Ilustração, ©Walt Disney
O trabalho do banqueiro
está no seu jogo impuro:
tem lucro com meu dinheiro
e ainda me cobra juro.
(Olympio Coutinho)
Ilustração, ©Walt Disney
O trabalho do banqueiro
está no seu jogo impuro:
tem lucro com meu dinheiro
e ainda me cobra juro.
(Olympio Coutinho)
O escritor Francisco Azevedo com o Grupo de Leitura Ao Pé da Letra, 24/09/2017.
O grupo de leitura Ao Pé da Letra teve o prazer de contar com a visita do escritor Francisco Azevedo, cujo livro Os novos moradores, lançado em junho deste ano, e já em sua segunda edição, foi a leitura escolhida para discussão no mês de setembro.
Seu terceiro romance, precedido por Arroz de Palma, Editora Record: 2008 e Doce Gabito, Editora Record: 2012, tem todas as marcas de um grande sucesso. Situado no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro ele se desenrola entre os ocupantes de duas casas geminadas na rua dos Oitis. Enquanto a casa de cor cinza é habitada por uma família severa cujos membros são emocionalmente distantes uns dos outros, a outra, amarela, tem como residente uma família amorosa e alegre. O relacionamento entre as famílias surge através dos filhos que com isso trazem para o âmago de cada núcleo familiar experiências e acontecimentos imprevisíveis.

O grupo de leitores se deliciou com a franqueza, modéstia e simplicidade do autor, que dividiu com os presentes sua maneira de escrever, explicou como as ideias se desenvolvem e abriu o leque de reações dos leitores aos seus livros, principalmente a este último, que trata de assunto familiar espinhoso. Francisco Azevedo foi espontâneo, e mostrou grande senso de humor ao se surpreender e divertir, aqui e ali, com a reação dos leitores a personagens, fatos e soluções de problemas encontrados no texto.


Foi sem sombra de dúvida uma noite memorável para os leitores. Agradecemos a presença de Francisco Azevedo e sua esposa Edvane. Aprendemos muito sobre o processo criativo e a maneira como sincronicidade parece agir em torno de uma criação literária, tornando-a quase inevitável. Um grande abraço de todos do Ao Pé da Letra, desejo de muito sucesso ao escritor e até o próximo encontro. Esperamos vê-lo quando seu próximo romance sair do prelo!

Gosto imensamente da poesia de Manuel Bandeira. Acho-o, se não o maior poeta do século XX, certamente entre os três mais importantes poetas brasileiros da época. Acredito ter lido quase toda sua obra. Um atrativo a mais para o livro Um beijo de Colombina de Adriana Lisboa é que Manuel Bandeira está presente, ou melhor, é a alma, do romance. Por isso tive grandes expectativas ao abrir o livro.
Adriana Lisboa, por outro lado, só conheço de um livro anterior: Rakushisha. Por ele, a autora passou a figurar no rol de escritores/ poetas favoritos, pois me lembro de sua prosa delicada, cheia de surpresas e inusitadas visões dos temas do cotidiano.

Acreditei, portanto, quando escolhi a leitura desse livro, que iria ter dupla apreciação, que iria ter deleite ao quadrado. A prosa de Adriana Lisboa continua límpida, delicada, mesmo nesta obra, que não é tão poética quanto minha memória atribuía a ela. Manuel Bandeira continua um dos grandes poetas brasileiros de todos os tempos. Mas o poeta Manuel Bandeira perdeu-se nesse texto e Adriana Lisboa não mostrou a mágica de sua prosa-poética vista em outras de suas obras .
A trama se desenrola a partir de um casal de namorados, num relacionamento recente, em que de repente, a namorada, Teresa, morre afogada. Para melhor entender o que acontece o rapaz revê a história deles até o afogamento em Mangaratiba (RJ). Aos poucos um retrato mais detalhado de Teresa, jovem escritora às portas de um sucesso literário retumbante, começa a se firmar e surge a dúvida: teria ela, excelente nadadora , sofrido um golpe do acaso? Ou o afogamento teria sido deliberado, um suicídio?
Adriana Lisboa
A narrativa corre bem pelo primeiro terço do livro, para se perder e chegar a um final quase forçado, como se tivesse sido planejado de antemão e encontrasse dificuldade de desabrochar. O mistério sobre a morte de Teresa, que poderia ser visto como um gancho para puxar o leitor a cada página não parece tão importante nem para o leitor, nem para o namorado narrador. Não vi na trama secundária, seu envolvimento com uma antiga namorada, qualquer propósito a não ser o de lembrar o lugar de residência de Manuel Bandeira.
Enfim, uma ideia boa, com uma narrativa leve, que tinha tudo para ser mais do que só agradável, que infelizmente não chegou a encantar essa leitora. Uma oportunidade perdida. Adriana Lisboa continua com uma bela prosa, mas quase não chega ao que se propõe.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Cemitério de pets, ilustração de James Gilleard para Walt Disney.
José Paulo Paes
“Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.
Aqui jaz uma pulga
chamada Cida
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
era uma pulga suiCida.
Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!
Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
Tinha tanta fome
que comeu-se a si próprio”.
Em: Poemas para brincar, José Paulo Paes, São Paulo, Ática: 1994.
Ilustração anônima, década 1960
No porto dos meus anseios
esperanças são navios,
que de manhã partem cheios
e à tarde voltam vazios…
(Orlando Brito)

