Quadrinha infantil da vaca leiteira

28 06 2010

Eu tenho uma vaca leiteira

que dá leite de toda maneira.

A minha vaquinha malhada

dá queijo, manteiga e coalhada.





O vagalume, poesia, uso escolar, de Fagundes Varela

27 06 2010

Vagalumes, ilustração de Paige Keiser.

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O Vagalume

(Cantiga)

Fagundes Varela

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Quem és tu, pobre vivente,

Que vagas triste e sozinho,

Que tens os raios da estrela,

E as asas do passarinho?

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A noite é negra;  raivosos

Os ventos correm do sul;

Não temes que eles te apaguem

A tua lanterna azul?

Quando tu passas, o lago

De estranhos fogos esplende,

Dobra-se a clícia amorosa,

E a fronte mimosa pende.

As folhas brilham, lustrosas,

Como espelhos de esmeralda;

Fulge o iris nas torrentes

Da serrania na fralda.

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O grilo salta das sarças;

Piam aves nos palmares;

Começa o baile dos silfos

No seio dos nenufares.

A tribo das mariposas,

Das mariposas azuis,

Segue teus giros no espaço,

Mimosa gota de luz!

São elas flores sem  haste;

Tu és estrela sem céu;

Procuram elas as chamas;

Tu amas da sombra o véu!

Quem és tu, pobre vivente,

Que vagueias tão sozinho,

Que tens os raios da estrela,

E as asas do passarinho?

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Vocabulário:

Clícia — inseto de duas asas

Sarça — matagal

Silfo — gênio das florestas ( mitologia celta)

Nenúfar — planta aquática

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Fagundes Varela

Luís Nicolau Fagundes Varella, (RJ 1841 – RJ 1871) ou Fagundes Varela, poeta brasileiro e um dos patronos na Academia Brasileira de Letras.

Obras:

  • Noturnas – 1861
  • Vozes da América – 1864
  • Pendão Auri-verde – poemas patrióticos, acerca da Questão Christie.
  • Cantos e Fantasias – 1865
  • Cantos Meridionais – 1869
  • Cantos do Ermo e da Cidade – 1869
  • Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – 1875 (publicação póstuma)
  • Diário de Lázaro – 1880




Fal Azevedo assombra em Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

24 06 2010

Vaso com flores, 1988

Fang (China/Brasil, 1931)

gravura, 48 x 58 cm

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Tenho um fraco por esculturas.  Num seminário em história da arte, há muitos anos, escrevi um artigo sobre o uso do espaço vazio, do vão, digamos assim, como parte vibrante das esculturas de Henry Moore e Giacometti: no trabalho de ambos e de maneiras diferentes, o que não está presente, o buraco (em Henry Moore) ou o espaço à volta (em Giacometti)  tem uma função tão grande, tão intensa que faz parte da escultura que vemos, que analisamos, com o mesmo peso que as formas do bronze que nos fascinam.  Este é o vazio positivo, sentido mas não visto, que conta com o ausente, tanto quanto com o que está exposto.  Pensei nesse artigo, enquanto lia o romance de Fal Azevedo, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Rocco: 2008.  Nele, o que não é dito, conta.  Fala.  Nos move e comove.  A eloquência desses pequenos silêncios  pode ser vista no minúsculo parágrafo, que cito aqui por inteiro:

O gato amarelo veio fumar comigo.  Ele morde meu dedão, charmosa tentativa de me convencer de ir até a cozinha.  A coisa mais fofa nesse gato é que, quando eu choro, ele apoia a  pata no meu rosto.  Como agora.”

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O texto segue, com outro assunto, com outro momento.

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Quantas vezes ela precisou chorar para perceber esse comportamento do gato?  Por que chorava?   O conforto de um gato seria o único conforto dado à autora dessas frases?   Não sabemos, não nos é explicado.  Passamos rapidamente para o assunto seguinte.  A vida é curta.  Há muito acontecendo.  O peso do passado também assombra.  No entanto, o sofrimento implicado pelo texto fala alto.  E nos cala.  Fal Azevedo trabalha com a elipse, a omissão do sentimento retratado,  assim como Henry Moore trabalhava com um buraco no meio do corpo de uma mulher reclinada.   Tanto em um como no outro, cabe ao leitor/observador fazer a conexão, participando ativamente do encontro.   Envolvendo-se.   O resultado sedutor, mostra um texto, que carregado de tristeza, consegue ser leve, irônico e muito, muito agradável.

