O futuro dos livros impressos: há esperanças!

7 05 2010

 

No início deste ano, a maioria dos jornais, tanto aqui no Brasil como lá fora, fez retrospectivas da 1ª década do século.  Houve muitos best-sellers em diversos campos de publicações para que se tenha uma boa perspectiva do mercado editorial aqui e no mundo.  Às vezes a aparição do livro eletrônico parece confundir um pouco o assunto.  O sucesso dos leitores eletrônicos [ A Amazon teve um sucesso enorme de vendas com o seu kindle no Natal passado] e  o lançamento dos livros eletrônicos da Google; o aumento de todos nós com a dependência da leitura de livros e documentos na rede] tudo parece estar contribuindo para uma grande mudança no mercado.  Essa previsão traz insegurança entre os editores.  É  natural que o  tradicional mundo editorial esteja cauteloso quanto ao futuro.  Mas tudo indica que a venda de livros — quer impressos ou eletrônicos —  ainda tenha um futuro brilhante.  No Brasil a venda de livros continua a crescer de ano para ano, mas há editoras que mostram relutância em se engajarem no mercado eletrônico.  É difícil dizer como o leitor brasileiro irá se comportar num mercado que ofereça tanto o livro em papel quanto o livro eletrônico.  No entanto acredito que o mercado editorial ande mais temeroso do que deveria estar e previsões de uma catástrofe editorial não parecem realistas.    

A crítica literária, ou os intelectuais, por  outro lado, esperneiam se comiserando quanto a qualidade do produto que é publicado, porque não vê crescimento no que considera “leitura de substância”.  Realmente para editoras poderem crescer e lucrar [afinal minguém abre uma editora para perder dinheiro, é um negócio como qualquer outro] elas terão que oferecer mais daquilo que o publico deseja.  Com esse assunto em mente, lembrei-me de um perfil sobre o sucesso das publicações na primeira década do século desenhado por Lee Ferguson, para a CBC News e fui de volta às minhas notas.  Coloco aqui o artigo publicado no final do ano passado, em 5/11/2009, pela  CBC News  do Canadá, intitulado Reading the signs: the biggest publishing phenomena of the decade, [Interpretando as pistas:  o maior fenômeno de publicação da década], para consideração das modas e do que fez sucesso nos últimos dez anos.  Vou traduzir esse artigo livremente, do inglês, para que todos nós possamos considerar os pontos mencionados, quando possível coloquei os títulos em português.

“Neste final de década com uma indústria editorial sofrida que tenta sobreviver à crise econômica, há um vigoroso debate sobre o futuro.  E tudo indica o final precoce da palavra impressa.  Mas, se olharmos para os livros e para as tendências editoriais que marcaram a primeira década do século, vemos uma realidade diferente.  Os leitores, por mais cansados que estivessem não chegaram a perder a fé nos livros. 

 

Conectando-se:

Um dos subprodutos da era digital é o excesso de informação.   Não obstante, um bom número de escritores decidiu navegar pelo pântano de idéias e trazer para a superfície algumas significativas conexões.   Thomas Friedman delineou as “pressões” que fazem o mercado global um campo de batalha igual para todos no seu O mundo é plano: uma breve história do século XXI (2005), enquanto Steven D. Leavitt e Stephen Dubner usaram teoria econômica para explicar tudo desde de uma gangue de drogas de Chicago até as taxas de abortos no Freaknomics (2005).  O ensaísta nova-iorquino Malcolm Gladwell pode até ser considerado o mestre deste curioso sub-gênero.  Conseguindo sucesso com Blink: a Decisão Num Piscar de Olhos (2005) e  Fora de série: outliers (2008) seu estilo popular levando em consideração símbolos accessíveis a todos desde A rua Sésamo aos calçados Hush Puppies, fez dele uma das modas que ele mesmo descreveu no livro O Ponto da Virada (2000).

 

O código Da Vinci:

Salman Rushdie o considerou “um livro tão ruim que dá aos livros ruins um nome ruim”.  Mais de 80 milhões de leitores discordam.  Publicado em 2003, a aventura com uma trama bastante intrincada sobre um professor de simbologia que tenta resolver um assassinato no Louvre, explorou tudo aquilo pelo que os leitores do mundo inteiro precisavam:  mistério, religião, locais exóticos e teorias de conspiração com o Santo Graal e Maria Madalena adicionados para ficar no ponto.   O código Da Vinci deu a todo mundo um tópico de conversa e se transformou no livro mais popular da década. 

