Ilustração Phyllis M. Purser.
Tão lindas, de várias cores,
vivem na terra e no ar:
as borboletas são flores
que aprenderam a voar.
(Edmilson Ferreira Macedo)
Ilustração Phyllis M. Purser.
Tão lindas, de várias cores,
vivem na terra e no ar:
as borboletas são flores
que aprenderam a voar.
(Edmilson Ferreira Macedo)
Ilustração de Jenny Keith Hughes. [www.jennykeithhughes.com]
Hafiz (Pérsia, 1320-1389)
Uma vez
Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos
Dois ursos se sentaram em silêncio
Em uma bela paisagem
Observando o sol se por
E se sentindo profundamente gratos
Pela vida.
Mas, depois de algum tempo
Uma conversa interessante começou
Versando o tópico da
Fama.
Um dos ursos disse,
“Você ouvir falar do Rustam?
Ele ficou famoso
E viaja de cidade em cidade
Numa jaula dourada;
Ele faz exibições para centenas de pessoas
Que riem e aplaudem
Suas piruetas
No circo.”
O outro urso pensou
Por alguns segundos
Então começou
A chorar.
Tradução Ladyce West, do inglês
Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.
Nakamura Daizaburo (Japão, 1898-1947)
Haruki Murakami
Cartão postal, virada do século XX.
Bernardino Lopes
Andorinha que fizeste
Ninho em minh’alma, uma tarde,
E que andas no azul celeste
Cantando e fazendo alarde;
Que, em horas de forte calma,
Bebeste das crenças minhas,
Fazendo assim de minh’alma
Ribeirão das andorinhas;
Dize lá: por que não voltas
Ao teu recôndito abrigo,
Peregrina de asas soltas
Que pelas nuvens eu sigo?
Por que vives pelos ares,
Oh! alma de pirilampo!
Quando há frutos nos pomares
E tanta flor pelo campo?
Foge do pranto e do frio,
As leves penas abrindo…
Olha o teu ninho vazio,
Sonho emplumado, e vem vindo…
Vem, recortando os espaços,
Num saudoso devaneio,
Cair tremente em meus braços,
Dormir tranquila em meu seio!
Ah! já não vens, de asa espalma,
Saciar-te em mim, como vinhas…
Era então esta minh’alma
Ribeirão das andorinhas!
(Val de Lírios, Laemmert & Cia., Rio de Janeiro, 1900, pág. 119-121)
Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional: 1951. pp: 132-133.
[DETALHE]
Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano
Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)
Afresco, 340 x 960 cm
Palazzo Publico, Siena, Itália
Com um título que mais lembra compêndios científicos para a sala de aula, O corpo humano de início não me atraiu. Mas vinha assinado por Paolo Giordano, autor de um dos mais sensíveis livros que li em 2010, A solidão dos números primos. Além disso, aprendi, há algum tempo, a desconfiar de segundos livros de autores cujas primeiras publicações achei espetaculares. Em geral, as segundas tentativas desapontam. Por isso posterguei a leitura. Mas felizmente meus medos não se realizaram dessa vez. Pelo contrário, Paolo Giordano consegue mais uma vez, abordar temas que invadem o nosso dia a dia, de uma maneira sensível, e por um ângulo inusitado.
Sim, esse é um livro de guerra. Guerra no Afeganistão. Mas não se trata do exército americano, como a situação poderia nos levar a crer. Trata-se de soldados italianos que fazem parte dos esforços da OTAN naquele país. E em lugar da narrativa se concentrar na guerra, ela nos mostra o dia a dia de um grupo de soldados, e não só acompanha os homens desde antes da guerra, como lá, no estrangeiro, em local minado por perigo. Somos expostos aos dilemas diários desses homens, jovens, sem muita experiência, como se comportam e se exasperam, o que os limita física e emocionalmente. Daí, o corpo humano, essa máquina orgânica que nos prende, limita, nos trai e suporta.
