A chuva, poesia infantil de Bastos Tigre

2 08 2013

Chuva, guarda-chuva, vento, acidente, margret borissCartão postal com ilustração de Margret Boriss.

A chuva

Bastos Tigre

— Mamãe! Que chuvinha enjoada!

Me deixou toda molhada,

Sapato, roupa e chapéu!

Não serve mesmo pra nada

Esta água que cai do céu…

— Não digas tal, minha filha:

A chuva é uma maravilha

Pois ela molhando o chão,

Faz crescer a couve, a ervilha,

O arroz, o milho, o feijão.

A chuva, molhando a terra,

Cobre de flores a serra,

Amadurece o pomar,

E a semente que se enterra

A chuva é que faz brotar.

Por isso é que a chuva é boa

E a terra seca a abençoa…

— Sim, Mamãe, compreendo bem.

Mas por que é que a chuva, à toa,

Cai nas calçadas também?

Em: Antologia Poética de Bastos TigreBastos Tigre, 2 volumes, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982, 1º volume, p. 241.





A imaginação é a solução: “O Sr. Pip” de Lloyd Jones

29 07 2013

Aldemir Martins (1922-2006) - Paisagem com sol amarelo - Acrílica sobre tela - 18,5 x 22,5 cm - 2000Paisagem com sol amarelo, 2000

Aldemir Martins (Brasil, Brasil, 1922-2006)

acríica sobre papel, 18 x 22 cm

Coleção Particular

Não me surpreende que este romance tenha levado o prêmio  de melhor livro em 2007, dentre os Escritores da Commonwealth, e que nesse mesmo ano tenha sido um dos finalistas do Man Booker Prize. O Sr. Pip, já nasceu um clássico.  E gerações futuras irão se encantar, aprender e se alimentar nessa surpreendente fonte de sabedoria elaborada por Lloyd Jones.

A história se passa em Bourgainville, arquipélago de Papua-Nova Guiné.  O enredo, entrelaçado com eventos reais durante a guerra civil de 1991, chega até nós através dos olhos de Matilda, uma menina-moça.  Lloyd Jones foi muito feliz na voz que encontrou para Matilda, a pré-adolescente, que encontramos com aproximadamente 13 anos e que nos seduz por sua candura e inteligência.  Seguimos seu crescimento até a idade adulta, físico e emocional. Mas é  o tom encontrado para ela, uma harmoniosa combinação da inocência da criança com a voz que amadurece por necessidade, que torna o livro sedutor.

O_SR_PIP_1255702135P

Inicialmente Matilda não tem meios de entender o mundo que a rodeia; a realidade da guerra civil é incompreensível. Despojadas dos confortos cotidianos, as crianças da ilha encontram em um de seus habitantes, Sr. Watts, uma maneira de se preservarem.  Ele se torna professor da criançada, quando já quase nada mais resta no local além da escola vazia, abandonada, cheia de lagartixas e trepadeiras crescendo de encontro às paredes.

Sr. Watts têm métodos diferentes de ensinar e com ele as crianças adquirem meios para lidar com a devastadora realidade que as cerca. Matilda segue seu professor passo a passo e acaba se apaixonando pelo personagem Pip, do livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, o livro que todos lêem e relembram.

lloyd_jonesLloyd Jones

Com essa simples e transparente narrativa Lloyd Jones nos entrega uma pequena obra prima sobre o poder da imaginação, sobre as funções da literatura, sobre justiça e dignidade. Tudo através da metodologia de  Sr. Watts que seduz com sua paixão tanto seus alunos na ilha, quanto nós  leitores mesmerizados.  Como subtexto, temos uma vigorosa defesa do papel da literatura na vida de quem a ela se dedica, leitor ou escritor.  Através do Sr. Watts aprendemos também que temos diversas vidas, diversos papéis, que vão sendo adaptados às diferentes situações, de acordo com as nossas  necessidades.  Um saudável e belíssimo manual de sobrevivência através da criação literária.





Quadrinha do criminoso

29 07 2013

Ladrão, batendo no ladrãoMonica faz justiça, ilustração de Maurício de Sousa.

Neste mundo de cobiça,

o criminoso se esquece

que embora falhe a justiça,

sempre a verdade aparece.

