Palavras para lembrar — Mallarmé

1 12 2011

Retrato de mulher, s/d

Camilo Mori Serrano ( Chile, 1896-1973)

“No fundo, o mundo é feito para acabar num belo livro.”

Mallarmé (1842-1898)





As nossas postagens de maior sucesso!

30 11 2011

O banco dos leitores, ilustração alemã, sem autoria conhecida.

Meus amigos sempre me perguntam quais são as postagens mais lidas no blog.  É uma coisa difícil de responder, porque depende muito da época.  E também da popularidade de um assunto.  Mas para satisfazer aos curiosos, fui até a contagem e verifiquei as postagens abaixo de minha autoria que são as mais acessadas do blog, nos últimos meses.  Abaixo, em ordem de popularidade, todos com mais de 200 visitas diárias, alguns com muito, muito mais:

1º –

Mais algumas sugestões de livros para jovens e adolescentes.

2 º-

Jacques-Louis David e Vik Muniz, unidos pelo lixo.

3º –

Sugestões de livros para adolescentes mais velhos

4º –

Outras citações visuais de Vik Muniz: um pedido de responsabilidade política e social.

5º –

Depois dos équidnas, vejamos o ornitorrinco (platipus)

6º –

Cinco livros do Romantismo I: A Moreninha

7º –

A baleia e suas pernas, novo passo para entender a evolução

8º –

A Batalha de Anghiari de Leonardo da Vinci, pintura mural será descoberta!

9º –

Olimpíadas 2016 – um símbolo na medida carioca

10º

Göbekli Tepe: a descoberta do Jardim do Éden?






Em férias, poesia infantil de Zalina Rolim

24 11 2011

Jardim florido, ilustração de Charles Robinson.

Em férias

Zalina Rolim

No campo a gente madruga;

Deixa‑se a cama cedinho,

Quando a aurora acorda o ninho

E o orvalho às plantas enxuga.

O céu é todo rubores;

Toda a campina, um veludo…

E ondeia e espalha‑se em tudo

O aroma vivo das flores.

Sai das verdes profunduras

Barulho d’ água, ligeiro,

Como um som de voz fagueiro,

Falando de cousas puras.

E deleita e aviva o olfato,

O cheiro forte e sadio,

Que vem das margens do rio

E dos verdores do mato.

Os burricos vão espertos,

Num trote, campina em fora,

Alongando o olhar, que explora

Longínquos plainos desertos

E as vozes dos pequeninos

Ressoam festivamente,

No frescor do ar transparente,

Em vivos sons cristalinos.

Na frente, o mais corajoso,

— Chapéu na mão, pronto e ledo,

Explora o campo, sem medo,

Todo radiante de gozo.

E, farejando o caminho,

Pendente a língua vermelha,

O cão, no olhar, o aconselha

A dar a rédea ao burrinho.

Das frescas moitas cheirosas,

Tintas de alegres matizes,

Erguem o vôo as perdizes,

Batendo as asas plumosas.

E mil insetos, zumbindo

No ar puro da madrugada,

Sonorizam toda a estrada

Num concerto estranho e lindo.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Almas no jardim, um conto de Marques Rebelo

23 11 2011

Almas no jardim

Marques Rebelo

Cercada por uma muralha de morros negros e tristes, silenciosa e limpa, a pequena praça fica num bairro distante, no fim de uma rua nova mas abandonada.  Tem dois mesquinhos repuxos ao gosto municipal, quatro tabuleiros ingleses de grama dum verde que o vento e o sol fustigam e queimam, e vários ficus, ostentando, tesos, figuras recortadas por tesouras de reduzida originalidade.  Tem duas pérgolas também, duas ridículas pérgulas de madeira pintada de branco, onde umas trepadeiras, que se abrem em agressivos cachos solferinos, se enroscam mais ou menos raquiticamente. Sob cada pérgula, um banco.  Não são incômodos, mas que fossem! não há bancos incômodos para os casais de namorados.

Nessa pequena praça, ouvindo a música medíocre dos repuxos , ora numa, ora noutra pérgula, diariamente, ao cair da tarde, eu me encontro com ela, com ela que é branca como uma açucena, que é mansa como uma sombra, que é doce como um favo, com ela cuja voz é uma fonte cantando e cujo olhar traz para mim o mesmo mistério do céu noturno.

