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Olhos negros, cismadores…
Olhos de intenso brilhar.
Olhos que falam de amores
e vivem sempre a sonhar.
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(Therezinha Radetic)
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Olhos negros, cismadores…
Olhos de intenso brilhar.
Olhos que falam de amores
e vivem sempre a sonhar.
—
(Therezinha Radetic)
Feliz Natal, cartão de Natal, França, 1910-1915.
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(J. G. de Araújo Jorge)
Adoração dos Reis Magos.
Cartão Postal da Polônia, sem data.
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(Antônio Vogel Spanemberg)
Presépio, autor desconhecido.
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Vinicius de Moraes
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De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:
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— Cristo nasceu!
—-
O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
— Aonde? Aonde?
—-
Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
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— Em Belém! Em Belém!
—-
Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
—-
— Foi sim que eu estava lá!
—–
E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!
—–
Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.
—–
O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!
—-
Brava
A arara a gritar começa:
—–
— Mentira! Arara. Ora essa!
—-
— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.
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— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.
—
Bale o cordeiro também:
—-
— Em Belém! Mé! Em Belém!
—-
E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.
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Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.
Livros:
O caminho para a distância (1933)
Forma e exegese (1935)
Ariana, a mulher (1936)
Novos Poemas (1938 )
Cinco elegias (1943)
Poemas, sonetos e baladas (1946)
Pátria minha (1949)
Antologia Poética (1954)
Livro de Sonetos (1957)
Novos Poemas (II) (1959)
Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)
A arca de Noé; poemas infantis (1970)
Poesia Completa e Prosa (1998 )
—
——
Diógenes Pereira de Araújo
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Vou armar uma árvore, escondida
no coração, recôndito de mim.
Será planta odorífera: alecrim,
por faces de pessoas preenchida
—–
Tais faces vou colhê-las no jardim
dos amigos de sempre cuja vida
fazem a minha vida colorida
e perfumada: há rosas e jasmins
—–
Amigos do passado eu ponho ao centro
amigos do presente mais à mão
para incluir a todos na oração:
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“Senhor, – que trago aqui também por dentro –,
meu coração, com carga especial
transplanta para o teu neste Natal.”
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Diógenes Pereira de Araújo ( SP, 1935). Advogdo, escritor e poeta. Blog: http://diogenespereiradearaujo.blogspot.com
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Noite de Natal.
Cartão Postal, década de 20, século XX.
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Há sussurros pelo espaço…
Na terra há luz e cristal,
quando a noite estende o braço,
proclamando que é Natal!
(Cidoca da Silva Velho)
Cartão Italiano, 1910-1912.
—
Neste dia alegre e doce,
de festas, sentimental,
queria que você fosse
meu presente de Natal.
(J. G. de Araújo Jorge)
Nascimento de Jesus
Arte folclórica dos Estados Unidos, anônimo
Manuel Bandeira
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O nosso menino
Nasceu em Belém
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
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———
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
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——-
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
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———
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.
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Em: Bandeira, antologia poética, Rio de Janeiro, José Olympio:1978, 10ª edição.
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Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Obras:
3 Conferências sobre Cultura Hispano-americana, 1959
50 poemas escolhidos pelo autor , 1955
A Autoria das Cartas Chilenas, 1940
A Cinza das Horas, 1917
A Cópula, 1986
A Leste do Éden, 1958
A Morte, 1965
A Versificação em Língua Portuguesa
Alumbramentos, 1960
Andorinha, Andorinha 1965
Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos 1946
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana 1938
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica 1937
Antologia dos Poetas Brasileiros: fase moderna 1967
Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase Simbolista 1937
Antologia Poética 1961
Apresentação da Poesia Brasileira 1944
Auto Sacramental do Divino Narciso, de Sóror Juana Inés de la Cruz
Carnaval 1919
Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira 1958
Colóquio Unilateralmente Sentimental 1968
Crônicas da Província do Brasil 1937
De Poetas e de Poesia 1954
Discurso de Posse de Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras 1941
Em Busca do Verso Puro, de Pedro Henríquez Ureña 1946
Estrela da Manhã 1936
Estrela da Tarde 1960
Estrela da Vida Inteira 1966
Flauta de Papel 1957
Francisco Mignone 1956
Glória de Antero 1943
Gonçalves Dias 1952
Guia de Ouro Preto 1938
Itinerário de Pasárgada 1954
Itinerários 1974
Libertinagem 1930
Literatura Hispano-americana 1949
Macbeth, de Shakespeare 1958
Mafuá do Malungo 1948
Maria Stuart, de Schiller 1955
Mário de Andrade: animador da cultura musical brasileira 1954
Meus Poemas Preferidos 1967
Noções de História das Literaturas 1940
Noturno do Morro do Encanto 1955
O Melhor Soneto de Manuel Bandeira 1955
Obras Poéticas 1956
Obras Poéticas de Gonçalves Dias 1944
Obras-primas da Lírica Brasileira 1943
Opus 10 1952
Oração de Paraninfo 1946
Os Reis Vagabundos 1966
Panorama das Literaturas das Américas 1958
Pasárgada 1960
Poemas Traduzidos 1945
Poemas-gráficos: 3 ensaios tipográficos no centenário do poeta 1986
Poesia do Brasil 1963
Poesia e prosa 1958
Poesia e Vida de Gonçalves Dias 1962
Poesias 1924
Poesias completas 1940
Poesias Escolhidas 1937
Poesias, de Alphonsus de Guimaraens 1938
Portinari 1939
Recepção do sr. Peregrino Júnior 1947
Recordações de Manuel Bandeira nos Arquivos Implacáveis de João Condé 1990
Rimas, de José Albano 1948
Rio de Janeiro em Prosa & Verso 1965
Rubaiyat, de Omar Khayyan 1965
Sonetos Completos e Poemas Escolhidos, de Antero de Quental 1942
Um Poema de Manuel Bandeira 1956
Ceia de Natal
Cartão de Natal da Polônia.
