Terminei hoje a leitura de As filhas moravam com ele, uma coleção de contos do escritor e jornalista André Giusti, [Nova Lima, MG, Editora Caos e Letras: 2023]. Há muito tempo não me dedicava a um grupo de contos com tanto prazer. Para mim, contos, crônicas e poesia são coletâneas que leio aos poucos, um texto por dia, porque por serem pequenos, em geral, entregam muito, já que não podem se perder na narrativa. Todos os três gêneros têm a habilidade de causar impacto rápido e certeiro. E isso acontece com as histórias deste autor carioca, radicado em Brasília.
Giusti traz contos enraizadas no desvario que nos rodeia e que sem querer assimilamos ao viver numa grande cidade, hoje. Ele retrata a insensatez que nos instiga, corrompe, empurra e muitas vezes atraiçoa na vida cotidiana. Constante nessas vinte histórias é a incredulidade da pessoa de bem que quer simplesmente tocar a vida com calma, segurança e bom-senso. Invariavelmente nos vemos nos personagens das histórias. Se não nos vemos, conhecemos alguém que entra direitinho naquele perfil. No entanto, frequentemente as situações em que elas se encontram, mesmo que corriqueiras, trazem consequências inesperadas, quase absurdas, que as deixam pasmas, beirando a inércia. E fica o profundo sentido de frustração permeando as histórias; pois não é raro, diante de uma consequência imprevisível, que a resposta do homem comum seja apenas uma série de impropérios que aliviam só de modo superficial os desatinos que encontrou.
Vale salientar que André Giusti não é um iniciante no trato da palavra. Jornalista por profissão e autor de pelo menos doze livros, ele traz na sua narrativa algumas preciosas imagens e descrições diretas que não deixam dúvidas sobre sua capacidade de dizer exatamente o que pretende. Cito aqui dois exemplos, o primeiro pela divertida e carinhosa descrição de uma mulher: “Mariana ri com os olhos levemente vesgos e intensamente alegres. Os olhos de Mariana parecem esquilos escapulindo por árvores de um parque.” [110] E em segundo lugar, um exemplo da maneira direta com que nos conta muita coisa com apenas uma frase: “Para desfazer o possível constrangimento real, Robério toma um grande gole de chope, arrota sem conseguir ser discreto e anuncia que tem novidade: vai ser avô, e faz uma cara que nos deixa em dúvida se ele acha bom ou ruim. [60] Estas maneiras variadas na escrita revelam completo domínio da arte. É narrativa que seduz o leitor.
André Giusti
Não sei se estou certa ao dizer que a escrita de Giusti tem o tom do carioca. Penso que ele foi para Brasília, mas que o Rio de Janeiro não saiu dele. Ritmo, irreverência, diálogos e filosofia de vida de seus personagens parecem saídos dos meus vizinhos, dos meus conhecidos, dos meus ouvidos. Mas além disso, sinto nessa coletânea o retrato de como está realmente dura, difícil de gerenciar a vida nos nossos dias, sobretudo o cotidiano do homem, daquele que só pretende levar uma vida comum, de conhecedor de alguma coisa, de vivenciador de algumas belezas e tristezas, de cidadão que quer acertar na educação da filha, no romance com a mulher, no convívio no emprego. Em nenhum momento, que fique claro, isso é explícito nessas histórias. Mas ao terminar a leitura, repassando o que li, fica essa consideração: está difícil manobrar a vida com as exigências que nos foram impostas, a impaciência geral e a intransigência generalizada. Você quer um retrato da vida de hoje? É aqui que vai encontrar.
Recomendo sem qualquer objeção a leitura desse delicioso livro. Cinco estrelas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Primeira edição do romance Simplicissimus de Montpelagard, c. 1669, Universidade Adam Mickiewicz em Posnan, Polônia.
Depois da Segunda Guerra Mundial a conhecida biblioteca dos Irmãos Grimm se subdividiu, perdendo sua identidade como um todo. Os livros colecionados pelos autores, que naquela época se encontravam em Berlim se dispersaram, com a divisão da cidade, e acabaram em diversos lugares no mundo. Os Irmãos Grimm haviam trabalhado anteriormente em Kassel, Göttingen e Savigny, mas dedicaram a maior parte do tempo nas pesquisas antropológicas em Berlim. Recentemente duas pesquisadoras da Universidade Adam Mickiewicz, em Poznań na Polônia encontraram vinte e sete obras que haviam pertencido aos autores. Essas obras são de importância para aqueles que se dedicam à pesquisa das obras de Grimm que contribuíram com histórias que encantaram leitores de todas as idades desde de sua primeira publicação em 1812.
Eles se mudaram para Berlim por volta de 1840 quando Frederico Guilherme IV, rei da Prússia, os convidou para dar aulas no Academia Real de Ciências. Tudo indica que os livros da coleção deles foram deixados, após sua morte, para a Biblioteca da Universidade de Berlim, por Wilhelm Grimm, filho de Hermann Grimm.
