“Hiato”, poema de Ladyce West

29 09 2025

Casal comendo próximo à janela,1655

Frans van Mieris, o Velho (Holanda, 1635-1681)

óleo sobre madeira, 36 x 31 cm

UFFIZI, Florença

 

 

 

Hiato

 

Ladyce West

 

Contrariando a física

o tempo parou,

sugado por falha geológica

no descontínuo rolar das horas.

 

Lacuna espelhada na rua deserta

no som suspenso dos carros parados

no intervalo forçado de planos, projetos

breque em desejos, ambições e caprichos.

 

O inimigo invisível por todo lado.

Sombra ou sol, chuva ou névoa,

no ar respirado na cidade, ele impera.

 

Parou o mundo.  Em casa

à janela, abraçados, teimamos

na extravagância do viver.

(Junho, 2020)





Reflexões de bar… trecho, Fernando Aramburu

25 09 2025

Jovem bebendo, c. 1580

Annibale Carracci (Itália, 1560-1609)

Universidade de Oxford, Inglaterra

[Essa obra foi roubada no dia 14 de março de 2020, não se conhece o paradeiro dela]

 

 

“… e ele bebe lentamente, saboreando, e esquadrinha a parede com um olhar tranquilo, em busca desta ou daquela sequência do seu passado. No ângulo formado pelas paredes e o teto, o pessoal da limpeza não tinha reparado em uma teia de aranha minúscula, perceptível apenas para um olho atento. Um restinho de gaze acinzentada sem a inquilina que a teceu. E nela ficou presa a lembrança do beijo de Arantxa. Que idade eu tinha? Vinte, 21 anos. E ela? Dois a menos. São coisas corriqueiras que acontecem nas festas do interior. O pessoal dança, bebe, sua, todo mundo se conhece; se você é jovem e surge na sua frente um par de seios, você os pega; se uns lábios chegam mais perto, você os beija. Ninharias, migalhas que o esquecimento devora, o que não impede que, de repente, olhando a teia de aranha, a memória de Xabier as resgate. É antes do serviço militar e ele estuda medicina em Pamplona. Tem fama de sem sal, de formal, de fechado em si mesmo; enfim, do que ele é realmente, um homem sério de verdade, sendo bem objetivo. Amigos? A velha turma de sempre, antes que os sucessivos casamentos a desagregassem. Não é bebedor nem fumante nem glutão nem esportista nem andarilho; mas, apesar de tudo isso, todos o apreciam porque faz parte da paisagem humana do lugar, frequentou o colégio com os outros, é o Xabier, tão da vila quanto o balcão da prefeitura ou as tílias da praça. Dá a impressão de que o futuro está à sua espera de braços abertos. É alto e boa-pinta, mas, ainda assim, nunca tem uma paquera. Sensato demais, tímido demais? Segundo seus conhecidos, deve ser algo assim. Toma um gole de conhaque sem tirar os olhos da teiazinha de aranha. Mas por que sorriu? É que achou engraçado lembrar esse episódio. Em uma lateral da praça arde a fogueira de são João. As ruas estão apinhadas de gente. Crianças correm, brilham caras felizes, línguas lambem sorvetes, vizinhos desinibidos conversam aos gritos de uma calçada para a outra. Calor.”

 

Em: Pátria, Fernando Aramburu, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, 2016





Tua pulseira, poesia de Adherbal de Carvalho

24 09 2025
Tua pulseira

 

Adherbal de Carvalho

(1869-1915)

 

(A uma moça que me põe uma pulseira no braço)

 

Tenho beijado esta pulseira olente,

Cheia de amor e cheia de magia!

Aperto-a ao coração constantemente,

Como um sinal da tua simpatia!

 

Os elos, que se prendem nos meus braços,

Creio que têm um pouco de tua alma;

Alma subtil, voando nos espaços,

Alma de amor, que o meu delírio acalma!

 

Constantemente, eu a tateio a medo

E com caricia levo-a ao meu ouvido,

Afim de ver se encerra algum segredo

Que o teu amor acaso haja escondido!

 

E, no entanto, é tão fria, tão pacata,

Como o metal argênteo de que é feita!

Não há nada tão frio como a prata,

Ou como este aro que o meu braço enfeita.

