Resenha: “Um beijo de Colombina” de Adriana Lisboa

22 09 2017

 

 

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Ilustração de C. J. Leyendecker, 1933, para capa da revista Saturday Evening Post, número de 25 de fevereiro.

 

 

Gosto imensamente da poesia de Manuel Bandeira.  Acho-o, se não o maior poeta do século XX, certamente entre os três mais importantes poetas brasileiros da época.  Acredito ter lido quase toda sua obra.  Um atrativo a mais para o livro Um beijo de Colombina de Adriana Lisboa é que Manuel Bandeira está presente, ou melhor, é a alma, do romance.  Por isso tive grandes expectativas ao abrir o livro.

Adriana Lisboa, por outro lado, só conheço de um livro anterior: Rakushisha.  Por ele, a autora passou a figurar no rol de escritores/ poetas favoritos, pois me lembro de sua prosa delicada, cheia de surpresas e  inusitadas visões dos temas do cotidiano.

 

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Acreditei, portanto, quando escolhi a leitura desse livro, que iria ter dupla apreciação, que iria ter deleite ao quadrado.  A prosa de Adriana Lisboa continua límpida, delicada, mesmo nesta obra, que  não é tão poética quanto minha memória atribuía a ela. Manuel Bandeira continua um dos grandes poetas brasileiros de todos os tempos.  Mas o poeta Manuel Bandeira perdeu-se nesse texto e Adriana Lisboa não mostrou a mágica de sua prosa-poética vista em outras de suas obras .

A trama se desenrola a partir de um casal de namorados, num relacionamento recente, em que de repente, a namorada, Teresa, morre afogada.  Para melhor entender o que acontece o rapaz revê a história deles até o afogamento em Mangaratiba (RJ). Aos poucos um retrato mais detalhado de Teresa, jovem escritora  às portas de um sucesso literário retumbante, começa a se firmar e surge a dúvida:  teria ela, excelente nadadora , sofrido um golpe do acaso? Ou o afogamento teria sido deliberado, um  suicídio?

 

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A narrativa corre bem pelo primeiro terço do livro, para se perder e chegar a um final quase forçado, como se tivesse sido planejado de antemão e encontrasse dificuldade de desabrochar.  O mistério sobre a morte de Teresa, que poderia ser visto como um gancho para puxar o leitor a cada página não parece tão importante nem para o leitor, nem para o namorado narrador.  Não vi na trama secundária, seu envolvimento com uma antiga namorada, qualquer propósito a não ser o de lembrar o lugar de residência de Manuel Bandeira.

Enfim, uma ideia boa, com uma narrativa leve, que tinha tudo para ser mais do que só agradável, que infelizmente não chegou a encantar essa leitora.  Uma oportunidade perdida.  Adriana Lisboa continua com uma bela prosa, mas quase não chega ao que se propõe.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Cemitério, poesia infantil de José Paulo Paes

28 08 2017

 

 

james gilleard, cemitério de petsCemitério de pets, ilustração de James Gilleard para Walt Disney.

 

 

 

Cemitério

 

José Paulo Paes

 

“Aqui jaz um leão

chamado Augusto.

Deu um urro tão forte,

mas um urro tão forte,

que morreu de susto.

 

Aqui jaz uma pulga

chamada Cida

Desgostosa da vida,

tomou inseticida:

era uma pulga suiCida.

 

Aqui jaz um morcego

que morreu de amor

por outro morcego.

Desse amor arrenego:

amor cego, o de morcego!

 

 

Neste túmulo vazio

jaz um bicho sem nome.

Bicho mais impróprio!

Tinha tanta fome

que comeu-se a si próprio”.

 

 

Em: Poemas para brincar, José Paulo Paes, São Paulo, Ática: 1994.

 





Trova da esperança

26 08 2017

 

 

dcfc8c9da8e431861196f8b38f742d46--vintage-design-vintage-artIlustração anônima, década 1960

 

 

No porto dos meus anseios

esperanças são navios,

que de manhã partem cheios

e à tarde voltam vazios…

 

(Orlando Brito)

 





Arco-iris, poesia de Olegário Mariano

24 08 2017

 

 

IRACEMA OROSCO FREIRE - O.S.M - JARDIM COM PALMEIRAS . 26 X 39. Assinado no CID.

Jardim com palmeiras, s/d

Iracema Orosco Freire (Brasil, século XX)

óleo sobre madeira, 26 x 39 cm

 

 

Arco-iris

 

Olegário Mariano

 

Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

 

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como tangarás:

 

“Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol.”

 

De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 277.





O Grupo de leitura Papalivros recebe o escritor Francisco Azevedo

20 08 2017

 

Grupo 3.jpgEncontro do Grupo de leitura Papalivros com o escritor Francisco Azevedo, 20/08/2017.

