Não sei quem me recomendou esse livro de entrevistas de autores das línguas ibéricas. Foi recomendado porque não estava no meu horizonte. Agradeço a quem o fez. Foi uma leitura gostosa. Dos dez escritores entrevistados só não conheço a obra de um deles ainda que já soubesse de sua existência. O livro abre e fecha com as entrevistas de que mais gostei, autoras cujas personalidades conseguiram ultrapassar os diversos filtros de distanciamento existentes em qualquer entrevista; uma espanhola e uma portuguesa: Rosa Montero e Djaimilia Pereira de Almeida. Um elogio precisa ser feito ao trabalho de Ricardo Viel, que em Sobre a ficção [Cia das Letras: 2025] regeu as conversas com cada um dos romancistas de maneira segura, mostrando conhecimento das obras de cada um, sem interferências irrelevantes, deixando cada escritor aparentemente à vontade — personalidades, aparecendo através dos diálogos.
Ao final, cheguei a uma conclusão: escritores são gente igual a toda gente. Há uns mais simpáticos, outros modestos, um ou outro mais cheio de si. Quer se vejam como referências da ‘alta’ literatura, quer sua obra seja altamente pessoal, eles vêm de todos os cantos do mundo, de todas as classes sociais, de famílias que liam ou não, com ou sem livros em casa. E a leitura pode ser descoberta em criança, na adolescência ou como jovens adultos. E não há idade para se começar. Todos têm hábitos diversos. Não há padrão. Não há comportamento igual. Não há predestinação, nem caminho fácil para o sucesso. Notívagos ou não, organizados e desorganizados, com planos detalhados dos personagens já sabendo como será o ponto final do romance ou escrevendo de supetão, instintivamente, sem ideia prefixa de para onde vão, cada um deles se encontrou como escritor por diferentes meios. Os dez romancistas entrevistados são contemporâneos, já foram aplaudidos por milhares de pessoas, têm sucesso além fronteiras da terra natal, veem o que fazem de maneiras diferentes. O único ponto em comum, mesmo, é a necessidade de escrever. Essa supera grande parte de todas outras atividades de suas existências. E podem escrever diariamente ou passar anos sem colocar uma palavra no papel.
Na era em que tudo parece ter um livro ou um método para como escrever; como superar o bloqueio; com que tipo de primeiro parágrafo atrair o leitor; entender a ‘Jornada do Herói’, dividi-la ou não nas doze partes que Joseph Campbel a descreveu; tudo isso parece, ao final dessas entrevistas, irrelevante. Cursos e mais cursos que se multiplicam na internet, sobre como ser ou tornar-se um escritor, provavelmente pouco poderão ensinar. Ler. Ler, ler. Ler muito e constantemente, parece ser a melhor pedida. Fica a dica.
No final o que resta é a obra. Ela é o que realmente conta. As atividades e circunstâncias da vida de cada autor, não são de grande relevância a não ser para quem gostaria de biografá-los. É a obra.
“Claro que há aqueles que decidem pôr fim à sua vida, e o fazem, mas são minoria e por isso impressionam tanto, porque contradizem a ânsia de duração que domina a grande maioria, a ânsia que nos faz crer que sempre há tempo e que nos leva a pedir um pouco mais, um pouco mais, quando este se acaba.”
Finalmente li Madame Bovary, de Gustave Flaubert, (1857), um clássico, considerado uma das três obras mais influentes na história literária do mundo ocidental. As outras são: Don Quixote, de Cervantes (1605) por ser considerado o primeiro romance moderno, e Ulisses de James Joyce (1922) por ter revolucionado a narrativa, incluindo o fluxo de consciência, entre outras novidades. Nesse meio, Madame Bovary se salienta na literatura ao introduzir o realismo na narrativa literária; pela excelência na precisão das palavras; por trazer pela primeira vez uma anti-heroína, entre outros “primeiros” que esse romance introduz, incluindo a crítica social. Essa era uma falha na minha formação que me orgulho de tê-la superado. Confesso que estava um tanto intimidada ao abrir esse livro. Tanto se fala dele. Foi fonte de inspiração para Ana Karênina, de Tolstói publicado vinte anos mais tarde, e foi fonte de inspiração para um grande número de escritores. Mas depois de ler O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, há uns poucos anos, que me encantou, percebi que precisava a qualquer custo me dedicar a Madame Bovary. A conta havia chegado. Fui auxiliada também pelo grupo de leitura Papalivros que escolheu essa como primeira leitura de 2026.