 

Apesar d’isso, sei-a amar, querida,

E quero-a tanto como a ti desejo;

Pois vejo n’ela a minha e a tua vida,

O nosso amor entrelaçando um beijo!

 

Em: Efêmeras, Adherbal de Carvalho, 1894.





Os livros finalistas do Booker de 2025!

23 09 2025

 

 

De todos os prêmios nacionais e internacionais, o de que mais gosto, ou melhor, aquele com que tenho melhor afinidade, ano após ano, é o Booker.  Os juízes são diferentes a cada ano, mas os finalistas têm sempre sido um grupo de livros que leio com prazer, mesmo quando o vencedor do prêmio não me satisfaz tanto quanto esperado.  Sempre encontro entre os finalistas algo que me fascina.  Por isso presto atenção a esse prêmio mais do que a qualquer outro. 

 

Andrew Miller entrou com The Land in Winter, que ainda não está traduzido para o português.  Mas há traduções de seus outros livros: Casanova, Puro e O insensível.  É tentador conhecê-lo de imediato. 

Susan Choi, americana, que é autora diversos livros, não tem nenhum deles traduzido para o português.  Flashlight é a obra com que foi selecionada.

David Szalay, inglês, é outro com grande produção, diversos livros publicados mas nenhum em português. Ele conseguiu estar entre os finalistas com Flesh.

Kiran Desai, indiana, é autora bem conhecida.  Encontrei dois títulos dela em português: O legado da perda (Com o qual ganhou o prêmio Booker, em 2006) e Rebuliço no pomar das goiabeiras, que parece estar esgotado. Sua obra escolhida foi The Loneliness of Sonia and Sunny

Ben (Benjamin) Markovits, americano, é um conhecido escritor, também sem obras no traduzidas aqui no Brasil. The Rest of Our Lives foi o livro selecionado para finalista. 

Katie Kitamura, americana, é conhecida entre os brasileiros pelo Uma separação. No entanto, o título selecionado para finalista do prêmio é Audition.

Logo, logo alguns desses aparecerão nas livrarias daqui.  Mas. se puderem, podem também ler qualquer um desses em inglês, aproveitando para treinar a língua. 





As amizades comuns, Michel de Montaigne

18 09 2025

Apollinaire e seus amigos, 1909

Marie Laurencin (França, 1883-1956)

óleo sobre  tela

Centre Pompidou, Paris

 

As Amizades Comuns

 

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu».

(…) Não me venham meter ao mesmo nível essas outras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do gênero, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela – o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. «Amai o vosso amigo», dizia Quílon, «como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.» Este preceito, tão abominável se aplicada à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: «Ó amigos meus, não há nenhum amigo!»

 

Michel de Montaigne,  em Ensaios





Offenbach, texto de Guillermo Cabrera Infante

18 09 2025

O gato

Sonya Grassmann  (Bulgária-Brasil, 1933-1997)

[Anne Marie Elisabeth Graesse]

acrílica sobre madeira, 30 cm x 32 cm

 

 

A curiosidade de Offenbach não tem limites animais: basta que alguém de nós pare diante das janelas que dão para rua, para ver Offenbach, atrás e abaixo, tentando olhar o que olhamos, por todos os meios, chegando a miar para que o carreguem ou suba ao televisor e, espichando o pescoço, olhar também o que olhamos.

Um dia chegou em casa a bela G. Ch., numa visita breve, e Offenbach, talvez reconhecendo-a, caprichou seu caminhar à Dietrich para atravessar a sala em direção ao estúdio e para inspirar a simpatia eterna à visita: a mesma coisa acontece com qualquer visitante receptivo aos gatos.

. . . . . . . . . . . . 

Ver Offenbach comer ou tomar água é outro deleite: não pode haver maior finura em atos tão animais. Sua língua sobe e desce na água com uma regularidade metronômica, e, ao comer, morde gentilmente a carne e a engole pouco a pouco, à medida que é mastigada por seus débeis dentes. 

Offenbach é um espetáculo de ver até dormindo, sobretudo dormindo. Nos dias de sol ele se regala com a luz e o calor, estirando uma pata à frente enquanto coloca sobre ela a cabeça à maneira de almofada.  Nos dias frios se recolhe como  uma galinha chocando, perto de um dos radiadores, convertendo-se numa verdadeira bola de pelos, apenas a cabeça saindo de dentro do abrigo natural. Outras vezes usa como travesseiro os objetos mais diferentes: o cabo do telefone, a perna de um radiador, o próprio chão, enquanto seu corpo descansa num coxim. Outras vezes… mas basta. 

