Trova do nosso ninho

29 03 2017

 

 

 

Andorinha8 wallpaperNinho de andorinhas.

 

 

Nosso ninho, bem tecido,

com fios de lealdade,

sempre estará protegido

contra chuva e tempestade.

 

(José Lucas de Barros)

 

 

 

 

 

 

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Um passeio ao Pão de Açúcar, texto de Pedro Nava

23 03 2017

 

 

Felisberto Ranzini (1881 - 1976) Pão de Açúcar Aquarela 33 x 50 cm.Pão de Açúcar

Felisberto Ranzini (Brasil, 1881-1976)

Aquarela sobre papel, 33 x 50 cm

 

 

“UMA COISA FABULOSA que fiquei devendo ao noivado de minha prima foi a excursão que fizemos ao Pão de Açúcar nos bondinhos aéreos inaugurados em 1912 e 1913. Tinham quatro para cinco anos e eram uma novidade que o Joaquim Antônio queria comparar com os que vira na Europa. Combinou-se o passeio e ele próprio me incluiu no grupo dizendo que “mestre Pedro vai conosco”. Éramos ele, eu, a noiva, tia Candoca e a Mercedes Albano. Para essa coisa meio esportiva que era a ascensão que ia ser feita, vesti meu terno número um, o Joaquim Antônio colarinho duro de pontas viradas, a Maria e a Mercedes grandes chapéus e vestidos escuros, a futura sogra sedas, veludos pretos e uma toque alta de pluma póstero-lateral. Exatamente, pois possuo os retratos tirados nesse dia inesquecível. Lanchamos na Urca — chá, torradas, sanduíches, mineral e para mim, tudo isso e o céu também — gasosa! Subimos depois do por do sol e o acender das luzes da cidade nas alturas do Pão de Açúcar dos ventos uivantes. Não sei dos outros. No cocuruto eu desci um pouco no declive que dá para o maralto, sentei no granito e olhei. Jamais reencontrei coisa igual senão quando, em Capri, subi à casa de Axel Münthe e no dia em que sobrevoei Creta para descer em Heraclion. Estavam presentes todas as cores e cambiantes que vão do verde e do glauco aos confins do espetro, ao violeta, ao roxo. Azul. Marazul. Azurescências, azurinos, azuis de todos os tons e entrando por todos os sentidos. Azuis doce como o mascavo, como o vinho do Porto, secos como o lápis-lazúli, a lazulite e o vinho da Madeira, azul gustativo e saboroso como o dos frutos cianocarpos. Duro como o da ardósia e mole como os dos agáricos. Tinha-se a sensação de estar preso numa Grotta Azzurra mas gigantesca ou dentro do cheiro de flores imensas íris desmesuradas nuvens de miosótis hortênsias — só que tudo rescendendo ao cravo — flor que tem de cerúleo o perfume musical de Sonata ao Luar. Malva-rosa quando vira rosazul. Aos nossos pés junto à areia de prata das reentrâncias do Cara-de-Cão, ou do cinábrio da Praia Vermelha, o mar profundo abria as asas do azulão de Ovale e clivava chapas da safira que era ver as águas das costas da Bahia. Escuro como o anilíndigo do pano da roupa que me humilhava nos tempos do Anglo-Mineiro. Mas olhava-se para os lados de Copacabana e das orlas fronteiras além de Santa-Cruz e o meitleno marinho se adoçava azul Picasso, genciana, vinca-pervinca. As ilhas surgiam com cintilações tornassóis e viviam em azuis fosforescentes e animais como o da cauda seabrindo pavão, do rabo-do-peixe barbo, dos alerões das borboletas capitão-do-mato da Floresta da Tijuca. Olhos para longe, mais lonjainda — e horizontes agora Portinari, virando num natiê quase cinza, brando, quase branco se rebatendo  para as mais altas das alturas celestes azul celeste azur só possível devido a um sol de bebedeira derretendo os contornos as formas e virando tudo no desmaio turquesa e ouro e laranja dos mais alucinados Monets Degas Manets Sisleys Pissarros. Mas súbito veio o negro da noite acabando a tarde impressionista. As luzes se acenderam em toda a cidade mais vivas na fímbria orlando o oceano furioso. Eu nem me lembro como vim rolando Pão de Açúcar abaixo aos trancos e barrancos daquele dia vinho branco…”

 

 

Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, pp. 129-30.





Trova das rosas

17 03 2017

 

 

primavera-no-jardim-vasos-plantas-joseph-b-platthouse-and-garden-1926-03Primavera no jardim, Joseph B. Platt, capa da revista House and Garden, março 1926.

 

 

Mesmo pisando em espinhos

por travessias penosas,

em todos os meus caminhos

farei plantio de rosas!

 

 

(Dodora Galinari)

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Menina loura, poesia de Stella Leonardos

15 03 2017

 

 

VAN DIJK, WIN (1915-1990)RetratodeMariaCatarina Douat,ost, 1957,95 X 60Retrato da menina Maria Catarina Douat, 1957

Win van Dijk ( Holanda/Brasil, 1915-1990)

óleo sobre tela, 95 x 60 cm

 

 

Menina Loura

 

Stella Leonardos

 

(Para Leilá)

 

 

É uma sílfide dançando.

É uma infanta adolescendo.

Cabelo de ouro brilhando.

Alvor de lírio crescendo.

 

Coração de cristal puro,

Alma de rosa nevada,

Sonha trepada no muro.

E não sabe que é uma fada.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p.51





O reformador do mundo, fábula de Monteiro Lobato

10 03 2017

 

 

DSC01027Zé da Roça tira uma soneca na sombra de uma árvore. © Estúdios Maurício de Sousa

 

 

O reformador do mundo

 

Monteiro Lobato

 

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.  O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia asneiras.

