O escritor Ronaldo Wrobel visita grupo “Ao Pé da Letra”

27 06 2016

 

 

DSC00584Encontro do grupo de leitura Ao Pé da Letra, com o escritor Ronaldo Wrobel.

 

 

Ontem foi um dia especial para o grupo  Ao Pé da Letra que contou com a presença do escritor Ronaldo Wrobel conversando sobre O romance inacabado de Sofia Stern, lançado na terça-feira passada, 21 de junho de 2016.

Estavam presentes 19 membros do grupo e seus convidados.  Todos se deliciaram com as histórias contadas pelo autor sobre sua vasta pesquisa na Alemanha, na Suíça e até mesmo em países que eventualmente foram completamente cortados do romance.  Ronaldo Wrobel, que escreve e atua como advogado, mostrou de forma descontraída e bem humorada as pequenas vitórias e os surpreendentes momentos em que o acaso  o levou a informações interessantes  na detalhada pesquisa sobre a Alemanha dos anos 30.

 

DSC00583Membros do Ao Pé da Letra ouvindo o escritor Ronaldo Wrobel.

 

Além disso o autor, com grande magnanimidade, trouxe para inspeção do grupo o último manuscrito completamente revisado, com cortes enormes e observações para si mesmo, com palavras obliteradas, parágrafos cortados, capítulos divididos ou completamente retirados, antes do manuscrito final enviado à editora.  Foi impressionante para o grupo ver o detalhamento da edição final do escritor que removeu perto de 200 páginas do manuscrito original para chegar ao texto que conhecemos como leitores.

O Ao pé da letra: leitores e amigos —  segundo grupo de leitura patrocinado pela Peregrina Cultural, um grupo de leitura independente de editoras ou de qualquer patrocínio corporativo, agradece a Ronaldo Wrobel por sua generosidade com seu tempo, conhecimento, bom humor e sobretudo sua dedicação a uma melhor literatura brasileira, mais engajada com o leitor de hoje, profissional de outras áreas que tem a leitura como companheira de vida.

O livro O romance inacabado de Sofia Stern foi publicado pela editora Record, e seu lançamento na semana passada garante que ele esteja nas melhores livrarias do país.

Para saber mais sobre a obra: Resenha

 

DSC00585Membros do Ao Pé da Letra ouvem atentamente o escritor Ronaldo Wrobel.

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Resenha: “A vida invisível de Eurídice Gusmão” de Martha Batalha

26 06 2016

 

 

georgina-de-albuBordando, s.d.

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela

 

 

A vida invisível de Eurídice Gusmão se passa nas décadas de 1940 em diante, no Rio de Janeiro. Eurídice Gusmão e sua irmã são mulheres que não se conformavam com a circunscrição de seus papéis atribuídos pela sociedade. Apesar de tentarem, cada qual à sua maneira, nem sempre conseguiam escapar dos destinos projetados para elas inicialmente por familiares e mais tarde por seus  maridos.   Evocativo de uma época, a obra descreve a vida de mulheres da geração de nossas avós. Eu gostaria de poder dizer que só elas, mas também descreve a de nossos pais ou de muitos dos nossos contemporâneos, porque o problema das vidas circunscritas a papeis tradicionais ainda parece enraizado em muitos cantos da nossa terra.

 

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A narrativa se concentra na história de Eurídice contrastada à da irmã, Guida, que havia buscado viver em seus termos, cortando os laços com os pais, libertando-se das expectativas deles e de todos à volta. A tentativa não durou.  E eventualmente, Guida decide pelo comprometimento de suas realizações pessoais para beneficiar a vida do filho.  O mesmo ocorreu com Eurídice, que mais tímida, menos aventureira, também se acomoda no casamento com Antenor, um bancário, bom provedor, mas incapaz de apreciar a energética e inteligente esposa que lhe coubera.  Por manter o lar para seus filhos Eurídice também se anula.  Eurídice passa a vida correndo atrás de alguma brecha que a permitisse achar maior significado em sua própria vida além daquele de mãe e dona de casa.  É frustrada em todas as tentativas. Por fim, encontra consolo ao escrever, passando os dias finais de sua vida em frente à máquina de escrever já bem depois do estabelecimento da ditadura militar de 1964.

Não é uma obra prima, não irá ganhar o prêmio Nobel de literatura.  No entanto, à medida que considerei esse livro para resenha, cresceu minha admiração. É um bom livro. Pelo assunto abordado e bem retratado, A vida invisível de Eurídice Gusmão, é uma boa escolha de leitura que aborda as limitações da mulher na sociedade carioca, das gerações que viveram através do século XX.  Só por esse esforço deveria ser aplaudido.

 

 

martha_batalha_5_credito_jorge_lunaMartha Batalha

 

Meus problemas com essa obra não se limitam ao tom puramente evocativo.  Não há um crescendo de informações. Não há resolução de conflitos, nem mesmo no final.  Falta-lhe agilidade, ação e diálogos. A narrativa, ainda que impecável, é distante. No entanto, retrata muito bem uma época e é perfeitamente dispensável a explicação da autora no início e no fim do livro sobre a existência  de certos personagens ou sobre as obras escritas por Eurídice Gusmão.  É chocho.

