Ilustração, Marcella Cooper
“A calúnia é como azeite caído no pano; quanto mais se esfrega, para que ele saia, mais a mancha se estende.”
Mlle De Lespinasse
Julie de Lespinasse
Mlle de Lespinasse
(1732-1778)
Mlle De Lespinasse
Julie de Lespinasse
Mlle de Lespinasse
(1732-1778)
Dança no harem
Giulio Rosati (Itália, 1857-1917)
óleo sobre tela
“Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco ao fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas vejo agora o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio. Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.”
O conto da aia
A leitura
Bernard Charoy (França, 1931-2024)
óleo sobre tela, 74 x 61cm
Meu grupo de leitura, Ao Pé da Letra, escolheu para leitura longa — aquele livro que é votado no final de novembro para ser debatido no encontro de janeiro — Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, traduzido por Carolina Selvatici [Intrínseca:2022]. Grande sucesso mundial. Para mim, não funcionou muito bem. Raramente resenho alguma coisa de que não gosto. Talvez tenha havido falta de empatia pela história do jeito que foi contada. No entanto, faço uma exceção hoje para algumas observações que se aplicam aqui e que podem ser levadas a outros casos.
A história se passa no finalzinho dos anos 90 e na primeira década do século XXI, na França. Ela se concentra na vida cotidiana de Violette Toussaint, uma mulher que na abertura do livro beira os cinquenta anos. Ela é zeladora do cemitério numa pequena cidade francesa. Teve infância difícil, órfã, mal sabe compreender um texto escrito. Jovem, casa-se com Philippe Toussaint. Ele é um conquistador de mulheres, não gosta de trabalhar e vem de uma família com alguma aspiração social. Violette não se importa de trabalhar e manter esse bon-vivant em sua vida. Para seguir as peripécias deste casal, a autora entrelaça a vida deles com a de outro casal mais velho que conhecemos através de um diário deixado para trás, depois que ela morre. Esse diário traz, por sua vez, outras tantas informações, relatos de aventuras, decisões acertadas ou não da pessoa que escreve, que são desnecessárias para a trama. Além disso, conhecemos, fora deste diário, na narrativa principal diversos outros personagens tangenciais que nada têm a ver com o eixo da trama. A narrativa não linear é usada para introduzir pormenores da vida destes coadjuvantes e contribui para inserir incerteza ao leitor na ordem dos acontecimentos. Há um terceiro personagem importante: o cemitério. Este é um jardim, calmo, cuidado pela protagonista, lugar de reflexões dos visitantes e dela, que serve de contraponto ao caos das vidas na cidade, fora dos portões que o resguardam. É um lugar mágico que também tem alguns personagens invulgares além dos onze gatos que o habitam.
Há através dessas páginas também o escancarado desejo de prover o leitor com frases de efeito, passando por poéticas, na maioria inconsequentes, mas que aparentam profundidade. Muitas delas dão nome aos capítulos do livro, mas podem estar também distribuídas através do texto. A mais popular delas, de acordo com a Amazon, até o dia de hoje, 1370 pessoas, marcaram a seguinte: “Temos que aprender a oferecer nossa ausência àqueles que não entenderam a importância da nossa presença.” E, segundo lugar, com 1062 pessoas ressaltando no texto: “Ninguém nunca diz que podemos morrer de tantas vezes que nos sentimos chegar ao nosso limite.” Ou como as que marquei que iniciam capítulos: “O tempo aniquila a vida. O tempo aniquila a morte.“; “Uma lembrança nunca morre, apenas adormece.” Elas me lembraram frases feitas que encontramos em postagens das redes sociais como guias do bem viver e que muitas vezes, passam por poesia.
Há tempos imagino como seria bom termos editores, à moda antiga, ao estilo de Robert Gottlieb ou conhecidos por darem forma, interferindo no texto, sugerindo mudanças para escritores que ficaram famosos. Gottlieb foi editor de Joseph Heller, John Le Carré; enquanto Maxwell Perkins ficou famoso por sugerir mudanças em mais de um livro de Scott Fitzgerald, trabalhando também com Ernest Hemingway. Outros editores, contribuindo proativamente nos textos, tiveram sucesso em transformar alguns escritores em início de carreira, em clássicos. Com o aumento de pessoas escrevendo e a diminuição de editoras publicando desconhecidos, tendência mundial hoje, há mais escritores autopublicando aqui e no resto do mundo. Com isso surgiu a profissão do ‘leitor crítico’ que, por uma quantia previamente estipulada, procura melhorar os textos, mostrando falhas na coerência ou plausibilidade, na estrutura ou demais problemas. Mas seus conselhos, sempre bons, se forem profissionais competentes, não têm a força daqueles que investidos monetariamente nas obras, querem o sucesso do que publicam. Água fresca para as flores poderia ter-se beneficiado de um bom editor à moda antiga. Com uma escrita verborrágica, suas 480 páginas poderiam ser reduzidas a um pouco mais da metade. Por que? Porque há muita informação desnecessária. Se alguém sai de férias, por exemplo, somos expostos à lista de todos os itens colocados nas malas de viagem; se acompanhamos o dia a dia no cemitério, somos expostos a aulas de jardinagem que não têm qualquer importância para a trama. Tudo isso para quê? Realismo? Ambientação? Para mim, perda de tempo.