Os irmãos Jacob (em pé) e Wilhelm Grimm em um daguerreótipo, c. 1850.
Boa parte daquela biblioteca ainda se encontra em Berlim e está à mostra em uma reconstrução do escritório dos irmãos. Mas nem todos os livros estão lá. Em 1898, os bibliotecários responsáveis por esse grupo de livros doaram alguns volumes para a Kaiser-Wilhelm-Bibliothek em Poznań, e em 1919 esta biblioteca se tornou parte da nova Universidade Adam Mickiewicz de Poznań. Em 1945, os bibliotecários começaram a dispersar os volumes restantes da original biblioteca dos Irmãos Grimm mandando-os para fora da cidade com a intenção de salvá-los dos últimos bombardeios que eventualmente levaram à derrocada final do regime nazista. Foi retraçando esses passos que as pesquisadoras Eliza Pieciul-Karmińska e Renata Wilgosiewicz-Skutecka foram capazes de encontrar os vinte e sete volumes.
Mas o que foi encontrado? Obras que datam desde o século XV ao século XIX.
Alguns incunábulos. O que é um incunábulo? É um livro impresso nos primeiros tempos da imprensa com tipos móveis.
Algumas gravuras
Alguns livros mais recentes do século XIX.
Há uma Bíblia de 1491, e um livro sobre Carlos Magno, impresso em Lyon do século XVI. Há obras mais recentes de história da Alemanha, livros de músicas e de geografia datando de 1861. Conhecidos por fazerem todo tipo de anotação nos seus materiais de trabalho essa descoberta certamente ajudará àqueles que se dedicam ao estudo dos Irmãos Grimm, às suas pesquisas e ao que pensavam a respeito das obras adquiridas.
Este artigo está baseado na publicação: “Polish University Discovers 27 Books Belonging to the Brothers Grimm” de Vittoria Benzine,para a Newsletter da ArtNet, em 24 de maio de 2024.
acrílica e grafite em tela formatada, 305 x 305 cm
Quem frequenta este blog, ou visita a página da Peregrina Cultural no Facebook, certamente não poderia imaginar que um dos meus grandes amores, figurativamente falando, nas artes plásticas do século XX, foi entre outros, Frank Stella (EUA, 1936-2024). Num blog que favorece não só a pintura figurativa assim como a pintura figurativa brasileira, saber que eu tinha verdadeiro carinho, amor e apreciação pelo trabalho de Stella deve vir como surpresa. Mas sim, há pintores abstratos, tanto do expressionismo abstrato americano, como Franz Kline, Mark Rothko, e também do abstracionismo geométrico, como o de Frank Stella e de seu antecessor Morris Louis, que sempre me tocaram.
Saber do falecimento de Frank Stella (4 de maio) foi um choque. Stella para mim foi um pintor mesmerizante. Entrar em seu mundo, pelo tamanho gigantesco de suas telas, muitas delas eventualmente em formas fora do comum, era entrar no País das Maravilhas. Era dar asas a sonhos felizes. Admirava a precisão matemática de sua pintura. Foi um grande visionário do que imaginava-se ser o futuro. Ainda que este futuro tenha sido um pouco diferente… Por muito tempo pensei em me dedicar no doutoramento ao trabalho deles. Mas história da arte é uma matéria conservadora. Já havia sido uma luta eu dedicar meus anos de pós-graduação e todos os outros em diante a René Magritte antes que o mínimo de 50 anos fossem passados (teoricamente só se sabe se alguém vai ter influência marcante depois de 50 anos de sua morte). Imaginem como seria querer trabalhar com alguém ainda vivo. E nos anos 80 a maioria destes artistas ainda estava viva. Então fica aqui o meu testemunho de que com Stella, acho que ele é o último a falecer, vai-se uma geração inteira de artistas que eram sérios em suas pesquisas para chegarem a obras “que qualquer um poderia fazer”.
Paul Auster (EUA, 1947-2024) Frank Stella (EUA, 1936-2024)
Outro falecimento nesta semana, (30 de abril) que muito me tocou foi o de Paul Auster, (EUA, 1947-2024) um dos escritores americanos que mais admirei, cujo último livro 4321 considero uma obra-prima da literatura americana contemporânea. Li duas vezes, primeiro em inglês, depois em português para poder selecionar algumas passagens para meus grupos de leitura. Auster era um escritor que mostrava camadas de significados, de referências em cada cena, detalhista, suas narrativas são verdadeiros tesouros trabalhando constantemente com o tema que lhe afligia: o acaso. Era um verdadeiro conhecedor da literatura americana e mundial, falava o francês fluentemente, eu mesma o vi falando francês, no programa da televisão francesa La Grande Librairie. Mas era sobretudo um escritor americano, da realidade americana de um fôlego raro de encontrarmos atualmente. Aos poucos a geração pós-guerra dá seu adeus. Que fiquem conosco suas obras notáveis em cada uma das artes em que estes dois homens brilhantes trabalharam. Fica aqui o meu minuto de silêncio em respeito ao que ambos conseguiram e nos deram.