Por esta hora, nesse bairro distante que o sol custa a deixar e cujo vento é qualquer coisa de extraordinariamente notável, a pequena praça é pouco frequentada. Raramente crianças vêm brincar nas retas ruazinhas de fino saibro, entre os quatro canteiros urbanos, em volta dos repuxos.  Para um casal apaixonado é uma solidão propícia, uma amável solidão.  Lá estamos todas as tardes, eu e ela, tecendo o delicado tecido das esperanças, frágil teia que não resiste ao menos sopro contrário.

— Você gosta de mim?

— Adoro!

— Se eu morresse…

— Bobo!

— Então eu não posso morrer?

— Não!

Sacudo os ombros:

— Pois morrerei.  Morrerás.  Morreremos.

Ela — que tem medo da morte! — treme:

— Não tem mais nada para dizer, não?

Tenho.  Tenho um mundo de coisas doces e ternas, ó miragens, ó sonhos, ó devaneios! E tenho um mundo de coisas graves também.  Coisas graves e sérias, mas que jamais sairão, jamais confessarei, ficarão para sempre dentro do meu peito inquieto, tubilhonantes, confusas — oh, extremamente dolorosamente confusas e opressoras! — porque tudo crestariam, pior que o vento da pequena praça, como um vento de fogo.

E ela talvez advinhe as minhas coisas graves e sérias.  Põe em mim os olhos cheios de amor:

— Amo-te com todos os mistérios da tua vida.

E é melhor assim.

Cai frequentes vezes, ela, num contemplativo mutismo, o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no meu ombro.

— Em que está pensando? — pergunto.

— Em você.

— Ora!… Fala.

— Gosto mais de te ouvir.

Abre o amável sorriso de claros dentes, responde numa moleza:

— Adoro!…

E o amor é isto: se está triste, amo sua tristeza, se está alegre, amo a sua alegria; e há palavras que parecem sem sentido, mas que caem fundo no coração; e há silêncios que valem por todas as palavras; e ora é um sorriso que nos leva para o céu, ora é um baixar de olhos que nos traz o céu com mil estrelas.

Além de nós, uma vez por outra, um outro casal ocupa a pérgula fronteira.  Olham para nós, sorriem, compreendendo, e como nós desenrolam a eterna história dos corações.  Mas são casais intermitentes.  Constantes, constantes como o vento, somos nós.  Nós, os pardais e Liró.

Os pardais são inumeráveis — ciscam, chilreiam, voam, brigam, amam…  O guarda é um polícia municipal que deve andar pelos quarenta anos, mas a quem se pode dar muito mais.  Tem o porte muito pouco marcial (o pagamento anda sempre atrasado) e o andar de quem já não tem mais pernas.  Com o seu cinzento capacete colonial, escondendo um rosto avermelhado, gretado e melancólico, faz olho morto e complacente aos nossos beijos, aos nossos abraços demasiados.  Já que o vento não consente na primavera dos canteiros, que ao menos nos nossos corações — deve pensar ele — haja flores e outras manifestações primaveris.  Atira pedrinhas aos esquivos peixinhos vermelhos no tanque, peixinhos japoneses cuja cauda tem a transparência das medusas, fica horas e horas numa contemplação, não sei se estúpida ou poética, dos repuxos que não se cansam na sua música monótona, medíocre, inútil.  Com uma continência conivente e frouxa, cumprimenta-nos quando chegamos às quatro e quando saímos às sete, mais ou menos, hora em que a pequena praça começa a sofrer  a noturna invasão dos namorados do bairro.

Liró é o contraste do guarda.  Liró é alegre.  Liró  é brincalhão.  Liró é saltitante.  Mal apontamos, ele corre ao nosso encontro com os olhos transbordantes de simpatia.  Quando partimos, nos leva religiosamente até a esquina mais próxima.  Liró, sabemos, é realmente nosso amigo.  Tem o fraco difícil das verdadeiras e desinteressadas amizades.