 

 

Ilustração Walt Disney, Minie escolhe um livro.
 
 

O debate sobre Deus:

Deus esteve na frente  e no centro de diversos livros na década.  Um grupo de escritores ateus desacreditou de sua existência: O fim de fé de Sam Harris (2005), Deus não é grande: como a religião envenena tudo de Christopher Hitchens (2007) e  Deus, um delírio de Richard Dawkins (2006). (Este último gerou uma pequena indústria de repostas raivosas que incluíram títulos como O ateu iludido [De Douglas Wilson] e O dilema de Dawkins: iludido ou não [de Michael Austin – não traduzido no Brasil]).  Dois dos livros mais rigorosos e reflexivos da década sobre espiritualidade forma publicados graças a teóloga Karen Armstrong [ Em defesa de Deus – The case for God – não achei a tradução no Brasil] e Deus é, do autor premiado com o Prêmio Giller, David Adams Richards [sem tradução no Brasil].  Não há claros vencedores no debate religioso, só uma sensação muito forte de que todo mundo nos anos 2000 estava no meio de uma crise de fé.  Mesmo assim, as vendas na Bíblia subiram vertiginosamente. 

 

Fato ou ficção?

Como Joan Didion e Dave Eggers podem provar a primeira década do século foi uma ótima época para as lembranças.  Mas depois que o livro aprovado por Oprah [Winfrey] Um milhão de pedacinhos de James Frey mostrou ser uma coleção de eventos exagerados e emocionalmente explorados, a rainha vesperal da televisão o derrubou com estrondo pelo mundo inteiro.  A autobiografia se tornou subitamente suspeita, e autores de J T Leroy [Maldito coração, Sarah] a Herman Rosenblat {não encontrei seus livros publicados no Brasil] foram chamados de falsos.   David Sedaris, [Pelado, Eu falar bonito um dia, De veludo cotelê e jeans: crônicas autobiográficas, Engolido pelas labaredas] uma das verdadeiras estrelas literárias da década, foi um dos poucos memorialistas a aparecer sem prejuízos, talvez porque tenha sempre tido o bom senso de admitir que mistura ficção com realidade.

 

Literatura de mulherzinha:

Na primeira década do século houve uma onda da mania Bridget Jones; uma meia dúzia de autoras criaram uma nova safra de personagens de sucesso, tais como Os delírios de consumo de Becky Bloom [Sophie Kinsella], Diários de Nanny [Emma McLaughlin and Nicola Kraus], O diabo veste Prada [Lauren Weisberger], o cânone de Candace Bushnell [ Janey Wilcox: Alpinista Social, a série de livros Sex and the City]: heroínas em grande parte neuróticas, com empregos agonizantes em Manhattan, sempre à procura de um Martini e de um bom par de sapatos.   Já que livros com capas cor de rosa provaram ser de grande sucesso econômico – o consumismo de Becky Bloom virou uma franquia – parece provável que as pernas torneadas da literatura de mulherzinha continuarão a ter sucesso na década começando em 2010. 

 

 

Ilustração de Jonathan Burton, inspirada num quadro de Seurat.

 

A nova vanguarda global:

 

Quando o romance pluri-cultural, passado num bairro ao norte de Londres de Zadie Smith, Dentes Brancos foi publicado, no ano 2000, ele abriu uma das tendências mais interessantes da década: a ficção global.  A cacofonia de diversas vozes se seguiu com: a tragédia de Khaled Hosseini retratada em O caçador de pipas;  a ode de Monica Ali [Um lugar chamado Brick Lane] aos imigrantes de  Bangladesh, de 2003;  e O Tigre Branco, de Aravind Adiga, sobre a Índia desconhecida, que lhe deu o Man Booker em 2008.  Nesse ínterim o autor de origem libanesa nascido em Montreal Rawi Hage nos seduziu com o De Niro’s Game (2006) e Cockroach (2008), [seu único título no Brasil, sai este ano, Exílio, agora em maio] provando que a excelência literária não pertence só ao grupo de homens caucasianos de meia idade. 

