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John Brack (Austrália, 1920-1999)
óleo sobre tela, 115 x 163 cm
National Gallery, Vitória, Austrália
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Na rua a multidão passa…
Humanos, juntos -é certo-,
mas, vejo, pela vidraça,
cada qual no seu deserto.
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(Lucília de Carli)
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John Brack (Austrália, 1920-1999)
óleo sobre tela, 115 x 163 cm
National Gallery, Vitória, Austrália
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Na rua a multidão passa…
Humanos, juntos -é certo-,
mas, vejo, pela vidraça,
cada qual no seu deserto.
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(Lucília de Carli)
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Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)
óleo sobre tela, 64 x 53 cm
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A filha, pálida e loura
Faz seu serão de costura:
Às vezes pensa… ou procura
Dentro do cesto a tesoura.
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Vive numa dobradura
A singular criatura!
Ralha-lhe o pai com doçura,
Ao regressar da lavoura.
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Dá na varanda oito e meia…
Levanta-se logo a moça,
Pondo os morins no baú;
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Traz os preparos da ceia;
E nas tigelas de louça,
Tomam café com biju.
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Em: Cromos, 1881
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Luís Pimentel
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O poema é como a aranha,
vai vivendo do que tece.
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Se o campo é vasto, ele cresce.
Se a terra é seca, ele míngua.
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O poema é uma íngua:
Inflama quando adoece.
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Do poema só se colhe
o que o poema semeia.
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E como a aranha,
se envolve,
em sua teia.
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Em: O calcanhar de Aquiles, Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Betrand Brasil: 2004
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Estandarte de UR, 2600 a.C. [DETALHE]
Concha, calcário, lápis-lázuli e betume
Cemitério Real,Tumba Real, provavelmente do rei Ur-Pabilsag, Iraque.
Museu Britânico,Londres.
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Você sabia que a história de ficção mais antiga que conhecemos vem da Mesopotâmia? Pois os Sumérios, que ocupavam o vale entre os rios Tigre e Eufrates, uma região de solo muito fértil que hoje faz parte do estado do Iraque, foram os primeiros a desenvolver a escrita – escrita cuneiforme – por isso mesmo são os autores da primeira história de ficção, que se conhece. A versão mais antiga que temos dessa obra é de 18 séculos antes da Era Comum [século XVIII a. C.]. Essa obra em versos, chama-se em português A epopéia de Gilgamesh, e conta a história de Gilgamesh e companheiro de aventuras Enkidu. Quando Enkidu morre, Gilgamesh se vê questionando a morte e sai à procura da vida eterna. Acredita-se que essa obra seja o resultado da compilação de diversos poemas e lendas tradicionais do povo sumério, contadas de uma forma poética. É aqui que aparece a primeira referência, anterior à da Bíblia, do Dilúvio Universal.
Há diversas traduções dessa obra para o português e também algumas versões para o público infantil.
Cozinheiro, ilustração de Dan Andreasen.–
Você me chamou de feio,
sou feio mas sou dengoso,
também o tempero é feio
mas faz o prato gostoso.
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(autoria desconhecida)
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Duas camponesas, s/d
János László Aldor (Hungria, 1895- Áustria,1944)
óleo sobre tela
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Janos László Aldor nasceu em Nagyimánd,na Hungria em 1895. Em 1919 concluiu o curso de arquitetura, mas como pintor foi autodidata. A partir de 1914 começou a expor seus quadros regularmente. Ficou conhecido pelos retratos de mulheres. Faleceu em 1944.
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[Capela da Ordem Terceira de São Francisco, Olinda, PE]
José Lima (Brasil,?-?)
óleo sobre tela, 63 x 70 cm
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Eu já havia lido O advogado do Diabo de Morris West na minha adolescência. Tinha gostado. Mas, por causa do novo papa, Francisco I, a conversa no grupo de leitura caiu sobre a Igreja Católica e resolvemos voltar a este livro. Os dezessete membros do grupo já haviam lido esse romance na adolescência, o que atesta para sua popularidade. Este e As Sandálias do Pescador do mesmo autor. Qual não foi então a minha surpresa, ao descobrir enquanto lia o romance, que eu não me lembrava de quase nada da história! Foi como ler um novo livro. E que livro! Prazer do início ao fim.
Morris West não foi um autor popular por demagogia ou marketing. É um ótimo escritor. Cuida dos personagens. Introduz nuances psicológicas, problemas sociais, e, além disso, é um excelente observador da natureza humana, de suas frustrações e insatisfações. Conhece e retrata os valores de cada personagem com abundância de detalhes e economia de palavras que fazem um texto enxuto, preciso e ponderado. Encantador.
O título O advogado do Diabo – por favor, não confundir com o filme mais recente com o mesmo nome que não tem nada a ver com este livro – se refere ao processo dentro da Igreja Católica pelo qual todos aqueles que estão sendo considerados para beatificação precisam passar. Entendo que esse processo sofreu mudanças depois das reformas trazidas à Igreja pelo Papa João XXIII, mas o romance de Morris West é anterior a 1963 e nele vemos a Igreja Católica como ainda operava depois da Segunda Guerra Mundial. Mas então, qual a razão do título? A Igreja não pode confiar só no que seus fiéis lhe dizem. Precisa ter certeza de que os milagres aconteceram, de que os candidatos eram dignos. Chamavam de advogado do Diabo, aquele membro da própria igreja, que é designado para descobrir as falhas de caráter, de ações, de intenções de quem é considerado para beatificação. O advogado do Diabo é o religioso que tem como dever provar que o candidato à santificação não deveria ser santificado. É o promotor digamos assim e não o advogado de defesa do candidato à santificação.
