Para fazer um soneto — de Carlos Pena Filho

30 09 2011

A carta, s/d

Frans Wesselman (Holanda, contemporâneo)

gravura em metal e xilogravura, 30 x 30cm

Para fazer um soneto

Carlos Pena Filho

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,

E espere pelo instante ocasional.

Nesse curto intervalo Deus prepara

e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:

se você preferir a cor local,

não use mais que o sol de sua cara

e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza

das lembranças da infância , e não se apresse,

antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece

dentro da escuridão a vã certeza,

ponha tudo de lado e então comece.

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição.

Carlos Pena Filho  nasceu no Recife, em 1929.  Formado em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, foi poeta, letrista, jornalista, ensaísta para o Jornal do Comércio. Morreu num acidente automobilístico em 1960.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1955

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral (obra reunida), 1959

Melhores poemas (póstuma) seleção de Edilberto Coutinho, 1983





A noiva do tigre, de Téa Obreht, o folclore europeu em nova roupagem

29 09 2011

O tigre na floresta, 1891

Henri Rousseau, le Douanier ( França,1844-1910)

óleo sobre tela, 162 x 130 cm

The National Gallery, Londres.

Assim como milhões de pessoas hoje, cresci com as imagens dos contos de fadas dos desenhos animados de Walt Disney.  São encantadores apesar de estarem longe das histórias ouvidas e recontadas por nossos antepassados, reunidas no século XIX por Andersen ou pelos Irmãos Grimm.  Mesmo depois de ter o desenho animado Bambi rejeitado por educadores atuais, sob a alegação de triste demais para as crianças de hoje, podemos dizer que Walt Disney foi o precursor dos contos de fadas limpinhos, engraçadinhos, passados pela assepsia americana, histórias com maldades limitadas, sem crueldade, diluídas dos terrores de antanho, que a turma do politicamente correto, hoje, entende como o preferencial para a proteção emocional de nossas crianças.  É importante, no entanto, lembrar que a maioria dos contos de fadas tem raízes no folclore europeu, em crenças seculares, ainda vivas nas imaginações das pequenas aldeias, tecidas com os preconceitos culturais de séculos.   Essas antigas histórias refletem a cultura de povos que lutaram pela sobrevivência nos mesmos lugares, nas mesmas regiões geográficas, rejeitando bravamente invasores de outros grupos, outras tribos.  A repetição dessas histórias folclóricas,  até hoje é comum e muitas vezes o pouco que resta de uma identidade cultural, que luta para sobreviver.  São justamente essas lendas que adicionam grande encantamento à narrativa de A noiva do tigre, de Téa Obreht [Leya: 2011].

Esse romance parece um produto criado pela necessidade de honrar uma herança cultural rica,  de não deixar morrer a memória de um povo.  Passado na antiga Iugoslávia – que tinha aproximadamente a área total do estado do Piauí e hoje está subdividida em 6 países [Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Macedônia, Sérvia e Montenegro e um protetorado da ONU Kosovo] – parece natural que o choque das guerras, o medo do extermínio, da perda da memória coletiva, esteja presente nos sobreviventes.  Mas o que surpreende nessa narrativa é a habilidade da autora de não situar o romance em nenhum lugar específico além dos Bálcãs, [ela nasceu em Belgrado, hoje parte da Sérvia]; não especificar a época [exceto que foi depois das guerras] e fazer a transição de uma possível narrativa realista para uma narrativa onírica sem emendas.  Um feito extraordinário.

No romance acompanhamos uma pequena viagem feita por Natália, uma médica, que tendo perdido o avô recentemente, aproveita a missão de inoculação de crianças de uma aldeia distante, para recolher os objetos de uso pessoal de seu avô que morreu longe de casa, num lugarejo de fácil acesso à cidade costeira onde a vacinação ocorre.  Nesse ínterim, ela relembra o avô, as histórias que ele contava.  E ficamos a par de alguns mitos e crendices que ainda estão presentes nos dias de hoje, relativos aos rituais de enterro e salvação das almas dos mortos.

