Música catártica: lembrando meu pai e Francisco Mignone

3 09 2017

 

 

DSC03294Meu pai, Celso.

 

O finalzinho de agosto é sempre uma época emotiva para mim.  Meu irmão mais novo faleceu abruptamente no dia 30 e lá se vão 14 anos, e meu pai comemorava seu aniversário no dia 31.  Este ano ele teria feito 105 anos. Morreu cedo pelos padrões atuais. Morreu há 36 anos.  Ambos fazem-me falta.  Em geral escrevo alguma coisa, posto uma foto, faço um aceno a ambas as datas.  Este ano foi exceção.  Tentei mas não consegui.  Ando distraída.  Muita coisa a fazer e está difícil refletir. Hoje, no entanto, uns poucos dias após essas datas, uma onda de memórias me tomou de surpresa, desencadeada por um concerto no Planetário do Rio de Janeiro celebrando os 120 anos de nascimento de Francisco Mignone, organizado por Nelson de Franco.

Quando estudava piano, tive um objetivo: queria poder tocar as valsas brasileiras em particular as de Francisco Mignone, as valsas de esquina.  Cheguei a tocar umas delas mas logo desisti do piano.  Foram muitos anos de aprendizado.  Até pouco tempo tive piano em casa.  Aprendi a tocar no piano herdado de minha avó paterna, uma excelente pianista.  E até oito anos atrás, quando meu apto comportava, tive piano em casa, exceto pelos anos de estudante nos EUA.  Logo que pude, já estabelecida profissionalmente, comprei um de meia cauda que muitos anos depois trouxe comigo para o Brasil. Mas não toco para esse nível.  Era o meu Lamborghini na sala de casa, à maneira de Eike Batista. Hoje me lembrei da minha infância enquanto ouvia Mignone.  Lembrei-me do quanto a música fez parte do meu dia a dia, nos primeiros 12 anos de vida. Porque foi  na infância a decisão de estudar para tocar valsas brasileiras. Era fascinada pelas composições de Alberto Nepomuceno a Mignone, ambos entre meus compositores favoritos, mesmo naquela época.   Música é como perfume. Passa por nós e é capaz de trazer aqueles momentos quase primordiais em que primeiro sentimos acordes ou perfumes específicos.

 

DSC03278Meus pais, em Petrópolis, Museu Imperial.

 

Memórias são interessantes.  O mesmo evento e cada participante se lembra de uma coisa diferente.  Já tive discussões incríveis com meus irmãos sobre memórias de família.  Sou a mais velha desta geração e por isso sinto a responsabilidade das memórias.  Porque houve, na minha família, dois tipos de família: antes e depois do infarto do miocárdio de meu pai.  Eu tinha 12 anos.  Ele 48.  Meus irmãos mais novos tinham quase 9 e 5.  Eles praticamente só se lembram de meu pai de uma maneira.  Enquanto, eu, me lembro do que chamo de meu pai jovem.

Meu pai jovem  nadava na praia, depois da arrebentação até o perdermos de vista! Meu pai jovem era um homem alegre e apaixonado por música.   Eram dele, compras suas e de mais ninguém, aqueles discos de música clássica, de ópera, de orquestras estrangeiras, discos grandes de cerâmica, antes dos long-plays, que eram guardados em álbuns; pelo menos na nossa casa eram. Meu pai, o cientista, formado em química industrial, o professor de física (formou-se em física quando eu era criança, me lembro de ir à sua formatura) era um homem de fortes emoções, contidas sob a máscara da ciência. Era também um homem que se entregava às paixões.  Dessas a família se lembra de algumas: as modificações que fazia em seu carro, dos peixes de aquário e  da fotografia de planta e flores. Hoje, me lembrei de seu amor pela música.

 

DSC03280A família toda, em um Carnaval. Eu tinha oito anos e meio, meu pai 44.

