O vento, com pé macio,
passou pelo meu jardim,
e como guri vadio,
nas minhas rosas deu fim.
(Carlos Ribeiro Rocha)
O vento, com pé macio,
passou pelo meu jardim,
e como guri vadio,
nas minhas rosas deu fim.
(Carlos Ribeiro Rocha)
Reynaldo Valinho Alvarez
um domingo uma tarde um menino na rua
e à frente como um sol uma bola de cor
enquanto acima o sol real se espreguiçando
cai sobre o tempo morno e absorto do passado
em lentas gotas rubras num solene rio
um domingo uma tarde uma árvore frondosa
irrompendo na rua como um cone verde
enquanto as aves chamam o parceiro ausente
e os muros alvacentos gritam sob a luz
o prazer de brilhar na mornidão tranquila.
como pedir ao tempo
escasso e errante pingo
que fixe para sempre
a tarde de domingo?
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.12
Assisto à copa e me zango
vendo a cena inusitada:
Uma só nota do tango
vence as onze da lambada!
(Pedro Ornellas)

Luz na mata
Alexandre Reider (Brasil, 1973)
óleo sobre tela
Olegário Mariano
As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um mútuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.
Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
É um pensamento de outro pensamento.
Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a água parada
E o amigo sol, apenas se levanta,
Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.
Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 158.
Albércio Vieira Machado
Pela cauda preso ao galho,
ele faz o seu trabalho:
com as mãos faz o “diabo!”
Porém, nós, que não o fazemos,
com inveja, então dizemos:
— Quanta falta faz um rabo!
Em: Poetas do Brasil, organização Aparício Fernandes, 4º volume, Rio de Janeiro, Folha Carioca: 1979, p. 31
As perucas diferentes,
que a vaidade lhe requer,
dão-me adultérios frequentes
com minha própria mulher!
(Antonio Carlos Teixeira Pinto)
Na infância, festa de cores,
tudo era encanto e magia
e eu via muito mais flores
além das tantas que havia.
(Pedro Ornellas)
Armando Braga
Numa gaiola, toda azul e ouro,
De raro estilo e singular beleza,
Tinha um canário, a pálida Princesa:
— Seu bem-amado e seu maior tesouro…
Às vezes presa de infundado agouro,
Vivia instantes de mortal tristeza;
E então ficava, debruçada à mesa,
a ouvir cantar o seu Caruso louro…
Mas certo dia de um destino vário,
Chora a Princesa a morte do canário
Que fora a vida de seus sonhos ledos!
Como eu te invejo, ó Príncipe Encantado,
Que mais pudesse com cantar teu fado,
Do que eu com a lira a me gemer nos dedos!
Em: Poetas nas Bandas do Mar: uma antologia, ed. João do Prado Maia e outros marinheiros poetas, ed. José Nazar, Rio de Janeiro, Companhia de Freud: 2007, pp: 75-6.
Armando Braga (1883-1969), engenheiro, geógrafo, poeta, músico, escultor, pianista e compositor, teve suas obras (poesia e prosa) publicadas nas revistas Careta, O Malho, entre outras.
O retorno, 2002
Giovanni Santarelli (Brasil, 1971)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Brasil Pinheiro Machado
Manhã de domingo de sol reto.
A grande igreja sem estilo
Decorada por dentro por um batismo de Cristo
Feito por um pintor ingênuo
Que quis ser clássico e foi primitivista.
Missa internacional
Com gentes de todas as raças
Ouvindo o padre alemão rezar em latim.
A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado
Nem de rezar
Porque tem lá dentro tanta menina bonita
Que não reza também
E fica sapeando a gente com meiguice…
Só os polacos de camisa nova por ser domingo
Que vieram com as famílias de carroça lá das colônias
Rezam fervorosamente
Enquanto nos seus quintais
Os chupins malvados e alegres
Comem todo o centeio
Cantando glórias pro sol de domingo.
Em: 101 Poetas Paranaenses: V.1 (1844 -1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao século XXI, seleção e apresentação de Ademir Demarchi, Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná: 2014, p.94
Senhora lendo jornal, 1902
William Worchester Churchill (EUA, 1858-1926)
óleo sobre tela
Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio. Desde que me dediquei aos três volumes de O trapicheiro, comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário. Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado.
Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos, cidade de residência de diplomatas de todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de Voando para o Rio [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida. Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro. Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em Oscarina.
A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário. Na prosa estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca. Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas. Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo. Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável Memórias de um Sargento de Milícias com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares.
Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais. É em Barbacena que lê. Lê muito. Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa. Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. Oscarina é seu primeiro livro, publicado em 1931.
Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, Oscarina, Em maio, História de abelha, do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui:
“Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153]
Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo.
Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.