Um fato curioso a respeito do texto é a linha de emenda entre o real e o folclore, entre as lendas e o que se passa no mundo moderno: um produto literário, O livro da Jângal de Rudyard Kipling.  Para os que, como eu, tiveram seus anos de juventude envolvidos com escotismo, a figura de Shere Khan, o tigre malvado e bandido das histórias contadas pelo escritor inglês, serve de imediato ponto de conexão entre o real e o imaginário.  A presença dessa obra literária em todos os capítulos do livro nos lembra da importância que uma história, que um conto, pode ter para o seu leitor e por fim, como a memória cultural é enriquecida por aqueles livros ou histórias que nos tocam, e que passam a fazer parte de quem somos.

Téa Obreht

A noiva do tigre foi o romance vencedor do prestigiado Orange Prize para ficção por autora mulher, este ano.  No Brasil, teve uma tradução fluente de Santiago Nazarian, mas teve também algumas falhas de edição que fazem o leitor ter reler para entender.  Cito aqui um único exemplo, mas existem outros. “Voltando de Zdrevkov, parei em Kolac para pegar as balas das crianças, segurando a caixa da loja de conveniência do posto de gasolina quando ia fechá-la.” [sic](página 191, abertura do capítulo 8).   Para os amantes de um romance da ficção fantástica esse é um excelente livro.  Para os que gostam de uma forte voz narrativa também.  Há poucos diálogos, e como nas histórias baseadas na memória oral, há alguma repetição.  Mas o encantamento prevalece.





Quadrinha infantil da galinha

29 09 2011

Ilustração.  Desconheço a autoria.

Logo que bota o seu ovo,

A galinha que é a tal,

Para fazer propaganda

Arma um barulho infernal!

(Walter NIeble de Freitas)





Imagem de leitura — Anna Ancher

28 09 2011

Interior com senhora lendo e papoulas, [ Sra. Lizzy Hohlenberg], 1905

Anna Ancher ( Dinamarca, 1859-1935)

óleo sobre tela, 56 x 65 cm

Museu Skagens, Alemanha

Anna Kirstine Brøndum Ancher nasceu em Skagen, 1859. Estudou pintura em Copenhagem, indo mais tarde para Paris onde aprimorou sua técnica no ateliê de Pierre Puvis de Chavannes.  Em 1880 se casou com o pintor Michael Ancher.  Continuou a pintar depois de casada, pintava sobretudo cenas intimistas de mulheres e crianças nas quais se destaca a riqueza de cores vivas.  Faleceu em 1935.





Pegadas dos mais antigos humanos nas Américas?

28 09 2011
Pato Donald encontra tesouros em expedição do Tio Patinhas, ilustração Walt Disney.

Pegadas humanas feitas entre 4.500 a cerca de 23.000 anos atrás foram as primeiras dessa antiguidade encontradas na região da Serra Tarahumara , no estado de Chihuahua, de acordo com especialistas do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) do México.   Hoje essa região é habitada pela etnia indígena do mesmo nome.

Para os estudiosos, estes rastros podem pertencer aos primeiros homens que povoaram a região, que são considerados por alguns como representantes dos mais antigos assentamentos humanos no continente americano.  Se a antiguidade delas for comprovada, essas pegadas farão companhia às outras poucas pegadas deixadas pelos primeiros habitantes do continente americano conhecidas até agora.   Segundo um comunicado publicado pelo instituto, este achado faz parte das “poucas impressões dos primeiros colonos do continente americano que foram conservadas no México“. Até hoje, pegadas de muita antiguidade,  foram encontradas só no município de Cuatro Cienegas, no estado de Coahuila, e também em um rancho no estado de Sonora.

 As pegadas no estado de Chihuahua foram feitas pelos pés de três adultos e de uma criança. “Somente um par de marcas correspondem aos pés de uma mesma pessoa, que tinha seis dedos em cada um, o que pode ter ocorrido devido a uma má formação“, acrescentou o instituto. A maior das pegadas tem 26 centímetros de comprimento  e foi feita por um homem adulto, enquanto que a menor delas mede 17 centímetros e foi feita pelo pé direito de uma criança de 3 a 4 anos de idade.  Acredita-se que estas pessoas tenham vivido em cavernas localizadas na região do Vale de Ahuatos, onde atualmente reside, em condições precárias, por causa da pobreza,  a população Tarahumara.

