Conto popular versus conto de autor

10 03 2025

 Big Sky Country

Chad Gowey (EUA, 1987)

 

No conto popular não importa o nome nem o local ou o tempo, cada personagem é uma peça para a história funcionar. Por isso ela pode ser recontada eternamente que permanecerá sempre a mesma história. “A moura torta”, “Chapeuzinho Vermelho”, cultura popular. Num conto de autor ou num romance é diferente, são as palavras, exatamente aquelas palavras, que constroem aquela história para sempre única, os personagens crescem, têm nomes, a ação tem idade, finca-se em um tempo. É obra de um homem e não de um povo.

 

 

Em: Antônio, Beatriz Bracher, Editora 34: 2010





O indiferente, de Watteau, pelos olhos de Lígia Fagundes Telles

1 03 2025

O indiferente, 1717

Jean-Antoine Watteau (França, 1684-1721)

óleo sobre madeira, 26 x 19 cm

LOUVRE

 

 

 

“Podia ir para um lado e podia ir para o outro, como o aristocrata do quadro de Watteau, um jovem de sapatos de fivela e roupa de seda. Tinha os braços frouxamente abertos e se chamava O Indiferente. O tom azul da roupa era delicado como o tom rosa da capa aberta no braço, forrada também de azul. E ele se oferecia a ensaiar um passo de dança, com uma displicência igual à da capa atirada no braço, a flexível capa de duas faces, podia usá-la no avesso.”

Em: Verão no aquário, Lígia Fagundes Telles, Cia das Letras: 2010





Nos bastidores, Machado de Assis

25 02 2025

Bailarinas nos bastidores, 1872

Edgar Degas (França, 1834-1917)

óleo sobre tela, 24 x 19 cm

National Gallery of Art, Washington D.C.

 

 

“Enquanto os meses passam, faze de conta que estás no teatro, entre um ato e outro, conversando. Lá dentro preparam a cena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fora com os espectadores. Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vê-lo pelas costas; é pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes flores”

 

Em: Esaú e Jacó, Machado de Assis, em domínio público





Agora que as palavras secaram, poema de Eduardo Pitta

21 02 2025
Autoria desconhecida.

 

Agora que as palavras secaram

 

Eduardo Pitta

 

Agora que as palavras secaram

e se fez noite

entre nós dois,

agora que ambos sabemos

da irreversibilidade

do tempo perdido,

resta-nos este poema de amor e solidão.

 

No mais é o recalcitrar dos dias,

perseguindo-nos, impiedosos,

com relógios,

pessoas,

paredes demasiado cinzentas,

todas as coisas inevitavelmente

lógicas.

 

Que a nossa nem sequer foi uma história

diferente.

A originalidade estava toda na pólvora

dos obuses, no circunstanciado

afivelar

dos sorrisos à nossa volta

e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

 





Trova da Aritmética Criativa

19 02 2025
Ilustração, Walt Disney

 

 

Devo-te oitenta! Mas quero

pagar-te em nota de cem…

– Me empresta mais vinte! Espero

devolver no mês que vem!

(Renato Alves)





Trova da saudade…

14 02 2025

 

Saudade…Perfume triste

de uma flor que não se vê.

Culto que ainda persiste

num crente que já não crê.

 

(Menotti Del Picchia)

 





Soneto, João Xavier de Matos

10 02 2025

Operários, 1933
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Óleo sobre tela, 150 x 205 cm
Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo

 

 

Soneto

 

João Xavier de Matos

 

Pobre ou rico, vassalo ou soberano,

Iguais são todos, todos são parentes;

Todos nasceram ramos descendentes

Do trono antigo do primeiro humano.

 

Saiba, quem de seus títulos ufano

Toma por qualidade os acidentes,

Que duas gerações há só dif’rentes

Virtude e vício: tudo mais é engano.

 

Por mais que afete a vã genealogia

Introduzir nas veias a natureza

De melhor sangue, do que Adão teria:

 

Não fará desmentindo a natureza

Que seja sem virtude a fidalguia

Mais que um triste fantasma da grandeza.

 

(1789)

 

João Xavier de Matos (Portugal, c. 1730-1789)





Trova do bordado

5 02 2025

Para matar meus desejos,
quando em saudades me incenso,
beijo o carmim dos teus beijos,
com que bordaste o meu lenço…

 

(Onildo Campo)





Trova da gaivota

28 01 2025

 

Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.


(Onildo Campos)





Escuta, poesia de João Dantas de Souza

24 01 2025
Moça sentada com chapéu de palha, Giselle, ilustração de Elizabeth Shippen Green, 1916

 

Escuta

 

João Dantas de Sousa

 

(N’um Álbum.)

 

Vem cá, feiticeira, vem junto a meu lado,

Pois quero ao ouvido dizer-te um segredo…

Esquiva tu foges?… não fujas, louquinha;

Não vejo o que possa causar-te assim medo.

 

Tu dizes qu’eu fale? – já tu, por ventura,

Ouviste dizer-se segredos assim!

Há coisas que ao mundo ser devem ocultas;

Vem, pois, queridinha, não fujas de mim.

 

Sorris-te! Não brinques…- Se assim continuas

Então meu segredo não quero contar-te.

Escuta se queres; — são poucas palavras;

E julgo com elas não hei de enfadar-te…

 

Ao fim te chegaste…. Bem hajas! — Agora,

Escuta o segredo de teu trovador:

Eu te amo….» Que vejo? … tu foges corando!

Pois foge, que ao menos ouviste o melhor.

 

(1859)

 

Em: Poesias, João Dantas de Souza, Editora de Almeida, 1859.