Sonhos, Capa da Revista Saturday Evening Post, 15 de agosto de1959, ilustração de Constantin Alajalov.
Muitas vezes, embebido
em cismas tenho sonhado
que a vida é um sonho comprido
que a gente sonha acordado!
(Ferreira Gullar)
Muitas vezes, embebido
em cismas tenho sonhado
que a vida é um sonho comprido
que a gente sonha acordado!
(Ferreira Gullar)
Els Bleekrode lendo na cama,1936
Meijer Bleekrode (Holanda,1896-1943)
óleo sobre tela, 101 x 78 cm
Alfredo de Barros
Se é tudo quanto tens pra me dizer,
Fora melhor calar essa atitude.
Tinha mais graça e tinha mais virtude
Se m’o desses apenas a entender.
Se em teu amor por vezes eu não pude
O sentido dum gesto compreender,
— Propósitos de nunca responder
Têm um alcance que a ninguém ilude.
Tranquilamente, como sol que finda,
Morria o sonho sem olhar ainda
Para o rasto deixado antes de si. . .
Assim, talvez jamais acreditasse
Que só por ter beijado a tua face
Andei louco de amor atrás de ti.
Em: Versos de cinzas, Alfredo de Barros, Lourenço Marques {Maputo], 1946
Galvão Queiroz
Mamãe lavava a gilete
que o Papai vinha de usar,
na pia junto ao toalete,
para, depois, ir guardar.
Chacuca que observava
tudo o que a mamãe fazia,
muito pensativo olhava
a água jorrando na pia.
De repente diz: Mãezinha,
quando eu crescer, vou usar,
como o Pai, essa enxadinha
pra meu queixo capinar?
Em: Almanaque Tiquinho, 1955, página 61
Fausto Guedes Teixeira
Negro o cabelo, a fronte iluminada,
O nariz curvo, a boca pequenina,
Nos olhos escuríssimos cravada
Uma estrela no fundo da retina.
Nas faces uma rosa desmaiada
E outra rosa nos lábios purpurina,
Seus pequeninos pés os duma fada
E o seu corpo um corpinho de menina.
Todos os traços cheios de expressão,
Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,
Porque eu lhe pus nas mãos o coração.
Eis o esboço rápido daquela
Que, sempre que na vida alguém a veja,
Nunca mais vê ninguém senão a ela!
Quando há pedras nos caminhos,
não fujo rumo aos atalhos,
sou daqueles passarinhos
que não temem espantalhos.
(Ney Damasceno)
Leitura matutina, 2010
Roberto Ploeg (Holanda,Brasil, 1955)
óleo sobre tela
Cecília Meireles
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.
Em: Cânticos, Cecília Meireles, São Paulo, Moderna: 1981
O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024. Muitíssimo obrigada!
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Este foi um ano de sessenta e quatro livros lidos. Esse número inclui ficção e não ficção assim como livros relidos.
Ficção tem pela primeira vez desde que faço essa lista, dois autores brasileiros no pódio. E entre eles o ganhador de melhor do ano.
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1º lugar
OJIICHAN, Oscar Nakasato
SINOPSE – Terceiro livro do escritor paranaense e vencedor do Jabuti Oscar Nakasato, Ojiichan, que em japonês significa “vovô”, retrata a vida de Satoshi a partir do seu aniversário de setenta anos.
A aposentadoria compulsória do colégio onde ele lecionou por décadas é o primeiro dos eventos que o obrigam a confrontar as muitas faces da velhice. Seus colegas preparam uma festa de despedida e os alunos, que carinhosamente o apelidaram de Satossauro, prestam homenagem ao professor. Preocupados em celebrar o merecido descanso após uma vida de trabalho, ninguém ao redor parece enxergar a dor de Satoshi em deixar a rotina e dar início a uma nova fase.
Em casa, as coisas não estão muito melhores. A perda de memória de Kimiko, sua esposa, vai se agravando, e os cuidados com ela recaem sobre ele, sobretudo depois que uma tragédia acomete a filha do casal. Com o outro filho vivendo no Japão e o neto ausente, Satoshi experimenta, de modo estoico, os primeiros sinais da solidão, que só pioram quando ele é obrigado a se mudar para um apartamento menor e se despedir de Peri, seu cachorro. No novo prédio onde passa a morar, a solidão de Satoshi dá as mãos à de d. Estela e Altair, seus vizinhos, cuja história de vida o protagonista descobre aos poucos.
Com a coragem de representar o desamparo em toda sua crueldade, porém avesso a melodramas, Oscar Nakasato toca em pontos sensíveis da sociedade brasileira e provoca a reflexão ao desafiar o final trágico que parece se anunciar: quando Satoshi contrata Akemi como cuidadora de sua esposa, sua vida particular ganha novos contornos e a configuração do cotidiano e da família se alteram de modo inusitado.
