Soneto XXVII de Tite de Lemos

29 04 2025

Na rotunda

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

 

 

XXVII

 

Tite de Lemos

 

Nem tomes por virtude o que é defeito,

floreios de poetas amestrados,

nem tenhas por humano o que é perfeito,

coisa de heróis e deuses aplicados.

 

Deve ser que não levo muito jeito

ou quando pense certo faça errado

e ande torto julgando andar direito,

sujeito cego atrás do objeto amado.

 

Persigo a brevidade de um instante

que toda eternidade contivesse:

nisso me acho e nisso estou perdido

 

com desvelo tão quieto e tão constante

que vivê-lo, mais nada, me envaidece

e até nem cuido ser correspondido.

 

 

Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63





Resenha: O colibri, de Sandro Veronesi

14 04 2025

Moça lendo, 1876

Attilio Baccani (Itália, 1844-1889)

óleo sobre madeira, 53 x 42 cm

 

 

Acabo de ler O colibri do escritor italiano Sandro Veronesi, tradução de Karina Jannini [Editora Autêntica Contemporânea: 2024] obra que recebeu o Prêmio Strega (Itália), em 2020. O autor já havia recebido o Strega em 2006 pelo livro Caos calmo  publicado no Brasil em 2007. Trata-se da história de vida de Marco Carrera: seus sucessos, atribulações, amigos, amores, filha, neta, uma narrativa que cobre o período de vida adulta do protagonista. Costumo gostar de ficção que se metamorfoseia em biografia de um personagem fictício, gente comum. Duas obras que considero excelentes nesse gênero são: Os diários de pedra, da escritora canadense  Carol Shields, que recebeu os prêmios Pulitzer e National Book Critics Circle, 1995 e As aventuras de um coração humano, do escritor britânico  William Boyd. Dois livros que me emocionaram quando seus protagonistas chegaram ao final da vida.  Essas narrativas demonstram algo que o próprio Sandro Veronesi diz desejar retratar: “o heroísmo da vida comum”.   O propósito é que o leitor consiga se ver ali, como pessoa comum, como  sua própria vida também é repleta de aventuras, obstáculos que parecem intransponíveis, requerendo decisões hercúleas.  Demonstrar como a vida não é linear, mas tecida de vai vens, de erros e acertos.  Veronesi consegue transmitir isso, consegue mostrar como a vida de Marco Carrera também é heroica.  No entanto, por mais que eu simpatizasse com seus enfoques, problemas, empecilhos e me surpreendesse com as reviravoltas daquela vida, esse médico oftalmologista, não me emocionou nem durante, nem ao fim de sua jornada. Vamos então ao que me foi problemático. Tudo se resume a uma questão de estilo.

A maior restrição que tive a essa obra, e não é a única, foi o exagero de informação transmitida ao leitor.  A verbosidade de Veronesi [rara de encontrar na literatura atual] faz a prosa pesada, tediosa. Um bom editor teria aconselhado o escritor a cortar vários excessos. Vejamos: um email entre irmãos sobre os móveis herdados dos pais, mostra um interminável rol de poltronas e sofás que jamais terão importância no texto.

 

 

2 sofás dois lugares Le Bambole, metal, couro cinza, poliuretano, Mario Bellini para B&B, 1972 (20.000 €) 4 poltronas Amanta,* fibra de vidro e couro preto, Mario Bellini para B&B, 1966 (4.400 €) 1 poltrona Zelda, madeira tingida em tom jacarandá e couro em cor natural, Sergio Asti, Sergio Favre para Poltronova, 1962 (2.200 €) 1 poltrona Soriana, aço e couro anilina marrom, Tobia e Afra Scarpa para Cassina, 1970 (4.000 €) 1 poltrona Sacco,* poliestireno e couro marrom, Gatti, Paolini e Teodoro para Zanotta, 1969 (450 €) 1 poltrona Woodline, madeira curvada a quente e couro preto, Marco Zanuso para Arflex, 1965 (1.000 €) 1 mesinha de café Amanta, fibra de vidro preta, Mario Bellini para B&B, 1966 (450 €) 1 mesinha baixa 748, teca marrom, Ico Parisi para Cassina, 1961 (1.100 €) 1 mesinha baixa Demetrio 70, plástico laranja, Vico Magistretti para Artemide, 1966 (150 €) 1 mesa La Rotonda, cerejeira natural e cristal, Mario Bellini para Cassina, 1976 (4.000 €) 1 estante modular Dodona 300, plástico preto, Ernesto Gismondi para Artemide, 1970 (4.500 €) 2 estantes modulares Sergesto, plástico branco, Sergio Mazza para Artemide, 1973 (1.500 €)