(Simeão Cohen)





O azul está por todo lado, texto de Lloyd Jones

27 07 2013

Newman Shutze (Brasil, 1960)Superfície com azul e branco, Acrílico sobre tela140 x 110 cmSuperfície com azul e branco, s/d

Newman Shutze (Brasil, 1960)

Acrílica sobre tela, 140 x 110 cm

O azul está por todo lado

Lloyd Jones

“ Existe um lugar chamado Egito – ela disse. – Não sei nada sobre esse lugar. Gostaria de poder contar para vocês sobre o Egito. Perdoem-me por não saber mais. Porém, se quiserem, posso contar-lhes tudo o que sei sobre a cor azul.

Então nós ouvimos sobre a cor azul.

— Azul é a cor do Pacífico. É o ar que respiramos. Azul é o intervalo de ar entre todas as coisas, como as palmeiras e os telhados de zinco. Se não fosse pelo azul, não veríamos os morcegos. Obrigada, meu Deus, por nos ter dado a cor azul.

“É surpreendente como a cor azul está sempre aparecendo”, continuou a avó de Daniel. “É só olhar que você vê. Você pode encontrar o azul espiando pelas frestas do cais em Kieta. E vocês sabem o que ele está tentando fazer? Ele está tentando alcançar as vísceras fedorentas dos peixes para levá-los de volta para casa.  Se o azul fosse um animal, ou uma planta, ou uma ave, ele seria uma gaivota. Ele mete o seu bico em tudo.

“O azul tem poderes mágicos também”, ela disse. “Olhe para um recife e digam se estou mentindo. O azul bate num recife e qual é a cor que ele solta? É o branco!  Como ele faz isso?”

Olhamos para o Sr. Watts em busca de explicação, mas ele fingiu não notar nossos rostos indagadores. Estava sentado na ponta da cadeira, de braços cruzados. Cada pedaço dele parecia focado no que a avó do Daniel estava dizendo. Um a um, voltamos a nossa atenção para a velhinha com boca manchada de bétel.

— Uma última coisa crianças, e então deixo vocês em paz. O azul pertence ao céu e não pode ser roubado, razão pela qual os missionários grudaram azul nas janelas das primeiras igrejas que construíram aqui na ilha.

O Sr. Watts abriu bem os olhos daquele jeito que já tinha se tornado familiar, como se estivesse acordando. Foi até a avó de Daniel com a mão estendida. A velha estendeu a dela para ele   segurar e então ele se virou para turma.

— Hoje nós tivemos muita sorte. Muita sorte. Fomos lembrados que, apesar de não podermos conhecer o mundo todo, se formos suficientemente inteligentes, podemos torná-lo algo novo. Podemos inventá-lo com as coisas que vemos à nossa volta. Só precisamos olhar e tentar ser tão imaginativos quanto a avó de Daniel. – Ele pôs a mão no ombro da velha senhora. – Obrigado – ele disse. – Muito obrigado.

Em: O Sr. Pip, Lloyd Jones, trad. Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco:2007, pp. 68-69





Recém-nascido, poema de Stella Leonardos

27 07 2013

Aurélio D´Alincourt (1919-1990) carinho maternal, ose, 46 x 38Carinho Maternal,s/d

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919-1990)

óleo sobre  madeira,  46 x 38 cm

Recém-nascido

Stella Leonardos

Penugem de ave pequena.

No corpo fruta macia.

Na pele fresca açucena.

Na vida raiar do dia.

Raio de luz, ilumina.

E sendo pássaro e planta

É inocência que germina,

É madrugada que canta.

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11

 

 





26 de julho, FELIZ DIA DOS AVÓS

26 07 2013

Leonardo+da+Vinci+-+The+Virgin+and+Child+with+Saint+Anne+

A Virgem Maria, o Menino Jesus e Sant’ Ana, 1508

Leonardo da Vinci (Itália, 1452-1519)

Óleo sobre madeira, 165 x 112 cm

Museu do Louvre, Paris





Leitura na prisão reduz pena: os dez mais lidos

25 07 2013

BOOKS, A song worth volumes, Camille EngelNinho literário, uma canção que vale volumes

Camille Engel ( EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira, 35 x 28 cm

Os 10 livros mais lidos nas prisões brasileiras:

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak
O Menino do Pijama Listrado, John Boyne
O Caçador de Pipas, Khaled Hosseini
Nunca Desista Dos Seus Sonhos, Augusto Cury (primeiro escritor brasileiro)
Apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger
O Futuro da Humanidade, Augusto Cury
A Cabana, William P. Young
O Vendedor de Sonhos, Augusto Cury
Os Espiões, Luís Fernando Veríssimo
O Pequeno Príncipe, Antoine Saint-Exupéry

Parabéns a Augusto Cury por ter três livros na lista dos mais lidos e  que também junto a  Luís Fernando Veríssimo aparece lado a lado, ombro a ombro com autores de grande popularidade no mundo inteiro.

