Trova de Carnaval

20 02 2023

 

 

No carnaval, tem mania

de se vestir de ladrão;

mas, tirando a fantasia,

não muda de profissão!…

 

(Rodolpho Abbud)

 





Carnaval, texto de Marques Rebêlo

6 02 2023

Claudio Faciolli - Carnaval no Rio de Janeiro - o.s.e - ass. c.i.e - datado de 2010 med 46x61 cmCarnaval no Rio de Janeiro, 2010

Claudio Faciolli (Brasil, 1955)

óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm

[25 de fevereiro de 1938]

“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço),  e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:

— Vamos, vovó!

A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:

— Bofe por bofe, este não é antediluviano…

Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.

Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:

— Oh, que pena!

Clotilde era imitativa:

— Deixe eu cheirar um pouco.

— Para quê?  Bobagem!

— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!

— Não cheira não.

— Uma prise só…

Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:

— Não convence não.

Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.

— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…

— Dane-se!”

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  p. 347-348.





Encomenda, poesia de Cecília Meireles

24 01 2023

O artista e a modelo, 1954

Liu Kang (Singapura, 1911-2004)

óleo sobre tela, 124 x 84 cm

Galeria Nacional de Singapura

 

Encomenda

 

Cecília Meireles

 

Desejo uma fotografia

como esta — o senhor vê? — como esta:

em que para sempre me ria

como um vestido de eterna festa.

 

Como tenho a testa sombria,

derrame luz na minha testa.

Deixe esta ruga, que me empresta

um certo ar de sabedoria.

 

Não meta fundos de floresta

nem de arbitrária fantasia…

Não… Neste espaço que ainda resta,

ponha uma cadeira vazia.                                                                 

 

Em: Vaga Música, Cecília  Meireles, São Paulo, Editora Global: 1976, 2ª edição, p.84





Mangueiras de Belém, Sílvia Helena Tocantins

10 01 2023

 

 

joao-baptista-da-costa-no-banco-do-jardim-oleo-sobre-madeira, 25 x 19No banco do jardim

João Baptista da Costa (Brasil, 1865 – 1926)

óleo sobre madeira, 25 x 19 cm

 

Mangueiras  de Belém

 

Sílvia Helena Tocantins

 

Gentil mangueira que me dá abrigo

no aconchego morno do teu braço,

na tua ramagem encontro o ninho amigo

que há de embalar sempre o meu cansaço.

 

És tu mangueira de real grandeza,

só espalhando o Bem em tua missão,

além de embelezares a natureza,

és teto, és fruto, és sombra, és proteção.

 

E nunca negas à mão que te apedreja,

terno repouso contra a chuva e o mormaço,

em troca dá-lhes fruto, seja a quem seja

e ainda embalas, maternal, num abraço.

 

Bendita seja a mão que te plantou

o sol que fecundou a terra, o orvalho,

onde a tua semente fértil, germinou,

para medares sombra doce e agasalho.

 

E no teu colo verde de folhagem,

quero sonhar meus ideais acalentados,

esconder meus segredos em tua ramagem

como se eu fosse altivo pássaro encantado.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 381

 





Reflexão de Ano Novo

1 01 2023

Noite calma

Cao Quantang ( Huxian, China, 1957)

aquarela, tinta,  guache,  sobre papel  de arroz, 54 x 39 cm

 

 

“E amanhã não seremos o que fomos / nem o que somos.”

 

Ovídio, Metamorfose, XV: 215-6





Mãe, poesia de Abel Silva

20 12 2022

 

 

COLETE PUJOL (São Paulo, 1913 -1999) Dona do Lar. Óleo s tela. Ass. cie e datado de 1944. 46 x 38 cmDona do Lar, 1944

Colette Pujol (Brasil, 1913 -1999)

óleo s tela,  46 x 38 cm

 

Mãe

 

Abel Silva

 

E então começou a acontecer comigo

de encontrar a todo instante minha mãe.

Passo na fila da carne

lá está ela esperando a vez

chego comovido e irritado

vou tocar-lhe o ombro e dizer

bobagem, mãe!

pede a carne pelo telefone

mas logo percebo o engano me afasto

e a senhora desconhecida

ganha mais um metro na direção do balcão.

No táxi

vou gritar ao motorista que pare

minha mãe está na esquina sob o sol

não há dúvidas é ela

se protegendo da chuva sob a marquise

perplexa no arrastão ondeante de corpos esguios

perigosamente lenta na correnteza de meninos sem mãe

subitamente estrangeira

(minha mãe tão brasileira!)

sob códigos confusos

minha mãe nas mulheres entrevistadas pela TV

reclamando dos preços absurdos de tudo

nos bancos da rodoviária

na fila dos aposentados

minha mãe se multiplicando pelas ruas de minha cidade

onde carrego meu buquê de esperanças devastadas e sonhos implodidos

um mil séculos-luz longe do ninho

do ponto obscuro

uterino

de que hoje sou futuro.

 

Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 88

 





O grupo de leitura AO PÉ DA LETRA, vota nos melhores de 2022!

12 12 2022

 

 

Na reunião de final de ano do grupo de leitura Ao Pé da Letra houve votação dos melhores de 2022.  Parecia votação política, ora um livro estava em primeiro lugar, ora outro.  Mas no final o empate ficou mesmo só para os 4º e 5º lugares.  Ou seja, através do ano quase todos os membros leram mais de um livro de que gostaram.  Os votos se estenderam por quase a lista inteira de livros lidos.  Bom sinal.

