Cantiga — poesia infantil de Maria de Sousa da Silveira

16 08 2010
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Cantiga

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                                                                Maria de Sousa da Silveira

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Ô peixe, peixinho,

Me ensina a nadar,

Quero ver belezas

Do fundo do mar.

Vem tu, passarinho,

As asas me dar

Para eu ir bem alto

A voar, voar.

Já estou enjoado

De na terra andar;

Novas aventuras

Eu quero tentar.

Não, não, ó peixinho,~

Não quero nadar;

Pesacdor malvado

Me pode matar.

Não, não passarinho,

Não quero voar;

Caçador malvado

Me pode matar.

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É melhor na terra

Eu querer ficar,

E com o que tenho

Eu me contentar.

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Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

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Maria de Sousa da Silveira (`Petrópolis, RJ 1914).  Curso o Colégio Sion no Rio de Janeiro.  Poeta principalmente de poesias infantis.

Obras:

A Coelhinha Branca

O País Encantadoda Robustez e do Bom Humor

O casaco do vovôzinho

As quatro meninas

Um sonho extraordinário

A famílias rezende, prosa

Para gente miúda recitar, poesia

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A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
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A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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Quadrinha infantil para o Dia dos Pais

4 08 2010

Pai – nome bem pequenino

Que encerra tanto valor:

Traduz confiança, carinho,

 Força, bondade e amor.

(Walter Nieble de Freitas)





História, poema para a infância de Álvaro Moreyra

2 08 2010

 

Cartaz do 1º centenário da Independência do Brasil.

História

                                                                      Álvaro Moreyra

Dom Pedro Primeiro

chegou de viagem

e trouxe o Brasil.

Foi lá no Ipiranga,

Foi lá em São Paulo,

que ele gritou, ( Deus!)

que tudo era nosso,

que tinha de ser

Brasil brasileiro!

Brasil enfeitado

de verde e amarelo,

no campo, no mato,

no rio, no mar,

e lá na montanha!

Brasil namorado

chamando outras raças

para amart e criar

a raça mais linda

de todo esse mundo!…

Em: Poesia brasileira para a infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968

 

Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreira da Silva, ou simplesmente Álvaro Moreyra (Porto Alegre, 23 de novembro de 1888 — Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1964) completou o curso de ciências e letras (1907). Em 1908, iniciou-se no jornalismo, participando da vida literária. No Rio de Janeiro (1910), entregou-se ao jornalismo na redação do “Fon-Fon“, a revista que atuava no Simbolismo. Diplomou-se em direito (1912). No terreno propriamente teatral, fundou, junto com Eugênia Moreira, o “Teatro de Brinquedo”. Membro da ABL, contista, poeta, teatrólogo, comentarista de rádio, jornalista.

NOTA: Modificou voluntariamente o longo nome de família para Álvaro Moreyra, com y, para que esta letra “representasse as supressões” destes nomes.

Obras :

A Boneca Vestida de Arlequim,  1927  

A Cidade mulher , 1923  

A Dama de Espadas , 1945  

A Lenda das Rosas, 1916  

Adão, Eva e Outros Membros da Família, 1929  

As Amargas, Não , 1954  

Casa Desmoronada , 1909  

Cada um carrega o seu deserto, 1994

Circo , 1929  

Cocaína, 1924  

De Volta da U.R.S.S. , 1937  

Degenerada,  1909  

Elegia da bruma , 1910  

Família Difini – 100 Brasil, 1988

Havia uma Oliveira no Jardim, 1958  

Legenda da luz e da vida, 1911  

Lenda das rosas, 1916

O Brasil Continua, 1933  

O Crime de Silvestre Bonnard , 1963  

O Outro lado da vida , 1921  

Os Dias nos Olhos , 1955  

Os Moedeiros Falsos , 1939  

Porta Aberta , 1944  

Semeadores de Gloria; Memorias de  1939  

Tempo Perdido , 1936  

Um Sorriso para Tudo,  1915





Quadrinha da Nossa Terra de Fagundes Varela

31 07 2010
Floresta tropical, ilustração de Robert Casilla.

Ó selvas de minha terra!

Ó meu céu de azul cetim!

Regatos de argênteas ondas!

Verdes campinas sem fim!

(Fagundes Varela)





Se ela soubesse ler, poema de Agenor Silveira

17 07 2010
Cartão postal, anúncio inglês para uma marca de chá.

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Se ela soubesse ler

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                                                 Agenor Silveira

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Se ela soubesse ler — que bom seria!