De acordo com o antropólogo José Jiménez, a descoberta foi possível a partir de um e-mail enviado por uma pessoa natural de Chihuahua sobre as marcas humanas. Os especialistas, no entanto, demoraram a encontrar os vestígios.  As pegadas foram encontradas num plano inclinado próximo a um córrego que só tem água durante a estação das chuvas.  Depois de examinarem a área ao redor do local, cobrindo aproximadamente 50 quilômetros, os cientistas encontraram vestígios de acampamentos primitivos, que apontam para a presença humana na região numa era tão remota quanto o Pleistoceno, ou seja 12.000 anos atrás.  Os antropólogos também encontraram cavernas próximas ao local com traços de presença humana. Três delas com algumas camadas de pinturas rupestres do períodos: pré-ceramica, pré-hispanico e colonial.

Fontes:  TerraLatino Foxnews





Quadrinha para o Dia do Professor, 15 de outubro

28 09 2011

Professora na sala de aula, ilustração Walt Disney.

Homem de Estado, cientista,

Padre, engenheiro, doutor…

Nenhum deles haveria,

Se não fosse o Professor.

(Walter Nieble de Freitas)

 





Os pássaros aprendem a construir seus ninhos!

27 09 2011

Ilustração de artesanato folclórico americano.

Através da filmagem de pássaros machos da espécie Ploceus velatus (o tecelão mascarado do sul) em Botswana, na África, cientistas britânicos conseguiram reverter uma teoria antiga sobre a habilidade de construir ninhos nos pássaros.   Os tecelões mascarados   são pássaros que constroem ninhos múltiplos usando folhas de grama, durante a época de reprodução.  Os pesquisadores das universidades de Edimburgo, Glasgow e St. Andrews, na Escócia constataram que o que se assumiu comumente até hoje, estava errado: os pássaros não nascem com a habilidade inata de construir ninhos.  Muito pelo contrário, eles aprendem a construí-los.

A escolha dessa espécie se justifica porque suas aves constroem vários ninhos complexos durante uma mesma temporada, o que por si é potencialmente um sinal de inteligência.   Mais importante ainda:  esses pássaros constroem muitos ninhos –  dezenas de vezes durante uma estação, permitindo que a equipe acompanhasse as diferenças em ninhos construídos pelo mesmo pássaro.

Depois de observarem os pássaros os cientistas descobriram que cada ave varia a técnica empregada na construção de um ninho.  Também perceberam que alguns pássaros fazem seus ninhos da esquerda para a direita, e outros da direita para a esquerda.  Além disso, à medida que os pássaros ganhavam experiência na construção dos ninhos, um número muito menor de folhas de grama era desperdiçada, caindo no chão.  Isso demonstrou que a arte de construir ninhos requer aprendizagem.

A equipe, formada por cientistas britânicos e cientistas de Botswana, acredita que suas descobertas possam ajudar a explicar como os pássaros abordam a construção de um ninho, além de ajudar a estabelecer a capacidade mental de aprender dos pássaros  e determinar se essas habilidades são desenvolvidas simplesmente através repetição.

Patrick Walsh, da Universidade de Edimburgo, lembrou: “Se as aves construíssem seus ninhos de acordo com um modelo genético, seria de se esperar que todos os pássaros construíssem seus ninhos da mesma maneira, a cada vez.  No entanto,  este não foi o caso.  Os pássaros apresentaram fortes variações em sua abordagem, mostrando o papel claro da experiência. Mesmo para as aves, a prática leva à perfeição. ”

Fontes: TerraScience Daily.





Reza, poema de Laura Esteves

27 09 2011

Costurando, s/d

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)

óleo sobre tela

Reza

Laura Esteves

Queria minha avó de volta,

ligeirinha, caminhando

pela antiga alameda.

As balas de limão e laranja

envoltas em papel de seda.

As rezas do ventre-virado,

Simpatias, mau-olhado:

Deus te fez,

Deus te criou,

Deus tire o mal

que em ti entrou.”

Galho de arruda murcho,

doente já sorrindo,

moeda na palma da mão.

Precisa não”.

É só uma ajuda”.

Lá ia o rico dinheiro

Para a fezinha do bicho.

“Sonhei com leque, vai dar pavão.

Grande falseta: leque de ar e cor,

Só podia mesmo ser borboleta”.

Minha avó, matreirinha,

arrumava um jeito de ser feliz.

