Monóculos, texto de Marcel Proust

8 05 2025

O homem com monóculo, 1918

Amedeo Modigliani (Itália, 1884-1920)

óleo sobre tela, 45 x 29 cm

Coleção Particular

 

O monóculo do marquês de Forestelle era minúsculo, não tinha aro e, obrigando a uma crispação incessante e dolorosa o olho onde se incrustava como uma cartilagem supérflua cuja presença é inexplicável e a matéria rara, dava ao rosto do marquês uma delicadeza melancólica e fazia com que as mulheres o julgassem capaz de grandes penas de amor. Mas o do sr. de Saint-Candé, cercado de um gigantesco anel, como Saturno, era o centro de gravidade de um rosto que se ordenava a todo instante em relação a ele, cujo nariz fremente e rubro e o lábio carnudo e sarcástico procuravam, com os seus trejeitos, pôr-se à altura dos mutáveis reflexos de espírito com que fulgurava o disco de vidro, e era preferido aos mais belos olhares do mundo por mulheres esnobes e depravadas, a quem fazia sonhar com encantos artificiais e refinadas volúpias; enquanto, atrás do seu monóculo, o sr. de Palancy que, com a sua grossa cabeça de carpa, de olhos redondos, se deslocava lentamente no meio da festa, descerrando de instante a instante as mandíbulas como para procurar orientação, tinha o ar de apenas transportar consigo um fragmento acidental, e talvez puramente simbólico, do vidro do seu aquário, parte destinada a figurar o todo, que lembrou a Swann, grande admirador dos Vícios e das Virtudes de Giotto em Pádua, aquele Injusto ao lado do qual um ramo folhudo evoca as florestas onde se oculta o seu covil. 

 

Em: No caminho de Swann, volume I da obra Em busca do tempo perdido, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana.





Minutos de sabedoria: Julie de Lespinasse

30 01 2025
Ilustração, Marcella Cooper
 
 
“A calúnia é como azeite caído no pano; quanto mais se esfrega, para que ele saia, mais a mancha se estende.”

 

Mlle De Lespinasse

Julie de Lespinasse

Mlle de Lespinasse

(1732-1778)





Minutos de sabedoria: George Sand

25 01 2025
 
 
“Quem faz bem a seus inimigos assemelha-se ao incenso, que perfuma o próprio fogo que o consome.”

 

 

 Mme Dudevant [George Sand]
(1804-1876)





Sublinhando…

6 01 2025

O velho violonista, 1903-04

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela

The Art Institute of Chicago

 

 

“… quando minha professora da escola tinha dado uma aula sobre Picasso e seu período azul. Os quadros que ela nos mostrara com a régua sobre um livro tinham me deixado sem fôlego, e eu decidira que o resto da minha vida seria azul.”

 

Em: Água fresca para as flores, Valérie Perrin, Rio de Janeiro, Intrínseca: 2022, p. 60





Meu ano de leituras visto pelo Goodreads

19 12 2024

Ontem eu recebi como sempre recebo o relatório das minhas leituras de acordo com o Goodreads.  Infelizmente esse relatório não inclui alguns livros que li, de autores brasileiros que não adicionaram ou que suas editoras não se deram ao trabalho de adicionar seus livros no cabedal do portal.  Então, menos esses livros que escaparam, li até dia 5 de dezembro de 2024, 46 livros como podem ver, para um total de 11.806 páginas.  Estou entre os 25% de leitores que mais leem.  Não sei minha posição nesses 25%, mas não deve estar no topo, por mais que possa parecer que li muito.  Conheço bem outros leitores inveterados.

 

 

O livro mais longo que li em 2024 foi a ficção científica, excepcional de Stephen King, chamada 22 de Novembro de 1963, que foi o dia do assassinato do Presidente Kennedy nos Estados Unidos. O livro tem como estrutura realidade quântica. Vamos e voltamos dessa data aos dias de hoje com alguma frequência e prende a atenção como nenhum outro livro. Devora-se suas 1200+ páginas sem receio.

Na lista deles, tenho seis livros a que dei cinco estrelas, ou seja o máximo que poderia ter dado. Na verdade em dezembro entrei com outro livro, mas esse deve ser considerado no ano que vem, imagino.

Descobriram também que dos 46 livros lidos, os meu favoritos caem nos seguintes segmentos: Ficção, Não ficção e Ficção Histórica.

Pertenço também ao portal brasileiro Skoob que é semelhante ao Goodreads. Mas o Skoob não nos manda um relatório das nossas leituras ao final do ano. Pelo menos nunca me mandaram. No Skoob, no momento eu tenho 1022 livros lidos e 347 resenhas.

E você? Tem sua página em algum desses dois portais? Se gostam de ler, não seria bom ter um relatório de tudo que você leu durante o ano?

Fica aqui a sugestão.





Minuto de sabedoria: Blaise Pascal

15 11 2024

Homem lendo

Joseph Lorusso (EUA, 1964)

óleo sobre placa, 29 x 29 cm

 

O presente inexistente

 

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.



Blaise Pascal, in “Pensamentos”

 

(Blaise Pascal, 1623-1662)





Como um dia de primavera: Marc Levy

16 10 2024

O diário de Sarah, c. 2010

Kevin Beilfuss (EUA, 1963)

óleo sobre placa, 31 x 46 cm

 

 

“Há dias iluminados por pequenas coisas, pequeninos nadas que nos tornam incrivelmente felizes; uma tarde a comprar antiguidades, um brinquedo antigo que encontramos no ferro-velho, uma mão que agarra a nossa mão, um telefonema de que não estávamos à espera, uma palavra doce, o filho que nos abraça sem pedir outra coisa senão um momento de amor.
Há dias iluminados por pequenos instantes de graça, um cheiro que nos enche a alma de alegria, um raio de sol que entra pela janela , o barulho de uma chuvada quando ainda estamos na cama, ou a chegada da Primavera e dos seus primeiros rebentos.”

 

Marc Levy, O primeiro dia, tradução de Jorge Bastos

 





Dia a dia…

16 10 2024

Começaram hoje os encontros para leitura em grupo da obra de Marcel Proust Em busca do tempo perdido. Abrimos a leitura com o primeiro livro: No caminho de Swann. São sete volumes! Cobrimos as primeiras 15 páginas. Ou melhor chegamos à página 19. Estamos usando a tradução de Mário Quintana. E indo a fundo, parando para conhecer as referências que desconhecemos. Chegamos à conclusão que as sete pessoas (só cinco puderam participar hoje) ficarão amigas para o resto da vida. Porque nos encontraremos centenas de vezes para cobrir essa leitura. Mas que assim seja. Foi muito agradável. O entusiasmo foi grande. Somos de todo Brasil, estados do Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná.





Leitura breve…

7 10 2024
LIVRO CURTO QUE FAZ A DIFERENÇA

 

O ÚLTIMO AMIGO
Tahar Ben Jelloun
Editora Bertrand Brasil
Publicado em 2006 – 128 páginas





Minutos de sabedoria: George Sand

31 08 2024

O que ela lê, 2001

Francine Van Hove (França 1942)

óleo sobre tela

“A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.

A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.”

 

George Sand

 

 

George Sand (1804-1876)