Figura reclinada, década de 1980

Henry Moore ( Grã-Bretanha 1898-1976)

Litografia

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Presenciamos nesse romance a chegada de Alma, personagem principal, à segunda metade de sua vida.  Aos 44 anos, já viveu muitas vidas e mortes.  Homeopaticamente conhecemos um pouco destes eventos através de lembranças doloridas, de cicatrizes mal curadas.  Tudo é passado a limpo: as dezenas de passados, as dúzias de vidas.  Alma escrupulosamente exorciza seus fantasmas e nos lembra dos nossos.  É impossível não ter empatia.  É impossível ignorarmos a nós mesmos.  O que lhe vem à mente, chega em pequenos parágrafos, camafeus de potencialidades perdidas, nódoas de sofrimento físico e emocional do passado que ajudam a caracterizar o dia a dia de um tempo mais atual, que também presenciamos.  Estes são quase entradas em um diário, que têm, como pano de fundo, o passado.  O estilo é sucinto.  Twitter sucinto.  A cada parágrafo um tempo, uma realidade.  E sempre, sempre a angústia das vidas vividas.  O medo.  A dor.  A consciência da solidão.  

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 De grande auxílio é o formato do texto: intercala o tempo mais contemporâneo com as lembranças do passado, em diferentes parágrafos.  Cada qual tem sua própria aparência gráfica, o que facilita o entendimento da trama.  Este artifício simplifica e esclarece também um quase fluxo de consciência que nos permite conhecer Alma intimamente.   Conhecemos os eventos.  Imaginamos as emoções.

Apesar da tristeza latente, das dores auto-geradas e das auto-impostas, das frustrações e  sofrimentos dessa mulher, uma artista plástica em busca de uma identidade profissional, esse romance é repleto de otimismo, de gosto pela vida e de humor.  Oferece então, ao leitor,  uma válvula de escape e um ponto de apoio nas lutas diárias pela sobrevivência física e emocional.  Sem ser piegas, sem ser auto-ajuda essa história nos força a refletir sobre a nossa própria existência e nas ramificações dos nossos atos.  

  

Fal Azevedo

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Eu poderia continuar nesse tópico por muito tempo.  De especial ironia são as cenas e os pensamentos na galeria de arte.  Tão real…  Mas quem não gostaria de ter os amigos de Alma como amigos?  E de receber emails tão precisamente relevantes quanto ela?  Tão irônicos e concisos?  E quem não gostaria de ter como vizinho um Seu Lurdiano, que como um anjo da guarda, alimenta sua amiga com comida do corpo e da alma?  Quem não gostaria de um amigo com quem se pode ficar calado por algumas horas na mais perfeita intimidade?

Mas nenhum desses amigos, nenhum desses emails, se os tivéssemos, nada,  conseguiria dar ao leitor o prazer desse texto e os parâmetros para a auto-reflexão que esse livro consegue gerar.  Aqui fica a sincera recomendação para a leitura desse pequeno mundo mágico de Alma.  Um dos melhores livros que li em 2010 e certamente um dos mais interessantes livros que li de autor brasileiro há muito, muito tempo.  Não percam.





Quadrinha infantil sobre a abelha

21 06 2010

A abelha trabalha sempre,

Não pára, não é vadia;

Faz esse mel tão gostoso

Que toda gente aprecia.





Simpatia, poesia infantil de Afonso Schmidt

20 06 2010
Menino com cachorro, ilustração Mark Arian.

Simpatia

                                             Afonso Schmidt

Numa tarde longa e mansa,

os dois pela estrafa vão:

o cão estima a criança,

e a criança estima o cão.