Água fresca para as flores parece ter sido escrito para a categoria jovem adulto. Foi um grande sucesso na Europa, e pelo que consegui perceber por minhas companheiras no grupo, um livro agradável, de que gostaram, ainda que longo. Nem todas essas leitoras dariam a nota baixa [duas estrelas de cinco] que dei. Sei que é um livro popular. Afinal ganhou dois prêmios na França: Maison de la Presse, 2018 (um prêmio dedicado a jovens autores) e no ano seguinte, 2019, ganhou o Les Livres de Poche Reader’s Prize, que é dado pelos leitores. Então agradou muito. Se você está querendo simplesmente passar o tempo, investir numa leitura inconsequente mas agradável, esse livro deve estar na medida. Mas se você gostaria de uma leitura mais complexa, inesquecível, este não é o seu livro.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
O velho violonista, 1903-04
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela
The Art Institute of Chicago
Em: Água fresca para as flores, Valérie Perrin, Rio de Janeiro, Intrínseca: 2022, p. 60
Rei Artur e seus cavaleiros celebrando Pentecostes veem Imagem do Santo Graal, c. 1475
Manuscrito encomendado por Jacques d’Armagnac, Duque de Nemours (França,1433-1477)
Folio 610v BNF Fr 116
Biblioteca Nacional da França, Paris
Neste Natal dei para meus sobrinhos, a cada um, uma versão diferente, quadrinhos e história para crianças, de um dos cavaleiros da corte do Rei Artur, recentemente redescoberto pelo historiador e escritor Emanuele Arioli, que lançou o livro Segurant: o cavaleiro do dragão, aqui no Rio de Janeiro [Vestígio: 2024] em meados deste ano, cuja palestra assisti encantada na Livraria da Travessa. Eu havia lido a versão ‘para adultos’ assim que cheguei em casa mas separei em novembro alguns livros para reler nesta semana entre o Natal e o Ano Novo e esse volume foi um dos escolhidos.
Há dezesseis anos escrevo neste blog. Os leitores sabem de minhas preferências, até mesmo da leitura de história medieval como passatempo para o momento em que me canso da ficção. Com frequência digo a meus alunos que apesar de amar minha especialidade, arte europeia moderna [1863-1945] é possível, que se tivesse que fazer tudo de novo, me tornasse medievalista. Mas eles também já me ouviram mencionar outras opções que igualmente me fascinam, como o século XVII na França, com Luís XIV, o século de ouro na Holanda…. e provavelmente não me levam mais a sério! Tudo pode me encantar. A gente ama aquilo que conhece. Ai, ai, são tantas fases, tanto que ler, aprender, absorver até que se torne um conhecimento que respiro e transpiro… difícil escolha! Mas a época medieval também é problemática, mesmo que se divida em Alta e Baixa Idades Médias. Há séculos e séculos de intrincadas briguinhas, arrufos, compromissos de casamento quebrados, mortes, assassinatos, traições entre herdeiros, centenas de cidades-estado cada uma do tamanho de um botão de camisa, com regras de comportamento para diferentes classes sociais, para cidadãos ou não cidadãos, leis que variam em poucos quilômetros de distância, restrições religiosas fora e dentro da própria Igreja, enfim, um mapa do ocidente como uma colcha de fuxicos em que cada retalho representa um domínio com regras próprias. Esse mundaréu sempre me intimidou pela quantidade de informação a ser guardada.
