Resenha: “Regras de Cortesia”, por Amor Towles

18 07 2019

 

 

 

stella_brooklyn_bridgeA ponte de Brooklyn: variação sobre um tema antigo, 1939

Joseph Stella (Itália/EUA, 1877 – 1946)

óleo sobre tela, 178 x 107 cm

The Whitney Museum of American Art, Nova York

 

 

Encantada com Um cavalheiro em Moscou, do escritor americano Amor Towles, procurei seu primeiro livro, Regras de Cortesia, publicado sem grande fanfarra, no Brasil, em 2012, pela Editora Rocco, com tradução de Léa Viveiros de Castro.  Temerosa dessa leitura não chegar aos pés do feitiço da anterior, fui devagar à fonte, li outros autores no intervalo, para poder apreciar a obra de maneira mais distante.  Levei um pouco mais de tempo para sucumbir ao charme da voz narrativa de Amor Towles neste livro.  Mas acabei a leitura tão encantada quanto com o livro anterior. E hoje, não consigo me decidir qual deles mais me agrada.

Amor Towles traz para seus textos imagens novas em linguagem sedutora.  Regras de Cortesia se passa em um único ano. Cobre do Ano Novo de 1937-38 a dezembro de 1938.  A personagem principal, aquela que me fascinou, com a qual reconheci o verdadeiro espírito da nova-iorquina típica, cavadora, trabalhadora, desenvolta, diligente,  buliçosa, filha de imigrantes que acredita na possibilidade de crescer e subir na vida, é Katey Kontent que, vinda de Brighton Beach em Brooklyn, trabalha como  secretária numa firma de advocacia em Wall Street e mora na pensão da Sra. Martingale, junto a outras jovens como ela.  Katey está alerta para todas as oportunidades de crescimento. Neste fim de ano de 1937, está acompanhada da amiga, Eve Ross, jovem do interior do país, filha de pequenos fazendeiros, que também sonha em escapar do destino que lhe parece inevitável na cidade natal, fugindo para Nova York, a tentar sorte e fortuna.  Juntas passam uma das mais interessantes comemorações de Ano Novo, quando conhecem Theodore (Tinker) Grey, rapaz de família abastada, que ambas reconhecem como um bom partido, ainda que provavelmente fora de suas possibilidades sociais.  Temos aí o trio de personagens que constrói a história de Regras de Cortesia.

 

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Mais do que a trama entre esses personagens, Amor Towles delineia uma Nova York excitante e cheia de possibilidades para quem consegue, como Katey Kontent,  navegar Manhattan de cima abaixo, dos bairros boêmios aos ricos fronteiriços ao Central Park.  Jovem e energética, Katey nos leva aos quatro cantos da ilha, passando por mais de um emprego, por uma gama de conhecidos das classes abastadas, através das quatro estações do ano.  Ao final de 1938 encontramos Katey no alto escalão de sociedade nova-iorquina como secretária da Condé Nast.  Um ano extraordinário para os três personagens cujas vidas se entrelaçam.

 

 

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Regras de Cortesia é um retrato de uma época, o retrato vibrante da grande cidade americana, no desenvolvimento que viria a torná-la a capital mundial depois da Segunda Guerra.  Através de Katey, Ema, Tinker e seus companheiros temos a sensação de rever o final da década de 1930, pós-Depressão e testemunhar o espírito que melhor define a maneira de ser nova-iorquina. Um excelente retrato do espírito da época, ou Zeitgeist. Leitura fartamente recomendada para quem gostaria de presenciar o espírito do que levou ao desenvolvimento de Nova York,  da segunda metade do século XX e dos EUA.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

 





Resenha: “As redes da ilusão” de Amy Tan

4 07 2019

 

 

 

Painting04-600x457Aldeia à beira de rio, em Burma

U M.T. Hla (Burma, 1874 -1946)

Aquarela,  21 x 16cm

 

 

Comecei a leitura de As redes da ilusão de Amy Tan [tradução de Ana Deiró] de maneira hesitante: um fantasma, como narrador, não me parecia interessante.  Grande erro.  A alma morta que nos conta a história do livro tem um grande senso de humor, e não foram poucos os momentos de riso solto durante o convívio com essa protagonista.  Este é o primeiro livro de Amy Tan que leio.  Chego atrasada à famosa escritora de grandes sucessos.  Mas descobri que, entre seus seguidores, esta não é uma obra favorita.  Entendo.  A leitura deste volume me pareceu longa, com muitos momentos em que vi com pesar a falta de um editor que tivesse a responsabilidade de cortar umas cem páginas do total, repletas de detalhes que subtraem do interesse do leitor.