Hoje não vimos Liró ( o nome foi posto por nós no primeiro dia que viemos à pequena praça).  Perguntamos ao guarda por ele.  Com voz surda, voz gasta, voz sem dentes, respondeu que não sabia.  Sumira desde a véspera., pouco depois de nos termos ido embora.

Ficamos tristes, inquietos (os pardais chilreavam insensíveis).  Se tiver sido apanhado pela carrocinha, combinamos, irei resgatá-lo no depósito público. Se tiver sido vítima de um automóvel — e ela ficou com os olhos úmidos — não voltaremos à pequena praça.  Porque Liró é a vida da pequena praça, convencemo-nos.  Toda a vida.

Em: Contos Reunidos, Marques Rebelo, Rio de Janeiro, José Olympio 1979, 2ª edição.

– 

Edi Dias da Cruz, pseudônimo: Marques Rebelo (RJ 1907-RJ 1973) jornalista, contista, cronista, novelista e romancista. Nasceu no Rio de Janeiro, mas mudou-se com a família para Barbacena em Minas Gerais. No início dos anos 20, ingressou na Faculdade de Medicina, que logo abandonou para se dedicar ao comércio.  Dedicou-se ao jornalismo profissional no início dos anos 20.  Escreveu seus primeiros contos por volta de 1927, quando fazia o Serviço Militar. Teve uma carreira brilhante como escritor e bastante produtiva.  Retratou como poucos a vida na cidade do Rio, no período que viveu as agitações de seu crescimento.





Quadrinha do por do sol

22 11 2011

Margarida e Pato Donald contemplam o por do sol, ilustração Walt Disney.

Num arroubo apaixonado,

antes que a lua desponte,

o sol pinta de dourado

as paredes do horizonte…

(Izo Goldman)





Quadrinha da poeta

21 11 2011

Pescaria, gravura no estilo Art Deco, dos anos 20-30, autor desconhecido.

Nesta vida tão inquieta,

o meu consolo é pescar.

Sou pescadora-poeta

que pesca versos no mar!

(Gislaine Canales)





Travessa, poema de Machado de Assis

16 11 2011

Lendo no bosque, s/d

Ferdinand Heilbuth ( França, 1828-1889)

aquarela sobre papel com detalhes em guache, 24 x 33cm

Travessa

Machado de Assis

…………………………………………………..

Ai, por Deus, por vida minha!

Gosto de ti — gosto tanto

Dessa tua travessura

Que não dera o meu encanto,

Que não dera o meu gostar,

Nem por estrelas do céu,

Nem por estrelas do mar!

Alma toda de quimeras

Que acordou no paraíso

Vinda do leito de Deus;

E que rivais de teus olhos

Só tens dois olhoos — os teus!

Pareces mesmo criança

Que só vive e se alimenta

De luz, amor e esperança.

Ave sem medo à tormenta

Que salta e palpita e ri;

Não sabes como, não sabes,

As travessas primaveras

Assentam tão bem em ti!

Assentam sim, como as asas

Assentam no beija-flor;

Como o delírio dos beijos

Em uma noite de amor;

Como no véu que se agita

De beleza adormecida

A brisa mole e sentida!

Foi por ver-te assim —  travessa

Que eu pus a minha esperança

No imaginar de criança

Dessa formosa cabeça…

Foi por ver-te assim. — Que os sonhos

Eu sei como os tem, eu sei,

Puros, lindos e risonhos,

Um coração novo e calmo

Onde a lei do amor — é lei;

Foi por ver-te assim, que eu venho

por em ti as fantasias

De meus peregrinos dias,

Como a esperança no céu;

Em ti só, que és tão louquinha,

Em ti só por vida minha!

…………………………………………………….

(1859)

Em: O Espelho: revista semanal de literatura, modas, indústria e artes [ edição fac-similar] (1859-1860) Rio de Janeiro, MEC: 2008.





Trova do carro velho

16 11 2011

Cartão postal de Margret Boriss, anos 20 do século XX.

Carro velho, meu amor,

dá trabalho: além de feio,

no morro, falta motor;

na ladeira… falta freio!

( José Ouverney)





Imagem de leitura — Ângelo Agostini

14 11 2011

D. Pedro II lendo os jornais do dia, 1888.

Ângelo Agostini ( Brasil, 1843-1910)

Publicado no Diário Popular de 18 de novembro de 1888.