Mas me aventuro a dizer que se você gostou de Arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo, é provável que goste deste livro, por sua evocação de uma época.

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Trova dos meus amigos

23 06 2016

 

 

andandoTurma da Mônica, ©  Maurício de Sousa.

 

 

Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim.

 

(Izo Goldman)

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Uma noite para lembrar, encontro com o escritor Ronaldo Wrobel

20 06 2016

 

 

Encontro com Ronaldo WrobelEncontro do Grupo de Leitura Papalivros, com o escritor Ronaldo Wrobel, 19/06/2016.

 

 

Foi uma noite especial para o Papalivros. A visita do escritor Ronaldo Wrobel, a dois dias do lançamento oficial do livro O romance inacabado de Sofia Stern, gerou uma conversa estimulante sobre o processo criativo [lançamento no RJ: Livraria da Travessa, Shopping do Leblon, dia 21 às 19 horas, aberto ao público].

Uma coisa é ler.  Outra é ouvir do escritor os porquês das escolhas que fez como autor: localização, época, personagens.  O que foi cortado, o que foi detalhado, o que existe no mundo em que vivemos e o que vem da imaginação do autor são perguntas, divagações, que durante a leitura raramente fazemos mas que estão presentes no dia a dia do escritor.

 

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Saber que um manuscrito de mais de quatrocentas páginas  vai para o prelo com um pouco mais da metade, porque o autor cortou “na própria carne” para tornar seu texto mais enxuto, é surpreendente.

Por todos os detalhes  que dividiu conosco do processo criativo, o grupo Papalivros está grato a Ronaldo Wrobel pela franqueza, carinho, gentileza, cuidado  e sobretudo o excelente humor com que nos tratou.

Fica a recomendação da leitura: O romance inacabado de Sofia Stern, Ronaldo Wrobel, Editora Record: 2016.

 

Resenha

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Trova das histórias escritas

18 06 2016

 

 

escola, jessie willcox smithsssssIlustração de Jessie Willcox Smith, 1928, para capa da Revista Good Housekeeping.

 

 

Quebra-cabeças é a vida,

e as letras peças de amor,

formando, após reunidas

histórias de glória ou dor!

 

 

(João Paulo Ouverney)

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Trova do piscar de olhos

16 06 2016

 

encabuladaMadame Mim dança com um admirador. Ilustração Walt Disney.

 

 

Não pisco os olhos ao vê-la

para não correr o risco

de, por momentos, perdê-la,

a cada instante que pisco.

 

(Orlando Brito)

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Resenha: “O romance inacabado de Sofia Stern”, de Ronaldo Wrobel

10 06 2016

 

 

Noite em Hamburgo,Hamburgo à noite

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Acabo de ler o novo livro de Ronaldo Wrobel, O romance inacabado de Sofia Stern. Foi grande o prazer de reconhecer aqui o escritor que me encantara com Traduzindo Hannah há cinco anos. É reconfortante constatar que um autor de que gostamos inicialmente continua a produzir obras da qualidade e do interesse que percebemos anteriormente.

Sofia Stern é obra bem mais complexa e dinâmica. É narrada como um thriller.  Ao final de cada capítulo uma questão, uma curiosa mudança de rumo, uma observação intrigante nos leva ao capítulo seguinte com ansiedade.  Trata-se de uma aventura, iniciada no Brasil, por um brasileiro, morador de Copacabana que, esperançoso de ser recipiente de uma fortuna de milhões de euros, viaja  com a avó nonagenária, imigrante de guerra, de volta à Alemanha, a fim de apresentar documentação para que ela seja considerada herdeira legal da cobiçada fortuna. No meio do caminho, conturbado e repleto de reviravoltas, como Ronaldo Wrobel já mostrou ser seu estilo narrativo, aprendemos muito sobre ele, ela, a família e a Alemanha de Hitler.

 

sofia

 

A Segunda Guerra Mundial é o tema mais importante e modelador das artes do século passado. Direta ou indiretamente ela molda até hoje a produção literária e artística mundial. Não haverá ficção literária, em número ou natureza, que possa transmitir a nós, gerações pós-apocalipse, o que foi uma guerra em que morreram quase sessenta milhões de pessoas, um pouco mais de 3% população mundial em 1940.  Ronaldo Wrobel se encarrega, junto a outros, de nos lembrar disso. Precisamos saber para não esquecer, e jamais repeti-la.  Mas talvez por estar duas gerações removidas da hecatombe, ele toma a liberdade de encará-la por ângulo diferente.  Em seus livros, Hannah e Sofia Stern, Wrobel  se concentra na vida dos que sobreviveram. Seu foco está nas histórias dos que tiveram vidas modificadas como consequência da guerra e nas estratégias que usaram para tornar suas vidas relevantes em outras circunstâncias. É o sobreviver que o atrai, que o fascina. Com fino humor, afiada observação do comportamento humano e muita pesquisa Ronaldo Wrobel tem feito, aos poucos, uma pequena revolução literária no país, abrindo a porta outrora fechada do bolorento recinto onde escritores brasileiros se abrigam. Ventilando o ambiente, ele se separa dos autores dedicados a publicações autorreferenciais e herméticas, escravas de modismos intelectuais, acorrentadas por programas político-sociais que passam por literatura.