Trata-se da história de um grupo de turistas americanos que viaja a Burma, parando primeiro na China.  A narradora-fantasma seria a guia do grupo, mas morreu antes.  Daí seu interesse, em parte.  É um grupo heterogêneo, típicos ocidentais, americanos, mas poderiam facilmente ser brasileiros, que acreditam na superioridade de seus conhecimentos.  Absorvidos em si mesmos quase não aproveitam as oportunidades que lhes são apresentadas e por descuido de quem não entende a cultura onde se inseriu, fazem os maiores descalabros, causando revolta e aparecendo no noticiário local.  Ainda que a intenção do texto seja mostrar a falta de cuidado com a cultura dos outros que muitos turistas internacionais têm, essas “distrações” são fonte de grande humor e de alguma ponderação sobre o comportamento humano.

 

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Nesse meio tempo somos apresentados a um grupo de nativos da região que acredita,  que, um dia, um ser espiritual branco virá salvá-los. Ao verem os mais básicos e corriqueiros truques de mágica de um dos adolescentes do grupo, esse povo acredita na chegada de seu salvador.  E resolve raptá-lo.  Na verdade, levam o grupo inteiro de turistas pelos caminhos da floresta.  Turistas tão absorvidos em si próprios que não se dão conta de que estão sendo raptados. Para mim esta foi uma das partes mais interessantes da narrativa. De aventura em aventura, chegamos a vislumbrar alguns problemas de excesso de poder da junta militar de Burma, e a falta de respeito aos direitos humanos que ainda prevalece em muitos lugares no mundo.  Achei este desenvolvimento do texto sobre a política local, forçado e inserido para agradar à população americana de origem asiática.  Por mim, não é essa a maneira de se sensibilizar os leitores, ficou fora da cadência anterior, engraçada, quase uma comédia de erros.

 

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Curiosamente As redes da ilusão leva um nome diferente no original em inglês: “Saving fish from drowning” [salvando peixes do afogamento], que se refere a uma pequena passagem no livro, sobre uma lenda  local  que desculpa pescadores de matar os peixes pescados.  Eles pescam os peixes para que não morram afogados.  Quando morrem porque estão fora d’água não resta mais nada senão comê-los ou vendê-los.  Ilustra um ponto importante deste romance, que mostra que muitas vezes ajudamos alguém com as melhores intenções mas não conseguimos salvá-los de seus próprios destinos, como acontece com os turistas neste livro.

No todo, com menos umas cem páginas, este seria um livro recomendável a todos.  Como está, uma colcha de retalhos de aventuras díspares e com a inserção de postulados políticos, acho difícil recomendar a leitura universalmente.  Houve momentos em que do livro fui ao Google, para procurar imagens das cidades, montanhas, lugares descritos.  Isso ajudou a passar os momentos de enfado com um texto que nem sempre parece ter direção.  E é claro, aumentou muito a minha cultura sobre essa região do mundo.  Mas foi preciso um esforço meu, para vencer a prosa prolixa de Amy Tan.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Sobre o sucesso nas artes, texto de Amy Tan

15 06 2019

 

 

 

pintor, al parker, 1959Ilustração Al Parker, 1959.

 

 