Minha sedução pela Idade Média começou quando cheguei aos Estados Unidos ainda muito jovem. Apesar de ter tido sólida base gramatical da língua inglesa, essa não tinha sido minha língua estrangeira preferencial. Francês, adquirido através de uma sequência de anos na Aliança Francesa, poderia até ser considerada uma quase segunda língua, porque comecei a aprendê-la aos dez-onze anos. E como meus pais eram daquela geração que lia francês fluentemente, não era raro esbarrarmos em livros franceses em casa. Em inglês eu não tinha fluência e precisava aumentar o vocabulário urgentemente se quisesse passar no Toefl para completar meus estudos. Poucos meses depois de chegar a Baltimore, entrei para um grupo de leitura em que a maioria das pessoas era ligada à universidade Johns Hopkins. Foi uma grande batalha ler os livros escolhidos. Mas enfrentei e ainda li mais do que os que eram pedidos. Desse primeiro ano de experiências em um grupo de leitura, algo que eu não conhecia nem havia ouvido falar dessa maneira de encontrar amigos leitores, dessa época de adaptação à força ao país — e depois disso, sempre frequentei grupos de leitura não importava em que estado ou cidade eu morasse –, três livros, desse primeiro ano, me marcaram profundamente: Of Mice and Men, de Steinbeck, The French Lieutenant’s Woman, de John Fowles (que depois me levou a ler The Magus), e The Once and Future King de T.H. White.
A imensa fantasia de The Once and Future King sobre o Rei Artur, Merlin e demais personagens da Távola Redonda me seduziu com grande facilidade. Lembremos que a essa altura eu ainda não era uma historiadora, e havia deixado no Brasil um curso de letras em Literatura Francesa na UFF e dois anos de história da arte com ênfase em semiótica, percepção, filosofia da arte e afins. Reli The Once and Future King ainda uma vez no mesmo ano em que o conheci. Daí por diante li diversas lendas medievais. Mas a lenda do Rei Artur sempre terá para mim esse gostinho especial, de achado miraculoso. E isso foi muito antes de qualquer versão no cinema.
Eis que estou lendo também, o livro Eu vou, Tu vais, Ele vai de Jenny Erpenbeck, que está sendo uma leitura maravilhosa e devo ainda acabá-la antes do final do ano oficial, apesar de tê-la começado no dia de Natal. Uma das coisas que me encanta nesse livro de Erpenbeck são as referências literárias e musicais que encontramos logo no início da obra: alusões a leituras clássicas e a composições musicais. Se eu já era uma leitora curiosa, no tempo em que fazia uma lista para depois procurar na enciclopédia ou quando munida do Petit Larousse, que sempre tive ao meu lado nas leitura, procurava um mínimo de informação sobre lugares, personagens históricos ou literários; depois da internet sou compulsiva em consultar dados às vezes até mesmo para verificar se minha memória não me trai. E diga-se de passagem as leituras no Kindle, onde no momento preciso em que encontramos uma palavra, um fato, menção de um livro, um local, podemos colocar o dedinho em cima da palavra e imediatamente obter naquele mesmo minuto, alguma informação sobre o que não se conhece, é uma das grandes contribuições ao conhecimento de todos nós, à educação, ao alargamento de nossas visões.
Pois dentre as dezenas de alusões literárias em Eu vou, Tu vais, Ele vai esbarrei numa referência a Tristão do romance medieval Tristão e Isolda, lenda, que até o renascer da fantasia como uma fatia das obras de ficção contemporânea, andava um tantinho esquecida. A menção é breve, pelo menos por enquanto; ainda não terminei a leitura, mas aparece assim: “Como Brancaflor, Richard pensa, a mãe de Tristão.” [84] Parei para pensar Brancaflor, não me lembrava que esse era o nome da mãe de Tristão. Mas cheguei a saber o nome da mãe dele? Deveria saber? Fui atrás. A mente da gente é estranha. Associações às vezes são esdrúxulas. A primeira coisa que me veio à mente, quando li o nome dessa senhora, foi: “Brancaflor, bonito nome, todo junto, quando poderia e deveria ser escrito separado. Como o nome daquela mulher aqui do Rio de Janeiro, que mandou matar o marido, que tinha muitos filhos adotivos, mais de dez, e que esteve nas manchetes da televisão aqui no Rio de Janeiro: Flordelis.” Vai entender a cabeça da gente. Enfim o romance de Tristão e Isolda é uma lenda medieval, também do ciclo Arturiano. Isolda uma princesa da Irlanda. Para mim, esse romance e mais dois romances famosos, também fizeram parte do meu dia a dia, de outra forma: foram um conjunto de três gravuras do século XIX que decorava na minha casa, na Carolina do Norte, uma pequena parede na entrada de nossos aposentos, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e Paulo e Virgínia: uma lenda medieval, um romance renascentista e um casal francês do final do século XVIII. Essa trinca foi a leilão antes de nos mudarmos para o Rio de Janeiro. Isso é outra história, curiosa, mas para outro momento.
