Trova popular, anônima

25 10 2024

Meu pai julga que me tem

fechadinha na varanda.

Coitadinho de meu pai

que bem enganado anda…

 

(Cultura popular)





“Versos de entreter-se”, poesia de Ferreira Gullar

23 10 2024

A vitória, 1939

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela, 73 x 54 cm

 

 

Versos de entreter-se

 

Ferreira Gullar

 

À vida falta uma parte

— seria o lado de fora —

pra que se visse passar

ao mesmo tempo que passa

 

e no final fosse apenas

um tempo de que se acorda

não um sono sem resposta.

 

À vida falta uma porta.

 

 

Em: Barulhos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1987, p. 58





Trova das guloseimas

18 10 2024

 

“Coma conosco, querida!”…

Confusa e num gesto tosco,

a moça, olhando a comida:

– Quero provar o “conosco”!

 

(Elisabeth Souza Cruz)





Lágrimas ocultas, poesia de Florbela Espanca

17 10 2024
Leitora, Joanne Grieve

 

 

Lágrimas ocultas

 

Florbela Espanca

 

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

 

 

 





Cigana, poesia de Armando Vieira da Silva

11 10 2024
Ilustração de Miriam S. Hurford, para capa de Woman’s World, Setembro, 1931.
 
Cigana

 

Armando Vieira da Silva  (1887-1940)

 

“Era uma vez uma cigana”… um dia,

Laura pediu-lhe que lhe lesse a sina,

E ela, a cigana, de contente ria,

Ante a mãozinha delicada e fina.

 

Fita-lhe o olhar e, débil e franzina,

Linha por linha, atentamente lia;

Um futuro de rosas à menina,

Tudo o que Laura desejar podia.

 

E disse aos pais: “Três vezes, meus senhores,

Aquele ipê se cobrirá de flores,

Para a menina se cobrir de um véu”.

 

Laura riu-se e corou. E um ano corre,

Outro mais, e um terceiro… a Laura morre…

— Foi, com certeza, se casar ano céu!…

 

 

 





Trova do esquecimento

8 10 2024

 

 

No trabalho em que me escudo,

lutando para viver,

tenho tempo para tudo,

menos para te esquecer.

 

(Lilinha Fernandes)





Trova das rosas e espinhos

2 10 2024
Ilustração,  Harry Sundblom.

 

 

Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…

(Izo Goldman)





Feira, poema de Tasso da Silveira

30 09 2024

Feira, 1988

Hector Carybe (Argentina-Brasil, 1911-1947)

gravura, 35 x 50 cm

 
Feira

Tasso da Silveira

Nos tabuleiros retangulares

as hortaliças úmidas

acabaram de nascer neste instante:

ainda palpitam do milagre da criação.

E ao seu mágico influxo

a multidão, em torno,

vibra numa alegria iluminada.

Vibra numa alegria

radiosa e plena,

como devem ter sido

as alegrias inaugurais

das primeiras manhãs do mundo.

Em: As imagens acesas: poemas 1924- 27, Tasso da Silveira, Rio de Janeiro, Annuario do Brasil:1928





Dorme, dorme, bonequinha… poesia infantil de Corrêa Júnior

26 09 2024
Ilustração Helen Jackson, 1893

 

 

Dorme, dorme, bonequinha

 

Corrêa Júnior

 

Dorme, dorme, bonequinha,
que a Noite já vai chegar,
com o mais lindos dos sorrisos
para o teu sono embalar!

 

Dorme, dorme, bonequinha,
que a Mamãe já vai chegar,
com a mais doce das cantigas,
para o meu sono embalar !

Em: Barquinho de papel: poesias Infantis, Corrêa Júnior, 1961





Trova do Don Juan

17 09 2024
Ilustração Arthur Sanoff.

 

 

“Don Juan” de última laia,

o meu amigo Amaral

namora até minissaia

pendurada no varal…

 

 

(Calixto de Magalhães)