                Que bom!  com que prazer

E comoção meus madrigais leria,

                Se ela soubesse ler!

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Se soubesse escrever – oh!  que alegria

                Não havia de ser!

Que páginas de amor me escreveria

                Se soubesse escrever!

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Mas quantas outras, quantas, não podia

De estranha procedência receber!

E então – que horror!  Que grande horror seria,

Podia a todas elas responder,

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Permita o justo céu que a desalmada,

Que assim me soube o coração prender,

Aprenda a amar-me apenas, e mais nada,

Porque mais nada lhe convém saber…

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Agenor Silveira ( São Paulo, SP 1880 )– contista, poeta, filólogo, diplomado em direito, jornalista e advogado.

Obras: 

Quatro contos: Moeda antiga, 1912

Versos de bom e mau humor, 1919

Rimas, 1919

Colocação de Pronomes, 1920

Ouro de 24, 1927





Cantadeiras, de Joaquim Cardozo, poesia para crianças

7 07 2010

 

Vendedores de palmito e de samburás, 1834-1839

Jean-Baptiste Debret ( França, 1768-1848)

Gravura baseada em aquarela, original c. 1825

Da publicação: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil

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Cantadeiras

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                                                          Joaquim Cardozo

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Vendedor de mel de engenho

Vem voltando vem com cinco

Canequinhos pendurados

Nos grandes bules de zinco.

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Vendendo vem mel de engenho

Que se come com farinha,

Que se bebe dissolvido,

Nas águas da fontainha.

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Ao seu lado caminhando

Também vem o farinheiro

Que fugiu de Muribeca

Sem recurso, sem dinheiro.

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É farinha de mandioca

Da mais branca, da mais limpa,

Que misturada com mel,

Dá gosto mesmo supimpa.

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E os dois vem juntos, bem juntos

E todo o cuidado têm

Pois se não há precaução

Não há mel para ninguém.

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Joaquim Maria Moreira Cardoso (PE,  1897 — 1978) Poeta, contista, desenhista, engenheiro civil, professor universitário e editor de revistas especializadas em arte e arquitetura.

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Obras  

Chuva de caju, 1947  

De uma noite de festa  1971  

O capataz de Salema. Antônio Conselheiro. Marechal, boi de carro.  1975  

O Coronel de Macambira  1963  

O Interior da matéria  1975  

Os Anjos e os demônios de Deus  1973  

Pequena antologia pernambucana  1948  

Poemas  1947  

Poemas selecionados  1996  

Poesias completas  1971  

Prelúdio e elegia de uma despedida  1952  

Signo estrelado  1960  

Um livro aceso e nove canções sombrias  1981 [póstuma]





O macaco azul, conto de Aluisio de Azevedo

6 07 2010

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O MACACO AZUL

 
 

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                                                        Aluisio de Azevedo

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Ontem, mexendo nos meus papéis velhos, encontrei a seguinte carta:

 

Caro Senhor.

Escrevo estas palavras possuído do maior desespero. Cada vez menos esperança tenho de alcançar o meu sonho dourado. – O seu macaco azul não me sai um instante do pensamento! É horrível! Nem um verso!

Do amigo infeliz

 

                                                             PAULINO

 

Não parece um disparate este bilhete?

 

Pois não é. Ouçam o caso e verão!

 

Uma noite – isto vai há um bom par de anos – conversava eu com o Artur Barreiros no largo da Mãe do Bispo, a respeito dos últimos versos então publicados pelo conselheiro Otaviano Rosa, quando um sujeito de fraque cor de café com leite, veio a pouco e pouco, aproximando-se de nós e deixou-se ficar a pequena distância, com a mão no queixo, ouvindo atentamente o que conversávamos.

 

– O Otaviano, sentenciou o Barreiros, o Otaviano faz magníficos versos, lá isso ninguém lhe pode negar! mas, tem paciência! o Otaviano não é poeta!

 

Eu sustentava precisamente o contrário afiançando que o aplaudido Otaviano fazia maus versos, tendo aliás uma verdadeira alma de poeta, e poeta inspirado.

 

O Barreiros replicou, acumulando em abono da sua opinião uma infinidade de argumentos de que já me não lembro.

 

Eu trepliquei firme, citando os alexandrinos errados do conselheiro.

 

O Barreiros não se deu por vencido e exigiu que eu lhe apontasse alguém no Brasi4 que soubesse arquitetar alexandrinos melhor que S. Ex.ª.

 

Eu respondi com esta frase esmagadora:

 

– Quem? Tu!

