do berço que a luz
da fé cristã alumia,
toda criança é Jesus
e toda mãe é Maria.
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(Padre Celso de Carvalho)
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Sem título
Roberto Kenji Fukuda (Brasil, 1943)
óleo sobre tela, 50 x 50 cm
Coleção Particular
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Há alguns anos, amigos meus nos Estado Unidos, transformaram seu quintal, em um jardim de pedras, um Karesansui, um jardim zen. Com eles aprendi, naquela época, alguns truques de paisagismo oriental que permitem a impressão de grande espaço em uma pequena área, quer por meio de telas, quer por caminhos em passeios sinuosos que levam a cantos raramente explorados do terreno ou que passam sobre um pequeno lago com carpas. O Karesansui, no entanto, permite distanciamento e mais do que isso: uma inimaginável sensação de paz e tranqüilidade, mesmo que sua localização esteja no meio da cidade. O minimalismo das pedras, do cascalho, da água fazem-no um jardim reservado unicamente aos elementos essenciais e parece levar à introspecção e à descoberta daquilo que nos é vital. Karesansui é um jardim que favorece a meditação. A leitura de Nihonjin me lembrou este jardim. Há na sua narrativa, que cobre três gerações de japoneses e seus descendentes no Brasil, um arranjo artístico igualmente sensível que faz com que suas 176 páginas sejam suficientes para o retrato da complexidade emocional, da dificuldade física e cultural de adaptação dos imigrantes japoneses que chegaram a este país.
Ainda não visitei o Japão, em pessoa. A literatura japonesa tem aos poucos encontrado seu lugar nas minhas prateleiras de livros favoritos, enquanto suas famosas xilogravuras policromadas foram objeto de estudo e admiração nas artes visuais. Por causa delas e dos netsuquês, botões de roupa esculpidos com grande detalhe, estudei um ano de japonês. Mas a complexidade da língua e das formas de tratamento me deixaram perplexa e logo abandonei o aprendizado, estudando em seu lugar um pouco de hindu, língua igualmente complexa e frustrante. Foram assim os meus vinte anos, tempos de expansão cultural, onde estudante em terra alheia, uma quase imigrante, tentei alargar meus horizontes e, com afinco, me embrenhar pelos caminhos do outro. Essa atividade não acompanhou a maioria dos imigrantes japoneses no Brasil, como bem mostra Oscar Nakasato em Nihonjin. O outro, nesse caso nós, brasileiros, era exatamente isso: OUTRO. E assim ficaria até que voltassem à terra do sol nascente.
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A temática do imigrante é um dos mais importantes tópicos literários dos últimos 100 anos. Sobretudo a partir de meados do século XX quando a geração dos filhos ou netos de imigrantes que se estabeleceram na Europa, EUA e Brasil, entre outros, é escolarizada e começa a desvendar os caminhos traçados pelas gerações que os antecederam. Muito tem sido escrito sobre a questão da adaptação e do forjar de uma nova identidade para o imigrante. O movimento voluntário, de massas, de milhares de pessoas de um canto para o outro do mundo procurando melhoria de vida, quer na Europa — mãe de dezenas de países recém delimitados na África e do Oriente Médio — quer nas Américas, recipientes de milhares de trabalhadores braçais da Itália, Alemanha, Irlanda, Suiça, Espanha, Portugal, Rússia, Polônia, nunca havia sido tão persistente e grande através da história da humanidade. Seu clímax parece ter sido nos anos que seguiram imediatamente a Segunda Guerra Mundial, ainda que tenha havido fuga numerosa também, nas décadas seguintes, daqueles que não aceitavam a ditadura comunista nos países da antiga Cortina de Ferro.
Mas o caso japonês no Brasil, que hoje tem o maior grupo de pessoas de ascendência japonesa no mundo fora do Japão, é único. Único porque foi o resultado de uma ostensiva política de desafogamento populacional daquele país. Os primeiros contatos diplomáticos entre os governos do Brasil e do Japão sobre esse assunto datam de 1892, ou seja, do governo de Floriano Peixoto. Por causa da maneira como lhes foi mostrada, a emigração japonesa, para cá, trouxe cidadãos que se sentiam cumprindo um plano estratégico de seu Imperador e, por consequência, mais do que outros imigrantes sentiam que precisavam voltar com dinheiro, para benefício da própria Terra Mater. Desse modo, mesmo em se deixando de lado diferenças marcantes, e importantes como dignidade cultural e responsabilidade social, que a maioria sentia em relação à terra mãe, a situação psicológica dos imigrantes japoneses, diferia substancialmente das demais nacionalidades que por aqui aportaram, cujos membros, partiam por conta própria, aventurando-se sozinhos, como se ao léu, a caminho do desconhecido, na luta pela sobrevivência, na esperança de uma vida melhor, muitas vezes com fome, sofrendo perseguição política ou religiosa. Diferente dos japoneses, esses imigrantes não sentiam uma dívida de honra com o país de origem, ao contrário, estavam gratos por uma terra para trabalhar, uma oportunidade de criar raízes, constituir família sem perseguições políticas ou religiosas, num lugar de natureza abundante, gerador de maior dignidade de vida.
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Oscar Nakasato
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Nihonjin não é uma obra unicamente focada na vida dos colonos japoneses por aqui, ainda que precise ser contada. É verdade que na leitura desse romance aprendemos muito sobre o assunto. Mas o romance é mais do que isso. Nele testemunhamos a estética do ”menos é mais” aplicada a um texto literário de forma confiante. A linguagem precisa, repleta de vestígios poéticos, torna o texto fluido e a história corre como água de riacho, num murmurejar incessante. Seu tom é a meia voz e a narrativa, que é simples, despojada de rebuscadas figuras de linguagem, torna o texto relaxante e hipnótico. Como num Karesansui somos convidados a refletir, a ponderar sobre os vagares da mente, sobre o enigma das emoções. Mais tarde, somos levados a reconsiderar o tempo e a memória. Oscar Nakasato é um minimalista da linguagem. E com isso inova a estética literária brasileira. Não há personagens a mais ou a menos, assim como palavras, frases ou histórias. Não é jornalístico. Não é anedótico. Detém-se no essencial. Ninhojim não chega a ser um haikai da forma narrativa, mas está perto: sucinto, poético, reflexivo. Mínimo. Uma beleza!
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Natividade
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela
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Fernando Pessoa
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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
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Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
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E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !
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Moça lendo, 2000
José van Gool (Bélgica, 1945 )
óleo sobre tela, 60 x 70 cm
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Charles Simic