[quase um ano antes da Proclamação da República]

Homenagem ao dia 15 de novembro!




Por que escrevo resenhas de livros?

14 11 2011

Biblioteca, François Schuiten (Bélgica, 1956).

Desde que comecei a escrever resenhas de livros, muito antes de ter um blog, houve a pergunta do por quê?  Recentemente, uma amiga depois de ler uma de minhas resenhas acabou me dando a oportunidade, através de suas perguntas, de esclarecer, até para mim mesma, a preocupação que tenho em escrevê-las.  Há diversas razões, mas é em essência para fechar aquela experiência de leitura.  Como se com ela eu pudesse colocar um ponto final naquela experiência.

Não me lembro de uma vida sem livros. Fui alfabetizada muito cedo, tão cedo que me faltam memórias dessa época. Foi um pouquinho antes dos cinco anos de idade.  A minha alfabetização foi tema, como única criança na família, antes de irmãos e primos nascerem, de um projeto de minha tia, irmã mais moça de mamãe, no último ano da faculdade.  Quando tia Neyde um dia me mostrou o trabalho dela de faculdade, os meus desenhos durante o processo didático no início da minha alfabetização, fiquei pasma.  Não me lembrava.  Para ser precisa, não me lembro de uma época em que eu não estivesse com alguma coisa para ler nas mãos.  Revistinhas e livrinhos foram brinquedos tão queridos quanto o cachorro de pelúcia Tupi, o patinho de madeira com rodas, e mais tarde a minha bicicleta.  Tinha bonecas, mas elas nunca foram o meu forte: “davam muito trabalho”, eu respondia quando interrogada.

Os livros também foram, como o piano, os grandes companheiros de uma adolescência difícil, irritadiça, cheia de altos e baixos emocionais, de gastrite nervosa, calmantes e de muitas brigas familiares.  Receio que, na época, eu não tenha entendido as boas intenções de meus pais, mas eles tampouco não conseguiam entender minha sede de liberdade e minha necessidade de testar limites. Mutuamente desapontados, sobraram-me os livros como os grandes amigos, minha válvula de escape, meu mundo único, inatingível.  Contribuiu para esse cenário meus pais serem, ambos, professores: minha mãe formada em neo-latinas, lia muito, principalmente em espanhol;  papai, químico industrial e professor de química e física também estava sempre às voltas com livros.  Na nossa família livros poderiam ser encontrados em qualquer lugar da casa.

Jovem escrevendo carta, Diane Ursin (EUA, contemp.) acrílica sobre tela.

Aos nove anos de idade, ganhei de minha avó um livro em branco, de capa dura com a palavra Poesias impressa em dourado. Pus-me imediatamente a copiar poemas dados na escola, a copiar, da antologia de leitura em que estudava, as poesias de que mais gostava, e a recolher, desse jeito, um vasto arsenal de versinhos, rimas, poemas, poesias, sonetos variados.  Tenho esse livro até hoje, apesar de ter sido abandonado ao longo do tempo, ainda com páginas em branco a serem preenchidas.  Ao longo dos anos fui aprendendo a pensar sobre aquilo que lia, e um dia comecei dois cadernos diferentes de anotações: ambos com capas duras [que demonstram que durarão para sempre], mas poderiam ter sido qualquer tipo de caderno, a diferença fazia com que eu pensasse que eles eram “mais sérios”.  Em um deles eu copiava um trecho de leitura que tivesse achado importante, sedutor, significativo.  No outro eu anotava o título do que lia, o autor, a editora, e adicionava palavras que me lembrassem do conteúdo e principalmente os motivos da nota que eu dava abaixo, que variava de1 a 5.   Ambos ainda existem, apesar de não serem mais funcionais.  Vem daí, tenho certeza, a idéia de escrever as resenhas.