 

E acrescentei, dando um piparote na aba do chapéu e segurando o meu contendor, com ambas as mãos pela gola do fraque:

 

– Queres que te fale com franqueza?… Isto de fazer versos inspirados e bem feitos; ou, por outra: isto de ser ou não ser poeta, depende única e exclusivamente de uma cousa muito simples…

 

– O que é?

 

É ter o segredo da poesia! Se o sujeito está senhor do segredo da poesia, faz, brincando, a quantidade de versos que entender, e todos bons, corretos, fáceis, harmoniosos; e, se o sujeito não tem o segredo, escusa de quebrar a cabeça pode ir cuidar de outro ofício, porque com as musas não arranjará nada que preste! Não és do meu parecer?

 

– Sim, nesse ponto estamos de pleno acordo, conveio o Barreiros. Tudo está em possuir o segredo!…

 

E, tomando uma expressão de orgulho concentrado, rematou, abaixando a cabeça e olhando-me por cima das lunetas: – Segredo que qualquer um de nós dois conhece melhor que as palmas da própria mão!…

 

– Segredo que eu me prezo de possuir, como até hoje ninguém o conseguiu, declarei convicto.

 

E com esta frase me despedi e separei-me do Artur. Ele tomou para os lados de Botafogo, onde morava, e eu desci pela rua Guarda Velha.

 

Mal dera sozinho alguns passos, o tal sujeito de fraque cor de café com leite aproximou-se de mim, tocou-me no ombro, e disse-me com suma delicadeza:

 

– Perdão, cavalheiro! Queria desculpar interrompê-lo. Sei que vai estranhar o que lhe vou dizer, mas…

 

– Estou às suas ordens. Pode falar.

 

– É que ainda há pouco quando o senhor conversava com o seu amigo, afirmou a respeito da poesia certa cousa que muito e muito me interessa… Desejo que me explique…

 

Bonito! pensei eu. É algum parente ou algum admirador do conselheiro Otaviano, que vem tomar-me uma satisfação. Bem feito! Quem me manda a mim ter a língua tão comprida?…

 

– Entremos aqui no jardim da fábrica, propôs o meu interlocutor; tomaremos um copo de cerveja enquanto o senhor far-me-á o obséquio de esclarecer o ponto em questão.

 

O tom destas palavras tranqüilizou-me em parte. Concordei e fomos assentar-nos em volta de uma mesinha de ferro, defronte de dois chopes, por baixo de um pequeno grupo de palmeiras.

 

– O senhor, principiou o sujeito, depois de tomar dois goles do seu copo, declarou ainda há pouco que possui o segredo da poesia… Não é verdade?

 

Eu olhei para ele muito sério, sem conseguir perceber onde diabo queria o homem chegar.

 

Não é verdade? insistiu com empenho. Nega que ainda há pouco declarou possuir o segredo dos poetas?

 

– Gracejo!… Foi puro gracejo de minha parte… respondi, sorrindo modestamente. Aquilo foi para mexer com o Barreiros, que – aqui para nós – na prosa é um purista, mas que a respeito de poesia, não sabe distinguir um alexandrino de um decassílabo. Tanto ele como eu nunca fizemos versos; creia!

 

– Ó senhor! por quem é não negue! fale com franqueza!

 

– Mas juro-lhe que estou confessando a verdade…

 

– Não seja egoísta!

 

E o homem chegou a sua cadeira para junto de mim e segurou-me uma das mãos.

 

– Diga! suplicou ele, diga por amor de Deus qual é o tal segredo; e conte que, desde esse momento, o senhor terá em mim o seu amigo mais reconhecido e devotado!

 

– Mas, meu caro senhor, juro-lhe que…

 

O tipo interrompeu-me, tapando-me a boca com a mão, e exclamou deveras comovido:

 

– Ah! Se o senhor soubesse; se o senhor pudesse imaginar quanto tenho até hoje sofrido por causa disto!

 

– Disto o quê? A poesia?

 

– É verdade! Desde que me entendo, procuro a todo o instante fazer versos!… Mas qual! em vão consumo nessa luta de todos os dias os meus melhores esforços e as minhas mais profundas concentrações!… É inútil! Todavia, creia, senhor, o meu maior desejo, toda a ambição de minha alma, foi sempre, como hoje ainda, compor alguns versos, poucos que fossem, fracos muito embora; mas, com um milhão de raios! que fossem versos! e que rimassem! e que estivessem metrificados! e que dissessem alguma cousa!

