“Paisagens de minha terra”, poesia de Brasil Pinheiro Machado

21 06 2022

O retorno, 2002

Giovanni Santarelli (Brasil, 1971)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

 

Paisagem de minha terra

 

Brasil Pinheiro Machado

 

Manhã de domingo de sol reto.

A grande igreja sem estilo

Decorada por dentro por um batismo de Cristo

Feito por um pintor ingênuo

Que quis ser clássico e foi primitivista.

 

Missa internacional

Com gentes de todas as raças

Ouvindo o padre alemão rezar em latim.

 

A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado

Nem de rezar

Porque tem lá dentro tanta menina bonita

Que não reza também

E fica sapeando a gente com meiguice…

 

Só os polacos de camisa nova por ser domingo

Que vieram com as famílias de carroça lá das colônias

Rezam fervorosamente

Enquanto nos seus quintais

Os chupins malvados e alegres

Comem todo o centeio

Cantando glórias pro sol de domingo.

 

 

Em: 101 Poetas Paranaenses: V.1 (1844 -1959) –  antologia de escritas poéticas do século XIX ao século XXI, seleção e apresentação de Ademir Demarchi, Curitiba, Biblioteca Pública do Paraná: 2014, p.94





Leituras de 2022: “Oscarina” de Marques Rebelo, resenha.

19 06 2022

Senhora lendo jornal, 1902

William Worchester Churchill (EUA, 1858-1926)

óleo sobre  tela

Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio.  Desde que me dediquei aos três volumes de O trapicheiro,  comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário.  Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado. 

Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no  Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos,  cidade de residência de diplomatas de  todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de Voando para o Rio [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida.   Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro.  Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em Oscarina.

A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário.  Na prosa  estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca.  Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas.  Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis,  Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo.  Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável Memórias de um Sargento de Milícias  com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares.

Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais.  É em Barbacena que lê.  Lê muito.  Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa.  Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. Oscarina é seu primeiro livro, publicado em 1931.

Marques Rebelo

Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, Oscarina, Em maio, História de abelha, do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui:

“Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153]

Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo.

Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





A enxadinha, poesia infantil de Faria Neto

24 05 2022
Ilustração de Rudolf Koivu (Finlândia, 1890–1946)



A enxadinha

Faria Neto

Minha enxadinha

trabalha bem;

corta matinhos

num vai-e-vem.

Minha enxadinha

vai descansar

para amanhã

recomeçar.

Adeus, rocinha!

Adeus, trabalho!

A vós, plantinhas

o doce orvalho.





Trova da dúvida

21 04 2022
Ilustração de Maurício de Sousa.

Não sei se vá ou se fique,

Não sei se fique ou se vá,

Indo lá não fico aqui,

Ficando aqui não vou lá.  

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)





W. H.Auden, Funeral Blues, em inglês e duas traduções

19 04 2022

Composição, 1957

Antônio Bandeira (Brasil, 1922 – 1967)

óleo sobre tela, 90 x 90 cm

 

Funeral Blues

 

W. H. Auden

 

Stop all the clocks, cut off the telephone,

prevent the dog from barking with a juicy bone,

silence the pianos and, with muffled drums,

bring out the coffin, let the mourners come.

 

Let airplanes circle moaning overhead

scribbling on the sky the message: he’s dead.

Put crepe-bows round the white necks of the public doves,

let the traffic policemen wear black cotton gloves.

 

He was my North, my South, my East and West,

my working week, my Sunday rest,

my noon, my midnight, my talk, my song.

I thought that love would last forever; I was wrong.

 

The stars are not wanted now, put out every one.

Pack up the moon, dismantle the sun.

Pull away the ocean and sweep up the wood.

For nothing now can ever come to any good.             

 

 

Em: Tell me the truth about love: ten poems, W. H. Auden, Vintage: 1994

 

 

TRADUÇÂO I

 

Parem já os relógios, corte-se o telefone,

dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,

emudeçam pianos, com rufos abafados

transportem o caixão, venham enlutados.

 

Descrevam aviões em círculos no céu

a garatuja de um lamento: Ele Morreu.

no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,

polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.

 

Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego

dos dias da semana, Domingo de sossego,

meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;

julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.

 

Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;

enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;

esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.

Nada mais vale a pena agora do que resta.

 

tradução de Vasco Graça Moura

 

 

TRADUÇÂO II

 

Parem todos os relógios, que os telefones emudeçam.

Para calar o cachorro, um bom osso lhe ofereçam.

Silenciem os pianos, e em surdina os tambores

Acompanhem o féretro. Venham os pranteadores.

 

Que aviões a sobrevoar em círculos lamurientos

Rabisquem no céu o Anúncio de Seu Falecimento.

Que nas praças as pombas usem coleiras de crepe, em luto,

E os guardas de trânsito calcem luvas negras em tributo.

 

Ele foi meu norte, meu sul, meu nascente, meu poente.

Foi o labor da minha semana, meu domingo indolente.

Foi meu dia, minha noite, meu falar e meu cantar.

Julguei ser o amor infindo. Como pude assim errar?

 

Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado.

Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado.

Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas.

Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.

 

tradução de Humberto Kawai

 

 

 

 





Trova do juízo

3 03 2022

Vendo num retrato antigo

meu rosto arteiro e bem liso, 

concluo: rugas, amigo,

é quanto custa o juízo.

 

(Maurício Cardoso Faria)





Trova da estrada

25 02 2022
Ilustração Marco de Gastryne

Foste embora e por maldade

deixaste a troco de nada,                

rastros da tua saudade

em cada curva da estrada!…

(Marilúcia Resende)

 





Trova das visitas

17 02 2022
Ilustração, Walt Disney

Visitas, meu camarada,

sempre dão prazer à vida:

não sendo quando à chegada,

será, por certo, à saída…

 

(Pedro Uzzo)





Trova do sonho

2 02 2022

O amor e o sonho, querida,

são graças que Deus nos deu…

Quem não ama não tem vida,

quem não sonha já morreu.

(José Lucas de Barros)





Trova do pecado

27 01 2022
ilustração, “Back home for good”, por John Whutcomb, Life, 16/10/1942.

Perdoa se fui ousado…

Não estou arrependido!

Quem ama, não tem pecado,

pecado… é o tempo perdido!

(Alba Helena Corrêa)