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Natal! É sonho e vigília
harmonia, amor e paz…
Milagre! Toda a família
se reúne uma vez mais…
(J. G. de Araújo Jorge)
Igreja de São Bento, Vale do Tamanduateí, SP, s/d
José Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)
Aquarela, 32 x 47 cm.
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À memória de Horácio Senne
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” A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova daquelas que não se vêem.” —- S. PAULO, Epístola aos Hebreus, 11
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Nada se pode articular contra a sinceridade com que a gente do Vale do Paraíba pratica seus deveres religiosos. Pelo menos, era assim no meu tempo de menino: os preceitos da Igreja, nós os cumpríamos com uma pontualidade inalterável, e mais ainda: com profunda unção espiritual.
Por alguns anos (antes de nos transferirmos para a Chacrinha, às margens do Paraíba), residimos perto da Matriz, e tivemos como vizinho o velho vigário Gaudêncio Antônio de Campos.
Tal circunstância, acrescida pelos desvelos de minha mãe, concorreu para a dedicação e o interesse com que eu e meus manos nos dedicávamos a tudo o que dissesse respeito ao culto.
Por ocasião das grandes e solenes procissões, nós figurávamos em lugares de realce, trajando roupas vermelhas, e tendo nas mãos pesados círios. Nas rezas do mês de Maria, igualmente, éramos incluídos na guarda de honra do altar. Como mais velho, eu, compenetradíssimo, fiscalizava meus irmãos, pois o maior prazer do Nelson era brincar com a chama de sua vela, e reacender as que se apagassem, para o que saía pingando cera em todo o mundo; e o do Júlio, bater nos cachorros que entrassem no templo, os quais saiam ganindo lamentosamente, o que a meu ver perturbava a atenção piedosa dos fiéis.
O vigário Gaudêncio, homem boníssimo, utilizava, sempre que possível, nosso concurso nas festinhas da paróquia. É claro que não designo por essa forma as grandes solenidades, religiosas e populares, que se efetuavam outrora, como ainda hoje, nos dias 23 a 25 de junho, e que compreendem as homenagens ao Santo Precursor, padroeiro da cidade e as festas anuais consagradas ao Divino Espírito Santo. Nesses dias havia alvorada, missas cantadas (pregando o Evangelho ilustres oradores sacros), imponentes procissões, retretas ao jardim público, mesas de doces franqueadas ao povo, como nas hecatésias atenienses, leilões, fogos de artifício o que tudo figurava nos programas impressos em enormes folhas de papel de cor, e absorvia as atenções de toda a gente, durante aquele movimentado tríduo.
Dessas solenidades, porém, a que mais me impressionava era a proclamação dos festeiros para o ano seguinte. Os festeiros eram três: o “Imperador”, o “Capitão do Mastro” e o “Alferes da Bandeira.” O primeiro, superintendia toda a festa; o segundo tinha a seu cargo a ereção do mastro, alto poste de madeira, cantado em frente a Matriz, poste que devia ser anualmente substituído. Na extremidade do tal mastro ficaria o quadro, isto é, a bandeira, em que São João Batista se via com o inseparável cordeirinho aos pés. Ao “Alferes da Bandeira” cabia a feitura desse quadro.
Salvo casos especialíssimos (de promessas, ou de donativos altamente valiosos), os festeiros eram escolhidos mediante sorteio, entre paroquianos de notória idoneidade, que se apresentassem candidatos àquelas honrosas funções.
