“Há dias iluminados por pequenas coisas, pequeninos nadas que nos tornam incrivelmente felizes; uma tarde a comprar antiguidades, um brinquedo antigo que encontramos no ferro-velho, uma mão que agarra a nossa mão, um telefonema de que não estávamos à espera, uma palavra doce, o filho que nos abraça sem pedir outra coisa senão um momento de amor. Há dias iluminados por pequenos instantes de graça, um cheiro que nos enche a alma de alegria, um raio de sol que entra pela janela , o barulho de uma chuvada quando ainda estamos na cama, ou a chegada da Primavera e dos seus primeiros rebentos.”
Marc Levy, O primeiro dia, tradução de Jorge Bastos
“A literatura existe em sua totalidade não quando a obra é escrita, mas quando um leitor se volta às frases e palavras escritas para se tornar, por este meio, co criador da obra.”
Em 1934, depois de ler uma história de Ernest Hemingway na revista Cosmopolitan intitulada One Trip Across, mais tarde publicado no livro To have and to have not — publicado em português e traduzido por Luiz Peazê comoTer e Não ter — o jovem Arnold Samuelson, recém formado jornalista americano, viajou mais de três mil quilômetros para se encontrar com o autor do conto que tanto lhe impressionara.
Não foi um encontro fácil para o jovem viajante. Mas valeu-lhe a espera de dois dias até ser recebido na varanda de Hemingway para um bate-papo. Samuelson depois de conversar com o escritor por algum tempo, explicando de sua dificuldade em realizar o sonho de escrever ficção, Hemingway finalmente o aconselhou a evitar os escritores contemporâneos. Ele deveria, no entanto. competir, com os que já haviam morrido e se mirar nas obras que tivessem sobrevivido ao teste do tempo. Ou seja, às obras que ainda eram significativas. E finalmente Samuelson saiu da visita em Key West, com a lista cuja fotografia vemos aqui. Para facilitar a leitura, aqui estão os livros recomendados por Hemingway.
Stephen Crane
The Blue Hotel [não achei tradução no Brasil]
The Open Boat [não achei tradução no Brasil]
Gustave Flaubert
Madame Bovary
James Joyce
Dubliners — Dublinenses (português)
Stendhal
The Red and the Black — O vermelho e o negro (português)
Somerset Maugham
Of Human Bondage — Servidão humana(português)
Tolstói
Anna Karenina — Anna Karenina (português)
War and Peace — Guerra e Paz (português)
Thomas Mann
Buddenbrooks — Os Buddenbrook (português)
George Moore – G. E. Moore
Hail and Farewell[não achei tradução no Brasil]
Dostoiévski
Tolstói
Anna Karenina — Anna Karenina (português)
War and Peace — Guerra e Paz (português)
Thomas Mann
Buddenbrooks — Os Buddenbrook (português)
George Moore – G. E. Moore
Hail and Farewell[não achei tradução no Brasil]
Dostoiévski
Brothers Karamazov — Os irmãos Karamazov (português)
Diversos poetas
The Oxford Book of English Verse
E. E. Cummings*
The Enormous Room — A cela enorme (português)
* Interessante que E.E.Cummings é muito mais conhecido com poeta, e Hemingway o escolhe por sua prosa.
Emily Brontë*
Wuthering Heights — O morro dos ventos uivantes (português)
* ùnica mulher. Mas afinal a lista é de Hemingway… era de se esperar…
W. H. Hudson
Far Away and Long Ago [não achei tradução no Brasil]
Henry James
The American — [não achei tradução no Brasil]
E você, quais desses você já leu? Concorda com Hemingway?
Ontem foi dia de encontro memorável: nós quatro, escritoras cariocas, que nem sempre moramos no Rio de Janeiro, nos encontramos para um excelente bate-papo, muito esperado e inspirador que durou um pouco mais de quatro horas. Que venham mais.
Missal de Etiènne de Longwy, 1490. Foto, cortesia da Folger Shakespeare Library.
Depois de quatro anos de obras de expansão ao custo de oitenta milhões de dólares, a Biblioteca Shakespeariana Folger na cidade de Washington DC abre novo espaço para exposições de livros raros, com a exposição de uma coleção particular de livros e manuscritos raros.
De humani corporis fabrica, 1543 de Andreas Vesalius. Foto, cortesia da Folger Shakespeare Library.
A nova sala de exposições mostra na abertura, cinquenta e duas obras da coleção de particular de Stuart e Mimi Rose, que celebra a eterna procura pelo conhecimento da humanidade. A exposição leva o nome de Marcas do Tempo [Imprints in Time]. A exposição estará aberta até o dia 5 de Janeiro de 2025. Se você pretende passar alguns dias nos EUA, e gosta de livros, essa exposição é para não perder.
Americanum no. 1, 1494 de Cristóvão Colombo. Foto, cortesia da Folger Shakespeare Library.
O Senhor dos Anéis, [The Lord of the Rings], J.R.R. Tolkien,1954–55. Foto, cortesia da Folger Shakespeare Library.
É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção. Tana Moreano presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio. Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia. Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h. Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora. Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.
Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa. Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados. Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela. Sabemos que está correndo perigo. Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto. Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.
Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense. Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial. Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado. Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver. Não há como não torcer por Cora.
Tana Moreano
Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência. Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta. Aprende com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito. Ela se familiariza com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais. Cora é uma heroína exemplar.
Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira, exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos. E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora. Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.
Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E não é gratuita. Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.