“Pensei que em toda minha vida ninguém havia me amado total e desesperadamente. Ah, houve um tempo em que acreditei que Stefan Cheval gostava de mim dessa maneira — sim, o famoso e polêmico Stefan Cheval. Mas isso foi há séculos, pouco antes daquele congressista de pele rosada ter declarado que suas pinturas eram “obscenas e antiamericanas”. Minha opinião? Para ser absolutamente sincera, eu achava que a série de Stefan Liberdade de Escolha, era dramática e clichê. Vocês sabem do que estou falando: os guaches retratando a bandeira americana misturada com bois e vacas, cães mortos por eutanásia, monitores de computador — ou será que eram aparelhos de TV naquela época? Em todo caso, pilhas e pilhas de excessos para mostrar o desperdício imoral. O vermelho da bandeira era cor de sangue, o azul era berrante e o branco da cor de “esperma ejaculado”, de acordo com a descrição do próprio Stefan. Ele sem dúvida não era nenhum Jasper Johns. Entretanto, depois que a obra de Stefan foi execrada, ela foi clamorosamente defendida por grupos de direitos humanos pela ACLU, pelos departamentos de arte das melhores universidades americanas e por todos aqueles tipos liberais defensores das liberdades civis. Permitam-me dizer, foram eles que atribuíram à obra mensagens grandiosas que Stefan jamais havia pretendido. Eles viram as complexidades das camadas significativas, viram como certos valores e estilos de vida eram considerados mais importantes do que outros, e como nós, os americanos, precisávamos do choque da feiúra para reconhecer nossos valores e responsabilidades. Os regatos [SIC] de esperma eram especialmente citados como representativos da fome de prazer incontrolável que nos levava à desordem e à proliferação. Tempos depois, a desordem se referia ao aquecimento global e à proliferação de armas nucleares. Foi assim que aconteceu dele se tornar famoso. Os preços subiram. O simples mortal virou um ícone. Alguns anos mais tarde até igrejas e escolas tinham pôsteres e cartões-postais de seus temas mais apreciados e as galerias franqueadas dos grandes centros turísticos logo criaram um negócio lucrativo vendendo suas serigrafias de edição limitada, junto com gravuras de Dali, Neiman e Kincade.”

 

Em: As redes da ilusão, Amy Tan, tradução Ana Deiró, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, pp: 26-27.





Curiosidade literária: Evelyn Waugh

10 06 2019

 

 

 

EliÁguas-vivas sobre azul-anil

Eli Halpin (GB, contemporânea)

 

Em 1925, Evelyn Waugh, ainda desconhecido, sentiu-se entusiasmado com a perspectiva de trabalhar em Pisa, na Itália como secretário do escritor e tradutor Charles Kenneth Scott Moncrief, que estava naquela época envolvido com a tradução da obra de Marcel Proust,  À procura do tempo perdido, cujos primeiros dois volumes já haviam sido publicados.   Certo de que seria escolhido para a posição, Evelyn Waugh demitiu-se do trabalho como professor na Arnold House, um colégio para meninos no país de Gales.   Nesse meio tempo, ele havia mandado os primeiros capítulos de um livro que escrevia para o escritor Harold Acton [Sir Harold Mario Mitchell Acton] para que lhe desse sua opinião.  Acton não se mostrou entusiasmado.  Muito pelo contrário, reagiu de maneira bastante fria à proposta de Waugh, que ao perceber a reação do amigo de longa data, que, em parte, dizem ter inspirado o personagem ‘Anthony Blanche’ da obra Memórias de Brideshead, publicada anos mais tarde, Waugh prontamente queimou todo o manuscrito.

Logo depois de ter deixado sua posição na Arnold House, Evelyn Waugh soube que a posição de secretário de Moncrief não iria se concretizar. Essas duas derrotas, para quem estava tão certo de sucesso, foram suficientes para que Waugh entrasse em depressão e considerasse seriamente o suicídio.  É através de suas recordações que sabemos que ele levou a ideia do suicídio a sério.  Escreveu uma carta de adeus, foi à praia e deixando suas roupas embrulhadas junto com a carta, dirigiu-se ao mar com o objetivo de se afogar.  Eis que, já imerso na água, vencendo as ondas, é atacado por águas-vivas.  A dor e o desconforto foram tais, que ele voltou imediatamente para a areia, desistindo do plano.

E a literatura inglesa deve às águas-vivas a descoberta de um de seus grandes escritores do século XX.





Amor Towles sobre Agatha Christie

9 05 2019

 

 

 

Ethel Porter Bailey (GB,1872-1944 ) - Reflection, ost

Reflexões, 1921

Ethel Porter Bailey (GB, 1872-1944)

óleo sobre tela

 

 

“Pode-se dizer o que quiser sobre a nuance psicológica de Proust ou sobre a extensão da narrativa em Tólstoi, mas não se pode negar o prazer que a Sra. Christie proporciona. Seus livros são tremendamente gratificantes.

Sim, eles são formalistas. No entanto, essa é uma das razões pelas quais eles são gratificantes. Com cada personagem, cada aposento, cada arma do crime dando a impressão de ser ao mesmo tempo algo novo e familiarmente rotineiro (o papel do tio pós-imperialista chegado da Índia sendo desempenhado aqui pela solteirona de Gales do Sul, e os suportes de livro que não combinam no lugar do vidro de veneno na última prateleira do barracão de ferramentas do jardim), a Sra. Christie distribui suas pequenas surpresas com o ritmo cuidadosamente calibrado de uma babá distribuindo balas para as crianças sob seus cuidados.