 

De vez em quando o grupo Papalivros tem uma noite memorável como a deste domingo.  Inesquecível talvez seja a melhor descrição do encontro com o escritor Francisco Azevedo, autor do queridíssimo romance Arroz de Palma, favorito do público brasileiro.  Discreto, quase tímido, o autor teve a gentileza de conversar sobre seu novo romance, Os novos moradores, lançado em junho deste ano pela editora Record e lido pelos 22 membros do grupo.

Ouvi-lo contar sobre o desenvolvimento da trama, sobre personagens entrando e saindo de aventuras como seres independentes da própria vontade do escritor, tê-lo como intérprete de passagens, dividindo conosco a experiência de resolver pequenos empecilhos ao longo da escrita, tornaram a leitura de Os novos moradores muito mais rica do que poderíamos imaginar, mesmo num romance cuja história complexa e transgressora, parece tão bem costurada.

 

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Quem vê Francisco Azevedo, modesto, despojado, possuidor de uma linguagem poética fluente não imagina que seus livros possam contar histórias de famílias, como as nossas, como aquelas de nossos vizinhos, amigos ou de nossos avós, e simultaneamente inserir nessas tramas, prudentes e confiáveis, elementos violadores de valores tradicionais que nos fazem questionar nossos próprios preconceitos. É uma arte.  E aprendemos muito com o autor.

Foi um prazer ter Francisco Azevedo entre nós. E desejamos a ele muito sucesso com mais este romance, passado no Rio de Janeiro.

LIVROS DO AUTOR:

Arroz de Palma, Editora Record: 2008

Doce Gabito, Editora Record: 2012

Os novos moradores, Editora Record: 2017





Caixa mágica de surpresa, poesia de Elias José

14 08 2017

 

 

surpresa comm sapo, cobra e tartarugaSurpresa, ilustração, desconheço a autoria e não consigo ler a assinatura.

 

 

Caixa mágica de surpresa

 

Elias José

 

Um livro

é uma beleza,

é caixa mágica

só de surpresa.

 

Um livro

parece mudo,

Mas nele a gente

descobre tudo.

 

 

Um livro

tem asas

longas e leves

que, de repente,

levam a gente

longe, longe

 

Um livro

é parque de diversões

cheio de sonhos coloridos,

cheio de doces sortidos,

cheio de luzes e balões.

 

Um livro é uma floresta

com folhas e flores

e bichos e cores.

É mesmo uma festa,

um baú de feiticeiro,

um navio pirata do mar,

um foguete perdido no ar,

É amigo e companheiro.

 

Em: Caixa mágica de surpresa, Elias José, 1997: Editora Paulus





Trova dos navegantes

9 08 2017

 

 

 

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Cartão Postal

 

 

 

A voz dos ventos distantes,

dentro das conchas do mar,

são preces de navegantes,

que não puderam voltar.

 

(Hegel Pontes)





A flor e a andorinha, poesia de Da Costa e Silva

6 08 2017

 

 

ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA, óleo sobre cartão, datado de 1918, representando figura feminina na janela, medindo 49 x 70 cm.Figura feminina à janela, 1918

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)

óleo sobre cartão,  49 x 70 cm

 

 

II
A flor e a andorinha

 

(Tsé-Tié)

 

Da Costa e Silva

 

Cortei em um ramo uma flor pequenina e rosada,

e ofertei à mulher que tem lábios finos e doces

como estas flores pequeninas e rosadas…

 

Roubei do seu ninho uma andorinha de asas negras,

e ofertei à mulher, cujas pestanas longas

se assemelham às asas das andorinhas.

 

Na manhã seguinte, a florzinha pendeu, já murcha…

e a andorinha, seguindo a alma da flor, tomou voo,

pela janela aberta sobre a montanha azul…

 

No entanto, nos lábios da mulher amada

abre-se a flor rosada e pequenina,

e as negras pestanas, que lhe velam os claros olhos,

não têm o ar inquieto de quem quer bater as asas…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.312





Trova da insensatez

12 07 2017

 

 

juntos, arthur sarnoffIlustração Arthur Sarnoff.

 

 

Na insensatez da paixão

que me pega, e não tem cura,

deixo de lado a razão

e dou razão á loucura!

 

(Marina Bruna)





Poema de Mário Quintana

10 07 2017

 

 

autumn-landscape-at-dusk-1885(1).jpg!HalfHDPaisagem de outono ao cair da tarde, 1885

Vincent van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Centraal Museum, Utrecht, Holanda

 

 

“Esta vida é uma estranha hospedaria,

De onde se parte quase sempre às tontas,

Pois nunca as nossas malas estão prontas,

E a nossa conta nunca está em dia.”

 

Mário Quintana

 

Em: Esconderijos do tempo, Mário Quitana, Porto Alegre, L&PM: 1980.