Foi ela quem me ensinou sobre

alegria, astúcia e sorte.

Foi ela quem demonstrou:

Mulher é sempre mais forte.

Em: Poesia simplesmente, ed. Roberto Pontes, Rio de Janeiro, ed. autor: 1999.

Laura Esteves nasceu no Rio de Janeiro.  É escritora e poeta.  Faz parte do Grupo Poesia Simplesmente.





Quadrinha do silêncio

27 09 2011
Mônica e Magali no cinema, ilustração Maurício de Sousa.

Se Deus nos deu dois ouvidos

e um só meio de falar,

sejamos, pois, comedidos

mais no dizer que escutar.


(Amilton Monteiro)





Helene Hegemann, Max Ernst e o inconsciente coletivo

25 09 2011

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Domingo,colagem.

Em 1933, durante uma viagem de três semanas à Itália, o pintor Max Ernst (Alemanha, 1891-1976) produziu uma obra – um romance – a que deu o título de Une semaine de bonté,  [Uma semana de bondade].  Publicado no ano seguinte, em 1934, em Paris, impresso por George Duval e editado por Jeanne Bucher, Une semaine de bonté se transformaria em uma das mais populares obras de Max Ernst.  Esse romance difere do romance como conhecemos nos meios literários, já que não usa palavras, só imagens.  [O romance é dividido nos sete dias da semana e a cada dia (capítulo) há a introdução do dia com uma citação poética, por escrito]. Ao todo são 182 imagens que foram impressas originalmente em 5 pequenos volumes.  A curiosidade é que é um trabalho de colagem, de imagens que já haviam sido impressas em revistas e livros, na sua grande maioria em meados do século XIX, e que foram recortadas e retrabalhadas em novas e oníricas representações ao gosto desse artista dada-surrealista.

Esse não foi o primeiro romance figurativo de colagem publicado por Max Ernst.  Os anteriores, [Répetitions e Les malheurs des immortels] publicados em 1922, foram feitos em conjunto com o poeta Paul Éluard.    La femme 100 têtes, 1929, e Rêve d’une petite fille qui voulu entrer au Carmel, 1930, foram de sua autoria, única, mas nenhum deles atingiu o sucesso, quatro anos mais tarde, de Une semaine de bonté.  

Capa da edição de Une semainde de bonté, usada nesse artigo,  Nova York, Edição Dover, 1976.

– 

Nos livros anteriores, muitas das páginas, todas sem texto só composições visuais,  eram de recortes diversos rearrumados e colados, formando uma cena completamente diferente.  Mas em Une semaine de bonté, talvez porque estivesse viajando, Max Ernst usou como base das diversas ilustrações pranchas de gravuras já existentes, transformando-as em outro trabalho, ao adicionar partes recortadas  de outras ilustrações, de outros autores, de outras publicações, cortadas com precisão e portador de grande tenacidade, Max Ernst conseguia fazer de suas “novas obras” um conjunto de imagens contínuas, completamente diferentes das originais.   No linguajar de hoje, Ernst fazia intervenções.

Estudantes de história da arte e seus professores já passaram muito mais tempo do que se pode imaginar tentando reconhecer nas páginas do romance, as gravuras originais que serviram de base para a publicação.  O historiador da arte Werner Spies, foi um dos que conseguiu identificar três ilustrações de Une semaine de bonté como tendo sido retiradas do romance Les damnés de Paris,  de Jules Mary, publicado em 1883.  É possível que já haja outras identificações à medida que Max Ernst é mais estudado nos cursos de pós-graduação como um dos expoentes do movimento surrealista.  Sabe-se também que na viagem à Itália Max Ernst comprou em Milão um volume ilustrado de Gustave Doré, provavelmente Cour du dragon e que este foi possivelmente a fonte de muitos elementos fantasmagóricos encontrados em Une semaine de bonté.

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Terça-feira, colagem.