Mas acho que existe outro motivo para eles agradarem tanto – um motivo que é pelo menos tão importante, se não mais, que é o fato de que no universo de Agatha Christie todo mundo, no fim, recebe o que merece.

Riqueza ou pobreza, amor ou perda, uma pancada na cabeça ou a corda do enforcado, nas páginas dos livros dela, homens e mulheres, não importa sua idade, não importa seu nível social, são colocados cara a cara com o destino condizente. Poirot e Marple não são na verdade personagens centrais no sentido tradicional. Eles são simplesmente os agentes  de um complicado equilíbrio moral que foi estabelecido pelo Todo Poderoso no início dos tempos.”

 

Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, p. 239.

 

NOTA: Nesta tradução,  de Léa Viveiros de Castro, logo na primeira frase do segundo parágrafo mostra a palavra “formulaic”  traduzida por formalista, quando na verdade, a melhor tradução teria sido formulaico, que vem de fórmula e não formalista cuja conotação é de seguir regras estritas.  Deve haver alguma razão para esta tradução, já que esta é uma das mais conhecidas tradutoras do inglês.  Noto isto porque li originalmente o texto em inglês e o anotei porque havia a rotulação das obras de Agatha Christie seguirem uma fórmula e me surpreendi com a tradução quando procurei essa passagem na edição brasileira.

 





Haruki Murakami aconselha…

6 05 2019

 

 

 

 

Geskel Saloman - The Love Letter (1889)A carta de amor, 1889

Geskel Saloman (Dinamarca, 1821 – 1902)

óleo sobre tela, 91 x 71 cm

 

 

 

“…se você deseja escrever um romance, observe atentamente seu entorno. O mundo pode parecer monótono, mas está cheio de diamantes brutos, atraentes e misteriosos. Romancistas são aqueles que conseguem identificá-los. e, ainda melhor, eles são oferecidos quase gratuitamente. Se você tiver um bom par de olhos, conseguirá escolher e coletar livremente essas pedras preciosas brutas”.

 

Em: Romancista como vocação, Haruki Murakami, tradução: Eunice Suenaga, Alfaguara: 2017, p.75.

 





A intrigante primeira frase…

27 04 2019

 

 

 

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Missa, s.d.

José Gallegos y Arnosa (Espanha, 1859 – 1917)

óleo sobre tela, 51 x 71 cm

 

 

“Muito tempo antes que descobrissem que ele tinha dois filhos com mulheres diferentes, um em Drimoleague e o outro em Clonakilty, o padre James Monroe usou o altar da igreja de Nossa Senhora, Estrela do Mar, paróquia de Goleen, West Cork, para denunciar minha mãe com puta.”

 

 

John Boyne em: As fúrias invisíveis do coração, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2017, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.





Palavras para lembrar — Hermann Hesse

9 04 2019

 

 

 

Lisa SchneiderLesende1,60x80cm2004,ostLeitora, 2004

Lisa Schneider (Lucerna, Suiça, 1955)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

“Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo.”

 

Hermann Hesse





Sobre Conan Doyle, texto de Michel Houellebecq

1 04 2019

 

 

 

André Dérain (1880-1954) Femme assise lisant, ostSenhora sentada, lendo

André Dérain (França, 1880 – 1954)

óleo sobre tela

 

 

“Em cada romance de Sherlock Holmes pode-se reconhecer, naturalmente, os traços característicos do personagem, mas por outro lado o autor nunca deixa de introduzir um aspecto novo (a cocaína, o violino, a existência do irmão mais velho Mycroft, o gosto pela ópera italiana… certos serviços prestados no passado a famílias reais europeias… o primeiro caso resolvido por Sherlock, ainda adolescente).  A cada novo detalhe revelado desenham-se novas zonas de sombra e afinal surge um personagem realmente fascinante: Conan Doyle consegue criar uma mistura perfeita entre o prazer da descoberta e o prazer do reconhecimento.”

 

Em: Plataforma, Michel Houellebecq, tradução Ari Roitman e Paulina Wacht, Rio de Janeiro, Editora Record: 2002, p. 107





O escritor no museu: Honoré de Balzac

28 03 2019

 

 

 

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Honoré de Balzac, 1836

Louis Boulanger (França, 1806-1867)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Museu de Belas Artes de Tours