–
Cartão postal.
–
“Eu queria que fosse possível colocar um pouco do espírito de Natal em frascos para que pudessem ser abertos a cada mês”.
–
Harlan Miller
–
Cartão postal.–
–
Harlan Miller
–
–
–
Feliz de quem busca amigos
entre homens bons e singelos.
– Quem aos porcos se mistura,
aprende a comer farelos…
–
(Tapajós de Araújo)
–
–
Natal, 1969
Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976 )
óleo sobre tela
Coleção Particular
–
–
O Natal em Curvelo era simples e não havia o hábito das pessoas se presentearem, não sei se porque todos eram pobres. Rezava-se a Missa do Galo na matriz, e o que marcava aquele dia como de festa, era o número de comunhões a mais.
Em compensação, o presépio era um costume tradicional. Ninguém que se prezasse deixava de armar o seu: havia-os nas igrejas, nas moradias particulares, os famosos que arrastavam visitantes de fora e os modestos, armados no interior das casas mais humildes.
Nas proximidades do dia, acorriam dos arredores da cidade mulheres, algumas de longe, que traziam para vender, enfeites os mais variados: tocos de pau com parasitas em flor, frutos silvestres, musgo, pedaços de limo verdinho, arrancados das margens de riachos ou de barrancos úmidos e pedrinhas. Quem podia, comprava, e quem não podia, ia ao mato procurar, o que já constituía um aparte da festa. Eram caminhadas sob o sol ardente e à tardinha o regresso, carregados de gravatás, frutos do mato, de cheiro penetrante e agradável, barba-de-pau e seixinhos polidos.
Para enfeitar o lago, imprescindível em qualquer presépio que se prezasse, muito antes da data, plantavam-se em latas de manteiga vazias, arroz, que crescia verdinho e viçoso. As serras eram feitas com o maior apuro: sobre folhas de papel pardo de embrulho, bem encorpadas, passava-se grude de polvilho, espalhando em cima carvão bem moído, reduzido a pó, cinza de borralho e vidro colorido, triturado em pedacinhos no almofariz de bronze, que faziam cintilante a serra. Quanto mais variadas as cores dos vidros empregados, mais mesas, de acordo com a imaginação de cada um: altas, mais baixas, formando grotas, despenhadeiros, grutas, e de espaço em espaço, barba-de-pau, que lhe dava um cunho de semelhança.
Depois vinha a colocação de vários figurantes: na gruta principal, a manjedoura onde descansava o Menino, N. Senhora e S. José ao lado, os animais tradicionais: o burro, o boi e os pastores. Pela serra e pelos caminhos polvilhados de areia branca, tudo aquilo que se tinha colecionado durante o ano e, muitas vezes, durante anos. Animais diversos, homens com cajados, pastores, ovelhas, peregrinos, monjolos, marrecos, leitõezinhos, lenhadores com seus machados, carros de bois, trens de ferro, tudo na mais pitoresca confusão. Era uma procissão de bichos os mais engraçados, camponeses, tocadores de sanfona, pássaros variados nos galhos das árvores das estradas e da serra, todos em demanda da manjedoura onde repousava o Menino sob a guarda de seus pais. Bem no alto, uma grande estrela de papel prateado cintilava, apontando o caminho para os reis magos, ainda em viagem, ao lado de casas coloridas espalhadas, algumas em verdadeiros despenhadeiros, completamente inacessíveis. Ao redor do espelho, que fingia o lago, latas de arroz mais verde e lindo e patinhos brancos nadando: de celulóide, de louça, ou barro da Cacimbinha, conforme as posses do dono do presépio. Misturado a tudo, sobre areia e folhas, mangas cheirosa, abacaxis maduros, gravatás e uvas pretas pendentes de belos cachos, que ainda conservavam frescas as suas folhas.
De 24 de dezembro a 6 de janeiro não se pensava senão na visita aos presépios da cidade.
Ia-se de casa em casa, à procura deles, desde os mais famosos, que tinham monjolos pequeninos movidos à água, oficina de carpintaria completa, com instrumentos se movendo, até os mais humildes como o nosso, que só possuía as figuras do estábulo, as serras que nós mesmos fazíamos, o lago rodeado de arroz plantado muito tempo antes, uns poucos bichinhos disformes, moldados por nossos dedos inábeis no barro cinza que trazíamos de Cacimbinha.
Para mim, porém, não havia nenhum mais belo, nenhum que o igualasse. Passava o dia colocando nele flores e frutos que conseguia arranjar com uns e outros. Tempo feliz.
–
Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70.