Em sua prosa a um só tempo austera e atenta aos detalhes, tão característica da cultura japonesa na qual Nakasato cresceu, Ojiichan mostra que a terceira idade não é a linha de chegada, mas um caminho a ser trilhado, e transborda a beleza e a serenidade necessárias a um mundo ocidental de supervalorização da juventude e da velocidade.
2º lugar
OS ENAMORAMENTOS, Javier Marías
SINOPSE — O assassinato de um empresário madrilenho é o ponto de partida do romance de Javier Marías, que traz uma reflexão literária sobre o estado de enamoramento.
María Dolz, uma solitária editora de livros, admira à distância, todas as manhãs, aquele que lhe parece ser o “casal perfeito”: o empresário Miguel Desvern e sua bela esposa Luisa. Esse ritual cotidiano lhe permite acreditar na existência do amor e enfrentar seu dia de trabalho.
Mas um dia Desvern é morto por um flanelinha mentalmente perturbado e María se aproxima da viúva para conhecer melhor a história. Passa então de espectadora a personagem, vendo-se cada vez mais envolvida numa trama em que nada é o que parecia ser, e em que cada afeto pode se converter em seu contrário: o amor em ódio, a amizade em traição, a compaixão em egoísmo.
A história, narrada em primeira pessoa por María, sofre as oscilações de seus estados de espírito, de seus “enamoramentos”, evidenciando que todo relato é tingido pela subjetividade de quem conta.
Ao mesmo tempo, a presença incômoda dos mortos na vida dos que ficam é o tema que perpassa este romance, à maneira de um motivo musical com suas variações. Para desdobrar e reverberar esse mote, Javier Marías entrelaça a seu enredo referências a obras clássicas da literatura, como Os três mosqueteiros, de Dumas, Macbeth, de Shakespeare, e, sobretudo, o romance O coronel Chabert, de Honoré de Balzac.
Sustentando com maestria uma voz narrativa feminina, o autor eleva aqui a um novo patamar sua habilidade em nos envolver no mundo interior de seus personagens. Com Os enamoramentos, obra de plena maturidade literária, Javier Marías se reafirma como um dos maiores ficcionistas de nossa época.
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3º lugar
TERRA ÚMIDA, Myriam Scotti
SINOPSE — Ganhador do Prêmio Literário de Manaus 2020, na Categoria Regional, tem como tema central a diáspora Judaico-Marroquina no começo do século 20, quando muitos imigrantes, vindos do Oriente, atracavam no Porto de Manaus.
A paisagem escurecia, sem que pudéssemos fugir de toda a chuva que estava para irromper, num prenúncio de desafio a quem ousava por ali navegar. O verão amazônico se anunciava violento, inserto em sua própria selvageria e ainda faltavam três dias para chegarmos a Manaus. Estávamos em meio ao nada. Apenas o infinito de águas nos cercava. Inimaginável que uma tarde bonita como aquela pudesse se transformar, trovões começariam a rimbombar e uma chuva torrencial cairia sobre nós. Ventos fortes e atípicos sacudiam a embarcação, como se fôssemos um barquinho de papel. Um dos marinheiros chamou a nossa atenção para uma mancha que lembrava um grande disco e se formava na superfície do rio, a certa distância. Curiosos, corremos todos para saber do que se tratava e então vimos surgir um anel de água, que logo ganhou força formando uma imensa tromba. Mesmo percorrendo rios há alguns anos, só tinha ouvido falar do fenômeno e até duvidava de sua veracidade.
Aqui a lista dos sete livros restantes que considerei os melhores do ano:
Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard
Uma hora de fervor, Muriel Barbery
A outra filha, Annie Ernaux
Não é um rio, Selva Almada
Cora do Cerrado, Tana Moreano
Novembro, 1963, Stephen King
Uma rosa só, Muriel Barbery
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MENÇÃO HONROSA
Kentukis, Samanta Schweblin
Segurant: o cavaleiro do dragão, Emanuele Arioli
Crônicas minhas, Nancy de Souza – crônicas
As filhas moravam com ele, André Giusti — contos
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RELIDOS — só releio o que já considerei muito bom.
Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Kafka à beira-mar, Haruki Murakami
A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Montero
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NÃO FICÇÃO, só os que recomendo.