 

 

Informação que não leva a lugar nenhum.  Não leva a NADA! É prosa auto condescendente, discurso empolado, que se repete adiante na lista de livros de ficção científica também da mesma herança.  Teria o objetivo de encantar o leitor com a raridade dos livros encontrados?  Se foi essa a intenção, não funcionou. Seria o caso de o autor precisar mostrar conhecimento nesse campo, para quê?  E para quem? Ocorre, então, a ideia do intelectual demonstrando pesquisa sobre uma era. Necessidade de mostrar conhecimento.  Mas o romance não é uma tese de mestrado ou documento de pós graduação. Para quem ele está exibindo esse conhecimento?

 

 

 

 

 

Outro aspecto da verbosidade é o detalhismo com que descreve locais.  Concordo que a Itália tem alguns dos mais deliciosos e sedutores espaços, praças, recantos de todo mundo; mas a proposta dessas descrições não parece ser só a caracterização do carinho que Marco Carrera tem pelos locais por onde perambula.

 

 

De fato, um dos lugares mais bonitos do mundo, isto é, o chamado Granarone2 do Palazzo Caffarelli (bonito não pelas intrínsecas qualidades arquitetônicas, que não tem, mas por sua posição, que domina todo o lado sudoeste da colina do Campidoglio até o rio Tibre, ou seja, a área em que se encontram as ruínas dos templos de Jano, de Juno Sóspita, da Esperança, de Apolo Sosiano, de Santo Homobono e do Pórtico Republicano no Fórum Holitório, além da basílica de São Nicolau em Cárcere e da Rocha Tarpeia em sua totalidade e de três quartos do Teatro de Marcelo; na Idade das Trevas, tornara-se pasto para cabras, e por isso foi rebatizada de “Monte Caprino”; no final do século XVI, foi requalificada pela construção, justamente em seu ponto mais alto, do Palazzo Caffarelli no Campidoglio, por parte da antiga e homônima família da nobreza municipal romana; em meados do século XIX, foi adquirida, com palácio e tudo, pelos prussianos, e por eles enriquecida com outros edifícios mais simples, entre os quais o mencionado Granarone, para onde foi transferido o Instituto Germânico de Arqueologia; depois, em 1918, após a derrota do Império Prussiano, inteiramente readquirida pela municipalidade de Roma), além de servir como sede da Advocacia Capitolina, naqueles anos abrigava o departamento da Casa Comunal,onde os atos judiciários são conservados e notificados aos interessados. Em outras palavras, as pessoas que eram objeto de alguma queixa, denúncia ou de ações judiciárias tinham de retirá-las ali, no Granarone.

 

 

Essas observações todas nos são dadas ainda nas primeiras cinquenta páginas do livro.  É um problema que quase pede uma leitura dinâmica.  Mas não é só.  A narrativa se torna tão conturbada quanto a vida de Marco, pela forma não linear da exposição.  Saltitamos do passado recente ao presente ao passado longínquo. E todos os possíveis meios de comunicação são utilizados, de e-mails a mensagens nos celulares e depoimentos. É um leque imenso que se abre de diferentes estilos de prosa. De novo, fica a sensação do autor querer demonstrar suas habilidades.  O que não deveria ser necessário, não é marinheiro de primeira viagem. Já é altamente reconhecido. 

