Ilustração, Marcel Marlier
Caem folhas no chão regularmente, mas o fato é que é sempre outono no outono, e o inverno vem depois fatalmente, e há só um caminho para a vida, que é a vida…
Álvaro de Campos
Caem folhas no chão regularmente, mas o fato é que é sempre outono no outono, e o inverno vem depois fatalmente, e há só um caminho para a vida, que é a vida…
Álvaro de Campos
Vaso decorativo, 1905
Ceramista, Francis C. Pope
Grés vitrificado, altura 15,8 cm; diâmetro 14,8 cm
Doulton Ceramic Factory, Lambeth, Inglaterra
Victoria & Albert Museum, Londres
Este vaso é só decorativo. Diretamente influenciado pelas obras de cerâmica chinesa, como pode ser visto pela versão inglesa de lagartos e folhas, no lugar dos tradicionais motivos chineses de dragões, peônias, nuvens e máscaras. A cerâmica em tons de verde e amarelo comuns nas obras Tang dos anos 700-775 E.C., são citadas nesta obra pela pintura escorrida em amarelo e verde da obra de Pope.

Outono na Bavária, 1908
Wassily Kandinsky (Rússia-França, 1866-1944)
óleo sobre papelão, 33 x 45 cm
Centro Georges Pompidou, Paris
Florbela Espanca
Não tenhas medo, não! Tranqüilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…
A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…
O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…
Mulher com pente
Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)
óleo sobre tela, 72 x 55 cm
Inês, 1929
Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)
óleo s madeira, 23 x 20 cm
Figura de mulher
Antônio Rocco (Brasil, 1880-1944)
óleo sobre tela colada em cartão, 23 x 16 cm
Moça tomando chá, 1967
Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919-1990)
óleo sobre tela, 41 x 33 cm
Retrato de dama, 1920
Belmiro de Almeida (Brasil, 1858-1935)
óleo sobre madeira, 91 x 71 cm
Mulher
Benedito José Tobias (Brasil, 1894-1963)
óleo sobre tela, 33 x 23 cm
Retrato de Irene Aranha, 1959
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
Óleo sobre tela, 64 x 54 cm
A sonhadora de Ouro Preto,1968
Chanina (Polônia-Brasil, 1927-2012)
óleo sobre tela, 60 x 45 cm
Figura
Cícero Dias (Brasil, 1907-2003)
óleo sobre tela, 45 x 24 cm
Mademoiselle, 1885
Décio Villares (Brasil, 1851-1931)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Moreninha de Paquetá, c. 1928
Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)
aquarela e nanquim, 27 x 12 cm
Mulher negra
Edmundo Migliaccio (Brasil, 1903-1983)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Dama de Negro, 1891
Eduardo de Sá (Brasil, 1866-1940)
óleo sobre tela, 66 X 55 cm
Retrato de Yvonne
Eliseu Visconti (Itália-Brasil,1866-1944)
óleo s tela, 55 x 41 cm
Moça com flores, década de 1970
Elza O. S. (Elza de Oliveira Souza, Brasil, 1928-2007)
óleo sobre tela, 32 x 26 cm
Figura, 2004
Gustavo Rosa (Brasil, 1946- 2013)
óleo sobre tela, 110 x 120 cm
Mulher com frutos
Geraldo Castro (Brasil, 1914-1992)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
Figura
Antônio Gomide (Brasil, 1895-1967)
óleo sobre tela, 23 x 23 cm
“Minha velha avó sempre costumava dizer: amigos de verão derretem como neves de verão, mas amigos de inverno são amigos para sempre.”
George R. R. Martin
No carnaval, tem mania
de se vestir de ladrão;
mas, tirando a fantasia,
não muda de profissão!…
(Rodolpho Abbud)
Carnaval no Rio de Janeiro, 2010
Claudio Faciolli (Brasil, 1955)
óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm
[25 de fevereiro de 1938]
“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço), e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:
— Vamos, vovó!
A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:
— Bofe por bofe, este não é antediluviano…
Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.
Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:
— Oh, que pena!
Clotilde era imitativa:
— Deixe eu cheirar um pouco.
— Para quê? Bobagem!
— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!
— Não cheira não.
— Uma prise só…
Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:
— Não convence não.
Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.
— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…
— Dane-se!”
Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada, p. 347-348.