Não consigo imaginar algo que eu possa dizer que já não tenha sido dito sobre essa obra. Surpreendente foi a mágica da linguagem encontrada, momentos de pura poesia em prosa, descrições de ambientes, de cenários que conseguem acender a imaginação do leitor sem esforço. Flaubert trabalhou nesse livro por cinco anos, e se sente. Seus personagens são tridimensionais, inteiros, cheios das idiossincrasias naturais dos seres humanos. São desprezíveis, vis, mesquinhos, indiferentes, cobiçosos, idiotas, gananciosos, tolos, parvos, simplórios, interesseiros. Mas ninguém supera Ema Bovary. Fui instigada a detestá-la. Não suscitou em mim, qualquer simpatia. Viveu e morreu como quis, numa volúpia de quereres sem fim, ousadia sem limites, sôfrega por satisfazer-se e só a si mesma. Mesmo assim vale a pena conhecê-la.
Flaubert e sua casa editorial La Revue de Paris foram processados por essa publicação por ofender a moral e os bons costumes. O julgamento criou grande curiosidade no público e o romance se tornou um best-seller imediatamente após ganharam a causa. Publicado em 1857, mas passado nos anos de 1830, durante o reinado de Napoleão III, Flaubert usa o contexto histórico para retratar aquilo que não aprovava naquele reinado.
É uma história completa. Retrata os locais, a era, os hábitos e costumes, e seus personagens são ricos, completos, com anseios e desejos, faltas morais, ciúmes, indiferenças e cobiça, tal qual o mundo que nos rodeia. A leitura é vagarosa para ser, de fato, saboreada. É preciso imersão. Mas o resultado dessa experiência deve ser para sempre. Fiquei com vontade de reler quase imediatamente. Provavelmente o farei muitas vezes.
Talvez vocês não saibam, provavelmente porque não sou muito boa em meu próprio marketing, que tenho uma pífia conta no Instagram [@escritora.ladycewest], recomendação de especialista que contratei há uns três anos. Um pouco antes de enviuvar, eu havia lançado um livro de poemas [À meia voz], resultado de anos de escrita não sistemática, e de uma oficina para escritores que fiz, aqui no Rio de Janeiro, com o escritor e poeta Luís Pimentel. Passado o primeiro ano de luto (francamente tenho poucas memórias desse período) engajei um serviço de marketing digital para saber o que deveria fazer para impulsionar vendas do livro, já que eu havia perdido a “época quente” do marketing, antes e depois do lançamento. E poesia, eu soube durante esse período, não é item quente nas vendas.
Minha dificuldade, disse a analista, era que eu “estava mudando de profissão”. Que sou mais conhecida como historiadora da arte, que sempre fui, galerista, que fui por muitos anos, e que ninguém esperava que eu também escrevesse. Como se as pessoas pudessem ter só um perfil, só um amor! Era preciso que eu me estabelecesse como “intelectual” (palavras dela), como conhecedora de literatura brasileira e de poesia em especial. Com muita resistência, abri conta no Instagram. Não sou da geração Tik Tok, e esse negócio de botar a cara lá, para me “estabelecer” era um conceito muito além da minha zona de conforto. Mas fiz. E como me estabelecer? Mostrando que eu sabia do babado. Que conhecia literatura. Comecei, então, a postar uma poesia por dia, de segunda a sábado. É exaustivo e limitante, porque o escolhido precisa ser lido em noventa segundos ou menos. Precisa ser entendido por todos, quer a pessoa tenha completado o ensino médio ou não. E realmente, as poesias de mais sucesso são as infantis ou infanto-juvenis. Grande parte do que é escrito não cabe nesses limites. Além disso os poemas têm que ser “família”, não podem ter palavrões, não podem falar de sexo, nem de temas controversos, nem de religião (fiz duas longas séries sobre Natal, mas o Natal abraça mais do que o religioso), têm que ter um vocabulário acessível, ideias claras. De fato, qualquer referência à mitologia greco-romana, por exemplo, se torna ininteligível. Recentemente li um poema que mencionava Penelope. Pequenino, Direto. Uma pequena joia. E percebi que a audiência não tinha ideia de quem era Penelope, aquela que tricotava e desfazia o tricô à espera de Ulisses. Enfim, fomos em frente. Tenho uma adolescente que faz o vídeo para mim. Comecei em out/novembro de 2023. E sim, tenho alguns seguidores. Mas não foi nenhuma avalanche.
