Os vagalumes, texto de Graça Aranha

28 05 2013

vagalumes na naturezaVagalumes na natureza. Autoria da foto, desconhecida.

Os Vagalumes

Graça Aranha

Os primeiros vagalumes começavam no bojo da mata a correr suas lâmpadas divinas. No alto, as estrelas miúdas e sucessivas principiavam também a iluminar. Os pirilampos iam-se multiplicando dentro da floresta, insensivelmente brotavam silenciosos e inumeráveis nos troncos das árvores, como se as raízes se abrissem em pontos luminosos. A desgraçada, abatida por um grande torpor, pouco a pouco foi vencida pelo sono; e deitada às plantas da árvore, começou a dormir… Serenavam aquelas primeiras ânsias da Natureza, ao penetrar no mistério da noite. O que havia de vago, de indistinto, no desenho das cousas, transformava-se em límpida nitidez.  As montanhas acalmavam-se na imobilidade perpétua; as árvores esparsas na várzea perdiam o aspecto de fantasmas desvairados… No ar luminoso tudo retomava a fisionomia impassível. Os pirilampos já não voavam, e miríades deles cobriam os troncos das árvores, que faiscavam cravados de diamantes e topázios. Era uma iluminação deslumbrante e gloriosa dentro da mata tropical, e os fogos dos vagalumes espalhavam aí uma claridade verde, sobre a qual passavam camadas de ondas amarelas, alaranjadas e brandamente azuis. As figuras das árvores desenhavam-se envoltas numa fosforecência zodiacal. E os pirilampos se incrustavam nas folhas e aqui, ali e além, mesclados com os pontos escuros, cintilavam esmeraldas, safiras, rubis, ametistas e as mais pedras que guardam parcelas das cores divinas e eternas. Ao poder dessa luz o mundo era um silêncio religioso, não se ouvia mais o agouro dos pássaros da morte; o vento que agita e perturba, calara-se… Maria foi cercada pelos pirilampos que vinham cobrir o pé da árvore em que adormecera. A sua imobilidade era absoluta, e assim ela recebeu num halo dourado a cercadura triunfal; e interrompendo a combinação luminosa da mata, a carne da mulher desmaiada, transparente, era como uma opala encravada no seio verde de uma esmeralda. Depois os vagalumes incontáveis cobriram-na, os andrajos desapareceram numa profusão infinita de pedrarias, e a desgraçada, vestida de pirilampos, dormindo imperturbável como tocada de uma obra divina, parecia partir para uma festa fantástica no céu, para um noivado com Deus… E os pirilampos desciam em maior quantidade sobre ela, como lágrimas de estrelas. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados, violáceos, e dali a pouco braços, mãos, colo, cabelos, sumiam-se no montão de fogo inocente. E vagalumes vinham mais e mais, como se a floresta se desmanchasse roda numa pulverização de luz, caindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem numa tumba mágica. Um momento, a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça, abriu os olhos que se deslumbraram. Pirilampos espantados faíscavam relâmpagos de cores… Maria pensou que o sonho a levara ao abismo dourado de uma estrela, e recaiu adormecida na face iluminada da Terra…

Texto do romance Canaã, de Graça Aranha, publicado pela primeira vez em 1902.  Em domínio público.





São Paulo Moderno, poesia de Corrêa Júnior

27 05 2013

anhangabau-yugo-mabe, 2007, 60x73astAnhangabaú, 2007

Yugo Mabe (Brasil, 1955)

acrílica sobre tela, 60 x 73 cm

São Paulo Moderno

Corrêa Júnior

São Paulo! Jardim florido

de mil lendas imortais!

Chão vermelho, colorido,

qual manto de ouro estendido

à sombra dos cafezais.

São Paulo! Vales e montes

por onde em festas, se vê

surgirem ninhos e fontes…

São Paulo! Viadutos. Pontes.

Rios de glória… O Tietê…

São Paulo! Léguas de asfalto

entre paineiras em flor…

Arranha-céus, no planalto,

e a garoa, lá no alto,

enchendo os céus de esplendor!

São Paulo! Estradas imensas

onde a lavoura sorri…

Berço de sonhos e crenças!

Quanta poesia condensas!

Quanta fé nos vem de ti!

Em: Terra Bandeirante: a história, as lendas e as tradições do Estado de São Paulo, 3º ano primário, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Editora Agir: 1954.

Lucídio Corrêa Júnior (Brasil, 1900 – 1940) Nasceu em Curitiba no estado do Paraná.  Foi poeta e radialista.