Quando se proclamava o “Imperador”, estando a velha igreja repleta, sentia-se certo frisson na assistência: a música tocava, os sinos vibravam, e o foguetório enchia o ar com seus estrondos. É claro que tais homenagens lisonjeavam a vaidade dos pretendentes.
Lembra-me ainda o dia em que o vigário Gaudêncio se mostrava preocupado com qualquer problema de solução difícil.
— Estou numa dúvida desagradável, seu João de Deus – dizia ele a meu pai. – Imagine que eu já havia assumido compromisso com o Rebouças de Carvalho, o Dr. França e o Chico Carlos, para imperador, capitão do mastro e alferes da bandeira. Agora soube que o Zé Carlos e o Monteiro também fazem questão fechada de ser festeiros. Não quero faltar a minha palavra, mas também não desejo magoar a esses bons amigos… Que acha você que convém fazer?
Meu pai formulou uma solução conciliatória, mas o padre fez ver que nada conseguiria, dada a intransigência dos candidatos.
O Nelson, que comigo assistia ao grave debate, animou-se a propor outra sugestão.
— Pois vamos ver o que é, menino, disse o sacerdote, já sorrindo por conta da extravagância que esperava.
— Em vez de três festeiros, o senhor arranja cinco.
— Cinco? Mas, como? Se são só três os cargos!
— Isso não tem importância! O senhor arranja mais dois: o major da fogueira, e o tenente do pau de sebo!
É claro que a idéia do Nelson nem sequer foi objeto de deliberação o que o decepcionou bastante. Atribuímos a recusa do padre ao fato de não ser possível promover o Capitão José Carlos a “major”, nem rebaixar o Capitão Moreira a “tenente”.
Convém recordar que naquele tempo todos os fazendeiros do interior adquiriam patentes de oficiais da extinta “Guarda Nacional”, e, como esses títulos nunca mudavam, aderiam ou anexavam-se indelevelmente aos nomes dos respectivos portadores.
— O padre Gaudêncio é muito atrasado, observou Nelson, despeitado. E é teimoso na sua opinião. Nunca muda nada! Todos os anos há de se fazer a mesma coisa que se fazia há cinqüenta anos atrás!
Em casa a turma fez caçoada. Sugeriram-se mais dois postos, altamente honrosos: o de coronel da retreta e o de general da procissão.
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Mais do que as festas juninas, porém, o fato que ora vou referir comprova o espírito religioso do povo queluzense. Quando ele ocorreu, já o padre Gaudêncio, valetudinário, havia deixado o árduo ministério. Pastoreava a paróquia o padre Paulo Machado.
Prolongada estiagem estava causando graves danos à lavoura, em todo o município. Tres longos meses haviam transcorridos, sem que do alto caísse um pingo d’água. Os lavradores queixavam-se e com razão. Rios e ribeirões das fazendas distantes do Paraíba minguavam a olhos vistos. O gado perecia.
Quando ocorrem tais períodos de secas, o céu torna-se pardacento, todo por igual, e os dias passam sem que nos venha o refrigério de uma brisa, o que produz em toda gente, nos animais, e até nas plantas uma tristeza esquisita, um desalento sem remédio.
O povo de Queluz suportava a ausência de chuvas enquanto podia. Se a natureza perseverasse em sua ação inclemente, não havia discutir: recorria-se a São Roque.
Procissão, 2007
Vera Sabino (Brasil, PR. Contemporânea)
Acrílica sobre eucatex
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São Roque tem o seu culto em modesta capelinha em torno da qual se formou um pequeno povoado, simples arraial, que do município de Areias foi recentemente transferido para o de Queluz. Cerca de três quilômetros separam o povoado de qualquer das duas cidades. Numa e noutra tem o santo apreciável número de devotos.
Para trazer São Roque a Queluz tornava-se necessário a autorização do vigário. Obtida a licença, organizavam-se os crentes em procissão e lá iam, galgando a estrada que contorna a Fortaleza, e repetindo orações que se iniciavam e se encerravam pela prece “Ad petendam pluviam”.
De volta, ao reentrar a procissão na cidade, o povo vinha receber a imagem do milagroso santo, e, com demonstrações do maior respeito acompanhava-a até o alto da Matriz.
Repicavam os sinos e soltavam-se foguetes, condimento indispensável em tais cerimônias.
— Ora, não é tanto assim, objetou o sacerdote, cautelosamente. E prosseguiu: Talvez convenha aguardar uns dias mais… Penso que só em caso extremo devemos apelar para São Roque, e removê-lo de sua capela para a Matriz…
— Mas… V. Revma. não se opõe?
— A que a imagem venha, não!… Apenas acho que ainda é cedo… Consultem os zeladores; depois… veremos o que se há de fazer.
Os solicitantes retiraram-se descontentes com o resultado da tentativa.
