A natureza humana em O advogado do diabo de Morris West

9 11 2013

José LIMA, Interior de Igreja, OST, Capela da Ordem III de S. Francisco, Olinda, PE, 1972, 60x73cm,Interior de Igreja, 1972

[Capela da Ordem Terceira de São Francisco, Olinda, PE]

José Lima (Brasil,?-?)

óleo sobre tela, 63 x 70 cm

Eu já havia lido O advogado do Diabo de Morris West na minha adolescência.  Tinha gostado.  Mas,  por causa do novo papa, Francisco I,  a conversa no grupo de leitura caiu sobre a Igreja Católica e resolvemos voltar a este livro. Os dezessete membros do grupo já haviam lido esse romance na adolescência, o que atesta para sua popularidade.  Este e As Sandálias do Pescador do mesmo autor. Qual não foi então a minha surpresa, ao descobrir enquanto lia o romance, que eu não me lembrava de quase nada da história! Foi como ler um novo livro. E que livro!  Prazer do início ao fim.

Morris West não foi um autor popular por demagogia ou marketing. É um ótimo escritor. Cuida dos personagens. Introduz nuances psicológicas, problemas sociais, e, além disso, é um excelente observador da natureza humana, de suas frustrações e insatisfações.  Conhece e retrata os valores de cada personagem com abundância de detalhes e economia de palavras que fazem um texto enxuto, preciso e ponderado. Encantador.

O título O advogado do Diabo – por favor, não confundir com o filme mais recente com o mesmo nome que não tem nada a ver com este livro – se refere ao processo dentro da Igreja Católica pelo qual todos aqueles que estão sendo considerados para beatificação precisam passar. Entendo que esse processo sofreu mudanças depois das reformas trazidas à Igreja pelo Papa João XXIII, mas o romance de Morris West é anterior a 1963 e nele vemos a Igreja Católica como ainda operava depois da Segunda Guerra Mundial. Mas então, qual a razão do título?  A Igreja não pode confiar só no que seus fiéis lhe dizem. Precisa ter certeza de que os milagres aconteceram, de que os candidatos eram dignos.  Chamavam de advogado do Diabo, aquele membro da própria igreja, que é designado para descobrir as falhas de caráter, de ações, de intenções de quem é considerado para beatificação. O advogado do Diabo é o religioso que tem como dever provar que o candidato à santificação não deveria ser santificado. É o promotor digamos assim e não o advogado de defesa do candidato à santificação.

O Advogado do Diabo_638x957

Este é o enredo.  Aparente.  Mas  o texto pode e deve ser lido em diferentes níveis.  Além da perseguição à verdadeira vida do possível santo, processo que corre como em um livro policial, vemos o mundo pelos olhos de um homem submerso em uma crise emocional e de identidade: o Monsenhor Maredith Blaise, católico de nacionalidade inglesa, que há muito mora na Itália, está distante do mundo e de si. Encarregado da investigação e diagnosticado com câncer terminal, encontra-se contrabalançando duas empreitadas distintas — viver com dignidade e julgar a santidade de outrem — certo ele só tem a certeza de que o futuro é de dias contados. Portanto, aproxima-se dessa investigação de maneira distante e duvida do acerto de sua escolha.  Temos uma visão do que lhe aflige pelas palavras do Cardeal Eugenio Marotta que, ao lhe dar a missão de advogado do diabo, o descreve assim: “Não há paixão na sua vida, meu filho. O senhor nunca amou uma mulher, nem odiou um homem, nem sentiu piedade por uma criança. Apartou-se demasiado tempo e é, agora, um estranho no seio da família humana. Jamais pediu nada nem deu nada. Jamais conheceu a dignidade da privação nem a gratidão de um sofrimento compartilhado com outrem. Eis aí a sua enfermidade. Eis aí a cruz que o senhor talhou para os próprios ombros. Aí é que começam não só as suas dúvidas, como também os seus temores…pois um homem que não pode amar o seu semelhante tampouco pode amar a Deus”.

