Andrzej Malinowski (Polônia, 1947)
óleo sobre tela
“A vida se recusa a se conformar às nossas necessidades — as necessidades da narrativa que você considera essenciais para dar um pouco de forma ao seu tempo neste planeta.”
William Boyd
Andrzej Malinowski (Polônia, 1947)
óleo sobre tela
William Boyd
Carel Weight (Grã-Bretanha, 1908-1997)
Óleo sobre tela, 46 x 32 cm
Col. Rochdale Arts & Heritage Service
Encontro do grupo de leitura Ao Pé da Letra, com o escritor Ronaldo Wrobel.
Ontem foi um dia especial para o grupo Ao Pé da Letra que contou com a presença do escritor Ronaldo Wrobel conversando sobre O romance inacabado de Sofia Stern, lançado na terça-feira passada, 21 de junho de 2016.
Estavam presentes 19 membros do grupo e seus convidados. Todos se deliciaram com as histórias contadas pelo autor sobre sua vasta pesquisa na Alemanha, na Suíça e até mesmo em países que eventualmente foram completamente cortados do romance. Ronaldo Wrobel, que escreve e atua como advogado, mostrou de forma descontraída e bem humorada as pequenas vitórias e os surpreendentes momentos em que o acaso o levou a informações interessantes na detalhada pesquisa sobre a Alemanha dos anos 30.
Membros do Ao Pé da Letra ouvindo o escritor Ronaldo Wrobel.
Além disso o autor, com grande magnanimidade, trouxe para inspeção do grupo o último manuscrito completamente revisado, com cortes enormes e observações para si mesmo, com palavras obliteradas, parágrafos cortados, capítulos divididos ou completamente retirados, antes do manuscrito final enviado à editora. Foi impressionante para o grupo ver o detalhamento da edição final do escritor que removeu perto de 200 páginas do manuscrito original para chegar ao texto que conhecemos como leitores.
O Ao pé da letra: leitores e amigos — segundo grupo de leitura patrocinado pela Peregrina Cultural, um grupo de leitura independente de editoras ou de qualquer patrocínio corporativo, agradece a Ronaldo Wrobel por sua generosidade com seu tempo, conhecimento, bom humor e sobretudo sua dedicação a uma melhor literatura brasileira, mais engajada com o leitor de hoje, profissional de outras áreas que tem a leitura como companheira de vida.
O livro O romance inacabado de Sofia Stern foi publicado pela editora Record, e seu lançamento na semana passada garante que ele esteja nas melhores livrarias do país.
Para saber mais sobre a obra: Resenha
Membros do Ao Pé da Letra ouvem atentamente o escritor Ronaldo Wrobel.
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela
A vida invisível de Eurídice Gusmão se passa nas décadas de 1940 em diante, no Rio de Janeiro. Eurídice Gusmão e sua irmã são mulheres que não se conformavam com a circunscrição de seus papéis atribuídos pela sociedade. Apesar de tentarem, cada qual à sua maneira, nem sempre conseguiam escapar dos destinos projetados para elas inicialmente por familiares e mais tarde por seus maridos. Evocativo de uma época, a obra descreve a vida de mulheres da geração de nossas avós. Eu gostaria de poder dizer que só elas, mas também descreve a de nossos pais ou de muitos dos nossos contemporâneos, porque o problema das vidas circunscritas a papeis tradicionais ainda parece enraizado em muitos cantos da nossa terra.
A narrativa se concentra na história de Eurídice contrastada à da irmã, Guida, que havia buscado viver em seus termos, cortando os laços com os pais, libertando-se das expectativas deles e de todos à volta. A tentativa não durou. E eventualmente, Guida decide pelo comprometimento de suas realizações pessoais para beneficiar a vida do filho. O mesmo ocorreu com Eurídice, que mais tímida, menos aventureira, também se acomoda no casamento com Antenor, um bancário, bom provedor, mas incapaz de apreciar a energética e inteligente esposa que lhe coubera. Por manter o lar para seus filhos Eurídice também se anula. Eurídice passa a vida correndo atrás de alguma brecha que a permitisse achar maior significado em sua própria vida além daquele de mãe e dona de casa. É frustrada em todas as tentativas. Por fim, encontra consolo ao escrever, passando os dias finais de sua vida em frente à máquina de escrever já bem depois do estabelecimento da ditadura militar de 1964.
Não é uma obra prima, não irá ganhar o prêmio Nobel de literatura. No entanto, à medida que considerei esse livro para resenha, cresceu minha admiração. É um bom livro. Pelo assunto abordado e bem retratado, A vida invisível de Eurídice Gusmão, é uma boa escolha de leitura que aborda as limitações da mulher na sociedade carioca, das gerações que viveram através do século XX. Só por esse esforço deveria ser aplaudido.
Martha Batalha
Meus problemas com essa obra não se limitam ao tom puramente evocativo. Não há um crescendo de informações. Não há resolução de conflitos, nem mesmo no final. Falta-lhe agilidade, ação e diálogos. A narrativa, ainda que impecável, é distante. No entanto, retrata muito bem uma época e é perfeitamente dispensável a explicação da autora no início e no fim do livro sobre a existência de certos personagens ou sobre as obras escritas por Eurídice Gusmão. É chocho.
Mas me aventuro a dizer que se você gostou de Arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo, é provável que goste deste livro, por sua evocação de uma época.