 

– E nunca até hoje o conseguiu?… interroguei sinceramente pasmo.

 

– Nunca! Nunca! Se o metro não sai mau, é a idéia que não presta; e se a idéia é mais ou menos aceitável, em vão procuro a rima! A rima não chega nem à mão de Deus Padre! Ah! tem sido uma campanha! uma campanha sem tréguas! Não me farto de ler os mestres; sei de cor o compêndio do Castilho; trago na algibeira o Dicionário de consoantes; e não consigo um soneto, uma estrofe, uma quadra! Foi por isso que pensei cá comigo: “Quem sabe se haverá algum mistério, algum segredo, nisto de fazer versos?… algum segredo, de cuja posse dependa em rigor a faculdade de ser poeta?…” Ah! e o que não daria eu para alcançar semelhante segredo?… Matutava nisto justamente, quando o senhor, conversando com o seu amigo, afirmou que o segredo existe com efeito, e melhor ainda, que o senhor o possui, podendo por conseguinte transmiti-lo adiante!

 

– Perdão! Perdão! O senhor está enganado, eu…

 

– Oh! não negue! Não negue por quem é! O senhor tem fechada na mão a minha felicidade! Se não quer que eu enlouqueça confie-me o segredo! Peço-lhe! Suplico-lhe! Dou-lhe em troca a minha vida, se a exige!

 

– Mas, meu Deus! o senhor está completamente iludido… Não existe semelhante cousa!… Juro-lhe que não existe!

 

– Não seja mau! Não insista em recusar um obséquio que lhe custa tão pouco e que vale tanto para mim! Bem sei que há de prezar muito o seu segredo mas dou-lhe minha palavra de honra que me conservarei digno dele até à morte! Vamos! declare! fale! diga logo o que é, ou nunca mais o largarei! nunca mais o deixarei tranqüilo! Diga ou serei eternamente a sua sombra!

 

– Ora esta! Como quer que lhe diga que não sei de semelhante segredo?!

 

– Não mo negue por tudo o que o seu coração mais ama neste mundo!

 

– O senhor tomou a nuvem por Juno! Não compreendeu o sentido de minhas palavras!

 

– O segredo! O segredo! O segredo!

 

Perdi a paciência. Ergui-me e exclamei disposto a fugir:

 

– Quer saber o que mais?! Vá para o diabo que o carregue!

 

– Espere, senhor! Espere! Ouça-me por amor de Deus!

 

– Não me aborreça. Ora bolas!

 

– Hei de persegui-lo até alcançar o segredo!

 

* * *

 

E, como de fato, o tal sujeito acompanhou-me logo com tamanha insistência, que eu, para ver-me livre dele, prometi-lhe afinal que lhe havia de revelar o mistério.

 

No dia seguinte já lá estava o demônio do homem defronte da minha casa e não me largava a porta.

 

Para o restaurante, para o trabalho, para o teatro, para toda a parte, acompanhava-me aquele implacável fraque cor de café com leite, a pedir-me o segredo por todos os modos, de viva voz, por escrito e até por mímica, de longe.

 

Eu vivia já nervoso, doente com aquela obsessão. Cheguei a pensar em queixar-me à polícia ou empreender uma viagem.

 

Ocorreu-me porém, uma idéia feliz, e mal a tive disse ao tipo que estava resolvido a confiar-lhe o segredo.

 

Ele quase perdeu os sentidos de tão contente que ficou. Marcou-me logo uma entrevista em lugar seguro; e, à hora marcada, lá estávamos os dois.

 

Então que é?… perguntou-me o monstro, esfregando as mãos.

 

– Uma cousa muito simples, segredei-lhe eu. Para qualquer pessoa fazer bons versos, seja quem for, basta-lhe o seguinte: – Não pensar no macaco azul. – Está satisfeito?

 

– Não pensar no…

 

– Macaco azul.

 

– Macaco azul? O que é macaco azul…?

 

– Pergunta a quem não lhe sabe responder ao certo. Imagine um grande símio azul ferrete, com as pernas e os braços bem compridos, os olhos pequeninos, os dentes muito brancos, e aí tem o senhor o que é o macaco azul.

 

– Mas que há de comum entre esse mono e a poesia?…

 

– Tudo, visto que, enquanto o senhor estiver com a idéia no macaco azul, não pode compor um verso!

 

– Mas eu nunca pensei em semelhante bicho!…

 

– Parece-lhe; é que às vezes a gente está com ele na cabeça e não dá por isso.