 

Ele deveria estar feliz com as minhas aulas de piano. Ainda que não me lembre de ter dito isso um dia.  Meu pai era daquele tipo antigo.  Duro na queda.  Jamais diria essas coisas que os pais modernos dizem:  eu te amo; estou orgulhoso de você!  Essas coisas de cinema americano que os pais brasileiros de hoje parecem ter adotado. Não. Papai não falava essas coisas.  Era para entendermos que ele nos amava e isso era suficiente. Mas imagino que ele estivesse esperançoso com o meu aprendizado de piano – que não me foi imposto, foi pedido por mim.  Digo isso porque fui com ele inúmeras vezes a alguns concertos, e ainda aos recitais de alunos da Escola Nacional de Música.  Esse era um programa que fazíamos juntos.  Eu toda prosa, de vestido de passear, ia com papai; em casa ficavam minha mãe com meus irmãos.  Quantas vezes? Não sei, acredito que fossem aos sábados, à tarde, os recitais de alunos e professores, de canto e piano.  Talvez ele também quisesse me ajudar a controlar o pânico que sempre tive de tocar para o público.  Recitais, para mim, eram um inferno pessoal.  Nunca me esqueço do primeiro vexame: congelar no palco ao interpretar, uma sonatina de Khulau, tempos depois, a mesma paralisia na sonata para piano de Mozart nº 16 em dó maior, uma lindeza de peça.  Peças que eu podia tocar perfeitamente bem em casa, ou para minha professora. Para mim, o piano, a música, o tocar piano, foi sempre uma experiência íntima.  Não queria ninguém prestando atenção naquele dialogo que eu travava com o compositor através dos meus dedos (que erravam muito quando eu sabia ter plateia). Papai não falava sobre música, não sei se tinha conhecimento para isso, mas se deixava emocionar, como deixava que eu também me emocionasse com minhas preferidas.

 

DSC03290Meu pai, acredito que na sua formatura na Escola Nacional de Química.

 

Sua mãe havia sido uma excelente pianista, ela e o irmão também:  Sara e Jayme. Não os conheci.  Mas já ouvi histórias de pessoas fora da família – minha avó materna entre elas, que eram conhecidos os saraus organizados na casa deles na antiga e tradicional Tijuca.  Mas minha avó ficou doente e permaneceu internada por 26 anos.  Foi para a Casa de Saúde (já soube o nome; não me recordo agora) quando meu pai tinha 19 anos.  E me pergunto hoje se parte da emoção dele com a música não seria também porque ela o lembrava dos bons tempos da adolescência, quando ainda ouvia vovó tocar piano, antes do evento catastrófico de sua internação.

Este pai, amante da música, gostava de ópera, de algumas árias em especial. Foi com ele que aprendi a reconhecer as árias mais famosas das mais conhecidas óperas.  Poucos dias antes de falecer, quando ele e minha mãe me visitavam nos EUA, fiz questão de levá-los ao Metropolitan.  A ocasião foi dedicada à Tosca de Puccini.  Foi importante levá-los lá, um reconhecimento de sua educação, talvez, principalmente, quando mais tarde, refleti sobre a ocasião, depois que ele faleceu meros 20 dias após essa aventura nova-iorquina.

 

DSC03287Papai aos 60 anos.

 

Ontem, para surpresa de meu marido sentado a meu lado no concerto, me debulhei em lágrimas ouvindo Francisco Mignone e suas belas valsas de esquina. Todo um passado de aprendizagem, de sonhos inatingíveis, ocasiões especiais, vieram à mente.  Valsas choronas, tão brasileiras, por tanto tempo longe dos meus ouvidos radicados no estrangeiro, arrancaram alguns dos melhores momentos de minha infância do cantinho obscuro em que se encontravam . Além da nostalgia,  senti também a responsabilidade de lembrar aos familiares, desse pai, avô,  e hoje bisavô, que amava a música clássica e não só as ciências.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, setembro 2017.

 

 





Domingo, um passeio no campo!

3 09 2017

 

 

FRANCISCO AURELIO DE FIQUEREDO E MELO (Areia, 1856 - Rio de Janeiro, 1916) - Paisagem. Óleo s tela. Assinado. 88 x 67 cm.Paisagem

Francisco Aurélio de Figueiredo Melo (Brasil, 1856 – 1916)

óleo sobre tela,  88 x 67 cm





Flores para um sábado perfeito!