Jardim com palmeiras, s/d
Iracema Orosco Freire (Brasil, século XX)
óleo sobre madeira, 26 x 39 cm
Olegário Mariano
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como tangarás:
“Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol.”
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 277.
Encontro do Grupo de leitura Papalivros com o escritor Francisco Azevedo, 20/08/2017.
De vez em quando o grupo Papalivros tem uma noite memorável como a deste domingo. Inesquecível talvez seja a melhor descrição do encontro com o escritor Francisco Azevedo, autor do queridíssimo romance Arroz de Palma, favorito do público brasileiro. Discreto, quase tímido, o autor teve a gentileza de conversar sobre seu novo romance, Os novos moradores, lançado em junho deste ano pela editora Record e lido pelos 22 membros do grupo.
Ouvi-lo contar sobre o desenvolvimento da trama, sobre personagens entrando e saindo de aventuras como seres independentes da própria vontade do escritor, tê-lo como intérprete de passagens, dividindo conosco a experiência de resolver pequenos empecilhos ao longo da escrita, tornaram a leitura de Os novos moradores muito mais rica do que poderíamos imaginar, mesmo num romance cuja história complexa e transgressora, parece tão bem costurada.

Quem vê Francisco Azevedo, modesto, despojado, possuidor de uma linguagem poética fluente não imagina que seus livros possam contar histórias de famílias, como as nossas, como aquelas de nossos vizinhos, amigos ou de nossos avós, e simultaneamente inserir nessas tramas, prudentes e confiáveis, elementos violadores de valores tradicionais que nos fazem questionar nossos próprios preconceitos. É uma arte. E aprendemos muito com o autor.
Foi um prazer ter Francisco Azevedo entre nós. E desejamos a ele muito sucesso com mais este romance, passado no Rio de Janeiro.
LIVROS DO AUTOR:
Arroz de Palma, Editora Record: 2008
Doce Gabito, Editora Record: 2012
Os novos moradores, Editora Record: 2017
Surpresa, ilustração, desconheço a autoria e não consigo ler a assinatura.
Elias José
Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa.
Um livro
parece mudo,
Mas nele a gente
descobre tudo.
Um livro
tem asas
longas e leves
que, de repente,
levam a gente
longe, longe
Um livro
é parque de diversões
cheio de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.
Um livro é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
É mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata do mar,
um foguete perdido no ar,
É amigo e companheiro.
Em: Caixa mágica de surpresa, Elias José, 1997: Editora Paulus

A voz dos ventos distantes,
dentro das conchas do mar,
são preces de navegantes,
que não puderam voltar.
(Hegel Pontes)
Figura feminina à janela, 1918
Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)
óleo sobre cartão, 49 x 70 cm
Da Costa e Silva
Cortei em um ramo uma flor pequenina e rosada,
e ofertei à mulher que tem lábios finos e doces
como estas flores pequeninas e rosadas…
Roubei do seu ninho uma andorinha de asas negras,
e ofertei à mulher, cujas pestanas longas
se assemelham às asas das andorinhas.
Na manhã seguinte, a florzinha pendeu, já murcha…
e a andorinha, seguindo a alma da flor, tomou voo,
pela janela aberta sobre a montanha azul…
No entanto, nos lábios da mulher amada
abre-se a flor rosada e pequenina,
e as negras pestanas, que lhe velam os claros olhos,
não têm o ar inquieto de quem quer bater as asas…
Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.312