—————–

1010866_10151497138291691_244045745_n

—————–

Alguns estados no Brasil subscrevem a diminuição de pena pela leitura.  Em geral para 30 dias de leitura, o detento tem uma redução de 4 dias na pena.  Assim é no estado de São Paulo, mas há variações de estado para estado.  A  leitura é considerada um trabalho intelectual, contribuindo para o processo de reinserção social dos presos “pela capacidade de agregar valores éticos-morais à sua formação“, assim vê o Poder Judiciário.

Além de São Paulo, Goiás, Paraná, Piauí e Santa Catarina já adotaram programas semelhantes. A participação é voluntária e a seleção dos detentos em geral é  feita por uma comissão, nomeada e presidida pelo diretor da unidade carcerária. Nesses programas – e há pequenas variações por estado, os presos têm até 30 dias para a leitura de uma obra e devem apresentar uma resenha a respeito do tema, que fica sujeita a correção para validação do período de estudo. Ema São Paulo, um mês de leitura reduz em quatro dias o tempo de reclusão da sentença. A cada ano, a decisão do TJ-SP permite que o preso desconte 48 dias da sua pena total.

Fontes: Hoje em dia, G1 GLOBO





Harmonicórdio, poesia de Fagundes Varela

19 07 2013

ROSINA BECKER DO VALLE (1914 - 2000)Floresta com animais, o.s.t. - 60 x 73. Assinado cie e datado 1966A Floresta, 1966

Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914-2000)

óleo sobre tela,  60 x 73 cm

Coleção Particular

Harmonicórdio

Fagundes Varela

O homem fala e a mulher cochicha,

O papagaio palra, o corvo grasna,

Cacareja a galinha, a rã coaxa,

Gorjeia o sabiá, chilra a cigarra;

Late o cão, mia o gato e grunhe o porco,

A raposa regouga, o touro muge,

Arrulha a linda pomba, zurra o asno,

Assobia o macaco e berra a cabra;

Ruge o leão, mas o corcel relincha,

Silva a serpente e o fradalhão se esgoela,

compõe o mestre belas harmonias,

— Só o poeta as compreende e canta!

Em: Poesias Completas de Fagundes Varela, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1965, p. 166





Quadrinha do vento e da flor

16 07 2013

flores, colhendo no passeioIlustração de autoria desconhecida.

O vento que a flor afaga
é sagaz explorador:
dessas carícias, em paga,
leva o perfume da flor.

(Vital Bizarria)





O verde do meu bairro: Camarão amarelo

16 07 2013

???????????????????????????????Camarão amarelo em jardim na zona sul do Rio de Janeiro.

Passeando pelo meu bairro você não diria que uma das plantas mais usadas na decoração ao longo de grades e muros seria uma planta nativa de outro país.  O Camarão Amarelo [Pachystachys lutea] está tão difundido no paisagismo  carioca que parece brotar voluntariamente.   Mas não é verdade. É original do Perú e leva esse  nome pela aparência de suas flores.   Também é conhecido pelo nome de Planta-camarão e simplesmente de Camarão.

É um arbusto que pode crescer até 150 cm.  Gosta de sol ou de sombra parcial.  Aqui no meu prédio temos alguns pés.  Todos com aparência muito saudável.  Lembrei-me deles hoje porque parece que esta semana foi a semana dedicada à poda.  Ele  tem  folhas lustrosas e alongadas, verde bem escuro.   Assim como os cariocas, o Camarão Amarelo não gosta de frio e aqui onde moro dá flores o ano inteiro.  Suas flores são branquinhas, pequeninas, saindo das brácteas  amarelo ouro.  Este tipo de arbusto atrai beija-flores.  Talvez seja por isso que haja tantos  beija-flores no jardim do meu edifício.