Um paraíso para a fauna dos sertões, texto de Hermano Ribeiro da Silva

26 09 2024

Pantanal

Antônio Poteiro (Portugal-Brasil, 1925-2010)

óleo sobre tela, 60 x 70 cm

 

 

Um paraíso para a fauna dos sertões

 

Hermano Ribeiro da Silva

 

Caminhar a pé pelos sertões não constitui, por certo, agradável sistema de viagem para os que se habituaram ao sedentarismo das cidades, os quais necessitam dotar-se de enorme dose de estoicismo, a fim de suportar os mil dissabores das jornadas que estafam e até chegam a desacorçoar. E nessa contingência, malgrado a melhor saúde e robustez, forçosamente se tem que submeter, no confronto com os caboclos raquíticos, a uma derrota inevitável e quase desmoralizadora…

Mas caminhar a pé pelos sertões, em contraposição, como que a premiar os padecimentos, traz consigo inumeráveis motivos propiciatórios para as impressões demoradas e mais verídicas do habitat, para as apreensões visuais mais nítidas e mais pormenorizadas dos cenários. A gente, assim, integra-se melhor na rusticidade do ambiente, situação essa que institui fator extraordinariamente favorável par o conhecimento da sua existência total.

Ora, por exemplo, no que concerne à fauna do planalto mato-grossense, se viajássemos em automóvel, pouco haveria de sobrar para a nossa admiração, porquanto o ronco do motor determina a fuga de grande parte dos animais e aves. Ao contrário, seguindo a pé pelas baixadas sempre procurando os trilheiros menos frequentados, constantemente deparamos à nossa dianteira com os testemunhos da magnífica riqueza zoológica que frequenta o desdobramento da Chapada. […]

Nas campinas , nos cerrados, ou nas esparsas nesgas de mato (“pindaíbas”), que compõem a flora do planalto, habitam milhares de veados de todas as espécies, bandos de perigosas queixadas, varas de catetos, os tamanduás solitários, tatus, grupos numerosos das enormes emas velocíssimas, uma infinita população chinesa de siriemas a gritar de sol a sol, perdizes e codornas que a cada momento levantam voo ao nosso lado; depois, à beira dos riachos e dos córregos se escondem as pacas, as capivaras e as antas, e finalmente , a tiranizar o mundo das selvas, surgem as respeitáveis onças nos seus esturros agoniados, ameaçadores.

Nestas linhas não se faz a mera descrição subjetiva de um filme fantasista. Mesmo que não se tenha por finalidade a caça, toda essa fauna vai se apresentando prodigamente aos olhos do viajante que queira fugir da estrada real e possua vontade para enfrentar os dissabores das cavalgadas e das marchas a pé. E é por isso que nos saiu menos enfadonho o longo roteiro a que nos dispusemos efetuar, deslumbrados muitas vezes diante daqueles espetáculos, muitas vezes empenhados em correrias animadas, na expectativa de variar e melhorar as refeições de penitência.

 

Em: Garimpos de Mato Grosso: viagens ao sul do estado e ao lendário rio das Garças, Hermano Ribeiro da Silva, Rio de Janeiro, Edições Saraiva: 1954, pp 69-70

 





Dorme, dorme, bonequinha… poesia infantil de Corrêa Júnior

26 09 2024
Ilustração Helen Jackson, 1893

 

 

Dorme, dorme, bonequinha

 

Corrêa Júnior

 

Dorme, dorme, bonequinha,
que a Noite já vai chegar,
com o mais lindos dos sorrisos
para o teu sono embalar!

 

Dorme, dorme, bonequinha,
que a Mamãe já vai chegar,
com a mais doce das cantigas,
para o meu sono embalar !

Em: Barquinho de papel: poesias Infantis, Corrêa Júnior, 1961





Flash!

23 09 2024

Que coleção de amigos!

Da esquerda para a direita: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos.





Trova do Don Juan

17 09 2024
Ilustração Arthur Sanoff.

 

 

“Don Juan” de última laia,

o meu amigo Amaral

namora até minissaia

pendurada no varal…

 

 

(Calixto de Magalhães)





Soneto LXXII, de Paula Brito

16 09 2024
Ilustração de Walter Crane, 1878

 

 

Soneto LXXII

 

Paula Brito

 

“Quem pode ver-te sem querer amar-te!
Quem pode amar-te sem morrer de amores!…
(Maciel Monteiro)

 

 

Amo-te… e de te amar não me arrependo,

Bem que seja este amor, amor perdido!

Oh! se nunca te houve conhecido,

No fogo, em que ardo, não vivera ardendo!

 

Vejo o que fazes, e estou nisso vendo

Rasgos de amor de um coração ferido!

Também amei, também tenho sofrido,

Amo também,  também estou sofrendo!…

 

Não me queixo de ti, não, certamente;

O teu futuro, por teu mal, te obriga

Ao penoso martírio do presente!

 

Aqui tens a razão que a ti me liga:

“Se te sigo, me pedes que me ausente;

Se me ausento, me pedes que te siga!…”

 

 

Em: Poesias, Francisco de Paula Brito, Rio de Janeiro, 1863, edição digitalizada, Biblioteca Nacional.

PS: atualizei ao máximo a ortografia que já mudou muito nestes últimos 150 anos.





Voltando para casa de ônibus, texto de Oscar Nakasato

16 09 2024
Anúncio dos pneus GoodYear Airfoam, 1944.

