Quadrinha do diploma

4 12 2012

formatura, R. John Holmgren (1897-1963)

Formatura, ilustração de R. John Holmgren (1897-1963).

Qual imagem, na redoma,

que sem a fé jamais cura,

de nada vale um diploma

sem o primor da cultura.

(Alberto Fernando Bastos)





Trova da vida

3 12 2012

barco no rio, blanche wright
Todos no rio, ilustração de Blanche Fisher Wright.

 

 

A vida é barco sem remos

em mar sombrio a vagar.

Vamos nele e não sabemos

a que porto vamos dar.

(Álvaro Faria)





Natal — poema de Olavo Bilac

3 12 2012

Adoração ao Menino Jesus, 1500

Ambrigui Bergognone (Itália, 1453-1523)

Natal

Olavo Bilac

Jesus nasceu. Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria…


Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus…
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.


Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Jesus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.


Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes
Foi para os pobres seu primeiro olhar.


No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vem cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.


Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!


Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia…
Salve Deus da Humildade e da Pobreza
Nascido numa pobre estrebaria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

Vocabulário:

abóbada — teto arqueado

infinita — sem fim

oferendas — presentes

palpita — agita-se

pompa — luxo, riqueza

reluzente — brilhante

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Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.

Obras:

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957) e obras didáticas





Quadrinha do suspiro

2 12 2012

pensando3

Dona Marocas suspira, ilustração de Maurício de Sousa.

O suspiro é na verdade

um mensageiro cansado

que vai cheio de saudade

correndo atrás do passado.

(Antônio Bittencourt)





Quadrinha da liberdade

1 12 2012

passaros, soltando,  J. Stanley, AmericanGirl1935-02

Soltando pombas, ilustração de J. Stanley, para capa da revista American Girl de fevereiro de 1935.

Liberdade é conviver

com sua própria razão,

sem a ninguém ofender,

nem magoar o coração.

(Durval Lobo)





Quadrinha do beijo

30 11 2012

beijo Harrison Fisher (1875 - 1934)

Beijo, ilustração de Harrison Fisher (EUA, 1875-1934)

Meu beijo é bem diferente

dos beijos que os outros dão:

eles beijam, simplesmente,

eu… beijo, com o coração.

(Rômulo Cavalcante Mota)





O álbum, poesia de Almeida Garrett

28 11 2012

Opalescência, s/d

Lynn Renée Sanguedolce (EUA, 1959)

óleo sobre tela, 100 x 75cm

www.lynnrenee.com

O álbum

Almeida Garret

Minha Júlia, um conselho de amigo;

Deixa em branco este livro gentil:

Uma só das memórias da vida

Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada

Pelas mãos do mistério há-de ser;

Que não tem língua humana palavras,

Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja

De uma vida o tecido matiz ,

Um só fio da tela bordada,

Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,

Brilho falso que um tempo seduz,

Que se apaga, que morre, que é nada

Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos

Dos enganos que a esp’rança forjou?

Vãos reflexos de um sol que tardava

Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida

Eu co’a minha ventura sonhei;

E uma só, dentre tantas, o juro,

Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,

Tão segura por dentro a fechou,

Que o passado fugiu da memória,

Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:

Deixa em branco este livro gentil,

Que as memórias da vida são nada,

E uma só se conserva entre mil.

Em: Folhas Caídas, Almeida Garrett, Porto, Editorial Domingos Barreira: s/d





A lagarta, soneto de Bastos Tigre

28 11 2012

Pequeno encanto

Donald Zolan (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela

www.zolan.com

A lagarta

Bastos Tigre

Por sobre as ramas da árvore coleia

A lagarta. E a colear, viscosa e lenta,

O seu aspecto as vistas afugenta

E de tocá-la a gente se arreceia.

Verde-negra, amarela, azul, cinzenta,

Quando o sol as folhagens incendeia,

Sobe a aquecer-se, e à luz solar, aumenta

O asco de vê-la repulsiva e feia.

Mas eis que a encerra do casulo a tumba;

Não penseis que, de todo, ela sucumba

No seu sepulcro eternamente presa.

Qual, do corpo, alma livre, desprendida,

É borboleta: evola-se a outra vida,

Voando feliz, na glória da beleza.

Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, volume I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves:1982





Quadrinha do falar da vida alheia

25 11 2012

Cochicho, ilustração Anni Matsick.

Falar mal da vida alheia
é coisa que não convém;
quem tem telhado de vidro
não fustiga o de ninguém…

(Alberto Isaías Ramires)





O alfabeto, poesia de Mauro Mota

24 11 2012

Ilustração de capa de livro, 1929, sem autoria especificada.

O alfabeto

Mauro Mota

A caixa de letras.

Minha filha brinca.

Espalha-as na mesa,

compõe as palavras,

pessoas e coisas,

plantas e animais,

deslizam na mesa

consoantes, vogais.

A caixa de letras

de matéria plástica,

brancas, amarelas,

vermelhas e pretas.

Minha filha brinca,

os nomes desfaz,

faz os objetos,

as letras empilha,

no mundo alfabético,

consoantes, vogais.

Do O faz a cara

limpa da boneca

com os olhos bulindo

dos pontos dos i i .

Do Q faz a rosa

suspensa no talo.

Lápis e papel,

mas o poema informe.

As letras, as letras

brancas e amarelas,

vermelhas e pretas.

Que faço com elas?

Em:  Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura:1968

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911 — Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.

Obras:

Elegias (1952)

A tecelã (1956)

Os epitáfios (1959)

Capitão de Fandango (1960, crônica)

O galo e o cata-vento, (1962)

Canto ao meio (1964)

O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica)

Poemas inéditos (1970)

Itinerário (1975)

Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória (1979)

Pernambucânia dois (1980)

Mauro Mota, poesia (2001)

Antologia poética, 1968

Antologia em verso e prosa, 1982.