Adeus, Ilustração de Susan Jaekel.
É comum nas despedidas
depois dos risos e abraços,
ficarem almas feridas
e corações em pedaços.
(Décio Valente)
É comum nas despedidas
depois dos risos e abraços,
ficarem almas feridas
e corações em pedaços.
(Décio Valente)
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela
Jorge de Lima
ERA UM POEMA frequente,
repetido,
com o menino nos braços
de uma virgem.
Desse poema presente
e sempre ouvido,
os tempos e os espaços tinham origem,
pois à origem do poema
sempre havia
essa virgem e o infante
e a poesia.
E era o início e era a extrema
da criação,
era o eterno e era o instante
da canção.
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58
“Não me importo em viver em um mundo de homens, desde que eu possa ser uma mulher nele…” Ilustração à maneira de Roy Lichtenstein.
[Não consegui nenhuma referência idônea sobre a autoria dessa obra].
A conversa entre amigas questionava em quem nos espelhamos quando adolescentes. O grupo de mulheres de idades e experiências variadas, entre elas umas que haviam quebrado paradigmas e sucedido onde anteriormente acreditava-se que não poderiam, constatou que teria sido muito bom, se na nossa juventude tivéssemos tido exemplos de mulheres, que pensando fora da “caixa social”, tivessem servido de modelo para o caminho do sucesso. Ninguém confundiu sucesso com fama, o que acontece com frequência. Falávamos de sucesso como realização pessoal ou profissional, atingindo gols e preenchendo sonhos que vão além do que é esperado do sexo feminino na nossa sociedade. Surpreende que nenhuma das presentes teve o apoio de um exemplo a seguir, de uma pessoa em quem se espelhar.
Nas últimas décadas, ocasionalmente, ao terminar um livro ou ver um filme, ponderei: “Se eu tivesse tido acesso a essa informação…; se eu tivesse tido conhecimento de que mulheres podiam…” minha vida talvez tivesse sido diferente. Não que eu fosse rodeada de maus exemplos. Não é isso, mas o meu temperamento aventureiro e rebelde encontrou pouca repercussão na família, quase nenhum entendimento e raríssimas palavras de incentivo. Nossos valores eram por demais tradicionais, enraizados na classe média carioca. Além do mais, era mais fácil para a família não dar permissão do que ter que se questionar sobre atitudes tomadas automaticamente. Essa falta de “aprovação familiar” muito me custou em termos de timidez e coragem para enfrentar sozinha os tabus que me rodeavam.
Era difícil imaginar uma reprovação familiar maior do que minhas atitudes e desejos já incitavam. Permanecer no seio familiar e enfrentar um estresse diário por querer um rumo divergente daquele para o qual eu havia sido programada, teria sido mais fácil, muito mais fácil, se eu tivesse tido um exemplo de sucesso à minha frente, que houvesse de alguma maneira quebrado tabus, superado dificuldades. Não que eu quisesse fazer coisas do arco da velha, mas havia muita circunscrição às profissões possíveis, aos namorados, aos amigos, ao ir e vir. Tudo, uma grande bobagem que não levava em consideração a jovem de dezesseis, dezessete anos, mas unicamente os medos e preocupações sociais dos mais velhos. Hoje, não sei se teria sido uma boa médica. É provável que não. É provável que tivesse, enfim, depois de erros e acertos, encontrado o meu caminho nas ciências humanas como de fato o fiz, mas voltando os olhos para o passado, acredito que teria sido mais satisfatório, e muito menos dramático, ter tido a oportunidade de errar por mim mesma.
Essa longa divagação sobre as escolhas que jovens mulheres fazem tem muito a ver com uma sincronicidade de eventos, todos na mesma semana: o encontro com essas amigas, a leitura do livro de Maria Thereza Wolff, Minha vida em Ipanema, o filme O Sorriso da Monalisa e o conhecimento recentemente adquirido de algumas ONGs americanas dedicadas a dar exatamente esse tipo de apoio a jovens que queiram expandir os papeis para os quais estão programados. Ter conhecimento de pessoas que passaram por dificuldades semelhantes pode certamente abrir as portas da mente, deixar entreabertas as passagens, para que a coragem de enfrentar as lutas se faça sentir. Essas lutas fazem parte do crescimento emocional, interior, de um adulto responsável. Como os americanos, acredito que “role models”, pessoas em quem podemos nos espelhar, são importantes para o adolescente e ajudam a que se ultrapasse as barreiras pessoais com maior facilidade.
Ilustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.
Afonso Louzada
Depois de acumular barras e barras de ouro,
a formiga, afinal, sentiu o último alento,
pesarosa, talvez, como bom avarento,
de não poder levar consigo o seu tesouro.
–“A minha vida foi um trabalho incessante!
Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”
Naquele mesmo dia, estranha coincidência,
exausta de cantar, a boêmia da cigarra
o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,
à vida que levara, ao léu, sempre na farra.
— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,
que a vida é só amor; o resto não é nada!”
E, juntas, para o céu elas foram subindo.
A cigarra cantava, estuante de alegria:
— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”
— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.
Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;
o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”
— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,
a alegria da vida, a alegria do amor”.
— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”
Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:
–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.
Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,
sob a fascinação do canto da cigarra)
se levaste, afinal, uma vida bizarra
alegraste, porém os corações aflitos
que sangravam de dor, dos humanos precitos”.
… E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,
abriu para a cigarra as portas do Paraíso.
Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.
[esposa do pintor]
Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)
pastel sobre papel, 36 x 36 cm
Eu não explico a ninguém,
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(Gilka Machado)