 

 

 

 

Sandro Veronesi consegue,  ao final,  seu objetivo: reconhecermos que a vida de uma pessoa comum, pode ser heroica; e provavelmente é. A vida de qualquer um de nós pode ser essa vida heroica. Só a partir do meio do livro, a leitura parece mais amigável.  Os olhos correm com maior facilidade sobre o texto.  Mas no final, antes de fechar o livro, voltei a ter essa sensação de que o autor precisava demonstrar o subtexto da obra, as origens do que o levara a escrever, no capítulo chamado Dívidas: um capítulo inteiro de notas e explicações, de onde veio essa ideia, que conto o autor leu que o inspirou para qual capítulo e o máximo da auto condescendência, quando cita a si mesmo!  Como é mesmo que ele faz? Vejam:

 

 

No capítulo “Urania”, a escrita a lápis no frontispício do romance de ficção científica é algo verdadeiro, referente a mim mesmo, e foi adaptado para a obra. Na realidade, foi meu pai, enquanto eu nascia não me lembro mais em qual hospital, em Florença, que escreveu estas palavras no frontispício do romance da coleção Urania que estava lendo…

 

 

Não gostei.  Estou surpresa que tenha recebido o maior prêmio de literatura da Itália. Das cinco estrelas, máximo de pontos que dou aos livros neste blog, dei duas.  Conheço leitores que deram quatro estrelas e alguns que gostariam de ter subtraído uma ou duas estrelas abaixo de zero.  Esse não é um livro para um leitor iniciante. Estou surpresa de ver tantas resenhas enaltecendo O colibri. Não recomendo.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: Nas pegadas da alemoa, de Ilko Minev

28 03 2025
Autoria não determinada.

 

 

 

Minha amiga Regina Porto do blog Livro Errante indicou Nas pegadas da alemoa, de Ilko Minev [Buzz Editora: 2021] para leitura.  Marcamos de conversar sobre o livro no último dia do mês, mas já vou colocar aqui minhas impressões.  Foi uma ótima surpresa. Gostei da leitura principalmente porque aprendi muito sobre o norte do Brasil, sobre a Amazônia, sobre o Amapá.  É uma região do Brasil que não conheço, mas que atrai o olhar do mundo todo, que está nas manchetes há anos e que nós brasileiros aqui do sudeste em geral não conhecemos bem.

Eu classificaria essa obra como aventura, com informações históricas, tratadas com objetividade jornalística,  detalhando riquezas e perigos no meio ambiente, tudo isso com um leve toque de romance para suavizar a narrativa e não considerá-la exclusivamente texto instrutivo. O autor não escreveu esse romance para competir com Dostoiévski ou Gabriel Garcia Marquez.  Sua intenção é informar e divertir.  E consegue.  Dois de seus livros já se tornaram best-sellers no Brasil. Este, que ficou cinco semanas consecutivas na lista dos mais vendidos no país em 2022, e Na sombra do mundo perdido, que ainda não li, entre os mais vendidos em 2018.  Ilko Minev tem uma história pessoal interessante que o deixa ao mesmo tempo narrar como observador de fora e mostrar a vida amazônica no seu âmago.  Naturalizado brasileiro, nasceu na Bulgária, de onde emigrou, graças às restrições políticas do governo comunista na época.  Eventualmente veio para o Brasil, depois de uma parada na Bélgica.  Formado em economia, era para ter ficado por seis meses trabalhando no setor eletrônico, em 1972, mas foi ficando.  E ficou, para nossa alegria, orgulho e enriquecimento. Tornou-se um empreendedor de sucesso no Amazonas, fazendo parte da comunidade judaica de Manaus.  Quando se aposentou, dedicou-se a escrever histórias da Amazônia. 

 

 

 

 

 

 

O livro começa contando algo surpreendente: a Alemanha, antes da Segunda Guerra Mundial havia mandado uma expedição para exploração do território brasileiro, no Amapá.  Vieram com muito material.  Estavam ciumentos da França, da Inglaterra e da Holanda terem aqueles territórios ricos das guianas (que ainda não eram países independentes) e queriam explorar o Amapá para terem também sua “guiana”… Eu nunca tinha ouvido falar disso e fiquei surpresa.

“… em 1935, ainda antes da Segunda Guerra Mundial, realmente houve uma bem organizada e bastante sofisticada expedição alemã, munida de hidroavião e de outros recursos avançados para a época, que, com a ajuda do governo Vargas, passou um ano e sete meses conhecendo e mapeando aquela remota e completamente desconhecida região na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Pelo que pesquisei, os alemães colheram amostras, catalogaram boa parte da flora e da fauna e estabeleceram contato com as tribos indígenas antes mesmo de o Brasil marcar presença naquelas bandas.”