À tardinha, ao despertar de sua sesta habitual, o vigário teve uma surpresa que o deixou contrariadíssimo.
Soube que à sua revelia, os mesmos devotos e outros vários tinham estado na igreja, e dali retiraram tudo o que era necessário ao cortejo. Descendo, processionalmente, a ladeira, e atravessando a ponte do Paraíba, o grupo se engrossou com grande número de aderentes. Quando o sacerdote teve plena ciência do caso, já a procissão subia a Fortaleza, fora da zona urbana, entoando o cântico “Ad petendam pluviam”.
Mas o Padre Paulo não se deixava convencer facilmente. Considerou que aquilo significava um desrespeito a sua autoridade.
A vinda de São Roque importava na realização de uma festinha, dias depois do aguaceiro, na data fixada para o regresso do santo. Ora, ele vigário, julgara prematura a vinda da imagem, pensando já nas conseqüências. Resolveu agir com presteza no sentido de procrastinar a execução daquele ato.
Saiu imediatamente, arranjou, às pressas, um veículo do tipo que outrora se chamava “aranha”, e foi no encalço da procissão.
Em poucos minutos alcançou-a.
Os romeiros interromperam a marcha, ao vê-lo.
— Então, que é isso, meus amigos? Vocês vão, assim, buscar São Roque?
— Vamos, seu Vigário – explicou o líder do movimento – como Vossa Reverendíssima disse que não se opunha, e todos os zeladores concordaram, nós não quisemos incomodar Vossa Reverendíssima, que estava descansando, e…
— Mas aqui ninguém acredita em São Roque! — exclamou o vigário, em tom paternal de censura.
— Perdão, seu Vigário, mas nós todos confiamos no santo…
— Ninguém acredita, insistiu energético, o sacerdote. E a prova é esta: ninguém trouxe guarda-chuva! Se vocês, realmente, têm fé em São Roque, voltem, para buscar os guarda-chuvas!
Ouvindo essa recomendação, um dos crentes tomou a iniciativa de transmitir a todos os demais o aviso, exclamando em voz bem alta, no linguajar de roceiro:
— Vorte quem tem fé! Vorte tudo, pra morde buscá os guarda-chuva!
Não houve remédio, senão atender. Todo o bando voltou, com raras exceções. Tornou atrás, igualmente, o vigário, convencido de que pelo menos naquela tarde não seria possível a marcha que ele interceptara.
Mas enganou-se. Os devotos de São Roque, em matéria de pertinácia, nada deixavam a desejar, relativamente ao padre que os guiara. A procissão atrasou-se em três quartos de hora; mas reconstituiu-se, e prosseguiu.
A julgar pela quantidade de paraguas, a fé em São Roque era, mesmo, profunda.
Ao cair da noite, regressavam os devotos a Queluz. A imagem vinha com eles, é claro.
A essa hora, nuvens sombrias já se iam acumulando para os lados da Figueira.
E quando a procissão entrou na cidade, chovia a cântaros. Os guarda-chuvas prestaram excelente serviço a seus possuidores.
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No dia seguinte, o Padre Paulo encontrou, na boca da ponte, dois paroquianos que haviam participado da procissão, e foi ter com eles.
— E não é que a chuva veiu ônte mêmo, seu Vigário.
— Ora, como não havia de vir! Que São Roque é milagroso, todos nós sabemos. Agora – o que eu notei é que todos mostraram ter Fe no santo, menos vocês dois!
— Pruquê, seu Vigário?
— Porque só vocês não voltaram para buscar o guarda-chuva!
— Ah! seu padre! Nós tem muita fé em São Roque, mas nós não tem guarda-chuva!
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Em: Histórias do rio Paraíba: episódios e tradições regionais, de J.B. de Mello e Souza, São Paulo, Saraiva:1951, 2 volumes, pp 80-88, volume I
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João Batista de Mello e Souza (SP 1888 — RJ 1969) — Pseudônimo: J. Meluza — Contista, romancista, poeta, memoralista, autor didático e de Literatura Infantil, teatrólogo, historiador, tradutor, folclorista, diplomado em Direito (1910), funcionário público, professor universitário, jornalista, membro da Academia Carioca de Letras. Prêmio Joaquim Nabuco -ABL (1949).
Obras:
Sacuntala de Calidasa e outras histórias de heroísmo e amor, contos indianos,
Lendas Medievais, contos
A sombra do bambual, teatro, 1955
Histórias do Rio Paraíba, 2 vol, contos e memórias, 1951
Histórias famosas do Velho Mundo, contos,
Majupira, romance histórico, 1949
Sete lendas de amor e outras poesias, 1959
Estudantes do meu tempo, contos e memórias, 1958
História da América, história, 1957
História do Brasil, história, 1959
História Geral, história, 1956
O homem sem pátria, 1963