Trova das rosas

17 03 2017

 

 

primavera-no-jardim-vasos-plantas-joseph-b-platthouse-and-garden-1926-03Primavera no jardim, Joseph B. Platt, capa da revista House and Garden, março 1926.

 

 

Mesmo pisando em espinhos

por travessias penosas,

em todos os meus caminhos

farei plantio de rosas!

 

 

(Dodora Galinari)

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Menina loura, poesia de Stella Leonardos

15 03 2017

 

 

VAN DIJK, WIN (1915-1990)RetratodeMariaCatarina Douat,ost, 1957,95 X 60Retrato da menina Maria Catarina Douat, 1957

Win van Dijk ( Holanda/Brasil, 1915-1990)

óleo sobre tela, 95 x 60 cm

 

 

Menina Loura

 

Stella Leonardos

 

(Para Leilá)

 

 

É uma sílfide dançando.

É uma infanta adolescendo.

Cabelo de ouro brilhando.

Alvor de lírio crescendo.

 

Coração de cristal puro,

Alma de rosa nevada,

Sonha trepada no muro.

E não sabe que é uma fada.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p.51





O reformador do mundo, fábula de Monteiro Lobato

10 03 2017

 

 

DSC01027Zé da Roça tira uma soneca na sombra de uma árvore. © Estúdios Maurício de Sousa

 

 

O reformador do mundo

 

Monteiro Lobato

 

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.  O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia asneiras.

—  Asneiras, Américo?

—  Pois então?!…  Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso.  Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.  Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.  Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

— Mas o melhor – concluiu, é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-pisca, pisca piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu.  Dormiu e sonhou.  Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.  Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf!  Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio o nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

—  Que espiga! … Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta do lugar da jabuticaba?  Hum!  Deixemo-nos de reformas.  Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a Natureza.

 

 

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense:1966, 20ª edição, pp.19-20.

 





São Luís do Maranhão, poesia de Martins D’Alvarez

9 03 2017

 

 

 

Fernando Castelo Branco, Memórias de São Luís do Maranhão

Memórias de São Luís do Maranhão, s/d

Fernando Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

http://casteloartes.blogspot.com.br/

 

 

 

São Luís do Maranhão

 

Martins D’Alvarez

 

 

“Minha terra tem palmeira

onde canta o sabiá…

isso é lirismo do poeta,

a gente pensa de cá!

Mas, ao penetrar-se, em barcos,

na baía de São Marcos,

vemos que há mesmo palmeiras

e muitas palmeiras lá.

 

E, emoldurando as palmeiras,

há jardins verdes, floridos,

ruas que sobem ladeiras,

azulejos e vitrais…

Poesia dos tempos idos:

— chafarizes esquecidos,

romances adormecidos

em solares coloniais.

 

E na fronde das palmeiras,

há mesmo alados cantores

— enlevo dos sonhadores,

— ternura dos namorados…

Dos platônicos mancebos

que se ficam nas calçadas

a acenar para as donzelas

nas janelas dos sobrados.

 

“Minha terra tem primores

que tais não encontrou eu cá…

“Velhos fortins dos franceses,

igrejinhas seculares:

Carmo, Remédios, a Sé

— mãe das primeiras Missões!…

Se cujo púlpito, Vieira,

plantou a fé brasileira,

com a augusta sementeira

de seus famosos sermões.

 

Tem recantos encantados,

de um bucolismo sem-par:

— Sacavém, Ponta da Areia,

São João de Ribamar…

O velho Farol de Alcântara,

o Bumba-meu-boi de Anil…

E outras relíquias da História

pitoresca do Brasil.

 

Tem aquela preta velha

da Rua dos Afogados

que foi preada na Angola,

deu bom preço nos mercados…

Foi tudo para os Senhores…

Amargou de mão em mão…

E traz na pele, gravado,

o drama da escravidão.