 

Em: Offenbach, conto de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), em Os melhores contos de cães e gatos, org. Flávio Moreira da Costa, Rio de Janeiro, Ediouro: 2007





Na boca do povo: escolha de provérbios populares

17 09 2025
Ilustração, Martta Wendelin (Finlândia, 1901-1986)

 

 

“A vingança é doce, mas os frutos são amargos.”




Carta-soneto, poesia de Célia de Cássia

15 09 2025
Cartão postal,  anos 20, séc. XX.

 

 

Carta-soneto

 

Célia de Cássia

 

“Escrevo-te pra dizer-te”, meu amor,

que minhas já não são as tuas cartas.

De folheá-las — velhas, já sem cor —

as minhas mãos nunca ficaram fartas!

 

As tuas cartas!  Doces e amargas…

Luar iluminando com fulgor

a minha escura estrada! Portas largas,

abrindo pra jardins plenos de flor!

 

Vão publicá-las. Dei-as de presente

(perdoa, amado, essas ideias loucas

que a meu viver já deram mil escolhos…)

 

Quero, dando-as a ler a toda gente,

que o amor que morreu em nossas bocas

possa ressuscitar em outros olhos…

 

Célia de Cássia (MG, 1909-?)





Trova das rosas

10 09 2025
Ilustração Jessie Willcox Smith.

Nesse exemplo se resume

um prêmio às almas bondosas:

fica sempre algum perfume

nas mãos que oferecem rosas!

 

(Aparício Fernandes) 





Uma orquestra na fazenda, texto de Luiz Antonio de Assis Brasil

1 09 2025

Orquestra

Mariinha Santos (Brasil, ativa nas décadas de 1970-80)

aquarela, 48 x 68 cm

 

 

O Major convidara os estancieiros mais próximos, e assim a capela encheu-se de cadeiras, e foi preciso que as crianças ficassem pelo chão, junto com os cachorros. O Maestro ostentava a casaca nova, e, ao entrar pelo corredor central, com as músicas debaixo do braço, caminhando para sua orquestra como para oficiar uma missa, todos se compenetraram: jamais haviam visto algo semelhante. Os notáveis que, de fato, ainda abominavam o Maestro, agora intrigavam-se com aquela dignidade. – “Ele deu vida a esta capela” – disse o Major ao Vigário, que concordou com um movimento de cabeça e pôs o indicador frente aos lábios: o Maestro, já de costas para os convidados, esperava que cessassem as tossidelas e os murmúrios; depois, ergueu as mãos num gesto elegante e decidido, e os instrumentistas perfilaram-se nas pontas das cadeiras. Ficou assim, imóvel, por um momento; depois, muito lentamente, acariciando o ar, baixou os braços – e as rabecas deram início a um andante cantabile mal audível, lascivo, complicado por appogiaturas que se enredavam nas notas. Na plateia, ninguém se animava a um só movimento. A melodia cresceu, ganhou inesperada rapidez, e logo um festivo allegro retumbava pela capela, num estrépito de tambores e cornetas. O Maestro luzia de suor, transfigurando-se pelo fogo de seus movimentos, que varriam o espaço acima das cabeças; seu colarinho saía para fora da gola, e surgiram os punhos da camisa. E a música foi-se desdobrando em ondas, ganhando matizes delicados, para logo ressurgir com mais força, avançando ao limite do suportável. Em poucos minutos atingiu um paroxismo sonoro que fazia vibrarem os vidros das janelas. Quando os ouvintes já se entreolhavam em desespero, tudo acabou num triunfante e ensurdecedor acorde de toda a orquestra. No silêncio imediato, seguiu-se o grito do Major: – “A la fresca!”. A audição continuou, agora com obras ligeiras, onde se percebia sua anterior destinação à banda. Aí sim, os ouvintes sentiram-se mais à vontade, e os homens autorizavam-se a marcar os compassos, batendo com os pés na laje do piso. O Maestro pretendeu agradar os brios gaúchos e atacou o hino da República Rio-Grandense, o que fez com que os convidados, ao comando do Major, se levantassem para ouvir a música do Mendanha.

 

Em: Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre