Quadrinha do vento

27 02 2013

vento, andré edoaurd marty, 1919

Vento, cartão postal, ilustração de André Edouard Marty, 1919.

O vento, com seus gemidos,

que só a dor sabe tê-los,

gelado como a saudade,

vem me beijar os cabelos.

(Manuel Lins Caldas) [pseud. Daslak]





O corvo e a raposa, poema e fábula, Bocage

24 02 2013

1289703457Ilustração de John Rae.

O corvo e a raposa

Bocage

——————-(tradução de La Fontaine)

 –

É fama que estava o corvo

Sobre uma árvore pousado

E que no sôfrego bico

Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro, àquele sítio

Veio a raposa matreira,

A qual, pouco mais ou menos,

Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;

És glória desta espessura;

És outra fênix, se acaso

Tens a voz como a figura.

A tais palavras, o corvo,

Com louca, estranha afouteza,

Por mostrar que é bom solista

Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho

E diz: – Meu amigo, aprende

Como vive o lisonjeiro

À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo;

Tem destas para teu uso.

Rosna então consigo o corvo

Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco;

Fui tolo em fiar-me dela;

Mas este logro me livra

De cair noutra esparrela.





Quadrinha do bom pintor

22 02 2013

artista pintor mickeyMickey quer ser pintor, ilustração de Walt Disney.

O bom pintor, quando pinta
para dar vida à aquarela,
põe mais amor do que tinta
no sentimento da tela.


(José Lucas de Barros)





Leilão de jardim, poesia infantil de Cecília Meireles

20 02 2013

vendido

Bolinha vende um ramo de flores para Raposo. Ilustração Marjorie Henderson Buell.

Leilão de Jardim

Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?

Borboletas de muitas cores,

lavadeiras e passarinhos,

ovos verdes e azuis nos ninhos?

 –

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera,

uma estátua da Primavera?

 –

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo, que é jardineiro?

E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

 –

(Este é o meu leilão.)

 





O bem-te-vi, poema de Reynaldo Valinho Alvarez

18 02 2013

Pássaros na cidade AliceMartinPássaros na cidade, ilustração de Alice Martin.

Bem-te-vi

Reynaldo Valinho Alvarez

Amo tanto esses pássaros da rua,

que vivem como vivo na fumaça,

protagonistas da paisagem baça.

Respiram, como eu próprio, esta mistura,

feita do que há de pior nas criaturas.

No ar, há certo escândalo na graça

com que apesar de tudo, ainda cantam.

O pássaro que passa ara seu vôo

com precisão estética e ultrapassa

o meu próprio desejo de ser livre.

Que preço tem a liberdade? Certo,

o bem-te-vi da esquina, empoleirado

numa antena prosaica, sabe mais

do que posso saber, já que não vôo.

Em: Galope do Tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 79.





Quadrinha da boa pesca

15 02 2013

???????????????????????????????Pescadores, ilustração Walt Disney.

Do peixe, como eu dizia,
sem pretensão de iludi-los,
somente a fotografia
pesava mais de oito quilos!

(José Machado Borges)





Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990





Trova do carteiro

12 02 2013

carteiro desastrado, margret borissCartão postal, com ilustração de Margret Boriss.

Carteiro, ao fazer a entrega
das cartas, de porta em porta,
o pranto e o riso carrega
nos segredos que transporta.

(Jacy Pacheco)





Quadrinha da gravata

9 02 2013

casamento Arthur_Sarnoff1Casamento, ilustração Arthur Sarnoff.

Deu-lhe o sogro uma gravata…

– E a sua emoção foi tanta

que casou antes da data,

sentindo um nó na garganta!…

(Manuel de Oliveira Costa)

 





Os caquis, poema de Sônia Carneiro Leão

9 02 2013

Jean Xanthakos, Caquis e uvas, osm, 9x12

Caquis e uvas, s/d

Jean Xanthakos (Brasil, 1936 (?))

óleo sobre madeira

Os caquis

Ah! Os caquis,

esses tomates inflados.

Os caquis,

esses pneus assanhados,

risonhos, safados,

que nos convidam a morder

sua carne aguada, açucarada.

Os caquis,

vítimas da nossa voracidade.

Os caquis,

que se abrem à primeira dentada,

docemente, docilmente,

feito fêmea dominada.

Ah! Os caquis já vão-se embora.

Despeço-me deles agora.

Mas não faz mal,

estou satisfeita,

esperando a próxima colheita.

Em: Respostas ao criador das frutas, Sônia Carneiro Leão, Recife, Editora da autora: 2010

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.