O lado bom das expectativas, David Robson
Diálogos sobre a natureza humana: perfectibilidade e imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé
2030: How Today’s Biggest Trends Will Collide and Reshape the Future of Everything, Mauro F. Guillén
Writers and their notebooks, Diana Raab
The two Eleanors of Henry III, Darren Baker
No enxame, Byung-Shul Han
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FICÇÃO em inglês
The Anthropologists, Aysegul Savas
The Hammock: A novel based on the true story of French painter James Tissot, Lucy Paquette
Flavio Machado
Lembro da primeira vez que vi o natal acontecer. Na madrugada acordei e vi deslumbrado ao lado da árvore de natal, o velocípede pedido a papai noel. Como era bonito o meu velocípede de metal.
A árvore era um capitulo a parte em nossa casa, naqueles dias era simplesmente a nossa árvore de natal, ficava incógnita no quintal durante o ano, plantada em lata de 20 de litros, quando aproximava – se o dia 25 de dezembro, ela ganhava destaque, a lata enferrujada ganhava papel alumínio para lhe cobrir as feridas do tempo, a árvore enfeitava-se de bolas coloridas, e no alto a estrela guia, simbolizando a estrela que apontou caminho para a manjedoura. E para um toque europeu, enchíamos de algodão, para dar ares europeus, um costume daquele tempo nas casas suburbanas.
E na nossa casa tinha um pequeno presépio que minha mãe desembalava de cima do armário, a representação da cena do nascimento de Jesus em Belém, eu lembro que aquela cena tinha uma ar de grande importância, aos meus olhos de menino
No subúrbio era uma festa, o dia seguinte, desfile de presentes entre a garotada. Tudo muito especial para o menino que descobria o natal, A nossa casa era simples, um quarto e sala em uma rua ainda sem calçamento do Engenho da Rainha, mas aos olhos do menino era um palacete, um castelo como daquelas intermináveis histórias que minha avó contava.
E simplicidade era a palavra-chave, o ar ingênuo daqueles anos, qualquer coisa era motivo de comemoração, por mais singelo que parecesse. Na minha casa não se falava tanto de religião, mas eu sabia por escutar que comemorávamos o nascimento de Jesus. E aquele presépio tão pequeno hoje, mas que era gigantesco na época, tão pobrezinho e tão rico.
Agora depois de passados tantos anos, a lembrança daquele natal, emociona de verdade o coração envelhecido, mas não imune a essa nostálgica madrugada, quando o velocípede de metal surgiu na sala. E o menino resiste, e de repente surge pedalando com o presente sonhado. Como gostaria que todos pudéssemos recuperar as primeiras emoções de alegria, seja numa noite distante de natal, seja mais recente, e que Jesus esteja conosco, assim como aquele menino parecia entender vendo a cena retratada do nascimento de nosso Senhor, nosso Salvador, num pequeno presépio montado na memória.
05 de Novembro de 2024.
Cabo Frio, RJ
Ontem eu recebi como sempre recebo o relatório das minhas leituras de acordo com o Goodreads. Infelizmente esse relatório não inclui alguns livros que li, de autores brasileiros que não adicionaram ou que suas editoras não se deram ao trabalho de adicionar seus livros no cabedal do portal. Então, menos esses livros que escaparam, li até dia 5 de dezembro de 2024, 46 livros como podem ver, para um total de 11.806 páginas. Estou entre os 25% de leitores que mais leem. Não sei minha posição nesses 25%, mas não deve estar no topo, por mais que possa parecer que li muito. Conheço bem outros leitores inveterados.
O livro mais longo que li em 2024 foi a ficção científica, excepcional de Stephen King, chamada 22 de Novembro de 1963, que foi o dia do assassinato do Presidente Kennedy nos Estados Unidos. O livro tem como estrutura realidade quântica. Vamos e voltamos dessa data aos dias de hoje com alguma frequência e prende a atenção como nenhum outro livro. Devora-se suas 1200+ páginas sem receio.
Na lista deles, tenho seis livros a que dei cinco estrelas, ou seja o máximo que poderia ter dado. Na verdade em dezembro entrei com outro livro, mas esse deve ser considerado no ano que vem, imagino.
Descobriram também que dos 46 livros lidos, os meu favoritos caem nos seguintes segmentos: Ficção, Não ficção e Ficção Histórica.
Pertenço também ao portal brasileiro Skoob que é semelhante ao Goodreads. Mas o Skoob não nos manda um relatório das nossas leituras ao final do ano. Pelo menos nunca me mandaram. No Skoob, no momento eu tenho 1022 livros lidos e 347 resenhas.
E você? Tem sua página em algum desses dois portais? Se gostam de ler, não seria bom ter um relatório de tudo que você leu durante o ano?
Fica aqui a sugestão.
| S | T | Q | Q | S | S | D |
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| 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 |
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| 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | 31 |






