Não te rendas, poema de Mario Benedetti

6 04 2020

 

 

arne westerman (EUA, 1927-2017)Leitura no sofá

Arne Westerman (EUA, 1927 – 2017)

 

 

Não te rendas

 

Mário Benedetti

 

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

 

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

 

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

 

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

 

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

 

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, por eu te amo.





Poema dos insetos, de Lucas Durand

23 03 2020

 

 

987624596Ilustração de Catherine Barnes.

 

 

Poema dos Insetos

 

Lucas Durand

 

Zum, zum, zum, zum

Sou pequenininha

Eu me acho lindinha

E sou tão miudinha

Eu faço cosquinha

Eu gosto de pelo

Detesto o gelo

Estou no camelo

No cão do teu zelo

Até no seu cabelo

Ando saltitante

Dou pulinho constante

Sou quase invisível

É quase impossível

Ver esta coisinha

Tão engraçadinha

Meio nojentinha

Na sua caminha

Cheirosa e limpinha

Ali escondidinha

Esta fofa pulguinha!

 

 

Lucas Durand é o pseudônimo de José Geraldo dos Santos, de Belo Horizonte, MG, escritor e poeta.





“O microscópio”, poema de Bueno de Rivera

16 03 2020

 

laboratorio, venham, disneyIlustração Walt Disney.

 

 

O Microscópio

 

Bueno de Rivera

 

 

O olho no microscópio

vê o outro lado, é solene

sondando o indefinível.

 

Dramática a paciência

do olho através da lente,

buscando o mundo na lâmina.

 

A tosse espera a sentença,

o Ieito aguarda a resposta.

0 tísico pensa na morte.

 

O silencio é puro e o frio envolve

o laboratório.

Os frascos tremem de susto.

 

0 infinito dos germes

reflete no olho imenso

que pousa na objetiva.

 

0 avental se levanta.

Os dedos inconscientes

escrevem a palavra ríspida.

 

0 resultado terrível

entra nos óculos do medico

e ele diz: positivo.

 

0 doente tira o lenço.

Aperta a mulher e o filho,

chora no ombro da esposa.

 

Imagina a reclusão

no sanatório, a saudade

e o vento no quarto branco.

 

olha o papel: positivo.

Cresce a palavra com a tosse.

A febre queima a esperança.

 

0 microscopista, no entanto,

conta anedotas no bar.

Está alheio e feliz.

 

Não sabe que o olho esquerdo

ditou a sentença e a morte.

Paga o café e caminha.





Trova do cão

9 03 2020

 

 

 

cachorro latindo, Ilustração de Maurício de SousaBidu latindo, ilustração Maurício de Souza.

 

 

“O cão que ladra não morde”.

Permitam que nesta quadra

eu do provérbio discorde:

sim, não morde… enquanto ladra.

 

(Bastos Tigre)





“Histórias ao vento”, poesia infantil de Adalgisa Nery

2 03 2020

 

 

 

vento no outonoIlustração inglesa, 1950s.

 

 

Histórias ao vento

 

Adalgisa Nery

 

O vento veio correndo

Assoviando, gritando

Que vira a lua nascendo,

Que vira a estrela brilhando,

Que o beija-flor vira voando,

Que o rio vira cantando

E o fruto amarelando.

Que vira o orvalho caindo

Sobre a relva e sobre a flor,

Que vira a abelha zumbindo

Dentro das pétalas em cor,

Que vira a semente no chão,

Nas águas, o peixe mudo,

O pastor tangendo as ovelhas

Cantando por nada e por tudo.

O vento veio correndo,

Assoviando, cantando

Que vira o mais belo mundo:

Uma criança nascendo,

Uma criança brincando,

Uma criança sorrindo, vivendo,

Uma criança cantando.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 185.

 





Trova da fotografia

28 02 2020

 

 

fotografia, máquina, bolinha, retratoBolinha estreia nova máquina fotográfica.

 

 

 

Foto, lembrança marcada

que invade meu coração:

minha infância perpetuada,

num pedaço de cartão.

 

(Dorothy Jansson Moretti)

 





Brincar de trabalhar, poesia de Renato Sêneca Fleury

30 01 2020

 

 

 

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Brincar de trabalhar

 

Renato Sêneca Fleury

 

Um brinquedo de que eu gosto

é brincar de trabalhar.

Pensam vocês, eu aposto,

que isso não é brincar.

 

Sem a gente perceber,

vai brincando e aprendendo.

Com brinquedos a fazer,

coisas úteis vou fazendo.

 

Eu já fiz a minha estante,

um limpa-pés também fiz.

Tenho brincado bastante,

mas trabalhando… quem diz?





Trova da espera

23 01 2020

 

 

 

espera, Henriette Willebeek Le MairIlustração Henriette Willebeek Le Mair

 

 

O tempo passa voando …

Mentira, posso jurar.

Se estou meu bem esperando,

como ele custa a passar!

 

(Lilinha Fernandes)

 

 





A fonte da mata, poesia de Hermes Fontes

14 01 2020

 

 

9c67715aa8448f5a02a8198b928fa1f2--watercolour-techniques-watercolour-tutorialsAutoria desconhecida.

 

 

A fonte da mata

 

Hermes Fontes

 

Depois de longa ausência e penosa distância,

vi a fonte da mata,

de cuja água bebi, na minha infância.

 

E que melancolia

nessa emoção tão grata!

 

Ver — constância das coisas, na inconstância…

ver que a Poesia é uma segunda infância,

e que toda Poesia…

 

Vem da fonte da mata…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 157.

 

 





Trova do cigano

13 01 2020

 

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Pelas ruas da ilusão,

o cigano libertino,

lendo o destino na mão,

vive na mão do destino.

 

(Hegel Pontes)