 

Tudo virou verde:

 

Ele não foi eleito president, mas Al Gore mesmo assim deixou sua marca quando em 2006 lançou o livro (acompanhado do filme) Uma verdade inconveniente.  Seu livro foi um de muitos sobre os efeitos do aquecimento global, na década que viu títulos tais como Hell and High Water [não traduzido para o português, o título do autor Joseph Romm encontrado nas nossas bandas é Empresas Eco-eficientes] e Field Notes from a Catastrophe  [ da autora Elizabeth Kolbert, cujo único livro em português que encontrei foi Planeta Terra em Perigo, que não sei se é o mesmo — os títulos são muito diferentes].  Mas talvez a voz mais pungente no assunto tenha sido a de Tim Flannery, o cientista australiano cujo livro Os Senhores do Tempo – O Impacto do Homem nas Alterações Climáticas e no Futuro do Planeta (2006) baixou nas livrarias com a força de uma tsunami. Com sua escrita clara e urgente e pesquisa meticulosa, o sucesso de vendas de Flannery convenceu os leitores de que a hora da mudança era agora.

  

Os narradores diferentes:

 

Uma menina assassinada que se comunica do além (Uma vida interrompida, de Alice Sebold); um menino autista participante de um inexplicável mistério ( O estranho caso do cachorro morto de Mark Haddon); um hermafrodita preso entre gêneros ( o livro de Jeffrey Eugenedes, Middlesex) – esses foram alguns dos personagens que nos fascinaram com suas histórias excêntricas na década passada.   E, ao longo do tempo, os protagonistas deixaram de ser estranhos para serem verdadeiros trapaceiros.  O quase sinistro monólogo do paquistanês em  O fundamentalista relutante, de Mohsin Hamid e o sobrevivente de naufrágio que passou sete meses num barco com um tigre de Bengala de 200 quilos, no livro A vida de Pi, de Yann Martel forçaram os leitores a questionarem suas próprias percepções dos acontecimentos da década, quando histórias da carochinha e narradores pilantras apareceram em grande número.

 

Ilustração, Maurício de Sousa.

 

Alimento para o cérebro:

Graças a Eric Schlosser com seu alarmante País Fast Food (2001), muitos de nós começamos a década conscientes de que nunca mais olharíamos para um nugget de frango do MacDonald’s da mesma maneira.   Um imenso bufê de livros sobre comida foi então produzido com escritores alardeando de tudo, desde a dieta ecologicamente correta, à vida orgânica, aos méritos da gordura.    Precisamos da tentadora prosa do jornalista Michael Pollan para nos sentirmos felizes de novo com uma refeição.  Pleiteando ingredientes verdadeiros e uma refeição simples ao invés de substâncias que parecem comida, em ambos os livros Em defesa da comida: um manifesto e The Omnivore’s Dilemma: A Natural History of Four Meals [não traduzido para o português] Pollan nos ajudou a fazer sentido de novo da nossa comida.

 

 

Harry Potter/ Crepúsculo:

Se alguns livros de ficção pareciam obrigatórios para todos, um outro gênero pareceu até mesmo ainda mais sedutor sobre os leitores: a fantasia.   A medida que pequenos Trouxas lutaram para ter em suas mãos o último volume da série do Harry Potter, J. K. Rowling se tornou a primeira escritora bilionária do mundo.  Assim que a mania de Harry Potter parecia estar diminuindo, os românticos sugadores de sangue de Stephanie Meyer da série Crepúsculo deram às meninas adolescentes e às editoras à procura de lucros alguma coisa do que falar. “

 

***





Imagem de leitura — Carl Larsson

6 05 2010

Senhora lendo jornal, 1886

Carl Larsson ( Suécia, 1853-1919)

Aquarela

Carl Larsson nasceu em  Estocolmo, em 28 de maio de 1853, numa família muito pobre.  Seu talento artístico só se desenvolveu aos  treze anos quando  entrou para a Principskolan, um departamento temporário da Academia de Arte.  Lá ele achou difícil se adaptar, sentindo-se  em inferioridade social.  Aos dezesseis anos, foi transferido para  um departamento menor da Academia de Arte, onde aos pouco tornou-se mais confiante, e passou a participar ativamente do grupo estudantil.

