Nadar ou escrever? Houve um momento em que o escritor brasileiro Fernando Sabino (1923-2004) considerou esta escolha. Foi campeão de nado sul-americano, aos dezesseis anos, em 1939, nado de costas, tendo treinado no Minas Tênis Clube em Belo Horizonte. As forças da natação e da escrita lutavam pela atenção de Sabino simultaneamente, também em 1939, ficou em segundo lugar na Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica, empatando com Hélio Pellegrino (1924-1988). Mas sua adolescência já formava o escritor que conhecemos, pois começou a publicar seus contos aos doze anos, a primeira publicação na revista Argus, publicação da polícia, onde cabia perfeitamente o conto policial que escreveu. E seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais (1941) que foi publicado Rio de Janeiro teve a contribuição de alguns contos escritos quando Sabino tinha quatorze anos. Ainda bem que escolheu a escrita!
Desde 2003, ou seja há vinte anos, o grupo de leitura Papalivros se encontra mensalmente para um papo e discussão do livro do mês. Hoje comemoramos nosso último encontro do ano. Conversamos, brincamos com as crianças, falamos sobre Noites Brancasde Dostoiévski, livro do mês, votamos nos três melhores livros do ano, e tivemos o prazer de estarmos envolvidas, como espectadoras, no acender da quarta vela da cerimônia de Chanucá, a festividade que comemora a vitória da luz contra a escuridão, a preservação do espírito de Israel e a liberdade religiosa. Não poderia ter sido um momento mais apropriado para nos lembrarmos desse significado. Foi uma reunião memorável. Algumas de nós estamos juntas desde o primeiro encontro. Envelhecemos juntas. Mas mesmo a mais recente participante está no grupo há muitos anos. Nem todas puderam vir hoje: de dezesseis, doze estavam presentes.
Houve muitos pontos altos nesta reunião. Entre eles, é claro, a votação dos melhores do ano. Aqui vão os candidatos, ou melhor, os 12 livros lidos durante o ano de 2023.
Lições, Ian McEwan
Ninféias negras, Michel Bussi
A tenda vermelha, Anita Diamant
O mistério de Henri Pick, David Foenkinos
Hotel Portofino, J. P. O’Connell
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A última livraria de Londres, Madeline Martin
Uma mulher singular, Vivian Gornick
Caderno proibido, Alba de Cespedes
O sol também se levanta, Ernest Hemingway
Véspera, Carla Madeira
Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski
Como são computados os votos. Cada participante recebe um cédula com a lista dos livros livros. Ao lado do título colocará a classificação de acordo com seu gosto. Só os três primeiros colocados. Cada número 1 recebe 3 pontos; cada segundo lugar, recebe 2 pontos e 1 ponto os que ficaram em terceiro lugar. Ao final somamos os pontos e temos a classificação.
1º lugar em 2023:
A última livraria de Londres, de Madeline Martin
2º lugar em 2023
Orgulho e preconceito, Jane Austen
3ª lugar em 2023 deu empate:
Caderno Proibido, Alba de Céspedes e Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski
“Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar. Me sinto defasado. A minha realidade interior vive abaixo do nível da realidade que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio , num contacto normal com os demais seres humanos, tenho que escrever, porque a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Há uma espécie de catarse naquilo que escrevo: para não precisar de me deitar no divã de um psicanalista. Se escrevi, por exemplo um livro com o título, A faca de dois gumes, pode ter sido para não esfaquear alguém.”
Em: O tabuleiro de damas: trajetória do menino ao homem feito, Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record: 1988, p.18.
“Até os trinta e cinco anos de idade, minha experiência de cama foi equivalente à de qualquer uma de minhas amigas; com essa idade, eu também já havia passado por dois casamentos e dois divórcios. Cada um dos casamentos durou dois anos e meio, e cada um deles foi contratado por uma mulher que eu não conhecia (eu) com um homem que eu também não conhecia (o bonequinho em cima do bolo de casamento).”
Em: Uma mulher singular: memórias, Vivian Gornick, tradução Heloísa Jahn, São Paulo, Todavia: 2023, p.30
Louisa May Alcott, a celebrada autora de Mulherzinhas (1868) morou em Concord, Massachusetts, mesma cidade em que Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau eram residentes. Louisa os conheceu. Com Thoreau, o naturalista, teve os primeiros ensinamentos sobre a natureza, com poéticas descrições dos insetos aos cantos de pássaros. Thoreau foi o primeiro amor de Louisa quando ainda criança.
Já Emerson foi para Louisa, uma paixão adolescente. Ela recebeu de presente do filósofo americano o livro Correspondência com uma Criança, de Goethe, coletânea de cartas escritas entre 1807-1808, para Bettina Brentano, quando esta tinha doze anos de idade e Goethe, sessenta. É possível que Emerson estivesse mandando uma mensagem para Louisa, talvez ciente da paixonite de sua discípula por ele. No entanto, isso não foi suficiente para deter Alcott que passou horas intermináveis escrevendo cartas apaixonadas para Emerson. No entanto, ela nunca as enviou.
Encontrei hoje essa deliciosa passagem no livro de Otto Lara Resende chamado O rio é tão longe: cartas aFernando Sabino; em que Otto reclama do conto enviado a ele por Sabino. Há humor, calor humano, camaradagem, puxão de orelha e a magia de uma grande amizade.
“… deixe-me protestar contra a torpeza de me ter mandado o conto com as páginas todas fora de ordem, o que me foi uma verdadeira calamidade. Eu estava tão burro que li tudo fora de ordem e é verdade que achei meio estranho, mas como grande e estranho é o mundo, fui logo achando deliciosa a sua loucura.“
Em: O rio é tão longe: cartas aFernando Sabino, Otto Lara Resende, introduçao de Humberto Werneck, São Paulo, Cia das Letras: 2011, p. 19