 

– Pois hoje mesmo vou fazer a experiência… Ora quero ver se desta vez…

 

– Faça e verá.

 

* * *

 

No dia seguinte, o pobre homem entrou-me pela casa como um raio. Vinha furioso.

 

– Agora, gritou ele, é que o diabo do bicho não me larga mesmo! É pegar eu na pena, e aí está o maldito a dar-me voltas no miolo!

 

– Tenha paciência! Espere alerta a ocasião em que ele não lhe venha à idéia e aproveite-a logo para escrever seus versos.

 

– Ora! Antes o senhor nunca me falasse no tal bicho! Assim, nem só continuo a não fazer versos, como ainda quebro a cabeça de ver se consigo não pensar no demônio do macaco!

 

* * *

 

E foi nestas circunstâncias que Paulino me escreveu aquela carta.

 

 

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Aluízio Tancredo Gonçalves de Azevedo, pseudônimos:  Vítor Leal, Pitibri, Gisoflê, Semicúpio dos Lampiões, Acropólio. ( MA, 1857 –  Argentina, 1913), escritor,  novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, caricaturista, jornalista e diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras

A condessa Vesper, 1901  

A Flor de Lis, 1882  

A Mortalha de Alzira, 1891  

A Mulher    

A República, teatro 

Alma no Prego    

As Minas de Salomão    

Casa de Orates , teatro,

Casa de Pensão  1883

Demônios  1893  

Em Flagrante, teatro

Filomena Borges  1884  

Fluxo e Refluxo  1905  

Fritzmack  1889  

Girandola de amores  1900  

Lição para Maridos    

Livro de uma Sogra  1895  

Mattos, Malta ou Matta?  1885  

Memórias de um Condenado  1882  

Mistério da Tijuca  1882  

O Caboclo    

O Cortiço  1890  

O Coruja , novela,1890  

O Crime da Rua Fresca, 1896  

O Homem  1887  

O Inferno    

O Japão  1894  

O Mulato  1881  

O Pensador  1880  

O Touro Negro  1938  

Os Doudos  1879  

Os sonhadores    

Paula Matos  1890  

Pegadas  1897  

República, teatro   

Um Caso de Adultério, teatro  

Uma lágrima de Mulher , 1879  

Venenos que Curam, teatro 





O galo, poesia de Mauro Mota, uso escolar.

2 07 2010

Johann Leonhard Frisch, Galo, 1763, reproduzido em cartão postal.

 

O Galo

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                                             Mauro Mota

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É a noite negra e é o galo rubro,

da madrugada o industrial.

É a noite negra sobre o mundo

e o galo rubro no quintal.

A noite desce, o galo sobre,

plumas de fogo e de metal,

desfecha golpe sobre golpe

na treva unidimensional.

Afia os esporões e o bico,

canta o seu canto auroreal.

O galo inflama-se e fabrica

a madrugada no quintal.

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Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Editora Leitura: 1968, Rio de Janeiro

 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911 — Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.

Obras:

Elegias (1952)

A tecelã (1956)

Os epitáfios (1959)

Capitão de Fandango (1960, crônica)

O galo e o cata-vento, (1962)

Canto ao meio (1964)

O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica)

Poemas inéditos (1970)

Itinerário (1975)

Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória (1979)

Pernambucânia dois (1980)

Mauro Mota, poesia (2001)

Antologia poética, 1968

Antologia em verso e prosa, 1982.





O gato, poesia infantil de Vinícius de Moraes

29 06 2010

 

O gato

                         Vinícius de Moraes

Com um lindo salto

Lesto e seguro

O gato passa

Do chão ao muro

Logo mudando

De opinião

Passa de novo

Do muro ao chão

E pega corre

Bem de mansinho

Atrás de um pobre

De um passarinho

Súbito, pára

Como assombrado

Depois dispara

Pula de lado

E quando tudo

Se lhe fatiga

Toma o seu banho

Passando a língua

Pela barriga.

Vinícius de Moraes

Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

Livros:

O caminho para a distância (1933)

Forma e exegese (1935)

Ariana, a mulher (1936)

Novos Poemas (1938 )

Cinco elegias (1943)

Poemas, sonetos e baladas (1946)

Pátria minha (1949)

Antologia Poética (1954)

Livro de Sonetos (1957)

Novos Poemas (II) (1959)

Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)

A arca de Noé; poemas infantis (1970)

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VÍDEO COM A MÚSICA DESSE POEMA, CANTADA POR MARINA LIMA


Poesia Completa e Prosa (1998 )