Meu pai julga que me tem
fechadinha na varanda.
Coitadinho de meu pai
que bem enganado anda…
(Cultura popular)
Meu pai julga que me tem
fechadinha na varanda.
Coitadinho de meu pai
que bem enganado anda…
(Cultura popular)
A vitória, 1939
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela, 73 x 54 cm
Ferreira Gullar
À vida falta uma parte
— seria o lado de fora —
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa
e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.
À vida falta uma porta.
Em: Barulhos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1987, p. 58
“Coma conosco, querida!”…
Confusa e num gesto tosco,
a moça, olhando a comida:
– Quero provar o “conosco”!
(Elisabeth Souza Cruz)
Florbela Espanca
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Armando Vieira da Silva (1887-1940)
“Era uma vez uma cigana”… um dia,
Laura pediu-lhe que lhe lesse a sina,
E ela, a cigana, de contente ria,
Ante a mãozinha delicada e fina.
Fita-lhe o olhar e, débil e franzina,
Linha por linha, atentamente lia;
Um futuro de rosas à menina,
Tudo o que Laura desejar podia.
E disse aos pais: “Três vezes, meus senhores,
Aquele ipê se cobrirá de flores,
Para a menina se cobrir de um véu”.
Laura riu-se e corou. E um ano corre,
Outro mais, e um terceiro… a Laura morre…
— Foi, com certeza, se casar ano céu!…
No trabalho em que me escudo,
lutando para viver,
tenho tempo para tudo,
menos para te esquecer.
(Lilinha Fernandes)
Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…
(Izo Goldman)
Feira, 1988
Hector Carybe (Argentina-Brasil, 1911-1947)
gravura, 35 x 50 cm
Tasso da Silveira
Nos tabuleiros retangulares
as hortaliças úmidas
acabaram de nascer neste instante:
ainda palpitam do milagre da criação.
E ao seu mágico influxo
a multidão, em torno,
vibra numa alegria iluminada.
Vibra numa alegria
radiosa e plena,
como devem ter sido
as alegrias inaugurais
das primeiras manhãs do mundo.
Em: As imagens acesas: poemas 1924- 27, Tasso da Silveira, Rio de Janeiro, Annuario do Brasil:1928
Corrêa Júnior
Dorme, dorme, bonequinha,
que a Noite já vai chegar,
com o mais lindos dos sorrisos
para o teu sono embalar!
Dorme, dorme, bonequinha,
que a Mamãe já vai chegar,
com a mais doce das cantigas,
para o meu sono embalar !
Em: Barquinho de papel: poesias Infantis, Corrêa Júnior, 1961
“Don Juan” de última laia,
o meu amigo Amaral
namora até minissaia
pendurada no varal…
(Calixto de Magalhães)