Tristão e Isolda, 1902
Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1852-1922)
Óleo sobre tela, 128 x 147 cm
Coleção Particular
Houve uma grande volta às lendas medievais nas artes do século XIX, principalmente na Inglaterra, iniciada com o grupo de poetas e pintores Pré-Rafaelitas em meados do século. Eles exploraram bastante o passado folclórico e contos medievais. Mais tarde, no final, do século XIX, já por toda Europa, a pintura histórica abraçou temas românticos com ardor. Mas esse também é um assunto para outras conversas, pontuações soltas, papo jogado fora, no final de um ano que se encerra. Certamente voltarei a alguns desses temas.
O que me levou a pensar em sincronicidade foi perceber e rememorar tantas histórias arturianas à minha volta, em tão pouco tempo. Referências: dos presentes de Natal que dei, às minhas primeiras leituras no Estados Unidos, à menção de Tristão e Isolda no livro de Erpenbeck, às gravuras no recluso hall de entrada, tudo parece me manter nesse passeio literário circular. Não estou conseguindo deixar a Idade Média de lado. O tema está no que leio e relembro. Ah, sim, esqueci de mencionar, um fac-símile da lenda de Tristão e Isolda, de uma publicação inglesa do século XVI, ilustrada por xilogravuras, foi o primeiro presente que meu marido me deu. Ele certamente conhecia meus interesses e soube me conquistar.
Boas leituras!

Não sei se as pessoas andam com pouco tempo, mas algumas chegaram a me contatar, lá por volta de setembro, para que eu desse algumas dicas de bons livros que fossem curtos. Inicialmente pensei em livros com 250 ou menos páginas. Fiz um pequeno apanhado. Mas isso levou a mais pedidos de livros de menores tamanhos, quase contos.
Selecionei alguns que tinha aqui em casa. Como essas conversas haviam sido através do meu Instagram, [@escritora.ladycewest] fiz alguns sete vídeos. Tive sucesso. Na verdade mais sucesso do que imaginei. Mas foram poucos os vídeos. Depois de uma vasta pesquisa, agora tenho aproximadamente uma série de uns setenta livros. Esses colocarei no Instagram e aqui no blog a partir de 2025. E colocarei minhas opiniões sobre eles.
Mas hoje, aproveitando que o Natal se aproxima, resolvi colocar aqui aqueles livros que já mencionei que são pequenos e de excelente qualidade. Não cheguei a colocar todos os vídeos no blog. Francamente sou muito sem experiência digital e isso tudo, que as pessoas parecem fazer brincando, para mim, leva muito tempo.
Já tenho uma poesia por dia no meu Instagram. Se vocês quiserem ver é o mesmo Insta daí de cima. Mas essa exposição ainda não faz parte de mim. Ainda não gosto. Sei que tenho que mudar. Nós todos temos. Mas não é fácil. Aqui vai então a lista dos livros de que já falei anteriormente.

1 – O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman, Editora José Olympio, 112 páginas
O papel de parede amarelo é um clássico da literatura feminista publicado pela primeira vez no Brasil.
Para tratar a esposa fragilizada, um médico aluga uma fazenda histórica, na tentativa de criar ali um retiro de recuperação emocional. O lugar é encantador, com uma bela mansão colonial e jardins amplos e sombreados. Tudo parece compor o cenário perfeito. Mas algo de muito estranho se passa naquela casa… especialmente no quarto em que o casal se instala, com o sombrio papel de parede amarelo.
Desde sua publicação, em 1892, o drama narrado por Charlotte Perkins Gilman tem sido categorizado como uma narrativa de aberração mental, uma história de terror ao estilo de Edgar Allan Poe ― não só pela temática, mas pela qualidade textual. Os críticos contemporâneos observam, no entanto, que O papel de parede amarelo apresenta elementos que vão além da fantasia ou do delírio, fazendo com que este livro, como afirma Elaine R. Hedges, no posfácio à presente edição, seja “um dos raros textos literários de uma autora do século XIX que confrontam diretamente a política sexual das relações homem–mulher, marido–esposa”. Talvez seja esse o motivo pelo qual o texto original tenha sido rejeitado por alguns editores até sua publicação na New England Magazine .