Formando-se, dedicou-se à  ilustração de livros, revistas e jornais diários.  Passou anos em Paris sem conseguir muito sucesso até 1882 quando conhecer um artistas escandinavos fora de Paris.  Lá conheceu sua esposa, casando-se em 1883.  Abandonou a pintura a óleo em favor da aquarela  pintando então seus mais importantes trabalhos.  Sua esposa e filhos tornaram-se seus principais modelos. Larsson ficou famoso por aquarelas retratando a vida em família. As coleções Ett Hem (Uma Casa) de 1899, (26 aquarelas);  Larssons (Os Larssons), 1902 com (32 aquarelas)  e o grupo  Åt solsidan (O Lado Ensolarado) de 31 aquarelas foram livros que, ilustrando  a vida simples do campo, tiveram uma enorme influência no design de interior sueco para as gerações seguintes.  Morreu em 1919.





A mãe, poesia para crianças de Luísa Ducla Soares

5 05 2010

 

Mãe e filho, s/d

Arsen Kurbanov  (Makhachkala, Daghestan, Rússia, 1969)

óleo sobre tela

50cm x 42 cm

  —

 

A Mãe

                                                                             Luísa Ducla Soares

A mãe 

é uma árvore 

e eu uma flor. 

A mãe 

tem olhos altos como estrelas. 

Os seus cabelos brilham 

como o sol. 

A mãe 

faz coisas mágicas: 

transforma farinha e ovos 

em bolos, 

linhas em camisolas, 

trabalho em dinheiro. 

A mãe 

tem mais força que o vento: 

carrega sacos e sacos 

do supermercado 

e ainda me carrega a mim. 

A mãe 

quando canta 

tem um pássaro na garganta. 

A mãe 

conhece o bem e o mal. 

Diz que é bem partir pinhões 

e partir copos é mal. 

Eu acho tudo igual. 

A mãe 

sabe para onde vão 

todos os autocarros, 

descobre as histórias que contam 

as letras dos livros. 

A mãe 

tem na barriga um ninho. 

É lá que guarda 

o meu irmãozinho. 

A mãe 

podia ser só minha. 

Mas tenho de a emprestar 

a tanta gente… 

A mãe 

à noite descasca batatas. 

Eu desenho caras nelas 

e a cara mais linda 

é da minha mãe.

Em: Poemas da Mentira e da Verdade, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2005

 

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 1939) escritora, tradutora, consultora literária e jornalista.  Mais recentemente sua produção  é dedicada ao público infanto-juvenil.  Formada em Filologia Germânica.

Obras:

Contrato (Poesia), 1970

A História da Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1972 ; 1977

Maria Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

O Dr. Lauro e o Dinossauro, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1988

Urso e a Formiga, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Soldado João, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Ratinho Marinheiro (Poesia para a infância), 1973 ; 2001

O Gato e o Rato, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

Oito Histórias Infantis, prosa (Infanto-juvenil), 1975

O Meio Galo e Outras Histórias, prosa (Infanto-juvenil), 1976 ; 2001

AEIOU, História das Cinco Vogais, (prosa) (Infanto-juvenil), 1980 ; 1999

O Rapaz Magro, a Rapariga Gorda, prosa (Infanto-juvenil), 1980 ; 1984

Histórias de Bichos, prosa (Infanto-juvenil), 1981

O Menino e a Nuvem, prosa (Infanto-juvenil), 1981

Três Histórias do Futuro, prosa (Infanto-juvenil), 1982

O Dragão, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 2002

O Rapaz do Nariz Comprido, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 1984

O Sultão Solimão e o Criado Maldonado (Poesia para a infância), 1982

Poemas da Mentira… e da Verdade (Poesia para a infância), 1983 ; 1999

O Homem das Barbas, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Senhor Forte, prosa (Infanto-juvenil), 1984

A Princesa da Chuva, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Homem alto, a Mulher baixinha, prosa (Infanto-juvenil), 1984

De Que São Feitos os Sonhos: A Antologia Diferente, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 1994

O Senhor Pouca Sorte, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Boa, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Branca, o Rapaz Preto, prosa (Infanto-juvenil), 1985