Confrontado, mais tarde, com a vida do milagroso Giàcomo Nerone, enquanto julga a possibilidade de beatificação, o monsenhor tem a oportunidade de fazer amigos e desfrutar do calor de suas companhias: Aurélio, o Bispo de Valenta se mostra uma pessoa interessante e genuinamente solícito; enquanto a seriedade e determinação do judeu e médico da aldeia Aldo Meyer movem sua admiração.  Tecidos nessas amizades estão os verdadeiros sentimentos de Meredith Blaise que reaparecem e tomam vigor, na mesma proporção em que seu corpo se deteriora. Mas a meio caminho floresce a compaixão, o amor ao próximo e o entendimento de que as pessoas são o que são e tudo o que se pode fazer é mostrar a elas as escolhas que têm.  Cada qual tomará o seu caminho e será responsável por ele.

morris westMorris West (1916-1999)

Publicado em 1959, nem a Igreja nem o mundo são mais os mesmos que aparecem no romance. Mas isso não afeta o seu entendimento, o prazer da leitura e, sobretudo os princípios humanistas expostos tão sucinta e claramente pelo autor. Tudo embalado em uma das mais interessantes narrativas que encontrei nos últimos tempos: Morris West consegue fazer dos vários e muitos habitantes da pequena  Gemello Minore— do candidato a santo ao padre local e sua empregada; do médico à amante do “santo” e seu filho bastardo; da já-nem-tão-jovem condessa ao seu companheiro homossexual e pintor medíocre  — , faz de todos, verdadeiros personagens, tridimensionais, com dilemas morais e de sobrevivência que os leva a ações nem sempre lógicas; mas mesmo que não simpatizemos com eles ou seus problemas, conseguimos entendê-los graças à habilíssima narrativa com que nos são apresentados.  A prosa refinada, com alguns parágrafos que nos fazem querer recortar o livro, separá-los e meditar sobre suas implicações, é a cereja do bolo.  Este é um romance policial, histórico,  psicológico; rico em questões de ética, pronto para o debate moral. Como um bom livro acaba mais ou menos em aberto, deixando que o leitor defina por si e para si o verdadeiro significado do que lhe é apresentado. Um romance que entrega muito mais do que se espera.  E como tal, prova o grande escritor que o produziu.  Segue então, muito recomendado.  Vou reler outros do autor.





Flores para um sábado perfeito!

9 11 2013

Paulo Gagarin, Antúrios, 1960s, ost, 66x 56Antúrios, década de 1960

Paulo Gagarin (Rússia,1885- Brasil, 1980)

óleo sobre tela, 66 x 56cm





Filhotes fofos — amor de girafinha

9 11 2013

animal-31Foto: Lightworks
Um momento de carinho entres bebê girafa e mamãe girafa!




Na boca do povo: escolha de provérbio popular

8 11 2013

vaidade, ilustração de Boutet de Monvel, 1913Vaidade, ilustração de Boutet de Monvel, 1913.

“Beleza sem virtude é rosa sem cheiro.”





Curiosidade do dia a dia

7 11 2013

395px-Pergamonmuseum_-_Antikensammlung_-_Relief_19

Estela funerária de Thrasea e Euandria, 375-350 aC

Mármore

Museu da Antiguidade [Antikensammlung], Berlim

Quando você vê um amigo na rua e dá aquele aperto de mão gostoso, você está repetindo um gesto muito antigo, de mais de 2500 anos. O aperto de mão já era praticado pelo menos desde o século V aC. Provavelmente surgiu como um gesto de paz onde se mostrava que a mão não trazia nenhuma arma.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

6 11 2013

ARTHUR TIMÓTEO DA COSTA (1882 - 1923). Tachos e Cebolas,ost. 27 X 36. Assinado, datado (1908) e localizado (Paris)Tachos e cebolas, 1908

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 27 x 36 cm





Bairro, poesia de Domingos Pellegrini

6 11 2013

Casas, s/d

Maria Ávila ( Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 55 x 46 cm

www.mariaavila.com

Bairro

Domingos Pellegrini

Os cheiros que te assaltam suavemente

floradas de quintais e de jardins

de murta na calçada ou alecrim

ou santa-bárbara a chover sementes

A fragância envolvente  do jasmim

esse cheiro de chuva já no vento

e nos escuros entre vaga-lumes

o perfume moleque dos capins

Um fedor de lixeira de repente

aqui carroças com cheiro de estrume

ali cheiro de graxa e de trabalho

E duma casa pobre mas decente

aquele cheiro que o bairro resume

bife fritando com cebola e alho

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





O Homem e seu jornal: a arte da leitura diária

5 11 2013

CezanneO pai do artista lendo o jornal, 1866

Paul Cézanne (França, 1839-1906)

óleo sobre tela, 198 x 119 cm

National Gallery, Washington DC

Didier Lourenco, Lendo na praçaO homem do jornal

Didier Lourenço (Espanha, 1968)

www.didierlourenco.net

Andre Deymonaz, La lecture (França)Homem lendo jornal

André Deymonaz (França, 1946)