Que delicada aliança

dos seres da criação:

uma risonha criança,

um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança

e sorriu lá na amplidão:

ele gosta da criança,

que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,

os dois felizes lá vão:

a delicada criança

e o robustíssimo cão.

Em: Poesia brasileira para a înfância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968

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Afonso Schmidt

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





O sol é para todos, romance de Harper Lee faz 50 anos de popularidade!

17 06 2010

O problema com que todos nós vivemos, 1964

Norman Rockwell ( EUA, 1894-1978)

óleo sobre tela

[Para a revista LOOK de 14-01- 1964]

Old Corner House Collection, Stockbird, Massachusetts

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Na Inglaterra o livro O sol é para todos, [To kill a mocking bird] da escritora  Harper Lee, é um dos livros mais populares ficando em quinto lugar na preferência do público, abaixo  de Orgulho e preconceito [ Pride and Prejudice] mas acima da Bíblia, um fato intrigante considerando-se que o romance foi publicado há exatamente 50 anos, que se passa no sul dos Estados Unidos na época da Depressão.  O enredo se desenrola na cidade fictícia de Maycomb  e um dos temas centrais trata da discriminação racial, discriminação de classe e a procura da justiça para um inocente.  Levando isso em consideração li o artigo que a BBC publicou ontem, justamente analisando essa popularidade, que não é justificada só por ser um livro adotado em muitas escolas.  Ao que tudo indica sua popularidade ultrapassa gerações.  Seus fãs tanto os jovens e quanto seus pais, o consideram uma leitura inigualável.  Além disso, as bibliotecárias entrevistadas nessa mesma enquete do World Book Day admitiram ser O sol é para todos o livro que mais indicavam. 

A narrativa é feita por uma adolescente.  Ou talvez, por uma pessoa idosa lembrando-se de sua adolescência.  O adolescente como narrador tem um longa e forte tradição na literatura americana, cujo principal propulsor dessa voz foi conquistado por  Huckleberry Finn, no livro As aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain.  Em O sol é para todos, Scout, é a filha de um advogado que defende um homem negro da acusação de estupro de uma menina branca, e é através de seus olhos que entendemos a sociedade que a cerca.    Este é de fato um livro sobre justiça, cheio de esperança, de valores morais universais, que não têm nem idade, nem país de origem.  E que todos nós, adultos, jovens ou crianças almejamos.  É um livro de alto astral.  E é, também,  onde aprendemos a tentar ver a realidade através dos olhos de outrem; de andar nos seus passos, de conhecer o seu caminho.  São experiências e atitudes universais que nos mostram a nossa própria humanidade. 

E você?  Já leu O sol é para todos?





Corrente de formiguinhas, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

15 06 2010

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Corrente de formiguinhas
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                                                                      Henriqueta Lisboa

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Caminho de formiguinhas,

fiozinho de caminho.

Caminho de lá vai um,

atrás de uma lá vai outra.

Uma, duas argolinhas,

corrente de formiguinhas.

 

Corrente de formiguinhas,

centenas de pontos pretos,

cabecinhas de alfinete

rezando contas de terço.

 

Nas costas das formiguinhas

de cinturinhas fininhas

pesam grandes folhas mortas

que oscilam a cada passo.

Nas costas das formiguinhas

que lá vão subindo o morro

igual ao morro da igreja,

folhas mortas são andores

nesta procissão dos Passos.

 

 

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, vol I, Rio de Janeiro, Delta: s/d.

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Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.  Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

 Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento

 

 





10 de junho, Dia de Camões

10 06 2010

Aniversário, 1915

Marc Chagall ( Bielorrússia 1887 — França 1985)

óleo sobre tela 81 x 100 cm

MOMA ( Museu de Arte Moderna) , N ova York

Para comemorar o Dia de Camões escolhi postar um dos mais belos sonetos em língua portuguêsa.  Pelo tema, começo também a celebrar o Dia dos Namorados que aqui no Brasil se comemora no dia 12 de junho.  Este é bem conhecido, muitos de nós até sabemos partes sem saber que são versos de Camões.  Pois aqui está:

Amor é fogo que arde sem se ver

 

                                                                             Luís de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?