6 Histórias de Encantar, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 2003

A Vassoura Mágica, prosa (Infanto-juvenil), 1986 ; 2001

O Fantasma, prosa (Infanto-juvenil), 1987

A Menina Verde, prosa (Infanto-juvenil), 1987

Versos de Animais (Antologia de Literatura Tradicional), 1988

Destrava Línguas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

Crime no Expresso do Tempo, prosa (Infanto-juvenil), 1988 ; 1999

Lenga-Lengas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

O Disco Voador, prosa (Infanto-juvenil), 1989 ; 1990

Adivinha, Adivinha: 150 adivinhas populares (Antologia de Literatura Tradicional), 1991 ; 2001

É Preciso Crescer, ( infanto- juvenil (1992

A Nau Catrineta, prosa (Infanto-juvenil), 1992

À Roda dos Livros: Literatura Infantil e Juvenil (Divulgação), 1993

Diário de Sofia & Cia aos Quinze Anos(Infanto-juvenil), 1994 ; 2001

Os Ovos Misteriosos, prosa (Infanto-juvenil), 1994 ; 2002

O Rapaz e o Robô, prosa (Infanto-juvenil), 1995 ; 2002

S. O. S.: Animais em Perigo!…, prosa (Infanto-juvenil), 1996

O Casamento da Gata, poesia (Infanto-juvenil), 1997 ; 2001

Vamos descobrir as bibliotecas (Divulgação), 1998

Vou Ali e Já Volto, prosa (Infanto-juvenil), 1999

Arca de Noé, poesia (Infanto-juvenil), 1999

A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca (Poesia para a infância), 1999 ; 2000

ABC, poesia (Infanto-juvenil), 1999 ; 2001

25 (Poesia para a infância), 1999

Seis Contos de Eça de Queirós (Contos), 2000 ; 2002

Com Eça de Queirós nos Olivais no ano 2000 (Divulgação), 2000

Com Eça de Queirós à roda do Chiado (Divulgação), 2000

Mãe, Querida Mãe! Como é a Tua?, prosa (Infanto-juvenil), 2000 ; 2003

Lisboa de José Rodrigues Miguéis (Divulgação), 2001

Roteiro de José Rodrigues Miguéis: do Castelo ao Camões (Divulgação), 2001

A flauta, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Uns óculos para a Rita, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Todos no Sofá, poesia (Infanto-juvenil), 2001

1, 2, 3, poesia (Infanto-juvenil), 2001 ; 2003

Alhos e Bugalhos (Divulgação), 2001

Meu bichinho, meu amor, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Cores, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Gente Gira, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Tudo ao Contrário!, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Viagens de Gulliver, adaptação livre (Teatro para a infância), 2002

O Rapaz que vivia na Televisão, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Contrários, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Quem está aí?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Cavalo no Tempo, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Pai, Querido Pai! Como é o Teu?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Carochinha e o João Ratão, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Se os Bichos se vestissem como Gente, prosa (Infanto-juvenil), 2004

A festa de anos, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Contos para rir, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Abecedário maluco, poesia (Infanto-juvenil), 2004

Histórias de dedos, prosa (Infanto-juvenil), 2005

A Cidade dos Cães e outras histórias, prosa ( Infanto- juvenil ), 2005

Há sempre uma estrela no Natal, contos ( Infanto-juvenil ) Civilização,2006

Doutor Lauro e o dinossauro, prosa (Infanto-Juvenil), 2.ª ed, Livros Horizonte, 2007

Mais lengalengas (recolhas ),Livros Horizonte,2007

Desejos de Natal (Infanto-juvenil ), Civilização,2007

A fada palavrinha e o gigante das bibliotecas





A grande contribuição da internet …

5 05 2010

Pateta lendo, ilustração Walt Disney.

No sábado passado, dia 1º de maio, o jornal O Globo publicou no caderno Prosa e Verso  um pequeno artigo de Guilherme Freitas, intitulado O livro muda para continuar sendo o mesmo, em que o autor apresenta para o público o novo lançamento da Editora Record, Não contem com o fim dos livros, do jornalista francês Jean Philippe.  Este é um livro que reúne diálogos entre o escritor italiano Umberto Eco e o escritor francês Jean-Claude Carrière.    Entre outros assuntos mencionados no livro, Guilherme Freitas ressalta a posição de Jean-Claude Carrière quando este comenta sobre a memória coletiva:

Fascinado pelos critérios subjetivos que regem a transmissão dos saberes ao longo da História,  Carrière diz que o acesso maciço a informações possibilitado pela internet muda nossa relação com o conhecimento.

