Idílio, poesia de Paulo Setúbal

30 05 2016

 

paquera, walter crane, 1877Ilustração de Walter Crane, 1877.

 

 

Idílio

 

Paulo Setúbal

 

 

“Vamos?” disseste… E eu disse logo: vamos!

Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,

Uma alegria esplêndida e sonora;

E tu, abrindo ao sol como uma tenda,

Tua sombrinha de custosa renda,

Partimos ambos pela estrada afora…

 

Com que emoção — recordas? — com que gozo,

Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,

Nessas novenas de plangências cavas.

E como um cavalheiro que se preza,

Timbrava em te levar, depois da reza,

Até ao portão da chácara em que estavas.

 

Certa vez… Vá, não cores desse jeito!

Era de noite. Arfava-nos o peito.

Ardia em nós um lânguido desejo,

Tomei-te as mãos… Sorriste… E aí, num assomo,

As nossas bocas sem sabermos como,

Famintamente uniram-se num beijo!

 

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 135-136





Trova da amizade

27 05 2016

???????????????????????????????Briga de Pluto com Buldogue , ilustração de Walt Disney.

Não se rompe um laço antigo,

sempre há perdão, na amizade.

Quem deixa de ser amigo,

nunca o foi na realidade.

(Edgar Barcelos Cerqueira)





Rosinha da Roda, poesia de Stella Leonardos

24 05 2016

 

 

Edvard_Munch_-_Four_Girls_in_Åsgårdstrand_-_Google_Art_ProjectQuatro meninas em Åsgårdstrand, 1903

Edvard Munch (Noruega, 1863-1944)

óleo sobre tela, 87 x 111 cm

Museu Munch, Oslo

 

 

Rosinha da Roda

 

Stella Leonardos

 

 

Elas eram quatro rosas

Sendo cada qual mais bela.

A vermelha, a cor de rosa.

A de corola amarela…

Mas a quarta era Rosinha,

Branca branca, bem singela.

Levou-a Deus manhãzinha.

Que era rosa de anjo, aquela.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.63





Lamparina, soneto de Jorge de Lima

21 05 2016

 

 

stom-aSenhora idosa e menino à luz de vela

Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)

óleo sobre madeira, 58 x 71 cm

Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra

 

 

 

Lamparina

 

Jorge de Lima

 

Põe azeite na tua lamparina

Para que a treva eterna se retarde.

A tarde há de ensombrar a tua sina

E a Morte é indefectível como a tarde.

 

Observa: a sua luz não tem o alarde,

Que as combustões de súbito confina.

O fogaréu indômito ilumina,

Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

 

A lamparina, entanto, muito calma,

— Luz pequenina, que parece uma alma,

Que à Grande Luz celestial se eleva –,

 

Espera nesse cândido transporte,

Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,

Que a luz pequena para a Grande leva.

 

 

Jornal do Comércio, Maceió, 26 set. 1917

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52





A estrela, poesia de Manuel Bandeira

10 05 2016

 

 

ceu estrelado de outono, jenifferCéu estrelado de outono, ilustração Jennifer

 

A Estrela

 

Manuel Bandeira

 

Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela sozinha

Luzindo no fim do dia.

 

Por que da sua distância

Para minha companhia

Não baixava aquela estrela?

Por que tão alta, luzia?

 

E ouvi-a na sombra funda

Responder que assim fazia

Para dar uma esperança

Mais triste ao fim do meu dia.

 

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 110-111.

 





Mãe, poesia de Gonçalves Crespo

3 05 2016

 

J.U. CAMPOS (Jurandir Ubirajara Campos) (Brasil, 1903-1972)Maternidade - óleo sobre tela - 71 x 58 cm - ass. dat. 1959 inf. dir.Maternidade, 1959

Jurandir Ubirajara Campos (Brasil, 1903-1972)

óleo sobre tela, 71 x 58 cm

 

 

Mãe
A M. De Campos Carvalho

 

 

Gonçalves Crespo

 

 

 

Ela velava perto

Do filho, que dormia,

E cândida sorria

Ao lírio entreaberto.

 

Da lua um raio incerto

No quarto se perdia;

E a mãe olhava o Dia

E a Luz do seu deserto.

 

No berço flutuante

Moveu-se agora o infante

E acorda pranteando…

 

Não há quadro mais belo

Que a mãe, solto o cabelo,

O filho acalentando!

 

1869

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 122.





Trova das letras

27 04 2016

 

 

abc, cubos, antigos

 

As letras… que maravilha

com elas a gente faz:

desde alegres redondilhas,

até um tratado de paz!

 

 

(Antônio Augusto de Assis)

 





No museu van Gogh, poesia de Marialzira Perestrello

18 04 2016

 

 

unnamedBoulevard de Clichy, 1887

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

Museu van Gogh, Amsterdã

 

 

No museu van Gogh

Marialzira Perestrello

 

 

I

 

Já te conhecia tanto, poeta danado!

Num mundo de demônios

Só Théo era teu anjo.

 

Visitando esses quadros,

caminho em tua vida.

1887, 1888, Boulevard de Clichy,

essa paisagem, esse bosque tranquilo,

essa sombra, essa luz,

tu, impressionista calmo, aceito.

Onde teu mundo caótico?

 

Depois,

árvores ameaçadas,

céus em fogo em Saint Remy-Provence.

Nesse auto-retrato

braço e paleta unidos, fundidos.

Ah! Vincent!

pintavas com tua própria alma.

 

 

Em: Mãos dadas, Marialzira Perestrello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1989, p. 15





Sublinhando…

15 04 2016

 

Jacquet-Gustave-Jean-1846-1909-Attentive-readingLeitora atenta

Gustave-Jean Jacquet (França, 1846 -1909)

 

 

“Também as catedrais são sinfonias.”

 

Martins Fontes (1884-1927) poema: O espírito da matéria





Miçanga, poema de Wilson W. Rodrigues

12 04 2016

 

chuva,Tatsuro KiuchiChuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.

 

 

Miçanga

 

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva — miçangas do céu

de um invisível colar

que na amplidão se partiu

veio na terra tombar.

 

Chuva — miçangas do céu

feita de pingos de luz;

cada pingo — estojo d’água

que um diamante conduz.

 

Chuva — miçangas do céu

do colar que se partiu;

miçanga — orvalho perdido

que no seu peito luziu.

 

Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127

 

 

Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas.  Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas.  No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil.  Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.