–
Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista. Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu no Rio de Janeiro em 1994. Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923. [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]
Obras:
Por onde andou meu coração, memórias, 1967
Vida,vida, romance, 1973
–
–
–
Todos os anos venho aqui sugerir alguns livros de presente. Este ano li poucos livros para os quais daria indiscutivelmente cinco estrelas, ou seja a nota máxima. De modo que a seleção será pequena. Não sei se li menos ou se fiz más escolhas. Fato é que tenho pouco a recomendar sem restrições. Mas os livros selecionados abaixo vão sem nenhuma restrição para o leitor ávido por boa literatura.
–
–
SINOPSE
Em 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, Portugal perde as suas colônias. Em poucos meses, o país recebe mais de meio milhão de retornados, que de uma hora para a outra precisam abandonar as suas casas. É nesse contexto que conhecemos a história do narrador: Rui, um adolescente nascido em Luanda. Dulce Maria Cardosos alcança, com O retorno, uma linguagem de uma precisão absoluta. Uma linguagem lírica, delicada, mas também áspera e seca, oscilando entre os sentimentos com a habilidade que só os grandes têm. O universo da trama é tão bem construído que o leitor ri, chora, espera o pai, torce pelos personagens, como se os conhecesse. A vida salta do livro com suas mazelas e alegrias, com a potência do que é real. Tão real que a gente nem sabe por quê. Só sabe que é.
–
ISBN: 9788565500012
PÁGINAS: 272
ANO DE EDIÇÃO: 2012
–
Este é um livro que encanta e nos mostra um ângulo da história contemporânea raramente abordado. Magnífica linguagem.
–

–
SINOPSE
Malgudi é uma efervescente pequena cidade no Sul da Índia, onde se respira a força da cultura tradicional indiana unida ao anseio de integração no mundo moderno e global, um lugar em que palavras como ética, democracia, liberdade sexual e igualdade entre os sexos, individualismo e bem comum não só têm importância e sentido, como não estão necessariamente em conflito com a tradição. Um fio percorre e conecta a vida de uma inteira comunidade – são os letreiros de Raman. Do advogado ao comerciante, do sacerdote ao charlatão, é a escrita que os une. Raman prepara os letreiros no seu ateliê de fundo de quintal, onde vive sozinho com a tia, numa casa à beira do rio. Durante as solitárias leituras vespertinas ou pedalando a bicicleta a serviço dos fregueses e à caça de novos clientes, sua imaginação prevalece e torna incoerentes as convicções e certezas que defende e apregoa, fazendo-o cair em frequentes contradições, que geram situações embaraçosas e hilariantes ao mesmo tempo. Porém este equilíbrio na rotina metódica do pintor de letreiros é rompido com a chegada de uma forasteira. Idealista e determinada, ela contrata os seus serviços e o envolve numa viagem cheia de aventuras pela zona rural. Durante o percurso, Raman realiza uma dupla travessia – a atribulada viagem num carro-de-boi e o mergulho insidioso pelos meandros da paixão carnal e do romantismo.
–
ISBN: 9788599537190
PÁGINAS: 252
ANO DE EDIÇÃO: 2011
–
Um romance refinado de um dos maiores escritores indianos do século XX que só agora chega ao Brasil. Um retrato curioso do processo de modernização na Índia.
–
Livro das horas, de Nélida Piñon.–
SINOPSE
Um livro magistral da mais importante escritora contemporânea brasileira. Em uma narrativa comovente e sensível, Nélida revive memórias afetivas que emergem a partir de um vertiginoso turbilhão de lembranças e emoções. E a cada página lida, fica claro ao leitor que independente de sua vivência ou da riqueza de suas lembranças, sua história de amor sempre foi uma só: com a palavra.
–
ISBN: 9788501099785
PÁGINAS: 208
ANO DE EDIÇÃO: 2012
–
Tomando como inspiração o livro de reflexões religiosas — os breviários — da Idade Média, Nelida Piñon pondera sobre diversos aspectos da vida pessoal e profissional. Uma leitura pausada trará maior contentamento.
–
Sonhei que a neve fervia, de Fal Azevedo.–
SINOPSE
Em agosto de 2007, a morte do marido pegou a paulista Fal Azevedo – dona de um dos blogs mais acessados da internet, o Drops da Fal – de surpresa. Incredulidade, raiva e tristeza se misturaram ao conforto das mensagens de solidariedade e carinho de amigos e desconhecidos, leitores fiéis do blog. Sonhei que a neve fervia revê, através de e-mails e textos publicados na web, a jornada da tradutora e autora do elogiado Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite para encontrar força e (re)encontrar a voz – culta, engraçada, ferina, mas, acima de tudo, honesta e transparente – que conquistou leitores no mundo virtual e fora dele.
–
ISBN: 9788532526595
PÁGINAS: 384
ANO DE EDIÇÃO: 2012
Belo e triste relato do processo de luto por que as pessoas, e nesse caso a autora, passam ao perder o companheiro de vida.