2 09 2017

Adir Sodré de Souza, (Mato Grosso)Paisagem de Cuiabá,Paisagem de Cuiabá

Adir Sodré de Sousa (Brasil, 1962-2020)

acrílica sobre tela





Rio de Janeiro, minha cidade natal!

1 09 2017

 

 

ARMANDO VIANNA(1897-1991),Lapa,ost,Ass., situado e datado Rio 1965, cid55 x 46 cm.Largo da Lapa, 1965

Armando Viana (Brasil, 1897-1991)

óleo sobre tela, 55 x 46 cm





Resenha: “Os transparentes” de Ondjaki

31 08 2017

 

 

 

 

Fruit for sale, Luanda, Watercolour Painting by Ronan CahillVendendo frutas em Luanda

Ronan Cahill (GB, contemporâneo)

Aquarela

www.ronancahill.com

 

 

Gosto da linguagem poética encontrada nos livros de Ondjaki.  Nossa língua usada por ele se veste de roupa nova com inesperadas figuras de linguagem, sutil delicadeza e delicioso sotaque angolano.   Isso aconteceu tanto nas duas obras que li anteriormente, Os da minha rua e Bom dia, camaradas, como agora na leitura de Os transparentes. É inegável o poder sedutor da voz narrativa do autor.   Além disso, Os transparentes tem dívidas a pagar com a obra de Gabriel Garcia Marquez,  se não ao autor colombiano, certamente ao realismo mágico que caracterizou toda uma geração de escritores sul-americanos.

Esta é a história da sociedade de Luanda pós-independência.  É uma delação. Mostra os erros, excessos e abusos no sistema político implantado. Francamente, não mostra nenhum benefício. Para retratar essa realidade, Ondjaki nos apresenta a um edifício de sete andares, no centro de Luanda, que exerce o papel de espinha dorsal da narrativa, pois é lugar de residência de grande parte dos personagens. A ação se dá dentro e fora do edifício e compreende um grande número de tipos. Muitos deles são  identificados por cognomes ou nomes curiosos como  Amarelinha, AvóKunjikise e MariaComForça.   Alguns o são pelas características de um grupo de pessoas  de uma classe social, como  O Cego, (que representa os deficientes) O VendedorDeConchas (pequeno comerciante)e O Carteiro (faz as vezes daqueles bem intencionados que trabalham para o governo).  Mas o personagem principal leva um nome comum, Odonato, talvez para justificar a consequência incomum de sua condição: começa a ficar transparente.  Essa habilidade, no entanto, só existe para as pessoas simples, sem qualquer poder de afetar ou resolver seus destinos.  Na Luanda pós-independência, as pessoas podem se tornar transparentes pela fome, pobreza e desemprego.

 

OS_TRANSPARENTES__1370365415B

 

Essa alegoria é um achado.  Faz sentido, em Angola, aqui no Brasil e em muitos outros lugares: os pobres, os desempregados, os sem-teto são todos transparentes, invisíveis para a sociedade.  E Ondjaki aproveita esse viés e nos mostra uma Angola cruel, fruto de um sistema político corrupto.   A objeção que tenho, no entanto, se explica pela simplicidade com que essa mesma sociedade é retratada.  O maniqueísmo, a dualidade sem nuances entre os  bons e pobres desempregados em oposição aos ricos e maus governantes.  Essa simplificação da sociedade achei singela e um tanto pueril. São visões simplificadas de realidades complexas que levam, eventualmente, à imposição de sistemas totalitários de direita ou de esquerda.  Sociedades como a de Angola, Brasil, França, Turquia ou qualquer outro país são muito mais matizadas, heterogêneas.  Na maioria delas grande parte da população está exatamente no meio, sem abraçar qualquer extremo e que mostram atitudes nem boas, nem más Esperava mais desse autor tão sensível, um detalhamento social com maiores nuances.  Nenhum sistema político é totalmente competente ou irrepreensível. Nem tudo é preto no branco,  o cinza, aquele terreno social ambíguo, é complexo, mostrando-se em vários tons, abrigando uma multiplicidade de pontos de vista.