Ilko Minev

Assim como esse fato histórico é apresentado, detalhes da vida cotidiana no norte do país são apresentados com riqueza suficiente para deixar curiosidade e gosto de quero mais. Não só detalhes históricos do passado, descrições de pequenas cidades na Amazônia ou testemunhos do trabalho das ONGs ou até mesmo políticas do governo francês em relação à Guiana, mas também descrições das cachoeiras e plantas da região seduzem o leitor. Mas esse é o relato de uma aventura que deixa o leitor torcendo pelo sucesso da excursão planejada para procurar uma pessoa, conhecida como Alemoa, fruto de um casamento da época do expedição alemã ao Amapá. Mas sabendo de todo o planejamento que foi feito, torcemos com mais gosto ainda para um final feliz

Gostei muito do livro e recomendo a todos que queiram fazer um giro pelo norte do Brasil de hoje. A linguagem é clara, narrativa direta, um tantinho de romance para ligar a trama do início ao fim e muito, muito conhecimento generosamente oferecido.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Manhãs de Coimbra

15 03 2025
Coimbra vista do Mondego.

 

 

Ontem a cerração na praia de Copacabana estava densa.  Pouco depois das seis da manhã, não se podia ver nem os sinais de trânsito no meio das pistas quase desertas de carros. Difícil atravessar o asfalto para chegar à calçada junto à areia. Não é muito comum esse tipo de neblina espessa adentrando o calçadão.  Muitas vezes vemos névoa deitada em alto-mar, embaçando o horizonte. Não fica por muito tempo. Logo o sol tropical parece expulsar toda umidade dessas nuvens baixinhas. Mas cobrindo parte da areia, antes do quebra-mar, é incomum. Minha caminhada foi acompanhada pelo som dos longos apitos de embarcações invisíveis, escondidas pelo ruço da manhã, ao saírem da baía de Guanabara em direção sul.  Justamente próximo ao Forte de Copacabana, onde começo minha caminhada diária, os navios aumentavam a frequência e a duração dos apitos.  Esse melancólico som que, para os que moram próximo à praia, é familiar, pareceu mais solitário. Ouvir tão perto o lamento de  naves fantasmas deu ao início da manhã um ar nostálgico.  E os atletas, que se exercitavam na areia ao sol nascer, tornaram-se seres ilusórios, fantasmas de si mesmos a menos de dez metros de distância.  Já não se sabia quem eram. Tudo parecia irreal nessa manhã.

Sou parcial a neblinas. Gosto dessas cortinas de nuvens que insistem em nos rodear em alguns lugares.  Hoje, quando voltei para casa lembrei-me de Coimbra, e dos dois anos em que lá morei. Uma das memórias encantadoras que tenho da cidade são suas manhãs nebulosas. Morávamos próximo à Praça da República, numa ladeira que desembocava na rua Almeida Garrett.  O que não é ladeira nessa cidade? Não fosse pelas casas à frente de nossa janela, de onde, empoleirados no lado mais alto da subida, víamos as telhas vermelhas de seus telhados e mais adiante os telhados de outras construções, talvez tivéssemos podido observar, ainda que de longe, a série de edifícios de dois e três andares que perfilam, unidos uns aos outros, em sentinela, um dos lados da praça.  Como se estivéssemos numa plataforma, numa vigia de viúva, essa peça arquitetônica das casas à beira-mar no nordeste dos Estados Unidos, podíamos ver à nossa frente um vasto horizonte, um mar de telhados, algumas copas de árvores em descida íngreme e ao fundo, elevando-se solitária, a colina central da cidade, em cujo topo, parcialmente descobertas, como se tímidas fossem, reinavam as construções centenárias dos prédios da universidade e a torre do relógio.