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Este é o enredo. Aparente. Mas o texto pode e deve ser lido em diferentes níveis. Além da perseguição à verdadeira vida do possível santo, processo que corre como em um livro policial, vemos o mundo pelos olhos de um homem submerso em uma crise emocional e de identidade: o Monsenhor Maredith Blaise, católico de nacionalidade inglesa, que há muito mora na Itália, está distante do mundo e de si. Encarregado da investigação e diagnosticado com câncer terminal, encontra-se contrabalançando duas empreitadas distintas — viver com dignidade e julgar a santidade de outrem — certo ele só tem a certeza de que o futuro é de dias contados. Portanto, aproxima-se dessa investigação de maneira distante e duvida do acerto de sua escolha. Temos uma visão do que lhe aflige pelas palavras do Cardeal Eugenio Marotta que, ao lhe dar a missão de advogado do diabo, o descreve assim: “Não há paixão na sua vida, meu filho. O senhor nunca amou uma mulher, nem odiou um homem, nem sentiu piedade por uma criança. Apartou-se demasiado tempo e é, agora, um estranho no seio da família humana. Jamais pediu nada nem deu nada. Jamais conheceu a dignidade da privação nem a gratidão de um sofrimento compartilhado com outrem. Eis aí a sua enfermidade. Eis aí a cruz que o senhor talhou para os próprios ombros. Aí é que começam não só as suas dúvidas, como também os seus temores…pois um homem que não pode amar o seu semelhante tampouco pode amar a Deus”.
Confrontado, mais tarde, com a vida do milagroso Giàcomo Nerone, enquanto julga a possibilidade de beatificação, o monsenhor tem a oportunidade de fazer amigos e desfrutar do calor de suas companhias: Aurélio, o Bispo de Valenta se mostra uma pessoa interessante e genuinamente solícito; enquanto a seriedade e determinação do judeu e médico da aldeia Aldo Meyer movem sua admiração. Tecidos nessas amizades estão os verdadeiros sentimentos de Meredith Blaise que reaparecem e tomam vigor, na mesma proporção em que seu corpo se deteriora. Mas a meio caminho floresce a compaixão, o amor ao próximo e o entendimento de que as pessoas são o que são e tudo o que se pode fazer é mostrar a elas as escolhas que têm. Cada qual tomará o seu caminho e será responsável por ele.
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Publicado em 1959, nem a Igreja nem o mundo são mais os mesmos que aparecem no romance. Mas isso não afeta o seu entendimento, o prazer da leitura e, sobretudo os princípios humanistas expostos tão sucinta e claramente pelo autor. Tudo embalado em uma das mais interessantes narrativas que encontrei nos últimos tempos: Morris West consegue fazer dos vários e muitos habitantes da pequena Gemello Minore— do candidato a santo ao padre local e sua empregada; do médico à amante do “santo” e seu filho bastardo; da já-nem-tão-jovem condessa ao seu companheiro homossexual e pintor medíocre — , faz de todos, verdadeiros personagens, tridimensionais, com dilemas morais e de sobrevivência que os leva a ações nem sempre lógicas; mas mesmo que não simpatizemos com eles ou seus problemas, conseguimos entendê-los graças à habilíssima narrativa com que nos são apresentados. A prosa refinada, com alguns parágrafos que nos fazem querer recortar o livro, separá-los e meditar sobre suas implicações, é a cereja do bolo. Este é um romance policial, histórico, psicológico; rico em questões de ética, pronto para o debate moral. Como um bom livro acaba mais ou menos em aberto, deixando que o leitor defina por si e para si o verdadeiro significado do que lhe é apresentado. Um romance que entrega muito mais do que se espera. E como tal, prova o grande escritor que o produziu. Segue então, muito recomendado. Vou reler outros do autor.
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O pai do artista lendo o jornal, 1866
Paul Cézanne (França, 1839-1906)
óleo sobre tela, 198 x 119 cm
National Gallery, Washington DC
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Didier Lourenço (Espanha, 1968)
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André Deymonaz (França, 1946)
óleo
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Albert Anker (Suiça, 1831-1910)
óleo sobre tela
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Homem lendo jornal
Alain Pontecorvo (França, 1937)
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McSorley’s Bar, Richard and Gene, s/d
Carol Monacelli (EUA)
62 x 62 cm
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Sueli Gallacci (Brasil, SP, Contemporânea)
óleo espatulado sobre tela,
http://acordagente.blogspot.com
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Victor Brindatch (Israel, contemporâneo)
óleo sobre tela, 51 x 71 cm
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Suset Maakal (Africa do Sul, contemporânea)
aquarela sobre papel
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Marc Awodey (EUA, 1960)
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Henri de Toulouse Lautrec (França, 1864-1901)
Pastel
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José Malhoa (Portugal, 1855-1933)
óleo sobre tela
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Eero Jarnefelt (Finlândia, 1863-1937)
óleo sobre tela
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Dona Nelson (EUA, 1947)
óleo sobre tela, 205 x 160 cm
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Dogan Atanur (Turquia/Canadá, contemporâneo)
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Barbara Fox (EUA, contemporânea)
aquarela, 46 x 38 cm
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Edward B. Gordon (Grã-Bretanha/Alemanha, contemporâneo)
óleo sobre madeira
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Retrato de homem com jornal, 1911-14
André Derain (França, 1880-1954)
óleo sobre tela, 162 x 97 cm
Hermitage, São Petersburgo
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Nick Botting (Inglaterra, 1963)
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Geneviève Cacerès (1923-1982)
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Flores, ilustração de B. Midderigh Bokhorst.–
Só não ama a Primavera,
nem lhe vê a luz e a cor,
quem nada mais considera
nem acredita no amor.
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(Alberto Fernando Bastos)