Segredo
Henriqueta Lisboa
Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.
Henriqueta Lisboa
Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.
Na Biblioteca, c. 1927
Jean Edouard Vuillard (França, 1868-1940)
óleo sobre tela
Há três semanas li um artigo no New York Times que me deixou perplexa. No alardeado ocaso dos livros impressos, há um nicho nas casas editoriais americanas em pleno desenvolvimento: livros que ensinam a decorar a sua casa com LIVROS. Mireille Silcoff no artigo intitulado On their deathbed, Physical Books have finally become Sexy nota que há agora um nicho de grandes livros, do gênero Coffe-table books, livros em edições caras com muitas fotografias usadas em geral para decorar mesas de centro, promovendo a decoração com esses itens [livros] que dentro em pouco estarão em extinção.
Sempre soube que livros são e eram decorativos. No mercado de antiguidades/decoração muito se vendeu livros bem encadernados, em couro, com dorsos coloridos, a metro. Livros cujo valor do conteúdo era quase nulo (pelas mais diversas causas: grafia antiga, novelas fracas, gramáticas antigas, teorias científicas ultrapassadas, romances para moçoilas e assim por diante) mas se em boas e elegantes encadernações, esses livros eram há muito favoritos dos decoradores. O valor decorativo de uma parede cheia de livros bem cuidados é enorme. Fala de cultura e sofisticação.
Mas o que me causou espanto, foi a impressão de livros explicando como decorar a casa com livros: uma meta-decoração. Inacreditável. Vocês não acham?
–
–
Rolo sai no dia dos namorados, ilustração de Maurício de Sousa.–
“Meu bem” — frasinha sem cor
que, assim, nada significa.
Nos lábios do meu amor,
que amor de frasinha fica!
–
(Eno Teodoro Wanke)
–
Adeus, ilustração de A. E. Marty.–
Saudade… sombra, fantasma!
Coisa que bem não se explica:
— Algo de nós que alguém leva.
— Algo de alguém que nos fica!
–
(Soares da Cunha)
Leitora nº 19, 2012
Darren Thompson (EUA, 1968)
Óleo sobre madeira, 61 x 76 cm
www.dtfineart.net
Antonis Samarakis
–
Chuva, ilustração Taro Semba.–
Chuva fina, eu te bendigo;
com teu jeito de tristeza,
és a alegria do trigo,
que põe fartura na mesa.
–
(Jaci Pacheco)
Pedro Weingärtner (Brasil, 1853 – 1929)
óleo sobre tela
Coleção Particular
“Os dançantes continuavam no compasso marcial da polaca, executando variadas figuras, ora desenhando meias-luas, ora separando-se em alas, marchando frente a frente, ora fazendo evoluções de homens e mulheres, separados, para se reunirem depois de diferentes voltas. Os movimentos eram tardos e pesados; dentro de sapatos grossos e ferrados, batendo fortemente os pés no assoalho, arrastando-se com esforço, faziam um barulho seco, enorme, que dominava as vozes dos instrumentos. Quando a contradança parava, os pares voltavam-se num mesmo instante como por uma combinação mágica, e todos livres se moviam vagarosamente, procurando os bancos encostados às paredes das salas ou aos cantos das janelas. Muitos saíam até ao terreiro, para se refrescar; namorados passeavam ali no escuro, abraçados; velhos fumavam o seu cachimbo, resmungando conversas preguiçosas, até que de novo a música dava o sinal e todos voltavam à sala, em ordem, sem o menor embaraço, passando a dançar automaticamente, de charuto ou cachimbo ao queixo e chapéus na cabeça, enquanto as mulheres amarravam lenços ao pescoço, por causa do suor que lhes escorria da fronte.”
Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.
Ilustração, desconheço a autoria.
– “Não há mãe melhor que a minha”
diz a filha à mamãezinha.
E a mãe, sorrindo: – “Filhinha,
melhor que a tua era a minha”…
(Lia Pederneiras de Faria)
Ilustração de Frederick Richardson, 1975.
Tão pequenino e, no entanto,
traduz o amor mais profundo;
que nome existe, mais santo,
do que o teu, mãe, neste mundo?
(Cecília Cerqueira Cavalcanti)
Ilustração de Frank Xavier Leyendecker.
Maria Thereza de Andrade Silva
Veio da noite, em voo palpitante,
Perder-se na quietude desta sala.
Num bailado letal e delirante,
Cresta na luz as asas cor de opala.
Voa; já nada enxerga o olhar faiscante.
Ama a luz, e essa luz há de queimá-la.
E, enquanto houver calor, estranha amante,
É cega e embriagada está… Deixá-la!…
Mas brandamente a luz se extingue, e morre…
— Que novo ardor as asas lhe percorre,
Para que dance ainda, alucinada!
Deixá-la. É cega! Que lhe importa a chama?
Inda sente o calor perdido, e ama,
E voa em torno à lâmpada apagada!
Em: É primavera … escuta. de Maria Thereza de Andrade Silva, Rio de Janeiro:1949, p. 93