—  Asneiras, Américo?

—  Pois então?!…  Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso.  Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.  Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.  Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

— Mas o melhor – concluiu, é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-pisca, pisca piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu.  Dormiu e sonhou.  Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.  Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf!  Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio o nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

—  Que espiga! … Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta do lugar da jabuticaba?  Hum!  Deixemo-nos de reformas.  Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a Natureza.

 

 

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense:1966, 20ª edição, pp.19-20.

 





São Luís do Maranhão, poesia de Martins D’Alvarez

9 03 2017

 

 

 

Fernando Castelo Branco, Memórias de São Luís do Maranhão

Memórias de São Luís do Maranhão, s/d

Fernando Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

http://casteloartes.blogspot.com.br/

 

 

 

São Luís do Maranhão

 

Martins D’Alvarez

 

 

“Minha terra tem palmeira

onde canta o sabiá…

isso é lirismo do poeta,

a gente pensa de cá!

Mas, ao penetrar-se, em barcos,

na baía de São Marcos,

vemos que há mesmo palmeiras

e muitas palmeiras lá.

 

E, emoldurando as palmeiras,

há jardins verdes, floridos,

ruas que sobem ladeiras,

azulejos e vitrais…

Poesia dos tempos idos:

— chafarizes esquecidos,

romances adormecidos

em solares coloniais.

 

E na fronde das palmeiras,

há mesmo alados cantores

— enlevo dos sonhadores,

— ternura dos namorados…

Dos platônicos mancebos

que se ficam nas calçadas

a acenar para as donzelas

nas janelas dos sobrados.

 

“Minha terra tem primores

que tais não encontrou eu cá…

“Velhos fortins dos franceses,

igrejinhas seculares:

Carmo, Remédios, a Sé

— mãe das primeiras Missões!…

Se cujo púlpito, Vieira,

plantou a fé brasileira,

com a augusta sementeira

de seus famosos sermões.

 

Tem recantos encantados,

de um bucolismo sem-par:

— Sacavém, Ponta da Areia,

São João de Ribamar…

O velho Farol de Alcântara,

o Bumba-meu-boi de Anil…

E outras relíquias da História

pitoresca do Brasil.

 

Tem aquela preta velha

da Rua dos Afogados

que foi preada na Angola,

deu bom preço nos mercados…

Foi tudo para os Senhores…

Amargou de mão em mão…

E traz na pele, gravado,

o drama da escravidão.

 

Tem o português dos “secos”

e o português dos “molhados”…

Tem o turco dos “retalhos”

ë o turco dos “atacados”…

Tem a “pipira morena”,

lá da Rua do Alecrim,

que aos domingos, toda chique,

vai fazer seu piquenique

e à noite, em Campos de Ourique,

quem paga tudo é o Joaquim!

 

“Nosso céu tem mais estrelas”

“na noite calma e deserta…

— Infinita porta aberta

para um mundo de poesias!

“nossas várzeas têm mais flores”,

além das rosas-meninas

que florescem nas esquinas

da Praça Gonçalves Dias!

 

“Nossos bosques têm mais vida”

na magia feiticeira

dessa Atenas Brasileira

de artistas e pensadores.

Graças à luz expendida

por esta estirpe luzida,

“nossos bosques têm mais vida,

nossa vida mais amores”.

 

“Em cismar sozinho à noite

mais prazer encontro eu lá”,

pela Praça João Lisboa,

recitando o “Marabá”…

Ao longo da Praia Grande…

No botequim da Sinhá,

tirando o gosto da pinga

com refresco de cajá…

Ouvindo, ao luar de prata,

acordes de serenata,

com trovador e com flauta

com violão e ganzá.

 

“Não permita Deus que eu morra

sem que eu volte para lá…

“Sem que carregue, contrito,

o andor de São Benedito,

na bênção que ao povo aflito,

em procissão, ele dá…

Sem que inda prove pequi,

cupuaçu, bacuri,

cambica de murici

e um bom arroz de cuchá!…

 

Quero morrer, na verdade,

na minha velha cidade,

namorando a antiguidade,

numa rede de algodão…

Dando um adeus ao passado,

um viva a Pedro II

na melhor terra do mundo:

— São Luís do Maranhão!

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Trova da inconstância

7 03 2017

 

 

 

004_001Ilustração de Margret Boriss

 

 

Parece o teu coração

com plataforma de trem,

qua mal despede os que vão

para abrigar os que vêm.

 

 

(Roberto Medeiros)





Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





Trova do que passa

2 03 2017

 

 

 

comboios-aCartão postal.

 

 

Tudo muda, tudo passa,

neste mundo de ilusão:

vai para o céu a fumaça,

fica na terra o carvão.

 

 

 

(Guilherme de Almeida)

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A máscara, de Ladyce West

26 02 2017

 

 

lucia-helena-redig-de-campos-brasil-1945

Mulher com máscara, 2005

Lucia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

A máscara

 

Ladyce West

 

 

Máscara?

Que máscara?

Somos todos mascarados.

Cada qual com seu disfarce

Na passarela, no palco,

Na escola, na corte,

No hospital, no bar da esquina,

Na reunião em família,

Na lágrima sem dor.

No Bom Dia! Na Boa Noite!

No “foi bom para você”?

No obrigado ingrato.

Até os super-herois precisam de suas máscaras.

Não me venha com essa de tirar a minha máscara.

Você me reconheceria?

E ao espelho de manhã?

Fazendo a barba.

Tem certeza de que sabe quem está do outro lado?

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, dezembro, 2016.