O verde do meu bairro: Manacá-da-serra

26 05 2013

DSC00003Manacá-da-serra, nos jardins de um edifício.  Rio de Janeiro

Fico sempre muito alegre quando vejo jardins de edifícios no Rio de Janeiro ornamentados com plantas tropicais nativas.  Vejam só que bonito que ficou esse Manacá-da-serra (Tibouchina mutabilis Cogn) na frente de um edifício.  Essa é uma pequena árvore brasileira, semi-decídua, nativa da mata atlântica. Muito popular nos jardins das casas do início de século XX, caiu de moda por algumas décadas e parece agora estar sendo lembrada pelos paisagistas cariocas.

Ela é uma árvore de porte pequeno a médio, perfeita para um cantinho de jardim por causa de suas flores de duas cores.  Crescida, madura pode chegar até 12 metros de altura e não menos que 6.  Suas folhas são verde-escuro, mais compridas do que largas e as flores de seis pétalas são relativamente grandes, e se destacam de encontro ao fundo verde escuro da folhagem. Quando nascem são branquinhas mudando de cor com o amadurecimento até tornarem-se de cor violeta.  Têm seis pétalas.  Isso faz com que seja uma árvore florida com flores de duas cores, o que faz com que muitos, erroneamente acreditem que a árvore é fruto de enxerto. Os livros de jardinagem dizem que  as flores aparecem no verão.  Mas aqui no Rio de Janeiro elas aparecem agora, no meio do outono.

É uma árvore que poderia ser mais utilizada no Rio de Janeiro já que suas raízes não iriam suspender as pedrinhas portuguesas das nossas calçadas. O Manacá-da-serra gosta de sol, de bastante sol. E é claro de solo fértil.

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Quadrinha do pai sisudo

20 05 2013

grandpa

Aquela grande energia,
de pai sisudo e correto,
o transformou, belo dia,
em cavalinho do neto…

(Nair Starling dos Santos Almeida)





Como o canto do galo anuncia a manhã?

19 05 2013

Galo, Mary Ann CaryGalo, ilustração de Mary Ann Cary.

O canto do galo, co-co-ri-có, tão conhecido por ser cantado nas primeiras horas da manhã foi estudado pelos cientistas japoneses Tsuyoshi Shimmura e Takashi Yoshimura, da Universidade de Nagoia.  Estes cientistas determinaram que os galos cantam ao amanhecer porque seu relógio biológico reconhece as horas.  Embora a luz natural também seja uma influência, os próprios galos têm um ritmo circadiano, ou seja um relógio biológico que os faz cantar ao amanhecer.

Vários galos foram estudados sob uma luz artificial permanente.  No entanto eles sempre cantavam pouco antes do amanhecer.  Isso mostrou que eles agem influenciados por seus relógios biológicos.  Outros fatores tais como o aparecimento da luz quando o sol nasce ou o canto de outras aves, também influem, mas não são as causas do canto do galo.

Em muitos países o canto do galo é o símbolo da chegada da manhã. Mesmo assim não é raro ouvirmos o canto do galo em outras horas do dia. Portanto ainda não está claro se o canto do galo é dependente exclusivamente do relógio biológico, ou se pode ser também provocado pelo meio ambiente. O que é mostrado nesse estudo, publicado na revista Current Biology é que o canto do galo antes do sol nascer é engatilhado pelo relógio interno dessas aves.

Em: Terra





Palavras para lembrar — Samuel Johnson

19 05 2013

Jovem mulher lendo um livro, s/d

Bela de Kristo ( Hungria, 1920-2006)

óleo sobre tela

“Um escritor só começa um livro.  Um leitor o acaba”.

 Samuel Johnson





O navio cheio de bananas, poesia de Ledo Ivo

14 05 2013

Bananal, 2003

João Werner (Brasil, 1962)

óleo sobre tela, 60×80 cm

www.joaowerner.com.br


O navio cheio de bananas

Ledo Ivo

Paisagem, maresia

azul e bananais!

No porão do navio,

o ouro dos litorais.

Fruto de um paraíso

de mormaço, num alvo

formigueiro de sal

entre negros trapiches.

O horizonte derrama

cal entre as bananeiras.

São roupas de operários,

cantos de lavadeiras.

Como as bananas verdes

à luz do cabureto

logo ficam maduras

quaradas pelo sol

de uma falsa estação,

assim este cargueiro

esplende, no terral,

seu cacheado tesouro.

E o panorama é de ouro

E o dia sabe a sal.

Em: Os melhores poemas de Ledo Ivo, seleção do autor, Rio de Janeiro, Global Editora: 1983, 1ª edição.