–
–
A última façanha do Major Pettigrew, Helen Simonson.–
SINOPSE
–
Entre os mais vendidos do New York Times e do Washington Post, em 2010, A última façanha do Major Pettigrew narra uma história de amor e amizade marcada pelo rompimento de valores tradicionais entre um viúvo inglês de 68 anos e uma paquistanesa, também viúva, que é excluída da comunidade por sua herança cultural, sua aparência e seus costumes. Ambientado em uma pequena cidade da Inglaterra, o livro acompanha os percalços enfrentados pelos protagonistas para assumir o seu amor. Aposentado pelo exército inglês, o Major Ernest Pettigrew considera a honra, a disciplina e as boas maneiras virtudes essenciais. Ele parece satisfeito com sua pacata rotina de viúvo – idas semanais ao clube de golfe, telefonemas esparsos para o filho, leitura de poemas clássicos – até perder o irmão, Bertie, e perceber que está mais sozinho do que imaginava. É a solidão repentina que o aproxima da paquistanesa Jasmina Ali, 58 anos. Ela é dona de um mercadinho da região e, assim como o major, grande apreciadora de obras literárias. Aos olhos dos moradores da vila, fofoqueiros e apegados à tradição, a diferença cultural entre eles é quase insustentável. Para o major, no entanto, Jasmina é uma nova e surpreendente companhia. Neste delicioso romance de estreia, que alcançou as principais listas dos mais vendidos norte-americana, Helen Simonson lança um olhar sobre o sistema de classes britânico com uma trama que é um misto de comédia de costumes com história de amor. Seu grande mérito foi construir dois personagens igualmente admiráveis e divertidos, num livro sobre o inesperado milagre do amor tardio.
–
ISBN: 9788532526298
PÁGINAS: 429
ANO DE EDIÇÃO: 2011
–
Uma deliciosa comédia retratando a maneira de viver na Inglaterra moderna, com seus novos habitantes vindos das antigas colônias. Humor fino na tradição de Jane Austen.
–
–
Carta, ilustração de Henry Clive.–
As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
–
(Téula Athayde)
–
–
–
–
Janice Marditere
–
–
Dormindo
Roman Zaslonov (Belarússia, 1962)
óleo sobre tela, 122 x 122 cm
–
–
Ernest Hemingway
–
–
Bahia… Voz que se exprime
num canto alegre e encantado,
pelo violão de Cayme
e a pena do Jorge Amado!…
–
(Augusto Astério de Campos)
–
–
–
O Natal era uma festa mais simples do que se tornou, principalmente quando é celebrado num período de instabilidade política. Retiro do Diário de Cecília de Assis Brasil: período de 1916 a 1928 [LP&M:1983] duas pequenas passagens que nos mostram o Natal em 1925, no interior do Rio Grande do Sul.
–
” Sexta-feira, 24 de dezembro — Voltei ontem da Estância Nova. Fui substituir a Mamãe que se afastara para visitar Dona Mafalda. Passei o dia na cozinha. Além do almoço, fiz bolos, biscoitos, arroz de leite e pudim de ovos. Fiquei contente de ter encontrado aqui, na volta, o seu Lauro, que nos trazia boas notícias da gente do velho Neto. […]
–
Sábado, 25 de dezembro, dia de Natal — Papai chegou cedo pelo noturno de Montevidéu. […] Papai trouxe-nos inúmeros presentes. Os meus foram régios: uma sela inglesa, de couro de porco, com barrigueira, e uma Corona 4, último modelo, novinha, lustrosa, em troca de minha velha máquina que o Sr. Firpo conseguiu vender em Buenos Aires, por 50 pesos. A nova custou 80. Antes do almoço entreguei meus modestos presentes de Natal, a cada membro da família: um tapete de trapos para a Mamãe, um crochê para a Maninha e lenços de linho para as outras. Ao Papai dei um carretel de linha de sapateiro para ele costurar os mata-moscas. O dia foi bonito e movimentado, mas passamos todo tempo pensando nos que estão ausentes, jogando a vida e a mocidade, para assegurar a liberdade da nossa terra e a nossa tranquilidade no futuro. […]”
–
Para elucidar: Estes diários foram escritos durante um período de grande instabilidade no Rio Grande do Sul, que culmina na chamada Coluna Prestes. Aqui retirei só os trechos que descrevem o Natal nas estâncias, durantes este período.
Em: Diário de Cecília de Assis Brasil, período de 1916-1928, Porto Alegre, LP&M: 1983
–
–
Pateta quer descansar, ilustração Walt Disney.–
Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar…
–
(Augusto Linhares)