óleo

Albert Anker (1831-1910) Suíça  Vovô LendoVovô lendo

Albert Anker (Suiça, 1831-1910)

óleo sobre tela

Alain Pontecorvo

Homem lendo jornal

Alain Pontecorvo (França, 1937)

www.alainpotecorvo.com

Carol Monacelli - Morning News Painting

McSorley’s Bar, Richard and Gene, s/d

Carol Monacelli (EUA)

62 x 62 cm

www.monacelli-painting.com

Sueli Galacci O DIARIO 2O Diário, 2001

Sueli Gallacci (Brasil, SP, Contemporânea)

óleo espatulado sobre tela,

http://acordagente.blogspot.com

V. Brindatch (Israel) ShoemakerSapateiro IV

Victor Brindatch (Israel, contemporâneo)

óleo sobre tela, 51 x 71 cm

Suset Maakal, man-reading-the-newspaper, watercolorjpgHomem lendo jornal

Suset Maakal (Africa do Sul, contemporânea)

aquarela sobre papel

www.paintingsilove.com

Marc Awodey,(EUA, Michigam 1960) newspaper readerO leitor de jornal

Marc Awodey (EUA, 1960)

www.marcawodey.com

lautrec-dihautDihaut lendo seu jornal

Henri de Toulouse Lautrec (França, 1864-1901)

Pastel

Jose Malhoa, homem lendoHomem lendo, 1905

José Malhoa (Portugal, 1855-1933)

óleo sobre tela

eero jarnefelt Finlandia,Homem com jornal, 1892

Eero Jarnefelt (Finlândia, 1863-1937)

óleo sobre tela

Donna NelsonSegundo cozinheiro, 1983

Dona Nelson (EUA, 1947)

óleo sobre tela, 205 x 160 cm

www.donanelson.com

dogan-atanur-1Homem lendo jornal

Dogan Atanur (Turquia/Canadá, contemporâneo)

www.doganart.com

???????????????????????????????Jornal da tarde

Barbara Fox (EUA, contemporânea)

aquarela, 46 x 38 cm

Barbara Fox

Edward B Gordon () News on Saturday, 2007 OSMNoticias de sábado, 2007

Edward B. Gordon (Grã-Bretanha/Alemanha, contemporâneo)

óleo sobre madeira

www.gordon.de

André Derain_- retrato de Homem com jornal _Portrait_of_a_Man_with_a_NewspaperRetrato de homem com jornal, 1911-14

André Derain (França, 1880-1954)

óleo sobre tela, 162 x 97 cm

Hermitage, São Petersburgo





Palavras para lembrar — Geneviève Cacerès

4 11 2013

Nick Botting jhskMoça lendo, s/d

Nick Botting (Inglaterra, 1963)

www.nickbotting.co.uk

“O verbo ler deriva de um verbo em latim que significa colher: o homem que lê é como um colhedor de frutas. Ler é, portanto, ir ao encontro de nutrição.”

Geneviève Cacerès (1923-1982)





Os três talismãs, texto de Teodoro de Morais

4 11 2013

pai e filhosIlustração sem autoria, do livro “At Work and Play”, Merton-McCall Readers: 1937.

Os três talismãs

Teodoro de Moraes

“– Que é preciso para aprender? perguntou um filho ao pai.

– Para aprender, para saber e para vencer, respondeu o pai, é preciso buscar os três talismãs: a alavanca, a chave e o facho.

– E onde encontrá-los? interroga o filho.

– Dentro de ti mesmo, explica o pai. Os três talismãs estão em teu poder e serás poderoso, se quiseres fazer uso deles.

– Não compreendo, diz o filho, cada vez mais intrigado. Que alavanca é essa?

– A tua vontade. É preciso querer, é preciso remover obstáculos para aprender.

– E a chave?

– O teu trabalho. É preciso esforço para dar volta à chave e abrir o palácio do saber.

– E o facho?

– A tua atenção. É preciso luz, muita luz, para iluminar o palácio. Só assim poderás ver com clareza e descobrir a verdade, que vence a ignorância.”

 

[Exemplo de conversação no texto]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 158.

Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.

Obras:

A leitura analítica, 1909

Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911

 Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909

 Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910

Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924

 Sei ler: leituras intermediárias, 1928

 Sei ler: primeiro livro, 1928

Sei ler: segundo livro , 1930