No entanto, essa vista esplendorosa de nossa janela só podia ser apreciada, na maioria dos dias do ano, depois das dez da manhã.  Porque antes disso, densa neblina se acomodava à noite,  aninhada por entre os altos e baixos da cidade, entrando pelos jardins, tomando as bordas urbanas, fazendo moradia nos ermos da cidade.  Não podíamos ver nada além de uma barreira branca acinzentada, algodão doce gigantesco, que insistia em se dissipar lentamente, sugado aos poucos pelos raios de sol matinais. Por causa dessa névoa espessa, cobertor orvalhado, que penetrava cada esquina, beco, ruela pitoresca, tínhamos a impressão de que os primeiros sons da manhã também se sobressaíam, assim como no meu passeio na praia de Copacabana ouvi, com mais atenção, o lamento dos apitos dos navios em alto mar.  Em Coimbra, na nossa rua, percebíamos da janela do quarto, com a cidade ainda em silêncio às oito horas da manhã, os passos de pedestres ressoando alto no asfalto; pareciam passar por dentro de nossa habitação. Os numerosos gatos de rua, miavam com mais sofrer, esperando pelo sol.  Queriam voltar a esquentar-se encarapitados nos lugares mais altos dos telhados. Alimentados por moradores atenciosos, esses bichanos quase selvagens, ocupavam também a esquina à nossa frente, passando horas e horas no calorzinho aconchegante das telhas de barro.  A vida em Coimbra, para nós, que vínhamos de cidade grande, era mais indolente, com inúmeros momentos a serem degustados lentamente. Sempre tive para mim, que a névoa da manhã ritmava o dia e deixava que acordássemos vagarosamente, para depois também juntarmos o som dos nossos passos no caminho, aos dos demais habitantes: nosso destino, no entanto, era um café na praça e a leitura do jornal matutino. Esses anos em que moramos lá, ainda têm para mim um quê de mágicos e as manhãs enevoadas vestem de encantamento nostálgico essa estadia.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, março de 2025





Minutos de sabedoria: Beatriz Bracher

12 03 2025

O enterro de Siegfried

William Brown Macdougall (Escócia, 1868-1936)

do livro The fall of the Nibelungs, de Margaret Armour, Londres, 1897.

 

 

“Morrer é intransitivo, incompartilhável, sujeito singular, nunca composto. Mesmo as mortes coletivas, holocausto, câmara de gás, chacinas, são mortes individuais. Quem morre, morre só.”

 

Beatriz Bracher

 

Beatriz Bracher (1961)





Conto popular versus conto de autor

10 03 2025

 Big Sky Country

Chad Gowey (EUA, 1987)

 

No conto popular não importa o nome nem o local ou o tempo, cada personagem é uma peça para a história funcionar. Por isso ela pode ser recontada eternamente que permanecerá sempre a mesma história. “A moura torta”, “Chapeuzinho Vermelho”, cultura popular. Num conto de autor ou num romance é diferente, são as palavras, exatamente aquelas palavras, que constroem aquela história para sempre única, os personagens crescem, têm nomes, a ação tem idade, finca-se em um tempo. É obra de um homem e não de um povo.

 

 

Em: Antônio, Beatriz Bracher, Editora 34: 2010





Resenha: O jovem, de Annie Ernaux

13 02 2025

Le quai des brumes

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre  tela

 

 

Fazer resenha de alguns parágrafos sobre o livro O jovem de Annie Ernaux, com tradução de Marília Garcia [Fósforo: 2022] é mostrar que apesar de poucas páginas — um conto? — há pelo menos algo de mais sólido a ser observado sobre essa leitura.  Estou aos poucos cobrindo a obra de Annie Ernaux, volume por volume.  Não porque ela tenha sido recipiente do Nobel de Literatura 2022.  Não tenho o hábito de ler toda a obra de quem ganha o Nobel.  Mas sua prosa é de grande sensibilidade e a forma de autobiografia ficcionalizada,– sempre considero que qualquer biografia é ficção –, tem me atraído nos últimos tempos, também pela interação de história com memória. 

A linha narrativa deste minúsculo volume é simples: uma mulher de uma certa idade, tem um parceiro amoroso muito mais jovem do que ela.  O rapaz tem idade para ser seu filho.  Nas últimas décadas esse parece ser um acontecimento mais comum, menos escondido.  Vemos na mídia, com alguma frequência, senhoras envolvidas amorosamente com rapazes jovens.  Tinha impressão de que essa desigualdade de idades, com o perfil desse casal, fosse corriqueiro na França, mas, pelo visto, na época de Annie Ernaux, esse não era o caso.

