Ilustração Arthur Sarnoff.
Na insensatez da paixão
que me pega, e não tem cura,
deixo de lado a razão
e dou razão á loucura!
(Marina Bruna)
Ilustração Arthur Sarnoff.
Na insensatez da paixão
que me pega, e não tem cura,
deixo de lado a razão
e dou razão á loucura!
(Marina Bruna)
Paisagem de outono ao cair da tarde, 1885
Vincent van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)
óleo sobre tela
Centraal Museum, Utrecht, Holanda
“Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia.”
Mário Quintana
Em: Esconderijos do tempo, Mário Quitana, Porto Alegre, L&PM: 1980.
Mulher ao espelho, 1948
Paul Delvaux (Bélgica, 1897-1994)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Geraldo Carneiro
do outro lado um estranho
faz simulações como se fosse
um demônio familiar
é sempre noite, um assassino sonha
com mulheres assassinadas em série
sob as palmeiras de Malibu
o mundo é só uma ficção plausível
a imagem que baila ao rés-da-lâmina
é um último e improvável vestígio
da existência de Deus
o resto são ecos de outras faces
gestos de espanto e despedida
a música dos relógios, a morte
Em: Folias metafísicas, Geraldo Carneiro, Rio de Janeiro, Relume Dumará: 1995

O suspiro está perfeito,
mas é tão pequenininho
que deve ter sido feito
com ovos de … passarinho!
(Ana Maria Motta)
Na escola
H. Weiss (Polônia, contemporâneo)
óleo sobre tela
Que boa surpresa a leitura de Diário da queda de Michel Laub. Há uns poucos meses eu havia lido outro de seus livros: O Tribunal de quinta-feira. Apesar de ter chegado ao fim, foi um livro que não me entusiasmou. Mas, meu amigo Gilberto Ortega Jr insistiu que eu lesse Diário da queda, lembrando que este seria o primeiro de uma trilogia, da qual O Tribunal é a última obra. Numa sala de espera comecei a leitura e não a deixei de lado. 24 horas foi o período necessário para ler o livro todo. E o considero muito bom, muito bom mesmo!
É uma obra pequena, 152 páginas, densa, mas fácil de ler, abrangendo diversos tópicos complexos: a definição de amizade – de Aristóteles até hoje um assunto que ocupa filósofos no mundo inteiro; duas passagens na vida de um homem — a adolescência (treze anos) e maturidade (aos quarenta), a importância da memória e da herança cultural numa família, conflitos entre pais e filhos. É a vida. Algumas preocupações triviais, mas importantes pontuam o texto: primeira traição, primeira experiência sexual, dependência do álcool.

Michel Laub é iconoclasta na narrativa. Há capítulos com parágrafos numerados, outros discorrendo de modo tradicional. Há passagens com entradas interessantes de um diário positivo, de como as coisas deveriam ser num mundo idealizado. Há entradas em diários. Essa combinação transforma a narrativa num texto de grande vivacidade e fácil entendimento. Breve. Talvez o que mais surpreenda seja a força emocional que o texto carrega nas incansáveis repetições de incidentes que o narrador considera importantes marcos em sua vida. A menção a certos fatos, a volta a eles, a análise deles, o retorno novamente aos momentos cruciais, cada vez de uma maneira, trazendo ao leitor uma ponta a mais de conhecimento do que aconteceu, mas sob um novo ângulo, uma gota de conhecimento, pequena e essencial de informação desconhecida até então, tudo nessa construção do texto leva a uma angústia pulsante, à espera de que haja uma resolução ao que o personagem principal incessantemente descreve e destrincha.
Michel Laub
É um texto intenso. Cuja ternura e carinho só se revelam no final, culminando de modo pungente. Não soluciona problemas. Como a vida, a história fica em aberto, mas a narrativa dá entendimento e provoca reflexão sobre a obsessão do autor cujos passos acompanhamos sem hesitar. Nas duas últimas páginas completa-se um ciclo, fecha-se o todo. Percebe-se finalmente a força motivacional desse confessionário do qual participamos. E aí sim, percebemos a força da carga emocional que define a história. Os olhos umedecem. O impacto é forte e excelente.
Agora vou ler A maçã envenenada, segundo volume da trilogia e reler Tribunal da quinta-feira. Quem sabe se não terei melhor impressão deste último tendo lido os anteriores? Leitura recomendada, com ênfase.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Ilustração de Walter M. Baumhofer.
O coração de quem ama
é misterioso e profundo:
Tem o calor de uma chama
e a imensidade de um mundo!
(José Nogueira da Costa)
Sorria, ilustração de John Atherton, 1948, capa, Saturday Evening Post.
O sorriso é flor de sebe,
perfume de resedá.
Anima a quem o recebe,
embeleza a quem o dá.
(Nair Starling)
Tio Patinhas quer saber quanto vai ganhar, © Estúdios Disney.
Conhecida e ingênua farsa.
Quem fala mal do dinheiro,
regra geral, nem disfarça…
Corre atrás dele primeiro!
(Nair Starling)
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Menase Vaidergorn (Brasil, 1927)
óleo sobre tela, 40 x 60 cm
–
–
P. Carlos e Araújo
–
–
Ginga marota
no passo do samba
aí bateria
segura a cuíca
aperta o pandeiro.
–
Corpos pulando
bamboleando na ponta do pé.
Parada no ar, meia volta,
o couro come.
–
Cabrocha assanhada
que pula pro lado
e pula pra frente
teu corpo balança
no ritmo quente.
O dia inteiro
trabalhou no tanque
mas de noite é rainha
puxa o passo na quadra,
seus pés, tão rápidos,
não se vêem.
Só poeira
mistura de ginga e suor.
O corpo quente
cabelos soltos
braços polidos
sorriso livre
avermelhado
dentadura branca
saia de chita
pompons azuis.
–
Depois, a chuva
pancada forte
vendaval
correrias
coreto vazio
cuíca no chão.
–
Em: O inimigo oculto, P. Carlos de Araújo, Rio de Janeiro, Ed. Gávea: 1988.

Envolto neste mistério,
fico, assim, me perguntando
se brincas, falando sério,
ou falas sério, brincando…
(Roberto Medeiros)