Levo uma vida comum. Não sou dada a expor nada do que faço, porque na verdade não faço nada além do que todos fazem. Mas uma coisa ficou clara: quando posto no Instagram fotos com esse ou aquele amigo, num local incomum para minhas postagens, o pessoal nota. E quando mostro algo sobre minhas leituras, aquele vídeo, mesmo que feito por mim, sem grande profissionalismo, ou talvez por isso mesmo, tem pelo menos o dobro das visualizações que recebo em outras circunstâncias. Uma de minhas decisões de 2026 foi postar mais sobre o que leio. Desde que o que eu leia seja em português, porque pode ser considerado “esnobismo” postar alguma leitura em outra língua. Aliás as regras do marketing vieram em grande detalhe: muitas mas simples, entre elas: aparecer sempre de preto, para não distrair o espectador, ou, as pessoas prestarão atenção na sua roupa, nos seus brincos, no seu relógio. É entrar numa espécie de mundo paralelo, com códigos esdrúxulos, o que aumenta minha resistência. Mas estou focando no resultado. Principalmente porque me preparo para o lançamento de mais um livro.
Minha postagem no Instagram da semana passada, sobre essa quarta leitura do ano, trouxe mais pessoas do que o esperado. E ao que parece foi porque mencionei não só uma leitura popular, mas a informação de uma segunda veia artística de Simenon, que pouca gente conhece, mas sobre a qual eu já havia me referido aqui no blog: seus “romances duros”. Talvez valha lembrar que Simenon foi um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos tendo publicado entre 400 a 500 livros, não se sabe exatamente o número, porque publicou sob muitos pseudônimos. Com a ajuda da IA, posso dividir em alguns segmentos: 75 livros do detetive Maigret, fora os 28 contos em que o personagem aparece. 130 “romances duros”, que são romances psicológicos. 20 volumes de memórias. Mais 200 romances escritos sob pseudônimo. Vendeu acima de 600 milhões de livros, no mundo inteiro. Ao contrário do que se imagina, Maigret não é francês. É belga, mas muito respeitado pelo público francês e também por escritores daquele país, entre eles André Gide, (Nobel de 1947). Ele foi um dos primeiros grandes intelectuais a reconhecer o valor literário de Simenon, indo além do rótulo de “autor policial”, dizendo que Simenon “talvez fosse o maior e o mais genuíno romancista que tivemos na literatura francesa contemporânea”. A amizade de Gide e Simenon era genuína, como testemunham as inúmeras cartas trocadas entre eles.
Há alguns “romances duros” de Simenon, não sei exatamente quantos, publicados no Brasil. A Cia das Letras fez um esforço na primeira década deste século em publicá-los. Deles li O quarto azul e O círculo dos Mahé, ambos já resenhados no blog. Mas este ano me dei de presente dois volumes das obras de Simenon, publicados pela UNESP, que trazem oito dos romances duros. Há dois outros volumes dedicados às obras com o inspetor Maigret, qua comprarei mais tarde.
Descobri esses romances duros por acaso. E me tornei fã. Veremos o que acho desses outros publicados pela UNESP. Nesses dois romances que li, ainda tenho outro em casa, A neve estava suja, a temática é completamente diferente daquela encontrada nos casos do inspetor Maigret. Tanto O quarto azul quanto O círculo dos Mahé tratam de situações emocionais que levam a desfechos inesperados, mas em absoluta fidelidade às características dos personagens. Simenon, conhecido por não gostar de textos elaborados, bonitos, com adjetivos e floreios, fortalece as emoções suscitadas na leitor justamente por ser lacônico, deixando espaço para que o leitor preencha com imaginação as reticências, o vácuo dos diálogos breves ou inacabados.
Quanto as leituras de 2026: Maigret e o finado Sr. Gallet foi ótima. Final que me surpreendeu e, no entanto, completamente plausível. Adoro um livro de mistério, principalmente os mais tradicionais. Podem ler. Vale a pena. E a título de curiosidade: gosto de Agatha Christie (aliás sua autobiografia, que não tem mistério, é uma excelente leitura), Dorothy Sayers, Margery Allingham, Colin Dexter, P.D. James, Ruth Rendell, Louise Penny e muitos outros estão na minha lista de favoritos. Verão, para mim, também é um período de leituras rápidas, leves, em que problemas podem ser solucionados. Nada melhor do que isso, não é mesmo?