 

O grupo leu doze livros em 2022:

1 — Um milhão de pequenas coisas, Jodi Picoult

2– A biblioteca da meia-noite, Matt Haig

3 — Gente ansiosa, Fredrik Backman

4 — A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Montero

5 — Dôra Doralina, Rachel de Queiroz

6 — Oscarina, Marques Rebelo

7 — Talvez você deva conversar com alguém, Lori Gottlieb

8 — A noiva ladra, Margaret Atwood

9 — Eliete: a vida normal, Dulce Maria Cardoso

10 –- Tudo é rio, Carla  Madeira

11 — Sobre os ossos dos mortos,  Olga Tokarczuk

12 — Antes que o café esfrie, Toshikazu Kawaguchi

 

Em primeiro lugar

 

 

SINOPSE

Uma reflexão sobre a condição humana e a natureza pela vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2018.

Em uma remota região da Polônia, uma professora de inglês aposentada costuma se dedicar ao estudo da astrologia, à poesia de William Blake, à manutenção de casas para alugar e a sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres. Sua excentricidade é amplificada por sua preferência pela companhia dos animais aos humanos e pela crença na sabedoria advinda do estudo dos astros. Subversivo, macabro e discutindo temas como mundo natural e civilização, este livro parte de uma história de crime e investigação convencional para se converter numa espécie de suspense existencial. Olga Tokarczuk oferece um romance instigante sobre temas como loucura, injustiça e direitos dos animais.

 

 

Em segundo lugar

 

SINOPSE

Com “Dôra Doralina”, Rachel une o Nordeste ao Rio, e é exatamente nessa união que surge o romance de amor. Sem ser um romance policial, a obra registra uma realidade regional que termina por nos inserir no quadro histórico da formação brasileira . A história de amor que une Dôra ao Comandante, sem sacrificar os personagens menores nos envolve e suas presenças completam a galeria dos que se destacam não apenas neste romance, mas em toda a obra de Rachel. A romancista conferiu a Dôra uma sensível dimensão humana, quando a vemosvivendo, amando, sofrendo, como símbolo e imagem de nossa própria condição. São duas personalidades que fascinam – das Dores. Maria das Dores e o seu comandante. Aqui está o amor como liberdade. Liberdade é a paixão da obra de Rachel.

 

Em terceiro lugar

 

SINOPSE

Best-seller instantâneo do New York Times, o novo romance do autor de Um homem chamado Ove é um “romance engraçado e emocionante”.

A busca por um apartamento não costuma ser uma situação de vida ou morte, mas uma visita imobiliária toma tais dimensões quando um fracassado assaltante de banco invade o apartamento e faz de reféns um grupo de desconhecidos.

O grupo inclui um casal recém-aposentado que procura sem parar, casas para reformar, evitando a verdade dolorosa de que não é possível reformar o casamento. Há um diretor de banco rico, ocupado demais para se preocupar com outras pessoas, e um casal que, prestes a ter o primeiro filho, não concorda sobre nada. Acrescenta-se uma mulher de 87 anos que já viveu demais para temer uma ameaça à mão armada, um corretor imobiliário assustado, mas ainda disposto a vender, e um homem misterioso que se trancou no único banheiro do apartamento, e assim completamos o pior grupo de reféns do mundo.

Cada personagem carrega uma vida de reclamações, mágoas, segredos e paixões prestes a transbordar. Ninguém é exatamente o que parece. E todos — inclusive o ladrão — estão desesperados por algum tipo de resgate. Conforme as autoridades e a imprensa cercam o prédio, os aliados relutantes revelam verdades surpreendentes e desencadeiam eventos tão inusitados que nem eles próprios são capazes de explicar.

O livro prova novamente que Backman é “mestre em escrever narrativas deliciosas, astutas e emocionantes com foco nos personagens” (USA Today). Gente ansiosa “captura a essência confusa de ser humano. (…) É esperto e tocante, e vai te fazer rir e chorar em igual medida” (The Washington Post). Esta “diversão sem-fim, que garante melhorar seu humor” (Real Simple), é prova de que o poder resistente da amizade, do perdão e da esperança podem nos salvar — mesmo nos momentos de maior ansiedade.





Poeta no museu: Raquel Naveira

8 12 2022

 

 

Samson_and_Delilah_by_RubensSansão e Dalila, 1610

Peter Paul Rubens (Flandres, 1577 — 1640)

óleo sobre madeira,  185 x 205 cm

National Gallery, Londres

 

Dalila
(poema inspirado no quadro “Sansão e Dalila”, de Rubens)

 

Raquel Naveira

 

Dalila reclinou-se sobre o divã,

Entre sedas e cetins,

O vestido de veludo vermelho rasgou-se,

Os seios volumosos,

Maçãs douradas,

Brilharam no escuro,

Sansão tocou-os como se fossem lâmpadas;

No alto,

Num nicho na parede,

A deusa Vênus

Observava a cena.

 

Cheia de prazer,

Toda lisa,

Cor de carne,

Cor de sangue,

Cálida Dalila.

 

Tentara prender Sansão

Com cordas de nervos,

Frescas e úmidas,

Com fios urdidos no seu tear de intrigas,

E agora,

Ei-lo ali,

Adormecido,

O torso curvado de paixão

Sobre seus joelhos.

 

Dalila sorri,

Segura as rédeas,

A crina,

Mechas de cabelo

Do homem que ela domina.

 

Afia a tesoura,

Corta a corrente de força

Numa estranha cirurgia,

Fura-lhe os olhos

Enquanto ele geme,

Cego de desejo.

 

Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.172-73

 

 

 





Natalinas: Edna Ferber

3 12 2022

Uma tarde agradável

Lilian Mathilde Genth (EUA, 1876-1953)

óleo sobre tela

“Natal não é uma estação. É um sentimento.”

Edna Ferber





Eu, pintora: Valeria Duca

2 12 2022

Eu no casulo

{Autorretrato]

Valeria Duca (Moldova-Inglaterra, 1995)

óleo sobre tela, 70 x 80 cm