 

GetResourceOndjaki

 

Por isso, quando chegamos ao final e percebemos que a esperança sobrevive, essa esperança não dá alento, porque através do texto, a complexidade social da cidade, do país, não foi retratada.  As respostas parecem fáceis demais, imaturas. Talvez o conflito entre o novo e o tradicional pudesse ser mais trabalhado, retratado contextualizado. Uma vista d’olhos pelas alegorias clássicas onde os seres humanos são retratados com sentimentos ambíguos e por vezes contraditórios poderia ter fortalecido as ideias do autor.

No entanto, não posso deixar de dizer que o livro seduz.  Há mágica e bom humor, mesmo que a teoria por trás esteja arraigada a uma dialética um pouquinho cansada, de classes dominantes contra oprimidos.  Vale a leitura porque, acima de tudo, o texto vem de um autor de qualidade, com enorme habilidade de encontrar na palavra certa, a palavra poética.  Qualquer assunto fica bem tratado pelo hábil Ondjaki.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

30 08 2017

 

 

YARA NANIER, ASE, `Natureza Morta`, 45 x 33cm e CID 1993.Natureza Morta, 1993

Yara Manier (Brasil, 1932-2011)

acrílica sobre eucatex, 45 x 33 cm





Nossas cidades: Salto

29 08 2017

 

 

Erich Brill, Salto de Itu, 1935, ost, 50 x 64 cm , Col Gabriela CzapskiSalto de Itu, 1935

Eric Brill (Alemanha, 1895 – 1942)

óleo sobre tela, 50 x 64 cm

Coleção Gabriela Czapski





Imagem de leitura — Gabriel Metsu

28 08 2017

 

 

Gabriel MetsuMulher com livro à janela, 1654

Gabriel Metsu (Holanda, 1629-1667)

óleo sobre tela, 104 x 90 cm

Coleção Particular





Cemitério, poesia infantil de José Paulo Paes

28 08 2017

 

 

james gilleard, cemitério de petsCemitério de pets, ilustração de James Gilleard para Walt Disney.

 

 

 

Cemitério

 

José Paulo Paes

 

“Aqui jaz um leão

chamado Augusto.

Deu um urro tão forte,

mas um urro tão forte,

que morreu de susto.

 

Aqui jaz uma pulga

chamada Cida

Desgostosa da vida,

tomou inseticida:

era uma pulga suiCida.

 

Aqui jaz um morcego

que morreu de amor

por outro morcego.

Desse amor arrenego:

amor cego, o de morcego!

 

 

Neste túmulo vazio

jaz um bicho sem nome.

Bicho mais impróprio!

Tinha tanta fome

que comeu-se a si próprio”.

 

 

Em: Poemas para brincar, José Paulo Paes, São Paulo, Ática: 1994.

 





Sobre a beleza, texto de Adriana Lisboa

27 08 2017

 

 

Adilson SantosMenina lendo, 2010

Adilson Santos (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 43 x 31 cm

 

 

“…A beleza, claro, não é uma banalidade cultivável em academias de ginástica e mesas de cirurgiões plásticos, não é um bem comprável em lojas de móveis caros, não é uma senha guardada por esteticistas, decoradores, estilistas. É a minúscula e poderosa alegria de um gesto. Um toco de lápis, uma pequenina cicatriz na pele, o sol sobre a calçada rachada diante da papelaria, à tarde. Os vinte, trinta, cinquenta arco-íris de um pequeno prisma de vidro. A cunhatã de um poema de Manuel Bandeira, escurinha, quatro anos de idade, para quem o ventilador era coisa que roda e que quando se machucava dizia: Ai, Zizus!”

 

Em: Um beijo de Colombina, Adriana Lisboa, Rio de Janeiro, Rocco:2003, p.53