Paolo Giordano surpreende mais uma vez por conseguir retratar a angústia pessoal de cada um de seus personagens, cada qual com seu problema íntimo — aqui, neste livro, problemas deixados para trás nos vilarejos ou cidades de onde vieram — com sensibilidade e distanciamento. Isso permite o leitor de se interessar pelo que pode acontecer a cada um, com o que parece ser um envolvimento mínimo. No entanto, quando finalmente um evento muda radicalmente a perspectiva dos soldados, é um choque perceber o quanto nos envolvemos com cada um deles e o quanto sabemos de seus desejo e frustrações e o fervor com que torcemos para que cada consiga ultrapassar os obstáculos físicos e emocionais.
Paolo Giordano ©Niko Giovanni Coniglio
Não considero O corpo humano um livro de guerra nos moldes tradicionais. Ele é um livro sobre o ser humano, seus desejos, sonhos, experiências, necessidades, desilusões, decepções: emocionais e físicas. Ele nos mostra como ou porque chegamos a atos de audácia, fazemos juízo, nos mostramos corajosos, decididos e firmes. E ele nos mostra a chama, o piloto de energia que, no âmago, se incendeia quando cada um de nós age, decide, se droga, se perde, se desintegra, se constrói. Por isso mesmo Paolo Giordano passa a ser para mim, um dos autores que melhor se dedica ao entendimento do ser humano.
Recomendo a todos, amantes ou não dos livros de guerra
Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano, c. 1330
Coelhinho Tibúrcio com cenoura, ilustração Belli Studio.
Leonel Neves
Com quatro patinhas, o rabo curtinho,
Orelhas compridas, peludo – é verdade –
E sempre a mexer o nariz quando come,
Louco por cenouras e alfaces, louquinho,
Há tanto no campo como na cidade.
O nome não digo. Qual é o seu nome?
Em: Bichos de trazer por casa: poemas para crianças, Lisboa, Livros Horizonte: 1981, 3ª ed.
Homero Massena (Brasil, 1886-1974)
óleo sobre tela
Mauro Mota
Libertos da trouxa tremem
as calças e os paletós.
Doem na pedra pano e carne
sem anotações no rol.
Canto azul da lavadeira
lavado na ventania.
Mistura de corpos gastos,
de sabão, espuma e anil.
O suor da blusa operária
(chora o lenço de Maria)
Transita o amor pela anágua.
geme o lençol de agonia.
O sonho dorme na fronha,
a camisa precordial,
nódoas da fome da criança
na toalha da mesa oval.
Nas águas têxteis do rio,
há sabor de sangue e sal.
Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 80.
História de Paulo e Virgínia em Postais
Data: 1888 — Liebig Company, Bélgica
Por vezes me perguntam se escolho primeiro a imagem ou o texto. Não há regra… É uma questão de associações, de imagem puxando imagem. Como neste caso aqui. Há algum tempo selecionei um trecho de Pedro Nava, do primeiro volume de suas memórias, Baú de Ossos. O trecho ficou gravado entre as minhas “seleções” — uma coisa meio século XIX que vez por outra alimento — : um caderno com passagens preferidas de textos. É claro que com Pedro Nava corri sempre o risco de selecionar quase todos os seis volumes de suas memórias, tal a riqueza de sua prosa. Passou o tempo. De repente, procurando na internet por imagens que nada tinham a ver com as que coloquei acima, me encantei com a seleção de postais belgas retratando a história de Paulo e Virgínia. Uma breve pesquisa me levou a procurar o texto selecionado e …Voilà, temos uma postagem por associação. Mas o intervalo entre texto e imagem pode ser longo…
“Ai! de mim, que mais cedo que o amigo também abracei a senda do crime e enveredei pela do furto… Amante das artes plásticas desde cedo, educado no culto do belo pelas pinturas das tias, das primas e pelas composições fotográficas do seu Lemos, amigo de meu Pai — eu não pude me conter. Eram duas coleções de postais pertencentes a minha prima Maria Luísa Paletta. Numa, toda a vida de Paulo e Virgínia — do idílio infantil ao navio desmantelado na procela. Pobre Virgínia, dos cabelos esvoaçantes! Noutra a de Joana d’Arc, desde os tempos de pastora e das vozes, ao das cavalgadas com suas hostes e à morte sobre a fogueira de Ruão. Pobre Joana, dos cabelos em chama! Não resisti. Furtei, escondi e depois de longos êxtases, com medo, joguei tudo fora. ”
Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 272.