 

Tem o português dos “secos”

e o português dos “molhados”…

Tem o turco dos “retalhos”

ë o turco dos “atacados”…

Tem a “pipira morena”,

lá da Rua do Alecrim,

que aos domingos, toda chique,

vai fazer seu piquenique

e à noite, em Campos de Ourique,

quem paga tudo é o Joaquim!

 

“Nosso céu tem mais estrelas”

“na noite calma e deserta…

— Infinita porta aberta

para um mundo de poesias!

“nossas várzeas têm mais flores”,

além das rosas-meninas

que florescem nas esquinas

da Praça Gonçalves Dias!

 

“Nossos bosques têm mais vida”

na magia feiticeira

dessa Atenas Brasileira

de artistas e pensadores.

Graças à luz expendida

por esta estirpe luzida,

“nossos bosques têm mais vida,

nossa vida mais amores”.

 

“Em cismar sozinho à noite

mais prazer encontro eu lá”,

pela Praça João Lisboa,

recitando o “Marabá”…

Ao longo da Praia Grande…

No botequim da Sinhá,

tirando o gosto da pinga

com refresco de cajá…

Ouvindo, ao luar de prata,

acordes de serenata,

com trovador e com flauta

com violão e ganzá.

 

“Não permita Deus que eu morra

sem que eu volte para lá…

“Sem que carregue, contrito,

o andor de São Benedito,

na bênção que ao povo aflito,

em procissão, ele dá…

Sem que inda prove pequi,

cupuaçu, bacuri,

cambica de murici

e um bom arroz de cuchá!…

 

Quero morrer, na verdade,

na minha velha cidade,

namorando a antiguidade,

numa rede de algodão…

Dando um adeus ao passado,

um viva a Pedro II

na melhor terra do mundo:

— São Luís do Maranhão!

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Trova da inconstância

7 03 2017

 

 

 

004_001Ilustração de Margret Boriss

 

 

Parece o teu coração

com plataforma de trem,

qua mal despede os que vão

para abrigar os que vêm.

 

 

(Roberto Medeiros)





Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





Trova do que passa

2 03 2017

 

 

 

comboios-aCartão postal.

 

 

Tudo muda, tudo passa,

neste mundo de ilusão:

vai para o céu a fumaça,

fica na terra o carvão.

 

 

 

(Guilherme de Almeida)

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A máscara, de Ladyce West

26 02 2017

 

 

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Mulher com máscara, 2005

Lucia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

A máscara

 

Ladyce West

 

 

Máscara?

Que máscara?

Somos todos mascarados.

Cada qual com seu disfarce

Na passarela, no palco,

Na escola, na corte,

No hospital, no bar da esquina,

Na reunião em família,

Na lágrima sem dor.

No Bom Dia! Na Boa Noite!

No “foi bom para você”?

No obrigado ingrato.

Até os super-herois precisam de suas máscaras.

Não me venha com essa de tirar a minha máscara.

Você me reconheceria?

E ao espelho de manhã?

Fazendo a barba.

Tem certeza de que sabe quem está do outro lado?

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, dezembro, 2016.




Resenha: “A resistência” de Julián Fuks

26 02 2017

 

 

 

 

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Figuras, 1956

Tomás Santa Rosa ( Brasil, 1909-1956)

técnica mista sobre papel, 50 x 66 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura se dividiu a favor e contra o livro A resistência, de Julián Fuks.  Somos vinte.  Foi meio a meio.  Para minha surpresa estou do lado dos que gostaram.  Surpresa porque eu e o Prêmio Jabuti temos tido através dos anos visões opostas de valor. Minha discordância tem sido sistemática.  Em geral, prefiro os segundo e terceiro colocados ou nenhum deles.  Portanto, já começo a ver Julián Fuks como exceção.  Ou será que meus parâmetros estão mudando?  Fica a dúvida.  Qualquer que seja a resposta, o fato persiste, li o livro, fui até o fim (acreditem-me não tenho pena de deixar livros de lado, se não gosto), e ao final gostei da experiência.