O fato é que a autora, grande intelectual feminista e professora, que atinge seu ápice literário neste conto, foi responsável por uma produção extremamente relevante de textos não ficcionais sobre a condição da mulher em seu tempo. Por ter vivido sob depressão durante um período e haver recebido tratamento psicológico duvidoso, é possível perceber elementos autobiográficos na história que temos em mãos. Quando nos aproximamos da personagem feminina de O papel de parede amarelo , uma mulher deprimida e submetida a um tratamento impositivo e infantilizador, percebemos que a incômoda estranheza sentida por ela tem suas causas em algo além da casa e das aberrantes visões despertadas pelo papel de parede amarelo. E o estranho, como observou Freud, é aquilo que nos é mais familiar.
2 – A casa de papel, Carlos Maria Dominguez, Editora Francis, 104 páginas
Na primavera de 1998, Bluma Lennon, uma professora de Cambridge, está lendo um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A linha da sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória e que lhe era agora devolvido. Intrigado, ele parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objetivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro, mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma. A casa de papel é uma fábula sedutora sobre o amor desmesurado pelas bibliotecas e pela literatura. Uma envolvente intriga policial e metafísica que envolve o leitor numa viagem de descoberta e deslumbramento perante os estranhos vínculos entre a realidade e a ficção.
3 – O fuzil de caça, Yasushi Inoue, Editora Estação Liberdade, 112 páginas
No Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa contemporânea.
Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.
O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.
4 – Não é um rio, Selva Almada, Editora Todavia, 96 páginas
Com sua prosa precisa e econômica, a argentina Selva Almada é uma das vozes mais originais da literatura de língua espanhola contemporânea. Seu universo também é peculiar: a autora não fala da cosmopolita Buenos Aires. Seu ambiente é o mundo interiorano, onde vilarejos quase esquecidos no mapa abundam em histórias em que a violência, os laços familiares e velhos costumes ainda são decisivos. É o caso deste novo romance, um livro que trata da amizade e seus segredos. Durante uma pescaria entre três homens, a complexidade com que se forjam os afetos é revelada como o próprio curso de um rio. Enero Rey e Negro levam Tilo, o filho adolescente de Eusébio (o amigo morto dos dois), para pescar. Enquanto bebem vinho, cozinham, falam e dançam, eles lutam com os fantasmas do passado e do presente. Esse momento íntimo e peculiar que conecta a trajetória desses três homens também os liga à vida dos habitantes locais nesse ambiente cercado de água e regido por suas próprias leis. Há perdas e mortes prematuras. Mas há também a teimosa vitalidade da natureza: um matagal coberto de árvores centenárias, animais, pássaros; o rio trazendo vida nas suas entranhas; as gentes nascidas e criadas nessa paisagem que a protegem com unhas e dentes contra os intrusos. Humano, mas ao mesmo tempo animal e vegetal, este romance flui como uma conversa entre seres que se amam.
5 – Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard, Editora Zain, 96 páginas
Século XVII, à época do rei Luís XIV, um aclamado mestre da viola da gamba, o senhor de Sainte Colombe, vive para a música. Homem de poucas palavras, de constantes ataques de cólera, dedica-se incansavelmente ao seu instrumento, isolado em sua cabana. Desde a morte da esposa, para quem compusera em homenagem o Túmulo dos lamentos, vivia sozinho com as duas filhas, a quem ensinara a música desde muito cedo. Recebe, certo dia, a visita de um jovem músico de dezessete anos, o senhor Marin Marais, que deseja estudar com o mestre e aprender os segredos da viola da gamba. Estes dois músicos com visões opostas de mundo refletem sobre a vida e a arte em uma trama brilhante na qual ficção e realidade se misturam neste que é um dos mais conhecidos livros de Pascal Quignard.
6 – O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand, 128 páginas
Escrito em estilo direto e claro, O Último Amigo é também um retrato cruel do Marrocos dos anos de repressão e das desilusões que se seguiram. Além dessa paisagem humana e política, e até a reviravolta final, O Último Amigo deixa entrever uma sociedade complexa e contraditória, arcaica e moderna. Mesmo quando se é exilado do Marrocos, volta-se lá para morrer.
7 – O Carrasco que era santo, Josué Montello, Editora Nova Fronteira, 102 páginas
Com a morte do carrasco, o rei ordena que Ludgero assuma o cargo. Inconformado com a pena de morte, ele e seu amigo Libório armam um plano de fuga para os condenados. Lenda medieval narrada por uma contadora de histórias, que diverte e ao mesmo tempo provoca sérias reflexões.
Já estou me preparando para postagens o ano inteiro sobre livros pequenos. Aguardem.