 

 

O que me surpreendeu nessa história  foi perceber que a mulher, pelo menos nesse caso, acaba com atitudes e posicionamentos que vemos na descrição de homens mais velhos que mantêm relacionamentos com mulheres que, pela idade, poderiam ser suas filhas.  Não sei porque, eu achava que seria diferente: estava errada.  Nesse conto, a mulher (Annie) se sente superior ao rapaz e fada madrinha, dando ao jovem acompanhante oportunidade de viagens por diferentes cidades europeias, estadias e refeições em lugares luxuosos, ao mesmo tempo observando para si mesma e muitas vezes de maneira crítica,, gestos e maneirismos que lhe desagradam.  Ao mesmo tempo, sua exposição à penúria da vida do estudante, e aos métodos que ele usa para combater a falta de dinheiro, trazem para a narradora memórias de sua própria juventude.  Mas não há afeto.  É um estranho passeio sem emoção pela juventude da própria autora.

 

Annie Ernaux

A conclusão sobre o comportamento da mulher nessa memória fica a cargo do leitor.  Apesar de ser uma parte independente das outras obras de Annie Ernaux dessa volumosa autobiografia, acho um gesto de marketing fazer essa publicação em separado.  Talvez traga o benefício de apresentar a autora a um publico maior, que não queira investir tempo na leitura.  Mas suas outras obras, publicadas pela mesma editora podem muito bem preencher essas demandas, pois são livros de rápida leitura e poucas páginas. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Soneto, João Xavier de Matos

10 02 2025

Operários, 1933
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Óleo sobre tela, 150 x 205 cm
Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo

 

 

Soneto

 

João Xavier de Matos

 

Pobre ou rico, vassalo ou soberano,

Iguais são todos, todos são parentes;

Todos nasceram ramos descendentes

Do trono antigo do primeiro humano.

 

Saiba, quem de seus títulos ufano

Toma por qualidade os acidentes,

Que duas gerações há só dif’rentes

Virtude e vício: tudo mais é engano.

 

Por mais que afete a vã genealogia

Introduzir nas veias a natureza

De melhor sangue, do que Adão teria:

 

Não fará desmentindo a natureza

Que seja sem virtude a fidalguia

Mais que um triste fantasma da grandeza.

 

(1789)

 

João Xavier de Matos (Portugal, c. 1730-1789)





Resenha: Eu vou, tu vais, ele vai, de Jenny Erpenbeck

6 02 2025

Serenidade

Sherree Valentine Daines (Inglaterra, 1959)

óleo sobre placa

 

 

Quando o meu grupo de leitura Papalivros decidiu que o final do ano seria dedicado à leitura de Eu vou, Tu vais, Ele vai, da autora alemã Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli [Cia das Letras: 2024] confesso ter tido algum receio. Talvez fosse mais um livro dos tantos que apareceram nos últimos anos com agenda política ostensiva, uma das heranças mais limitantes que recebemos do filósofo francês Sartre, amplamente abraçada por militantes de minorias mundo afora, defendendo que a literatura só tem valor se politicamente comprometida.

Mas que bela surpresa tive: o livro é um escrupuloso relato das dificuldades dos países europeus em aceitarem responsabilidade sobre refugiados de guerra e imigrantes. E da tribulação por que esses refugiados, sem terra, sem emprego, sem conhecimento linguístico passam sem obter resultados positivos para a retomada de uma vida proveitosa.  Aos poucos nos envolvemos com cada um dos personagens pelos olhos de um professor de literatura clássica, que ao se aposentar e por acaso, passa a se interessar por um grupo de homens, a maioria do norte da África, que pede asilo político em Berlim.  Sua adaptação à nova vida sem as obrigações da universidade é lenta. Confronta o final de carreira e a aproximação do final de vida.  A esposa já faleceu, e a morte parece presente, bem próxima mesmo, desde que um homem se afoga no lago próximo à sua casa. Este contraponto é finamente entrelaçado na narrativa que se torna ainda mais rica quando através da perspectiva do professor vemos paralelos entre os refugiados e antigos heróis gregos da Ilíada.