O que me pegou nessa pequena obra, foi o tom. Bom narrador, Julián Fuks navega com  destreza do início ao fim, através das inúmeras reflexões do personagem principal. Tom e voz narrativa são valores difíceis de quantificar, mas, para mim, são a porta de entrada para leitura. Além disso,  A resistência  combina o gênero da memória com reflexão, combinação que ao longo dos anos tem-se tornado um dos meios narrativos que mais me satisfazem.

 

 

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A história trata de uma obsessão: o narrador, Sebastián, quer entender o que levou o irmão mais velho a se afastar emocionalmente do resto da família na época em que se tornava um jovem rapaz. O narrador é um de três filhos de um casal de imigrantes argentinos que se estabeleceu em São Paulo. O filho mais velho foi adotado, ilicitamente, ainda na Argentina, no período em que o casal se esforçava, sem sucesso, para ter filhos.  Adotaram afinal um menino, na mesma época de instabilidade política no país que eventualmente os levaria a imigrar para o Brasil.

Acredito que no afã do marketing, na vontade de seduzir o leitor com um assunto politizado, de vanguarda,  tomou-se a infeliz decisão de enfatizar passagens da política argentina, como se fossem centrais à trama. Ainda que a palavra ‘resistência’ tenha tido um cunho político, principalmente durante governos ditatoriais, aqui a política não passa de evento circunstancial, cortina de fumo, distração ilusória que encobre a verdadeira trama, explicitamente colocada no primeiro parágrafo do livro. “…Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter.  Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.” Aí está toda linha dramática do texto. Quanto mais Sebastián pretende não aludir à adoção do irmão, mais ele é incapaz de esquecê-la; mais ele resiste. Como não pode se referir a ela, mesmo que essa adoção, seja conhecida  por todos os familiares, inclusive o adotado, ela se torna o elefante branco familiar, invisível e não reconhecido problema, estatelado no dia a dia da família, imóvel e ocupando um grande espaço, aquilo que todos resistem a admitir.

 

 

 

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Julián Fuks

A procura pela memória, pelo fatos, ações, circunstâncias do passado que justificariam o comportamento do irmão mais velho, fazem com que o narrador desenvolva uma linha narrativa primorosa, revendo mais de uma vez, por diferente ângulo não só os eventos do passado como suas próprias reações, questionando-se sempre. Evoca e medita sobre o passado em comum com Sebastián e com a família e explora as possibilidades daquilo que lhe é desconhecido. Esmiúça tudo, sem resultado plausível. A resolução vem do próprio irmão adotado, numa catártica explosão, muito bem desenvolvida. Este é um belo livro.  Meditativo.  Reflexivo.  Um livro que extrapola a história contada. Recomendo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

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A chamada do escritor, José Eduardo Agualusa

22 02 2017

 

 

 

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Estudante, 1969

Gevork Kotiantz (Rússia, 1906-1996)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

 

 

“Imagino que, pesquisando, seja possível encontrar, para cada romancista, o episódio fundador da sua escrita: o distante relâmpago, a pequena humilhação, um primeiro amor impossível, a mãe controladora, um crime íntimo, a morte do pai.

Todos nós gostaríamos de saber de que selva fabulosa saíram os tigres de Jorge Luís Borges; de que ruínas barrocas ou jardins perfumados emergiram as baratas de Júlio Cortázar ou as belas ninfetas e mariposas (serão a mesma coisa?) de Vladimir Nabokov. Não creio que o segredo da criação se esgote nesse conhecimento, e nem me parece que tal fosse desejável. Talvez tenha até o efeito contrário, levando-nos a reler os livros que mais amamos e que mais nos marcaram, e a encontrar nessa releitura novos e mais profundos mistérios.”

 

 

Em: “Um relâmpago que atravessa vidas”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 20/02/2017, 2º caderno, página 2.