No carnaval, tem mania
de se vestir de ladrão;
mas, tirando a fantasia,
não muda de profissão!…
(Rodolpho Abbud)
No carnaval, tem mania
de se vestir de ladrão;
mas, tirando a fantasia,
não muda de profissão!…
(Rodolpho Abbud)
Carnaval no Rio de Janeiro, 2010
Claudio Faciolli (Brasil, 1955)
óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm
[25 de fevereiro de 1938]
“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço), e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:
— Vamos, vovó!
A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:
— Bofe por bofe, este não é antediluviano…
Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.
Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:
— Oh, que pena!
Clotilde era imitativa:
— Deixe eu cheirar um pouco.
— Para quê? Bobagem!
— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!
— Não cheira não.
— Uma prise só…
Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:
— Não convence não.
Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.
— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…
— Dane-se!”
Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada, p. 347-348.
O artista e a modelo, 1954
Liu Kang (Singapura, 1911-2004)
óleo sobre tela, 124 x 84 cm
Galeria Nacional de Singapura
Cecília Meireles
Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Em: Vaga Música, Cecília Meireles, São Paulo, Editora Global: 1976, 2ª edição, p.84
No banco do jardim
João Baptista da Costa (Brasil, 1865 – 1926)
óleo sobre madeira, 25 x 19 cm
Sílvia Helena Tocantins
Gentil mangueira que me dá abrigo
no aconchego morno do teu braço,
na tua ramagem encontro o ninho amigo
que há de embalar sempre o meu cansaço.
És tu mangueira de real grandeza,
só espalhando o Bem em tua missão,
além de embelezares a natureza,
és teto, és fruto, és sombra, és proteção.
E nunca negas à mão que te apedreja,
terno repouso contra a chuva e o mormaço,
em troca dá-lhes fruto, seja a quem seja
e ainda embalas, maternal, num abraço.
Bendita seja a mão que te plantou
o sol que fecundou a terra, o orvalho,
onde a tua semente fértil, germinou,
para medares sombra doce e agasalho.
E no teu colo verde de folhagem,
quero sonhar meus ideais acalentados,
esconder meus segredos em tua ramagem
como se eu fosse altivo pássaro encantado.
Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 381
Noite calma
Cao Quantang ( Huxian, China, 1957)
aquarela, tinta, guache, sobre papel de arroz, 54 x 39 cm
Ovídio, Metamorfose, XV: 215-6
Dona do Lar, 1944
Colette Pujol (Brasil, 1913 -1999)
óleo s tela, 46 x 38 cm
Abel Silva
E então começou a acontecer comigo
de encontrar a todo instante minha mãe.
Passo na fila da carne
lá está ela esperando a vez
chego comovido e irritado
vou tocar-lhe o ombro e dizer
bobagem, mãe!
pede a carne pelo telefone
mas logo percebo o engano me afasto
e a senhora desconhecida
ganha mais um metro na direção do balcão.
No táxi
vou gritar ao motorista que pare
minha mãe está na esquina sob o sol
não há dúvidas é ela
se protegendo da chuva sob a marquise
perplexa no arrastão ondeante de corpos esguios
perigosamente lenta na correnteza de meninos sem mãe
subitamente estrangeira
(minha mãe tão brasileira!)
sob códigos confusos
minha mãe nas mulheres entrevistadas pela TV
reclamando dos preços absurdos de tudo
nos bancos da rodoviária
na fila dos aposentados
minha mãe se multiplicando pelas ruas de minha cidade
onde carrego meu buquê de esperanças devastadas e sonhos implodidos
um mil séculos-luz longe do ninho
do ponto obscuro
uterino
de que hoje sou futuro.
Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 88
Sansão e Dalila, 1610
Peter Paul Rubens (Flandres, 1577 — 1640)
óleo sobre madeira, 185 x 205 cm
National Gallery, Londres
Raquel Naveira
Dalila reclinou-se sobre o divã,
Entre sedas e cetins,
O vestido de veludo vermelho rasgou-se,
Os seios volumosos,
Maçãs douradas,
Brilharam no escuro,
Sansão tocou-os como se fossem lâmpadas;
No alto,
Num nicho na parede,
A deusa Vênus
Observava a cena.
Cheia de prazer,
Toda lisa,
Cor de carne,
Cor de sangue,
Cálida Dalila.
Tentara prender Sansão
Com cordas de nervos,
Frescas e úmidas,
Com fios urdidos no seu tear de intrigas,
E agora,
Ei-lo ali,
Adormecido,
O torso curvado de paixão
Sobre seus joelhos.
Dalila sorri,
Segura as rédeas,
A crina,
Mechas de cabelo
Do homem que ela domina.
Afia a tesoura,
Corta a corrente de força
Numa estranha cirurgia,
Fura-lhe os olhos
Enquanto ele geme,
Cego de desejo.
Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.172-73
Uma tarde agradável
Lilian Mathilde Genth (EUA, 1876-1953)
óleo sobre tela
Edna Ferber