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Capela Imperial do Amparo, Diamantina, 1954
Emeric Marcier (Romênia, 1916- França, 1990)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
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Capela Imperial do Amparo, Diamantina, 1954
Emeric Marcier (Romênia, 1916- França, 1990)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
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Sandra Nunes (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Retrato de homem com vista de Sint-Michielsabdij, na Antuérpia, 1520
Albrecht Dürer (Alemanha, 1471-1528)
Ponta de prata sobre papel, 13 x 19 cm
Musée Condé, Chantilly
No dia 3 de agosto de 1520 chegava à Antuérpia Albrecht Dürer, acompanhado de sua esposa e de uma empregada. Ele viajava para confirmar com Carlos V a pensão que lhe havia sido dada. A essa altura Dürer já era muito conhecido na Europa em grande parte por causa das extraordinárias xilogravuras que produzira.
Hoje, preparando notas para uma futura aula, tive o prazer de recordar algumas passagens do diário que o pintor manteve enquanto viajava, que não só nos deixa entrever a vida no início do século XVI na Antuérpia, assim como o respeito com que o pintor era tratado por diversos dignitários nas cidades por onde passou.
Não sei se o diário de Albrecht Dürer já foi traduzido para o português. Uma breve pesquisa na internet me deu a impressão de que não foi. Vou traduzir para vocês do inglês uma passagem para que tenhamos a visão de um pouquinho do gosto da época
“Domingo, era dia de Santo Osvaldo, os pintores me convidaram para o salão da sua guilda, a mim e à minha esposa e empregada. Todo o serviço era de prata e havia outros ornamentos suntuosos e carnes preciosas. Todas as esposas também estavam lá. E à medida que fui levado à mesa todos os convidados ficaram em pé em ambos os lados da mesa como se eu fosse um grande senhor. E entre eles havia homens de grande estatura social, que se comportaram com muito respeito e grande cortesia para comigo, e prometeram fazer todo o possível em seu poder me satisfazer. E enquanto eu lá estava sentado com toda essa honra, o Síndico [Adrian Horebouts] de Antuérpia, veio com dois serventes e me presentearam com quatro recipientes de vinho em nome dos conselheiros da cidade de Antuérpia, e pediram para que ele dissesse que eles queriam dessa forma mostrar o respeito que tinham por mim e assegurar sua boa vontade. Pelo qual eu lhes retornei o meu agradecimento, modestamente oferecendo os meus serviços. Depois disso veio Mestre Peter [Frans], o marceneiro da cidade e me presenteou com dois recipientes de vinho e com a oferta de seus serviços. Então, depois de termos nos divertido por muito tempo até tarde, eles nos acompanharam até a casa com lanternas, com muita honra. E me rogaram para que eu estivesse sempre confiante da boa vontade deles, e prometeram que qualquer coisa que eu quisesse fazer, eles estariam prontos para ajudar. Então eu lhes agradeci e fui dormir.”
Travel Diary, Dürer, em W.M. Conway, Literary Remains of Albrecht Dürer (Cambridge; University Press, 1889): text slightly revised by J.B.R.
Encontrado em The Portable Renaissance Reader, editado por James Bruce Ross e Mary Martin McLaughlin, New York, The Viking Press: 1958, p. 227-28
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Paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, s.d.
Ivan Freitas (Brasil, 1932-2006)
óleo sobre eucatex, 88 x 55 cm
Foto da coluna Ancelmo Gois do jornal O GLOBO: Prato da Cia Vista Alegre.
Foi com muito pesar que vi hoje no jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, na coluna do jornalista Ancelmo Gois, a foto acima de um prato da prestigiada companhia portuguesa de porcelanas, Vista Alegre. Por seu desenho, o prato reforça atitudes que testemunhei, quando morei em Portugal, e que preferi deixar de lado ou ignorar, por achar que eram só as mentes pequenas que as abrigavam. Falo de atitudes que demonstram uma perene má vontade dos portugueses, principalmente dos mais abastados, com o Brasil e brasileiros. Esses sentimentos afloraram quando reconheci que na chamada “homenagem ao Rio de Janeiro” o desenho do prato fotografado, no tradicional azul e branco, mostra vinhetas com revolveres como se essas armas fossem uma característica carioca. Essas pequenas vinhetas preconceituosas me lembraram de outros pequenos incidentes, semelhantes, que testemunhei nos anos que morei em Coimbra. Fiquei, na época, pasma de sentir uma surda mas presente intolerância lusitana com o Brasil, uma espécie de desagravo que não entendo e não me parece conveniente a nenhum dos dois países.
O prato, como explicado no jornal, foi feito para comemorar o Rio de Janeiro, cidade fundada por portugueses que, quase 500 anos depois, retém características muito chegadas às das cidades de além-mar. O Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, é um dos locais no mundo que melhor demonstra a colonização portuguesa. Nossas similaridades são inesgotáveis desde localização de igrejinhas nos topos das montanhas, ao calçamento de pedrinhas portuguesas que desafiam a lógica e a praticidade. Da língua que falamos e com a qual nos comunicamos, ao bacalhau que comemos no Natal e na Páscoa. O Rio de Janeiro é, pode-se dizer, um tributo vivo à cultura portuguesa. Aqui estão as raízes de tudo que os portugueses semearam. Do bom e do que não presta.
Ao contrário da proximidade emocional, política e social que existe entre a Inglaterra e os Estados Unidos, e aqui posso falar com familiaridade sobre os dois países, Portugal parece evitar cumplicidade semelhante com o Brasil, uma cumplicidade que em geral existe entre membros da mesma família e amigos, aquela que acredita no respeito mútuo. O sentimento que existe entre britânicos e norte-americanos rende inimaginável que, digamos, a Royal Crown Derby, importante fábrica de porcelana inglesa, produza semelhante desenho em seus pratos comemorativos sobre Nova York, mesmo que legislação a sobre o uso de armas de fogo nos Estados Unidos seja completamente diferente daquela encontrada em solo inglês. É um descompasso, é revoltante que essa propaganda contra o Rio de Janeiro, contra o Brasil, esteja veiculada a uma das mais importantes marcas de porcelanas portuguesas (eu ia dizer do mundo, mas a minha revolta pede que eu diminua o tamanho da Vista Alegre, afinal a mentalidade da companhia parece pequena).
Convido brasileiros e portugueses esclarecidos que mostrem o seu desgosto com esse golpe baixo contra a imagem do Rio de Janeiro. Completamente desnecessário. E seria bom que os portugueses que demonstram preconceitos contra brasileiros, que se olhem no espelho, porque muito do ruim que acontece por cá teve origem, tem raízes e encontra alma gêmea em Portugal. Uma boa ideia seria não comprar a porcelana Vista Alegre. Afinal, há outras porcelanas no mundo tão boas quanto ou até melhores.