Ler é uma atividade singular.  Fazemos a leitura sozinhos.  Mas há uma vontade enorme de conversarmos com alguém sobre aquilo que lemos, não é mesmo?  Confirmar que percebemos o que estava lá naquele outro mundo. Dividir essa experiência de leitura faz parte das motivações para que eu escreva uma resenha.  Resenhas me ajudam a pensar sobre o que li.  E, se imagino que há uma audiência, qualquer que ela seja —  para mim é uma coisa mais ou menos abstrata — aí sim, me coloco com a incumbência de fazer a resenha clara, inteligível.  Gosto mais de escrever do que de conversar.  Sempre gostei mais.  A razão é simples: tenho mais controle, não sou interrompida, posso editar, não me distraio, posso escolher o tom, selecionar o vocabulário e com isso me aproximar ou me distanciar do que estou pensando. Tenho que pensar antes de dar uma opinião: é por isso que escrevo.  –

Desconheço a autoria dessa gravura.

Na leitura levei horas, dias, com um autor, com sua história, com sua maneira de pensar.  O autor pede e o leitor se entrega.  Sim, ler é um ato de entrega.  Eu me entrego a uma certa narrativa, a um certo ritmo, ao tema, à escolha das palavras de outrem.  Concordando ou não sigo sua direção, confiando que irá me levar a um desenlace.  A resenha é a minha hora de guiar, de levar avante, de fazer o caldo final.  A relevância da leitura está nas minhas mãos.  Ela é minha, só minha.  Cada texto é  importante para o leitor por diferentes motivos.  Penso então em como e por que razão levei a leitura até o final.  Tenho, afinal, que honrar esse investimento do tempo em que eu e o escritor passamos juntos. Diferente de um filme que pode levar de 90 a 120 minutos,  um livro provoca um relacionamento prolongado, mais íntimo, até mesmo físico: consideremos o peso de um volume, o tamanho de suas páginas.  Às vezes o livro se torna desconfortável para segurar, para abraçar, para  manusear. Seu peso pode ser uma experiência desagradável porque não podemos levá-lo para cama, colocá-lo na bolsa,  lê-lo no ônibus.  Se vou até o fim de um livro tenho que pensar nos motivos que me levaram até fim.  É a minha hora de dizer se a troca entre essas duas pessoas: escritor/leitor foi relevante, se teve valor para mim.  Ah, sim, devo dizer que não tenho pena de abandonar livros no meio.  Às vezes não é a hora de lermos sobre um assunto, e  às vezes não dá mesmo, não conseguimos ter empatia com aquele escritor.  Há muito mais livros a serem lidos em uma vida do que os dias e horas que nos restam.  Este não é um mau presságio. É uma realidade.  Não é possível ler tudo que já foi publicado.  Por que então investir num relacionamento com um autor que sentimos não será significante?

Não faço resenhas de todos os livros que leio.  Não escrevo sobre os livros de que não gosto.  Às vezes faço anotações das razões que me levaram a abandonar um livro: umas poucas frases, para que eu me lembre.  Mas não vou gastar tempo e energia escrevendo um monte de coisas horríveis sobre um livro.  Para quê?  Para quem?  A minha experiência não é a mesma de outras pessoas. É só mais uma.  Anos atrás, quando eu ainda morava fora, fui convidada para fazer resenhas para um jornal americano.  A mim, couberam romances em tradução para o inglês, porque na época eu trabalhava nesse ramo.  Foi gratificante saber que as minhas opiniões eram lidas, aplaudidas, mas também muitas vezes não muito bem acatadas por pessoas que não me conheciam.  Isso me deu uma visão muito diferente do que é a resenha profissional.  Essa experiência, além de me trazer uns trocados, me ensinou a ter disciplina, a escrever só um certo número de palavras, nem mais nem menos [que não é o caso nesse ensaio]. Ela me ensinou também que o que é publicado num jornal tem longo alcance.

Todos esses parágrafos foram para justificar o hábito das resenhas.  Esse hábito é o do simples pensar.  Procuro responder às perguntas: Gostei?  O que me levou a gostar?  E como ou porque isso é relevante na minha experiência?  Quando consigo responder a essas perguntas de maneira que faça sentido para mim, estou pronta para dizer adeus ao companheiro de viagem em que o livro se tornou.  E provavelmente, para dizer um até logo, ao autor que me proporcionou momentos intrigantes. Sim, é com a resenha que concluo o processo de leitura.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011