— O que vemos agora é uma nova forma de erudição.  Não se trata mais apenas de uma questão de saber, mas de ser capaz de discernir aquilo que devemos reter nessa grande massa de informação na qual vivemos.  Isso desperta inúmeras questões.  Cada indivíduo constrói seus próprios filtros?  Ou existem fatores sociais e coletivos que influem nisso?  É um tema fascinante.

Esse é um assunto que me é particularmente caro, principalmente depois que voltei a estabelecer residência no Brasil.  Peço permissão para passar um pouquinho da  minha história pessoal.

 Tio Patinhas foi à biblioteca, ilustração Walt Disney.

Nos primeiros meses que tive contato com uma universidade americana, uma das coisas que mais me surpreendeu, muito antes da internet existir, foi a facilidade de acesso à informação que cada aluno tinha em solo americano.  Não só alunos, mas todos.  Tanto as universidades particulares (conheci de perto a Universidade Johns Hopkins) quanto as do governo (estudei na Universidade de Maryland, governo estadual), — e mais tarde pude verificar o mesmo em outras universidades que entraram para o meu dia a dia, tais como Universidade Duke (privada), North Carolina State University e University of North Carolina at Chapel  Hill (as duas do governo estadual) tinham excelentes bibliotecas abertas ao público em geral,  quer universitários ou não.  Qualquer pessoa podia consultar seus acervos.  Era só uma questão de estar interessado o suficiente para fazê-lo.   Essa democratização do conhecimento na época estava bastante distante da realidade brasileira, assim como ainda está.  Mas foi um aspecto importantíssimo para que eu viesse a entender a sociedade americana de uma maneira diferente do mero visitante, diferente da pessoa que vai fazer um pequeno curso de especialização.  Porque só esse convívio diário com “os templos do saber”  em cidades e estados diferentes conseguem dar a idéia de quão abrangente o acesso ao conhecimento pode ser. 

Parece então muito natural que o maior ímpeto para a democratização do conhecimento, para a democratização de textos, do saber – digamos assim – tenha vindo através de ferramentas eletrônicas – internet, Google, livros digitais e muito mais – criadas por indivíduos estabelecidos  nos Estado Unidos, americanos ou não.

Numa das primeiras visitas minhas ao Brasil depois de estar estudando nos EUA,  marquei um encontro com antigos professores e colegas de turma das duas faculdades que cursei —  uma no Rio de Janeiro e outra em Niterói.  Fiquei  desapontada, na época, com o preconceito que demonstraram ao me dizerem que o ensino nos EUA não poderia se comparar ao europeu.  Na época não quis rebater.  Achei que talvez se tratasse de um pouco de ciúmes, de um pouco de desconhecimento.  Mas, confesso, não voltei a procurá-los.  Hoje, entendo melhor, porque vejo claramente que ainda temos muitas raízes no preconceito que estipula que “conhecimento é para uns poucos iluminados”.  Este preconceito fertilizado e cuidado é perpetuado por uma sociedade que se divide em classes sociais rígidas e em que uma delas se encontra os “intelectuais”—estes que por suas próprias cornetas alardeiam a importância de seus conhecimentos, de suas habilidades de discernimento.  

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Ilustração francesa, autor desconhecido.

A memória cultural, a memória coletiva de um povo, só pode identificá-lo, quando o acesso ao conhecimento vai além da propriedade de uns poucos para ser generalizado.  Alguns dirão que o processo democrático não deveria influenciar o que “realmente vale a pena reter” porque as massas não saberão entender o que lhes será de maior valia.  Mas nunca foi assim.  Como  Carrière mesmo reflete no diálogo acima, a retenção do saber sempre passou por critérios completamente subjetivos.  Se olharmos a história da transmissão de pensamentos e idéias, das barreiras impostas por traduções ou falta delas do grego ou do árabe sabemos que mais frequentemente do que gostamos de imaginar, o conhecimento de alguma nova equação, de algum conhecimento científico, dependeu lá atrás, há muitos e muitos séculos, da habilidade de algum monge de traduzir um texto do grego, do orgulho de algum rei ou califa de construir uma biblioteca repleta de preciosos manuscritos de outros povos, por vezes povos conquistados, para abrilhantar o seu reino ou o seu ego.  E muito do que foi passado de geração em geração, principalmente nas culturas orais – como é o caso da nossa —  dependeu, mais do que se admite da memória singular de uma avó, de uma tia, de um antepassado que cantava o seu conhecimento.

