“Disciplina”, poesia de Tania Horta

8 10 2022

A carta de amor

Hendrik Jacobys Scholten (Holanda, 1824-1907)

óleo sobre madeira, 33 x 26 cm

 

 

 

Disciplina

 

Tania Horta

 

Para fugir de ti

distraio o meu coração

arrumando quinquilharias,

meus armários, minhas gavetinhas.

Como podes o meu amor tão grande

transformar em coisas comezinhas?

 

 

Em: Coração fechado para obras, Tania Horta, capa e ilustrações de Ziraldo, São Paulo, Massao Ono: 1991 p. 42





Trova do tempo que passa

20 09 2022

Saudade, lembrança triste

de tudo que já não sou…

Passado que tanto insiste

em fingir que não passou…

(Edgard Barcellos Cerqueira)





Trova do seu bem-querer

12 09 2022
Ilustração de revista americana década 1960.

Você nem sabe a ventura

que me traz seu bem-querer:

se é paixão ou se é loucura,

eu não quero nem saber!

(Ana Maria Motta)





Trova da carta de amor

6 09 2022
Ilustração Henry Clive.

Planejo a carta e o maldoso

orgulho logo desponta

E caneta de orgulhoso

não tem tinta e não tem ponta!

(Ana Maria Motta)





O crime, José Américo de Almeida

1 09 2022

A leitora, 1901

Auguste Frederic Dufaux (Suiça,1852-1943)

óleo sobre tela

 

O crime

 

Morava no engenho uma mulher por nome Josefa, conhecida como feiticeira. Tinha três filhos homens: João Duda, Antônio Cuíca e Felizardo, o melhor cortador de cana, que voltou da cidade, num dia de feira, em toda carreira, com a polícia no encalço. Chegando,gritou de longe para meu pai dizendo que acabara de cometer um crime e pedindo proteção. Matara Mesquece, um vendedor de cocada, por uma questão de troco.

Meu pai negou-lhe asilo.  Não admitia criminoso em sua terra, mas nesse dia não jantou e dormiu tarde.

Veio o comandante do destacamento, tenente Moreirinha, e pediu licença para correr a propriedade. Contrariando a tradição de inviolabilidade dos engenhos, meu pai permitiu.

Além de varejar todas as casas, a polícia surrou a mãe do assassino e sua cunhada, mulher de Antônio Cuíca, o que causou indignação a meu pai.

Diziam os moradores que, com a diligência na ilharga, Felizardo tornara-se invisível por ter virado a camisa pelo avesso.  Fugiu e homiziou-se numa usina em Pernambuco, só voltando a Areia depois de prescrito o crime.

 

Em: Memórias: antes que me esqueça, José Américo de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1976, pp. 60-61





Trova do futuro

26 08 2022
Doug Holgate, ilustração

Passam crianças depressa,

levando livros nos braços…

É o futuro que começa

a dar os primeiros, passos.

(Durval Mendonça)





Trova do broche

17 08 2022
Ilustração de moda, anos 30, sem assinatura.

— Viste que broche ofuscante

traz ela preso ao vestido?

Muito lindo! É diamante?…

— Não, meu bem, é do marido.

(Albércio Vieira Machado)





Trova dos seus cabelos

9 08 2022

 

Bordam, soltos, seus cabelos,

caracóis negros na fronha,

e eu, insone, horas a vê-los,

fico a sonhar com quem sonha…

 

(Edgard Barcellos Cerqueira)





“O campo” poesia de Luiz Roberto Nascimento Silva

2 08 2022

A mulher grega (Caliope)

Anna-Maria Oeser (Alemanha, contemporânea)

óleo sobre tela, 70 x 50 cm

 

O campo

Luiz Roberto Nascimento Silva

 

Manhãs claras

Janelas abertas

Alpendre.

Amanhecer em maio.

Cavalo baio.

 

Em: A flauta vertebral, Luiz Roberto Nascimento Silva, Rio de Janeiro, Rocco: 1999, p. 61





Trova do beijo

2 08 2022
Ilustração de revista, 1953.

Uma vez tu me beijaste

e eu fiquei pobrezinha,

porque num beijo levaste

todos os beijos que eu tinha.

(Alda Pereira Pinto)