“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.
— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”
Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana
“…e a criança vagabundeava pela aldeia. Ele acompanhava os lavradores e espantava, atirando torrões, os corvos que alçavam voo. Comia amoras ao longo das valetas, guardava os perus com uma vara, revolvia o feno na ceifa, corria pelos bosques, jogava amarelinha no pórtico da igreja nos dias de chuva e, nas grandes festas, suplicava ao sacristão que lhe deixasse bater os sinos, para se dependurar com todo o corpo à grande corda e sentir-se levar por ela no balanço.
Tenho muitas leituras em meio de caminho, livros que estou lendo simultaneamente. Mas esse comecei hoje de manhã. Não é grande vantagem que um livro de 94 páginas tenha sido lido em um dia. Mas eu o recebi quando cheguei em casa de Rio das Ostras e hoje abri para ver exatamente o que era. Não resisti. Li inteirinho.
Gosto de Somerset Maugham, um autor que conheci lendo Servidão Humana, livro um pouco maduro para os meus primeiros anos na adolescência quando estava febril para ler os grandes autores. Era um volume emprestado da Biblioteca da Gávea, que eu frequentava assiduamente desde criança.
Os livros e você: clássicos da literatura que podem ampliar a sua visão de mundo, é um grupo de três ensaios que Maugham escreveu para a revista americana Saturday Evening Post. Eles foram coletados e publicado na Inglaterra em 1940. Essa tradução é a primeira no Brasil, feita por Pablo Guimarães, publicada em Piraquara, Editora Vimara: 2024.
Fim de ano, para quem lê, é sempre recheado de listas de livros que ainda não lemos, que queremos ler. E esse livro me pareceu perfeito para que eu selecionasse algo que escapasse dos batidos e lidos russos, e clássicos mais modernos. Sendo um escritor inglês a maioria dos livros mencionados como sugestão para leitura são ingleses. Mas há também russos, franceses e até alemães.
A parte mais charmosa do livro são os comentários que Maugham faz, alguns bastante cortantes, sobre obras constantemente citadas como imperdíveis. Mais que isso, no entanto, é sua postura que, para o leitor comum, livros devem ser sempre agradáveis de ler. Se não o forem, deixe de lado.
Consegui deliciosas citações sobre leituras, que eventualmente, aos poucos colocarei aqui no blog, como costumo fazer. Somerset Maugham faleceu em 1965. Suas sugestões não incluem os escritores mais recentes, nem mesmo muitos dos que já eram conhecidos na primeira metade do século XX. Listas sempre refletem o leitor que as fez. A leitura desse livro foi uma conversa com um dos mais interessantes autores ingleses da primeira metade do século passado.
PS: Sim, anotei alguns nomes. E estarei procurando por suas obras.
“Termine cada dia e o dê por encerrado. Você fez o que podia. Sem dúvida, alguns erros e absurdos se infiltraram; esqueça-os assim que puder. Amanhã é um novo dia. Você deve começá-lo serenamente e com um espírito elevado demais para se deixar sobrecarregar com suas velhas bobagens.”
“Meus pais não me davam bastante dinheiro para comprar coisas caras. Pensei num vaso chinês antigo que me dera a tia Léonie; mamãe pressagiava todos os dias que Françoise ia dizer-lhe: “Caiu…”, e que o vaso deixaria de existir. De modo que o mais prudente era vendê-lo, vendê-lo para poder obsequiar a Gilberte como eu quisera. Imaginava que arranjaria no mínimo uns mil francos. Mandei que embrulhassem o vaso, em que na verdade, por força do hábito, nunca havia reparado; de modo que o separar-me dele teve pelo menos uma vantagem, a de me dar a conhecê-lo. Eu mesmo o carreguei antes de ir à casa de Gilberte, e dei ao cocheiro a direção dos Swann, mas recomendando-lhe que fosse pelos Campos Elísios; ali estava a loja de um comerciante de antiguidades chinesas conhecido de meu pai. Com grande surpresa minha ofereceu-me imediatamente dez mil francos, e não mil como eu esperava. Apanhei as notas arrebatado de prazer; durante um ano poderia cumular Gilberte de rosas e lilases.”
Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana
“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”