Graças à internet e à democratização de tudo que se conhece e do que se pensa ou pensou, não viveremos mais sob a ditadura do conceito de que o acesso a qualquer informação é só para os iniciados.  Graças à internet e ao fácil acesso a informação conseguiremos mudar a cara do Brasil, saber quem realmente somos e decidir sobre aquilo que devemos reter nessa grande massa de informação na qual vivemos.





Cantiga de ninar, poema de Décio Valente

3 05 2010

Ilustração de um quadro de Donald Zolan.

Cantiga de ninar

Décio Valente

Cai a chuva no telhado,

chuva boa, criadeira;

cai e corre, corre e pinga,

pinga e bate a noite inteira.

Bate, bate, pingo-d’água,

vai batendo pelo chão,

tique, taque, tique, taque,

como faz o coração.

Bate, chuva, de mansinho,

nos caixilhos da janela;

vai ninando esta criança,

pedacinho meu e dela…

Bate, chuva, vai batendo,

bate, bate, sem parar;

quero ouvir, a noite toda,

o teu canto de ninar.

Em: Cantigas simples, Décio Valente, São Paulo: 1971.

 

Décio Valente, nasceu em Capivari, SP.

Obras:

Anedotas e contos humorísticos, 1955

Cenas humorísticas, 1955

Cantigas simples, 1963

Seleta filosófica, 1964

Pensamentos e reflexões, 1966

Vida e obra de Euclides da Cunha, 1966

Coisas que acontecem…, 1969

Do medíocre ao ridículo, s/d

Ramalhete de trovas, 1977

O plágio, 1986





Filhotes fofos: elefantinho

2 05 2010

Foto: AP

Um elefante, com quatro dias de vida, passeia com sua mãe em Whipsnade, Inglaterra. O filhote, ainda sem nome, nasceu com 124 kg





Quadrinha infantil para o Dia das Mães!

1 05 2010

 

Ilustração, Maud Tousey Fangel.

Mãe – não há outro nome

Mais doce, meigo e gentil;

No entanto posso escrevê-lo

Só com três letras e um til.





Será que a maneira como se pensa hoje está mudando por causa da internet?

30 04 2010

Mark lendo, sd

Ann Womack ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 75 x 100 cm

Coleção Particular

www.annwomack.com

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Será que a maneira como se pensa hoje está mudando por causa da internet?  Este parece ser o grande debate do momento.  Um debate que vem crescendo, engordando, e  como a proverbial bola de neve movendo-se cada vez mais rápida ladeira abaixo,  repercutindo entre educadores, intelectuais  daqui  e de fora.  Esse assunto faz marolas entre os que escrevem, e entre os que pensam o mundo. 

O artigo de Julho/Agosto de 2008, de  Nicholas Carr na The Atlantic Magazine, Is Google making us stupid?  [ Será que o Google está nos fazendo idiotas?] me levou a uma breve pesquisa (na rede) sobre o assunto e acabei com mais perguntas ainda do que respostas.  De meu interesse,  é o que venho observando assiduamente: a falta de paciência com textos extensos.  Falta de paciência minha e de outros, de amigos e de pessoas que lêem constantemente; pessoas que liam e que hoje se dedicam cada vez mais às telas dos computadores. 

Esclareço desde já que não sou contra a internet, que desde 1980, nos tempos do primeiro computador pessoal e portátil – o Osborne – tenho computador em casa e que não saberia hoje viver sem um.  De modo que estas idéias não foram arrebanhadas para fazerem parte de um movimento contra a internet, até porque seria uma coisa absolutamente inútil. 

Mas como tenho interesse na educação, sabendo que cada vez  há mais para aprendermos antes de podermos dar a nossa contribuição para o nosso tempo, para o mundo, questiono como e quanto o uso da internet pode influenciar o modo como pensamos.