Aqui não.  Temos um texto ágil, inteligente, informativo, divertido que dá prazer de ser degustado.  Até pouco tempo essas eram características inexistentes nas prateleiras das estantes nativas. A prova é que nossos leitores se debruçam mais sobre obras em tradução, concebidas no exterior, do que sobre as publicações nacionais que raramente consideram a existência de um público leitor inteligente, curioso e ávido por uma boa história.  Ronaldo Wrobel nos dá exatamente o que faltava no horizonte literário brasileiro.

 

Ronaldo-Wrobel1Ronaldo Wrobel

 

A produção literária de Wrobel o coloca num contexto maior do que a Segunda Guerra Mundial. Há, subjacente nos dois livros mais recentes do autor, temática sutil e relevante: a questão da identidade. Esse é um tópico explorado nos meios literários, amiúde, a partir da segunda metade do século XIX, quando a fome e a pobreza na Europa levaram milhares de imigrantes italianos, irlandeses, alemães e outros às terras do Novo Mundo. Mais tarde depois de cada uma das grandes guerras, um maior número de pessoas deslocadas habita novas terras, refazendo vidas. A identidade que desenvolvem é um tema de relevância que precisa ser aventado, hoje, quando multidões atravessam fronteiras impacientes para forjar nova vida em melhores circunstâncias.

Imediatamente após a imigração segue-se a questão de identidade. Todos os imigrantes passam por essa experiência e Wrobel não é alheio a isso. Escritores, ensaístas, como André Aciman e Amin Maalouf entre outros dedicaram-se a essa complexa questão. Não se trata só da língua, do país ou da cultura que se deixou para trás cair no esquecimento. Hábitos de aldeias que não mais se sustentam em novas realidades deixam um tremendo vazio na alma. Mas há, sobretudo, a necessidade de pertencimento ao país que abraçou o imigrante.  O que o imigrante faz para se integrar ao novo mundo? E quais são, afinal, os sacrifícios para que os sonhos num novo horizonte se construam?  Sem necessariamente abordar essa questão diretamente, Ronaldo Wrobel descreve para o leitor as diversas artimanhas que envolvem a nova vida. Lição importante para os dias de hoje.

Tema riquíssimo, o jogo de identidades desafia a compreensão de quem somos e de quem projetamos ser.  Já no início do século XX Pirandello questionava a percepção da realidade em uma de suas mais conhecidas peças teatrais, Assim é se lhe parece (1917). Mas hoje, cidadãos de uma cultura global nos encontramos de hora em hora nos definindo e redefinindo, como fazem os astutos personagens de Hannah e de Sofia Stern. A cada avatar um novo nome, uma nova vida. Como disse Mia Couto: “A verdade é que nós somos sempre não uma mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade.” [E se Obama fosse africano?: O planeta das peúgas rotas]. Assim segue O romance inacabado de Sofia Stern. Com uma variante que nos faz pensar ainda uma vez na questão de identidade, Ronaldo Wrobel se insere na narrativa ficcional. Ele é ao mesmo tempo personagem e narrador.  Provavelmente só para mostrar que o jogo de identidades é universal. Este é um bom e sedutor livro que nos envia mais questões do que as levantadas aqui. Além de entretenimento de primeira ordem, o livro nos leva a considerar temas atuais sob uma nova perspectiva.  Ronaldo Wrobel está de parabéns.

Recomendo a leitura sem quaisquer restrições.

 

 





Trova da saudade

9 06 2016

 

 

saudadeMagali e seu gatinho Mingau. Ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

A saudade, quando ocorre,

sempre causa tanta dor!

Saudade – mal de que morre

quem já morria de amor!

 

 

(Walter Waeny)





A aranha, poesia de Da Costa e Silva

7 06 2016

 

 

aranha1Aranha, ilustração de Christina Rossetti.

 

 

A aranha

 

Da Costa e Silva

 

Num ângulo do teto, ágil e astuta, a aranha,

Sobre invisível tear tecendo a tênue teia,

Arma o artístico ardil em que as moscas apanha

E, insidiosa e sutil, os insetos enleia.

 

Faz do fluido que flui das entranhas a estranha

E fina trama ideal  de seda que a rodeia

E, alargando o aranhol, os elos emaranha

Do alvo, disco nupcial, que a luz do sol prateia.

 

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha

O arabesco fatal, onde os palpos apoia

E tenaz, a caçar os insetos se empenha.

 

Vive, mata e produz, nessa fana enfadonha;

E, o fascinante olhar a arder como uma joia,

Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.166





Trova do sorriso

31 05 2016

 

a7c9c60ffc12e020b3c78631d3f315ccIlustração da década de 1950.

 

 

O sorriso é flor de sebe,

perfume de resedá.

Anima a quem o recebe,

embeleza a quem o dá.

 

(Nair Starling)