 

 

 

A riqueza das  referências aos clássicos da literatura ocidental, dos gregos aos romanos, Homero, Ovídio,  tecidas junto a referências contemporâneas como “O tempo que passa: ensaio sobre a espera” de  Andrea Köhler ou lendas medievais, como O romance de Tristão e Isolda, toda elas parte do fluxo de consciência contínuo de Richard, o professor que  seguimos em seu novo papel de aposentado e interessado na vida além paredes universitárias, é a cereja do bolo dessa leitura. Entre os bônus dessas associações de ideias estão também os cognomes que ele dá aos asilados para melhor caracterizá-los para si mesmo e para o leitor.  Richard identifica história, personalidade e saga de cada um e os liga a personagens clássicos. Mesmo que o leitor não esteja familiarizado com essas referências, a leitura corre suave, mas se você as conhece, o prazer dos sorrisos de reconhecimento é enorme.

No entanto, o cerne das questões abordadas está no dilema dos países europeus e da Alemanha em especial, em aceitar e introduzir os novos habitantes na cultura do país.  A burocracia impera.  Não só porque são muitos os que procuram asilo fugindo das mais variadas guerras, revoltas, perseguições nos países do continente africano, mas também porque os sistemas europeus, repletos de armadilhas burocráticas herdadas, quer da Alemanha ocidental como da oriental, têm longas raízes na própria história do pensamento europeu.  Richard, está em boa posição para entender e se revoltar simultaneamente com a lenta resolução.  E compara como lhe apetece a experiência antes da unificação da Alemanha em 1990 e a vida que levou depois, observando também, como seus colegas,  já aposentados, reagem ao problema aos que procuram asilo. Paralelamente somos apresentados a Rashid, [Nigéria], Awad [Gana}, Osaboro [Niger e Líbia], Khalil [Chad], e outros doze homens, conhecendo suas histórias, desejos, esperanças e passado. Com eles aprendemos sobre a dificuldade de adaptação.  Falam línguas que ninguém entende quer na Alemanha, na Itália, de onde muitos vieram,  ou na Europa. Não conhecem o alemão. Vêm à procura de algum trabalho qua não existe.  Têm experiências desnecessárias para o país que os abriga.  E passam dias, semanas, meses, anos à espera.  À espera de permissão para ficar, para trabalhar.  Esperam serem vistos e respeitados, mesmo que fazendo trabalhos meniais.  Querem trabalhar e não podem. Presumem poder se adaptar, imaginam um futuro melhor, calculam maneiras de ajudar as famílias deixadas para trás, suspeitam que pode não dar certo, consideram um dia voltar às suas origens, desconfiam, com toda razão, dos europeus e especulam silenciosamente o propósito de suas vidas.

 

Jenny Erpenbeck

A meio termo da leitura, depois de conhecer através de Richard cada um dos homens procurando asilo, um após outro, numa corrente infinita de sofrimentos, fugas, guerras, lutas desesperadas pelo sobrevivência duvidei de minha capacidade de chegar ao fim desse volume. Em geral não me emociono muito na leitura, mas temi que qualquer conclusão a que se chegasse no fim desse volume, seria extremamente penosa. Mas a escrita de Jenny Erpenbeck é muito leve, justa, equilibrada. Avancei meticulosamente. E não me arrependi, Eu vou, tu vais, ele vai, – um título significativo para essa obra — traz tênue esperança de um mundo melhor. E isso foi o que bastava para que que eu o considerasse uma excelente e importante leitura. Passadas quatro semanas, posso afirmar, é um livro importante nas considerações que traz à tona, ilibadas. Ele nos faz pensar sobre o problema dos asilados. Não só na Europa. O mundo está cheio deles que fogem dos regimes mais desumanos. É um problema de todos nós, inclusive nosso, aqui no país, que abrigamos tantas famílias vindas da Venezuela. Essa leitura pode nos sensibilizar ainda mais para sua saga.

Recomendo; tornou-se um de meus livros favoritos dos últimos tempos. Sem restrições.

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Prêmio Leitura com Chocolate: Melhor de poesias do ano 2024!

2 01 2025

O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024.  Muitíssimo obrigada!