Esmerado: broche e pendente por René Lalique

30 03 2026

Pingente e broche dos Três crisântemos, c. 1900

René Lalique (França, 1860-1945)

ouro, esmalte azul translúcido, diamantes e  pérola barroca pendente

Coleção Richard H. Driehaus

Driehaus Museum, Chicago

 

O mestre vidreiro René Lalique dedicou-se como quase todos os artistas da virada do século XIX-XX à observação da natureza.  Nessa joia, excelente exemplar do uso das formas naturais no estilo Art Nouveau, vemos três crisântemos em diferentes etapas do desflorescer.  Representam longevidade, fidelidade e alegria. Mas também vemos nessa deliciosa obra uma quase meditação sobre a passagem do tempo.  Há três flores: uma completamente aberta, como um pompom composto por pequeninas pétalas, no centro. Enquanto os outros dois contribuem para o sentido da nostalgia, já que  estão a caminho de seu despetalar, de seu fim. O momento escolhido, considerando a finitude da vida, é representado com grande esplendor.

 





Em uma tarde de outono, Olavo Bilac

30 03 2026

Noite no mar

Leonid Afremov (Belarússia, 1955-2019)

óleo sobre tela

 

 

Em uma tarde de outono

 

Olavo Bilac

 

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol…

 

Do livro: Poesias





Domingo de Ramos

29 03 2026

Entrada em Jerusalém

Pietro Lorenzetti (Itália, 1280–1348)

afresco

Basílica de São Francisco de Assis, Assis, Itália

 

 

 

 





Flores, porque hoje é sábado!

28 03 2026

Flor, 1972

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

acrílica sobre tela, 37 x 19 cm 

 

 

 

 

Natureza morta, 1952

Augusto José Marques Júnior (Brasil, 1887 – 1960)

técnica mista sobre eucatex, 20 x 32 cm





Quando ela passa por perto….

27 03 2026

Paisagem com lanternas, 1958

Paul Delvaux (Bélgica, 1897-1994)

Óleo sobre madeira, 122 x 159 cm

Coleção Batlines

Museu Albertina, Viena, Áustria

 

 

Nessa semana que passou, oito noites e sete dias, fui convidada a ponderar sobre as prioridades da vida.  Na quinta-feira, enquanto começava a escrever para o blog às 18:30 h, eu me levantei do computador, fui à cozinha preparar uns ovos mexidos para o jantar.  Quando abro a geladeira…  Tenho uma cãibra no meio do peito, muito suor, sem fôlego. Tomei uma aspirina. 

Resultado: emergência. Hospital.  Internação por 7 dias.  Coração saudável.  Mas necessidade de stents. Foi um pequeno infarto. Mesmo com números controlados no colesterol, na glicose, na pressão.  Mas umas artérias achavam que iriam me derrubar.  

Tive tempo de considerar a fragilidade de nossas vidas.  A rapidez com que se pode estar aqui e subitamente não estar.  Não que eu não tenha tido esses pensamentos anteriormente.  Como todos nós, já perdi entes queridos, até mesmo inesperadamente.  Mas é sempre uma volta à realidade, à nossa condição: a certeza de que um dia, a Senhora Dona da Foice virá nos visitar.  Semana passada ela passou mais perto do que eu imaginava.  Mas já se foi.  Voltamos ao dia a dia.

 

Um agradecimento público

 

Antes disso gostaria de fazer um agradecimento público a dois médicos que foram de grande dedicação  e me seguraram num momento delicado.

Dr. André Feijó [André Luiz da Fonseca Feijó] cardiologista que me atendeu na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro

Dr. Gabriel Treiger [Gabriel de Mattos Treiger] meu incansável clínico geral, com quem me consulto há mais de duas décadas, clínico geral do Hospital Samaritano na Barra da Tijuca. 

Sem eles eu poderia não estar aqui. 

E aos parentes e amigos presentes nessa aventura do coração:  Ana Lúcia, Ricardo, Anna Paula, Lincon, Ronaldo, Fabiana, Perla e Marlene que foram infatigáveis na atenção, no carinho, nas excelentes gargalhadas que me proporcionaram.

Um agradecimento especial ao elenco médico da Casa de Saúde São José também.

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Hoje, primeiro dia de volta à casa, fui, às escondidas, fazer o que seria clássico na literatura.  Fui ao cabeleireiro cortar o cabelo para essa nova Ladyce West. Uma nova vida.  Novo horizonte.

Boa noite.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2026





Nossas cidades: Porto Alegre

17 03 2026

Doca das Frutas, c. 1880

[Hoje a área ocupada pela Praça Pereira Parobé]

Athayde d’Avila (Brasil, ativo em meados do Século XX)

óleo sobre tela

Acervo do Museu Júlio de Castilhos





Palavras para lembrar: René Descartes

16 03 2026

Andreas lendo, 1882-1883

Edvard Munch (Noruega, 1863-1944)

óleo sobre papelão, 36 x 29 cm 

Coleção Particular 

 

 

A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas mais honestas dos séculos passados que foram seus autores. 

 

René Descartes

(1596-1650)





Com delicadeza, Roseana Murray

16 03 2026
Ilustração de Becca Stadtlander

 

 

Com delicadeza

 

Roseana Murray

 

Com delicadeza

abrir as gavetas

que guardam

as palavras de seda.

Deixá-las sempre

ao alcance

de um sopro,

prontas para o vôo,

para o ouvido,

para a boca.

Palavras de seda

são como borboletas

douradas

quando pousam

no coração do outro.

 

 

Em:  Manual da delicadeza de A a Z. São Paulo: FTD, 2001.





Em casa: Francine van Hove

15 03 2026

O pequeno lampião de 1930

Francine van Hove (França, 1942)

Óleo sobre tela, 54 x 81 cm





Sobre a cultura ocidental, texto de Roger Scruton

14 03 2026

O livro de Kells, c. ano 800

Autoria: Monges celtas. Provavelmente na ilha de Iona (Escócia) e finalizado na Abadia de Kells, Irlanda.

340 fólios de pergaminho de vitela com desenhos complexos, letras decoradas, animais mitológicos e cenas bíblicas.

Biblioteca Trinity College, Dublin, Irlanda

 

 

 

 

 

“Eu suspeito que a humanidade tenha entrado frequentemente em períodos como o nosso, em que a disciplina do julgamento e a procura do valor intrínseco diminuíram ou desapareceram. Quando isso aconteceu no passado, não ficou, todavia, nenhum registro, pois uma sociedade sem cultura perde a memória e perde também o desejo de se imortalizar em monumentos duradouros. Muito em breve, a barbárie assume o controle e a sociedade é varrida da face da terra. O que é interessante na nossa situação é que temos os meios tecnológicos para sustentar a nossa sociedade para além do momento em que ela poderá perder todo o sentido interno do seu valor e, portanto, perder a capacidade de se sustentar a partir do seu próprio reservatório inerente de fé. Essa é uma situação nova, e nós deveríamos nos perguntar o que poderíamos fazer, em circunstâncias como essas, para garantir a sobrevivência da cultura. Aqueles monges irlandeses que mantiveram acesa a lâmpada do aprendizado durante a Idade das Trevas de nossa civilização tinham uma grande vantagem sobre nós – a saber, que não havia competição de idiotices barulhentas e amplificadas, que tudo ao seu redor era perigo e destruição, e que tão logo eles encontraram refúgio, a paz tranquilamente se apresentou a fim de guiar seus pensamentos, seus sentimentos e suas penas.”

 

Em: A cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado, Roger Scruton, tradução de Sérgio Kalle, LVM Editora: 2024