Quadrinha da Lei Áurea

13 05 2013

Artur Timoteo da Costa,CabeçasEstudo de cabeças, d’après Pieter Paul Rubens, s/d

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)

óleo sobr tela, 30 x 36 cm

Coleção particular

A Lei Áurea veio em tempo,

dar liberdade total.

Ao africano o contento,

ao brasileiro a moral.

(José Carlos Gomes)





Filhotes fofos — girafinha Sandy Hope

13 05 2013

B6D9878637FFFDFF933715BCD22B_h450_w598_m2_q90_cPvYCZWvOFoto: Adrees Latif, Reuters.

A pequena girafa Sandy Hope aparece aqui ao lado de sua mamãe, no lugar onde mora: Jardim Zoológico de Greenwich, no estado de Connecticut, nos Estados Unidos.





Algumas questões sobre a arte a partir do DNA e Roberto Carlos

13 05 2013

M_Faraday_Lab_H_MooreMichael Faraday no seu laboratório, c. 1850

Harriet Moore (Inglaterra, 1801-1884)

aquarela

Chemical Heritage Foundation

Um fio de cabelo encontrado no banco de um taxi, o filtro de um cigarro deixado para trás no cinzeiro de entrada de um edifício comercial são suficientes para levar a artista plástica Heather Dewey-Hagborg a construir de volta um rosto possível de quem deixou vestígios de DNA em lugares públicos. Assim, se um dia você vir o seu retrato em uma galeria de arte, daqui ou de Nova York, um retrato para o qual você não posou; um retrato cuja existência desconhecia é porque parte do seu DNA restaurado depois que você o deixou para trás pode ter sido usado para reconstruir a sua imagem.  Hoje quem faz isso é a artista plástica Heather Dewey-Hegborg, como o artigo no site da National Public Radio menciona [ Litterbugs beware turning found DNA into portraits].

Confesso que mais de uma vez, enquanto no cabelereiro, pensei sobre aquelas mechas de cabelo que são rapidamente varridas do chão, como um rastro que deixamos para trás e que delata onde estivemos e o que fizemos. Mas a constatação de que alguém levou esse pensamento, essa hipótese um passo adiante, concretizando a informação do DNA de desconhecidos e os retratou de volta,  é estarrecedora.  E merece muito questionamento.

183377741Um retrato por Heather Dewey-Hegborg com as características estipuladas pela análise de DNA encontrado ao acaso.

O processo de análise do DNA a que Heather Dewey-Hegborg submete suas amostras é científico e se você tem curiosidade sobre isso clique no link do artigo no parágrafo acima. Para mim, o que é mais interessante, neste momento, em que ainda discutimos se alguém tem o direito de escrever uma biografia sobre uma pessoa pública sem a autorização dela — como no caso do cantor Roberto Carlos — é pensar nas consequências dessa nova forma de Big Brotherismo.  A habilidade de coletar o DNA de estranhos, tê-lo analisado sem permissão e chegar a um retrato daquela pessoa, é no mínimo invasivo. Levanta questões éticas de importância que não podemos deixar de lado.

Nós aqui, nos damos ao luxo de pensar que ainda temos alguma privacidade, que ainda podemos nos manter incógnitos. É falácia. Toda vez que clicamos em um anúncio do Facebook, por exemplo, os olhos do mundo estão vigiando e os anúncios que você passa a ter nas colunas à direita, de ofertas, são baseados unicamente naqueles cliques que eles sabem você ter feito. Clique a clique Facebook  começa a saber quem você é.  E a gerenciar as informações que você recebe.  Assim como suas pesquisas no Google servem para priorizar os sites que aparecem primeiro na sua pesquisa na “search engine“.   Sem que você perceba, suas escolhas são mais estreitas, mais específicas, feitas sob medida [mas que medida eles usam?] para você.  Cada clique em um site ajuda a desenhar o seu retrato, os seus interesses, a sua vida.

183377359Um retrato por Heather Dewey-Hegborg com as características estipuladas pela análise de DNA encontrado ao acaso.

Nesse ínterim alguém pode pegar o seu DNA de um copo de plástico que você deixou na lixeira e fazer o seu retrato.  Não seria isso mais invasivo do que escrever a biografia de uma pessoa pública como Roberto Carlos?  Uma biografia baseada em artigos de jornal, em depoimentos de amigos e conhecidos não é afinal menos invasiva do que uma análise de DNA?  Não pense que essa “arte baseada em DNA” não chegará ao Brasil por causa de seu alto custo.  Nas artes, assim como em outros campos, temos tido grande sede de usarmos o que há de mais moderno.  É só esperar.