Os primeiros livros, poema de Bastos Tigre

9 06 2010
O livro do ABC, 1943, ilustrado por Ethel Hays ( EUA 1892-1989).

Os primeiros livros

                                                                                       Bastos Tigre

Um livro: — um lindo brinquedo

Que Bebê fica a mirar:

Cada página é um segredo

          A desvendar.

 

Livro de folhas escritas

E ilustradas — mais de cem!

Quantas histórias bonitas

          Ele contém!

 

Figuras de vivas cores,

Lindamente combinadas:

Casas, bichos, frutas, flores,

          Bruxas e fadas…

 

E a explicação disso tudo

Em grandes letras impressas!

Bebê, radiante no estudo,

          Firme, começa!

 

Essas letras, essas frases

Têm tais sentidos ocultos,

Que entender não são capazes

          Doutos adultos.

 

É preciso ter cinco anos

— E nem todo mundo os tem —

Para poder tais arcanos

          Penetrar bem.

 

Por leitura eu não entendo

O que eu faço e faz qualquer,

As letras do que está lendo

          Sem ver sequer.

 

Bebê cada letra estuda,

Em cada sílaba atenta,

Franzindo a testa sisuda,

          Descobre, inventa,

 

 Decifra um novo mistério

A cada voz que enuncia

Que estudo não há mais sério,

          De mais valia.

 

E é de notar-se o ar solene

Com que as silabas lê:

Já não confunde o “m” e o “n”,

          O “p” e o “q”…

 

Ei-lo que as letras combina,

Forma os sons e, num momento,

Vai-lhe a frase, da retina

          Ao pensamento.

 

Maravilha do alfabeto

Que dos arranjos de traços

Faz surgiur a idéia, o objeto!

          Novos espaços.

 

Abre à razão ignorante,

Dá-lhe asas de luz e a eleva,

Radiosa, para o levante,

          Longe da treva!

 

Que humano invento o suplanta?

Só um Deus pudera, em verdade,

Tal grandeza por em tanta

          Simplicidade.

 

Vendo-o tão simples, dir-se-ia

— Do nada tão pouco além…

Que humana sabedoria

          Do nada vem…

 

Quase-nada, gérmen ovo,

Do saber, célula mater,

Sem ele não tem um povo

          Alma, caráter…

 

                          ***

 

Mas Bebê quer tudo feito

Depressa; e anseia por ciência!

(Não é seu menor defeito

          O da impaciência).

 

E, antes que os frutos recolha

Da cultura, ah, quem dissera!

Todo o livro, folha a folha,

          Zás, dilacera!

 

 

 

Em: Meu bebê: poesias líricas ( Poemas da primeira infância), 1925. [Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras].





O esqueleto, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

3 06 2010

La Catrina, s/d

[La Catrina é um personagem folclórico do México]

 José Guadalupe Posada (México 1852-1913)

gravura aquarelada

O esqueleto

                                                      Walter Nieble de Freitas

Por causa de um esqueleto

Corri a não poder mais:

Assustado entrei em casa

E contei tudo a meus pais

“O esqueleto, seu bobinho,

Nunca foi assombração:

É ele um conjunto de ossos

Dispostos em armação.

Sua função principal

É manter o corpo ereto;

Tem cabeça, tronco e membros

Todo esqueleto completo.

Preste, pois, muita atenção,

Guarde bem, jamais se esqueça:

Somente de crânio e face

Se constitui a cabeça.

O tronco tem só três partes,

Vou dizer-lhe quais são elas:

A coluna vertebral,

O esterno e as costelas.

Os membros são conhecidos:

Os de cima superiores;

E os que servem para andar,

São chamados inferiores”.

Até agora não compreendo

Como é que fui tolo assim:

Correr de um pobre esqueleto

Tendo outro esqueleto em mim!

 Em Barquinhos de papel: poesias infantis, São Paulo, Editora Difusora Cultural:1961.

 

 

 

Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990

O esqueleto humano