Hoje, li o artigo A educação muda o cérebro do neurocientista Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na revista eletrônica Ciência Hoje, e descobri entre outras coisas que realmente o nosso cérebro não é mais pensado como aquele órgão estático, rígido, formado enquanto somos embriões.  Mas que, ao contrário, já sabemos que podemos recriá-lo, moldá-lo de acordo com a nossa educação, de acordo com o uso que fazemos dele.  “Mudar as pessoas, lembra Roberto Lent, é mudar o seu cérebro”. Ora, a maneira como usamos os computadores hoje, por horas sem fim, pulando de assunto a assunto, certamente deve, de acordo com esses estudos mais recentes, deixar sua marca no nosso cérebro.  Afinal ele é mutante, dinâmico e responde aos estímulos exteriores.

Concordo com Nicholas Carr quando ele considera que talvez leiamos mais hoje do que nas décadas de 1980-1990, quando a internet era primária e ainda vivíamos grudados na televisão.  No entanto, a maneira como lemos hoje, de acordo com algumas pesquisas feitas, que levaram em conta os hábitos de pesquisas on-line, parece levar à conclusão de que estamos constantemente dando uma vista d’olhos no que vemos na internet, e que o que consideramos mais interessante, dedicamos só um pouco mais de tempo, um pouco mais de atenção, mas, em geral,  não chegamos a ler o artigo, a postagem na sua totalidade, parando por volta da segunda página.

O hábito de pouco texto, além de ser mais imediatista como a própria internet,  é também uma função desenvolvida pelos sites de notícias, que trouxeram da imprensa escrita, dos jornais, a maneira de fazer pequenos parágrafos para que qualquer editor pudesse cortar um artigo ao bel prazer, e comensurar o texto na paginação com os devidos anúncios – que são o que mantem as publicações vivas — nos locais apropriados.

Este hábito foi passado para a internet e perdura.  Se formos ver a maioria dos sites de notícias, mesmo aqueles exclusivamente eletrônicos a “economia de texto” é perceptível.  É comum vermos,  por exemplo, cada frase ser um parágrafo inteiro.  Outra frase,  a seguinte, mesmo que ainda no mesmo assunto, que em outras circunstâncias seria a continuação do mesmo parágrafo, aparece então como independente, merecendo um outro parágrafo  inteiro.  Assim, cada pensamento parece ser independente, ter seu próprio nível de igualdade com os outros mencionados anteriormente sem nenhuma subordinação e a cada nível somos dissimuladamente convidados a parar.  A cada nível temos permissão para nos desengajar, para sair por aí afora à procura de uma outra trivialidade, de uma outra idéia.

Será que com isso estaríamos mesmo  reformulando a nossa maneira de ler, de ver  e de pensar?  Estaríamos re-organizando os nossos cérebros para simplesmente patinarmos na superfície das palavras? 

Esta é só uma das questões que me afligem no momento.  Mas há outras e voltarei para falar delas.





Quadrinha infantil para o dia do Trabalho

29 04 2010

 

Toda criança aplicada

Procura sempre estudar;

O estudo é uma das formas

Mais nobres de trabalhar.

 

(Walter Nieble de Freitas)





Imagem de leitura — Eugênio Zampighi

29 04 2010

Lendo as notícias, s/d

Eugênio Zampighi ( Itália 1859-1944)

óleo sobre tela

Eugênio Zampighi nasceu em Modena na Itália em 1859 e mostrou ter talento para as belas artes desde cedo.  Entrou para a escola de arte local aos treze anos de idade e depois, mais tarde foi estudar em Roma.  Ao completar sua educação mudou-se para Florença onde estabeleceu residência, e onde prosperou principalmente através de encomendas de patronos abastados.  Especializou-se em cenas domésticas, em geral de gente da terra, o dia a dia dos peões italianos, e nunca pareceu querer fazê-los mais bonitos do que a realidade.  Nesse aspecto Zampighi, que seguia o espírito de sua época ao documentar cenas diárias com crianças, pais e avós, diverge das normas dos pintores franceses, ingleses e americanos do final do século XIX e primeira metade do séc. XX, entre eles, Bouguereau, Norman Rockewell e outros,  por não idealizar a beleza.   Era como se conseguisse celebrar a beleza das pessoas comuns e até mesmo feias.  Faleceu em 1944, em Maranello na Itália.