Nunca na história da arte e das artes plásticas se considerou a questão de plágio para as obras de Max Ernst.  Talvez porque a história da arte mostre que desde os primórdios a pintura se desenvolveu com pintores olhando e copiando imagens produzidas por outros pintores, com resultados tão semelhantes que era, e ainda é, por vezes, difícil separar o original da cópia.  Essa tradição se perpetuou por muitos séculos por diversos motivos: quando eram obras dedicadas à representação de motivos sacros (e, no ocidente, a Igreja Católica foi a grande fonte de renda de pintores e escultores através de muitos séculos) havia paralelamente um incentivo para que se copiasse cenas exatamente iguais, para que se mantivesse a iconografia rígida,  ajudando fiéis, quase todos analfabetos, a poderem reconhecer, de relance, as cenas das vidas dos santos representadas.   Mais tarde essa iconografia tornou-se bastante rígida, com regras bem codificadas, o que faz com que até hoje, por exemplo, reconheçamos um Santo Antônio – com o menino Jesus no colo, ou uma Santa Lúcia, com um olho sobre um a bandeja na mão.

Essa maneira de produzir, por cópia, aconteceu também nos manuscritos, nas iluminuras.  Produzidos em sua grande maioria em monastérios, o produto final apresentava muitas mãos.  Muitos religiosos iluministas eram especializados.  Uma situação não muito diferente das grandes companhias de montagem de produtos da era industrial.  Havia os que faziam as iniciais, outros que se especializavam em animais fantásticos, usados nas bordas de uma página e assim por diante.   Livros copiados e ilustrados eram uma obra de conjunto, de grupo.  Só muito mais tarde, o artista (pintor ou escultor) ganhou individualidade, deixando de ser um artesão anônimo, trabalhador filiado às guildas.  Até então, pintura e escultura eram ensinadas nos ateliês dos artistas, por anos e anos  — não havia as Escolas de Belas Artes —  e os aprendizes absorviam  as técnicas de seus mestres copiando fielmente as obras de seus mestres.  Aos poucos era-lhes permitido adicionar detalhes na obra do mestre:  olhos feitos pelo estudante tal,  paisagem de fundo por um outro estudante.   A cópia sempre fez parte do aprendizado de um artesão das artes visuais.   Ao longo de uma carreira, estilos se diferenciavam.  Mas a individualidade não era o principal objetivo de um artista até a Alta Renascença.   Muitos desses artesãos passavam a vida ensinando a outros artesãos como  misturar as tintas, como pintar um perfil, e assim por diante, um trabalho bem mais  anônimo.  Não é à toa, que quando se visita um museu, muitas vezes vemos um painel atribuído, por exemplo, ao “Mestre dos Montes Claros”,  ou ao “Mestre das Janelas Romanas”.  Eram artistas cujos nomes desconhecemos, mas cujos trabalhos são reconhecidos por características específicas (como no nosso exemplo, as janelas com arcos romanos), mas que eram competentes o suficiente para terem muitos outros artistas aprendendo o ofício em seu ateliê.

Santo Antonio de Pádua, 1656

Il Guercino [Giovanni Francisco Barbieri](Itália, 1591-1666)

Óleo sobre tela, 91 x  74cm

Coleção Particular

Depois da invenção da imprensa, a cópia de imagens tornou-se ainda mais corriqueira.  Já no século XVI, as xilogravuras que ilustravam o livro de Sebastian Brant , A nau dos insensatos, [Das Narrenschiff], publicado em 1494,foram usadas e reusadas por artistas como fonte para a posição de uma pessoa sentada, como desenhar uma cidade murada, etc.  Um dos grandes passatempos de historiadores da arte é tentar adivinhar exatamente essa “fonte” em que um artista famoso bebeu.  Muitos artigos profissionais que levaram professores às suas cátedras, às publicações nas áreas de especialização, se baseiam nessas descobertas – melhor seria dizer “redescobertas”.

Com um propósito muito diferente, mais anárquico, irreverente, Max Ernst produziu nas primeiras décadas do século XX diversos livros, romances se quiserem assim chamar, com imagens que foram retiradas na íntegra, muitas vezes adicionando uma ou duas pequenas intervenções, vindas de outros livros, de outros autores.  É a colagem como arte, uma consequência natural desse mesmo processo de criação das artes visuais.  A imagem final é o resultado de um arranjo específico de partes de outros artistas, uma nova criação com componentes de outrem, sem qualquer atribuição, sem referências a qualquer uma de suas fontes.  A obra final é um trabalho único, mas elaborado por partes de outros trabalhos de outras mãos.   A arte de Max Ernst no caso dos romances, não é nada mais nada menos do que a habilidade de colocar partes diversas, de origens variadas, num grupo único.  É a sua visão que apreciamos.  O resultado é como de um carro de hoje, que não perde a marca, o nome, mesmo que seja a soma de componentes de diversas origens.