 

 

 

“No ônibus, Satoshi tentava esvaziar a mente para buscar o sono. Quando percebeu que não conseguiria dormir, retornou a poltrona para uma posição com menor inclinação, abriu uma fresta da cortina e passou quase todo o trajeto , de pouco mais de nove horas, observando o que era possível na madrugada de quase lua cheia. Com a cabeça reclinada no encosto da poltrona, via a paisagem noturna obliquamente. Os morros distantes eram manchas escuras, e deles se viam apenas os contornos delineados em função do firmamento clareado pela lua. As árvores mais próximas surgiam e desapareciam na velocidade controlada pelo pé do motorista. As imagens imediatas eram mais visíveis, mas a cada instante eram consumidas pelo movimento do ônibus e do tempo, enquanto a paisagem distante, teimava em suas retinas insistindo em ficar.” […]

 

 

Em: Ojiichan, Oscar Nakasato, São Paulo: Fósforo, 2024.





Ernest Hemingway recomenda…

11 09 2024

Em 1934, depois de ler uma história de Ernest Hemingway na revista Cosmopolitan intitulada One Trip Across, mais tarde publicado no livro To have and to have not — publicado em português e traduzido por Luiz Peazê comoTer e Não ter — o jovem Arnold Samuelson, recém formado jornalista americano, viajou mais de três mil quilômetros para se encontrar com o autor do conto que tanto lhe impressionara.

Não foi um encontro fácil para o jovem viajante.  Mas valeu-lhe a espera de dois dias até ser recebido na varanda de Hemingway para um bate-papo.  Samuelson depois de conversar com o escritor por algum tempo, explicando de sua dificuldade em realizar o sonho de escrever ficção, Hemingway finalmente o aconselhou a evitar os escritores contemporâneos.  Ele deveria, no entanto.  competir, com os que já haviam morrido e se mirar nas obras que tivessem sobrevivido ao teste do tempo. Ou seja, às obras que ainda eram significativas. E  finalmente Samuelson saiu da visita em Key West, com a lista cuja fotografia vemos aqui.  Para facilitar a leitura, aqui estão os livros recomendados por Hemingway.

Stephen Crane

The Blue Hotel   [não achei tradução no Brasil]

The Open Boat  [não achei tradução no Brasil]

Gustave Flaubert

Madame Bovary

James Joyce

Dubliners  — Dublinenses (português)

Stendhal

The Red and the BlackO vermelho e o negro (português)

Somerset Maugham

Of Human Bondage Servidão humana (português)

Tolstói

Anna Karenina  — Anna Karenina (português)

War and Peace Guerra e Paz (português)

Thomas Mann

BuddenbrooksOs Buddenbrook (português)

George Moore – G. E. Moore

Hail and Farewell [não achei tradução no Brasil]

Dostoiévski

Tolstói

Anna Karenina  — Anna Karenina (português)

War and Peace Guerra e Paz (português)

Thomas Mann

BuddenbrooksOs Buddenbrook (português)

George Moore – G. E. Moore

Hail and Farewell  [não achei tradução no Brasil]

Dostoiévski

Brothers KaramazovOs irmãos Karamazov (português)

 Diversos poetas

The Oxford Book of English Verse

E. E. Cummings*

The Enormous RoomA cela enorme (português)

* Interessante que E.E.Cummings é muito mais conhecido com poeta, e Hemingway o escolhe por sua prosa.

Emily Brontë*

Wuthering HeightsO morro dos ventos uivantes (português)

* ùnica mulher. Mas afinal a lista é de Hemingway… era de se esperar…

W. H. Hudson

Far Away and Long Ago  [não achei tradução no Brasil]

Henry James

The American — [não achei tradução no Brasil]

E você, quais desses você já leu?  Concorda com Hemingway?





Trova da vida

3 09 2024

Olhando a vida vivida,

esta pergunta passou:

-fui eu que fiz minha vida,

ou fez-me a vida o que sou?

 

(Baptista Nunes)





Chuva no Nordeste, texto de Graça Aranha

2 09 2024

 

 

 

“Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera), acordara depois duma grande tormenta no fim do verão. A madrugada estava orvalhada, mas serena, e ele se erguera da sua rede para ver o tempo. Um grande tapete de verdura fresca e úmida parecia ter descido do céu e coberto como um manto misterioso o campo… Os olhos perdiam-se na campina alegre; o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a erva tenra; um bando de marrecas passava grasnando, pousava aqui , levantava o voo acolá, buscava mais longe a região dos eternos lagos… Dias inteiros de chuvas; o pasto agora era farto, a água porfiava em vencê-lo, e quando mais tarde o dilúvio se interrompia, viam-se na vasta savana verdes pontos claros que eram o refrigério dos olhos. Eram os primeiros lagos. Em volta deles uma multidão de aves aquáticas brincavam descuidosas  e ostentavam as penas de cores vivas e quentes. Vinham pássaros de toda a parte; pernaltas com o seu bico de colher, marrecas em algazarra, jaçanãs leves e tímidas; e à tarde, quando o céu se vestia de nuvens cinzentas, notava-se desfilar, ora o bando marcial e rubro dos guarás, pra a ala virgínia e branca das garças… No fundo dos lagos multidão de peixes borbulhavam por encanto. E em tudo o mesmo milagre de ressurreição, de rejuvenescimento, de expansão e de vida.”

 

Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.

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Esta é uma das mais belas descrições de uma multitude de ações, de dezenas de animais, tudo acontecendo num momento, em um único parágrafo.





Minutos de sabedoria: George Sand

31 08 2024

O que ela lê, 2001

Francine Van Hove (França 1942)

óleo sobre tela

“A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.

A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.”

 

George Sand

 

 

George Sand (1804-1876)