
Noite, ilustração de Clarence Coles Phillips.
Ao sentir que a noite nasce,
fecho as cortinas, ligeiro,
pra que o luar não te abrace
sem que eu te abrace primeiro!
(Sérgio Bernardo)

Ao sentir que a noite nasce,
fecho as cortinas, ligeiro,
pra que o luar não te abrace
sem que eu te abrace primeiro!
(Sérgio Bernardo)
OUTONO, ilustração de G. Higham
Zinda Maria Vaconcellos
Árvores cheias de frutos,
com as folhas avermelhadas,
estão quietinhas, parada,
parecem ter muito sono…
que bom, estamos no outono…
Já mudou a paisagem,
o vento com sua aragem,
põe nuazinhas as árvores.
Folhas caídas, bailando,
vão o chão todo enfeitando.
É o inverno que vem chegando.
Em: O mundo da criança, vol. 1: poemas e rimas, Rio de Janeiro, Editora Delta: 1971, p. 146

“A bolsa ou a vida” – eu ouço
e retruco as ironias:
— Que leve as duas, seu moço,
pois ambas estão vazias.
(Roberto Medeiros)
Os moderados e os desmedidos, c. 1475-1480
Mestre do Livro de Orações de Dresden
Bélgica
The J. Paul Getty Museum
“Em toda a Europa predominavam refeições coletivas em que inteiras, incluindo os funcionários, sentavam-se juntos. Era uma recomendação da Igreja contra o egoísmo e a arrogância. Porém, perto do final da Idade Média, os ricos procuraram escapar do espírito coletivo, retirando-se em salas privadas para desfrutar de privacidade durante as refeições.
Durante o período medieval os ricos atentaram para a importância da limpeza e de hábitos saudáveis antes e durante as refeições. Nas mesas havia tigelas de água e toalhas para que pudessem lavar as mãos.”
Em: Paris-Brest, Alexandre Staut, São Paulo, Cia Editora Nacional: 2016, p.152
Colheita
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)
óleo sobre tela, 29 x 38 cm
Paulo Setúbal
Lá vem o dia apontando…
Que afã! Já todos de pé!
Ruidosos, tagarelando,
Vão os colonos em bando
Para os talhões de café.
À luz do sol que amanhece,
Por montes, por barrocais,
Por toda parte esplandece,
Com sua esplêndida messe,
O verde dos cafezais.
Começa o rude trabalho.
Que faina honrada e feliz!
Inda molhados de orvalho,
Flamejam, em cada galho,
Os bagos como rubis.
Trabalham. que ardor de mouro!
Todos derriçam café.
Parece um rubro tesouro,
Que cai numa chuva de ouro,
Dos ramos de cada pé.
Ao meio-dia, aos ardores
Do alto sol canicular,
Os rudes trabalhadores,
Ao longo dos carreadores,
Põem-se todos a cantar.
Pela dormência dos ares,
Sob estes céus cor de anil,
Cantam canções populares,
Que lá, dos seus velhos lares,
Trouxeram para o Brasil.
Aqui, um forte italiano,
Queimado ao sol do equador,
Solta aos ventos, belo e ufano,
Num timbre napolitano,
A sua voz de tenor!
Há uma terna singeleza
Nas trovas que um outro diz;
Um rapagão de Veneza
Tem, no seu canto, a tristeza
Das águas do seu país.
E uma sanguínea espanhola,
De grandes olhos fatais,
Em baixa voz cantarola
Uns quebros de barcarola,
Magoados, sentimentais…
Que cantem! … Essa cantiga
Brotada do coração,
Seja a prece que bendiga
A terra que hoje os abriga,
A pátria que lhes dá pão.
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 56-57.
Ramo de violetas, 1872
Edouard Manet (França, 1832 – 1883)
óleo sobre tela, 22 x 27 cm
Coleção Particular
Raquel Naveira
Estou em perigo:
Uma angústia,
Um desejo de morrer,
Minhas pétalas murcham
Num roxo mortiço,
Perco o viço,
De amor tão intenso
Desfaleço.
Estou em perigo:
Uma felicidade,
Um deleite,
Minhas raízes sugam húmus,
Encharcam-se,
Amoleço.
Estou em perigo,
Nada no mundo me vale nesse transe;
Num jardim cheio de sombras
Permaneço.
Quando Ele me toma
Entre seus dedos de sol
E me sopra ânimo e coragem,
Fortaleço.
Sem encontrar apoio na terra,
Sem poder subir ao céu,
Vivo frágil,
Presa num caule suspenso.
Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.61

Nos leilões e nas quermesses
das festas de nossa aldeia,
apesar de minhas preces,
foste prenda em mão alheia!
(Roberto Medeiros)
Árvore da família Donald. ©Estúdios Disney.
Pedro Bandeira
Por que é que eu me chamo isso
E não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré
Não se chama crocodilo?
Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei porque se metem
com um nome que é só meu!
O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.
Foi meu pai quem decidiu
que o meu nome fosse aquele.
Isso só seria justo
se eu escolhesse
o nome dele.
Quando eu tiver um filho,
não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande,
ele que escolha um!
Em: Cavalgando o arco-íris, Pedro Bandeira, São Paulo, Moderna: 1984, páginas 12-13.
Igreja, ilustração de Andrew Loomis.
Ela possui tal encanto,
que quando na igreja entrou,
em vez de beijar o santo,
foi o santo que a beijou.
(José Nogueira da Costa)
São Paulo antiga
Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Alberto Caeiro
Um dia de chuva
é tão belo
como um dia de sol.
Ambos existem;
cada um como é.
Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, página, 296