Sebastian Brant, Das Narrenschiff  [A nau dos insensatos]: o jogo de gamão na Idade Média.

Pensei nos romances de Max Ernst quando comecei a ler no início desse ano, sobre a controvérsia criada pela publicação do romance Axolotle Atropelado [Intrínseca: 2011]da jovem escritora alemã Helene Hegemann.  Controvérsia criada pela acusação, seguida da confirmação pela própria autora, de que partes do texto eram colagens de outros autores.  Deu o que falar, principalmente depois que seu livro foi selecionado como finalista para receber o prêmio de USD$ 20.000 [vinte mil dólares americanos] da Leipizig Book Fair, mesmo depois de boatos de plágio terem contaminado o mundo literário.   Em outras palavras, o livro mostrou ser de tal valor, que mesmo com acusações de plágio, foi colocado entre os finalistas.

Filha do conhecido dramaturgo Carl Hegemann, a autora, que “bombou” na Alemanha com o Axolotle Atropelado, é uma adolescente de 17 anos, evidentemente talentosa, que já teve uma peça teatral não só publicada, mas montada, assim como teve um filme cujo roteiro escreveu, dirigiu, já lançou no circuito alemão.   Axolotle Atropelado vendeu milhares e milhares volumes na Alemanha e conquistou um lugar entre os mais vendidos no início desse ano.  É um romance sobre as descobertas de uma adolescente em Berlim.  Depois da morte de sua mãe, ela se familiariza com o mundo do sexo, das drogas, das noitadas, dos sonhos, do inconsciente individual e coletivo.  Vertiginoso.  Alucinante.  Não muito diferente das imagens exploradas – guardando-se as devidas diferenças de época – pelos surrealistas como Max Ernst, do início do século XX.

Apesar de reconhecer publicamente que copiou e colou diversas passagens de outros – vários — autores, Helene  não se autopuniu, parecendo acreditar mais no conceito trazido a público no século XVIII por Lavoisier de que  na natureza, “nada se cria, tudo se transforma”.   Produto da era da informação livre, criada na internet, escritora de textos, quase comunitários, que não existiriam sem as facilidades da era digital a autora parece ter vestido a própria essência da cidade onde mora, uma encruzilhada do mundo moderno, onde tudo se mistura, se aglutina, se transforma, para se individualizar em seguida.   Num artigo no jornal O Globo, de hoje, titulado “Lula der Grosse”, João Ubaldo Ribeiro descreve Berlim assim: “Cosmopolita, bonita e também cheia de história e cultura, com alguns museus únicos no mundo, não para nunca e, ao contrário das outras cidades alemãs, projeta uma atmosfera boêmia e pouco convencional, onde todas as tribos convivem e se manifestam e as ruas mais movimentadas são uma festa.”  E essa atmosfera parece ter sido absorvida pela autora.  Seu pai, já era conhecido, antes mesmo da controvérsia, por pontificar que “Uma determinada realidade não pode ser achada, apenas ser-nos trazida pelos ‘membros’ de uma cultura”.  E Helene colocou estas percepções à prova.

Helene Hegemann, Jens Schlueter/Agence France-Presse — Getty Images

Assim como Max Ernst não será jamais criticado por usar “partes” de outros artistas, não acredito que Helene Hegemann deva ser punida pelos seus “empréstimos”.  Tudo tem a ver com o espírito com que cada uma dessas criações foi feita.  É uma coisa de Zeitgeist  — para usar a expressão alemã – é uma coisa de espírito da época.  O romance, que não está entre os meus favoritos,  talvez até mesmo por uma questão de geração, é como uma viagem pelos pensamentos caóticos de alguém cuja mente está mantida, como um picles, ao molho de  drogas ferozes.  Não obstante a minha inabilidade de apreciar o conteúdo do texto, acredito que este seja um excelente momento para ventilar as questões de autoria e de criatividade.  A pergunta que lanço aqui, aos meus leitores:

Se aceitamos sem restrições as colagens nas obras das artes visuais, por que então somos tão rígidos, tão severos, quando nos reportamos aos textos literários?

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011