Roubo de bola, s/d
Gordon France ( EUA, contemporâneo)
Aquarela, 30 x 50 cm
Simon Glücklich ( Alemanha, 1863-1943)
óleo sobre tela, 79 x 97 cm
Coleção Particular
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Simon Glücklich nasceu em 1863, na Alemanha. Estudou pintura de gênero e paisagem com Leopold Karl Müller na Academia de Viena, entre os anos de 1880-90. Logo depois partiu para a Itália, numa viagem de estudos. Em 1890, de voltou à Alemanha, estabelecendo seu ateliê de pintura em Munique. Sua produção artística foi dedicada principalmente à pintura de gênero, paisagem e retratos. Morreu em 1943.
Donald Moodie (Escócia, 1892-1963)
Óleo sobre tela
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Na ocasião do lançamento do Times Book Club, em março de 2010, o jornal britânico, The Times, publicou um artigo de autoria de Alyson Rudd, em que ela descrevia o que mudara, na sua maneira de ler um livro, depois de ter aderido a um grupo de leitura.
O convite, ela reconta, veio depois de alguns encontros com mães das crianças que freqüentavam os primeiros anos da escola, onde Alyson matriculara seu filho. “Você não gostaria de participar de um clube de leitura?” um dia lhe perguntaram. Inicialmente, o convite lhe pareceu ter o mistério de quem está sendo convidado para participar de uma sociedade secreta. Sentiu-se lisonjeada inicialmente, mas logo preocupada pois não tinha o hábito de ler ficção contemporânea. Acabou aceitando participar com o objetivo de se aproximar de outras mães de crianças da escola. Lá se vão dez anos.
O primeiro romance que leu foi White Teeth [ Dentes Brancos, Cia das Letras, 2003] de Zadie Smith. Apesar de muito bem escrito Alyson Rudd não gostou dessa leitura: a autora fez esforço demais em mostrar uma Inglaterra multi-cultural; mostrou personagens demais e muito distantes da sua realidade. Não se igualava, por exemplo, à ficção de Gogol que ela acabara de ler. Mas mesmo assim, esta foi uma ocasião que ficou marcada em sua vida, e da qual se lembra vividamente até hoje, desde a leitura do livro, o encontro e o debate, ao queijo Brie e às uvas que as componentes do grupo degustaram ao conversarem sobre os problemas do texto.
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Lendo, 2003
Peter Harrap ( Grã-Bretanha, 1975)
Óleo sobre tela
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“Não foi uma boa escolha, não é mesmo?” a mulher que havia sugerido o livro admitiu. Mas, apesar de ter sido um experiência frustrante, o livro afinal não tinha sido tão terrível e o queijo e o vinho foram muito bons e as novas amigas pareciam bem divertidas. E assim seguiu-se para o próximo livro: Four Letters of Love de Niall Williams [Quatro cartas de amor, Rocco:1999]. O título lhe pareceu horrível. Tinha aquele jeito de ser um romance açucarado, provavelmente monótono. Uma carta de amor é mais do que suficiente, pensou. Mas leu o livro, e foi aí que se tornou uma fã incontestável do grupo de leitura: Quatro cartas de amor se mostrou um romance notável, que flui; um livro de uma beleza incontestável, que Alyson nunca teria lido se não fosse membro do grupo.
À primeira vista, um clube de leitura soa contra-intuitivo. A leitura é uma busca solitária, uma oportunidade para calar o mundo do trabalho ou o barulho do avião, ou da televisão. Alyson se lembrava de que por anos, depois de devorar um grande romance, sempre se sentia vazia ao terminá-lo. Era como se as férias acabassem subitamente e para trás ficassem o mundo novo, a sociedade independente, as atribulações, o assassinato, o resgate do amor ou o ódio, tudo de que participara intensamente desaparecia com o virar de uma página final.
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Jessie lendo, s/d
Paul Maze ( França/Inglaterra, 1887-1979)
óleo pastel
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Os clubes de livro ou grupos de leitura são uma cura para esse súbito mal, para essa depressão momentânea. Em vez de se sentir perdido ao terminar um romance cativante, você sente a excitação da antecipação: o que o resto do grupo pensa em fazer desse livro? Que será que este livro despertou nas outras pessoas? E tem mais: não se precisa mais impingir um livro de que se gosta a uma amigo e esperar que ele se decida a lê-lo, para vir a saber do resultado dos seus esforços. Com um grupo de leitura você conhece um grupo de pessoas que está lendo o mesmo que você, ao mesmo tempo que você. E você começa a ouvir dicas: “o livro está ficando chato, ou ele melhorou muito depois de um início lento ou tedioso; você já chegou na parte onde o sacerdote… ? Não, não me conte, não estrague tudo….”
O encontro mensal representa o encerramento de um pequeno ciclo; ele fecha com chave de ouro o processo da leitura, e nos faz esquecer da tristeza de deixar aquele mundo para trás. Além do que o encontro marca o início de um novo ciclo. É hora de começar um novo livro. Em vez pensar ou dizer para alguém que não participou da mesma experiência com suspiro: “Ah, isso me comoveu tanto” e ser olhado com curiosidade como se você fosse um pouco diferente, você pode dizer isso e receber um aceno de cabeça, de compreensão, sem que muitas palavras sejam trocadas.
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Mulher lendo, 2005
Alex Cree ( Inglaterra, contemporâneo)
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Um grupo de leitura pode ajudar a resolver aqueles pequenos detalhes que nos irritam porque parecem não fazer sentido numa narrativa. “Será que o menino vê o assassinato ou imagina ter visto?” Juntos, os membros do grupo se ajudam e você monta as pistas. E você pode até mesmo concluir que o autor foi deliberadamente obtuso, sinuoso, velado. E se não chegar a uma resposta concreta, pelo menos, você conseguiu compartilhar a sua frustração e, assim, neutralizá-la, sabendo que outras pessoas entendem do que você está falando.
A ascensão dos grupos de leitura transformou a maneira como nos sentimos a respeito da leitura propriamente dita. Onde inicialmente havia geeks agora há os que ditam as tendências sociais. Livros são o máximo! Livros viraram moeda comum. E o eterno “Para que time você torce?” pode ser facilmente trocado pelo “O que você está lendo agora?” numa conversa casual. É mais interessante descobrir se alguém leu Cormac McCarthy, The Road, [ A Estrada, Alfaguara Brasil: 2007] ou viu o filme. É claro que não há problema algum em ter feito ambas as coisas, e os grupos de leitura com freqüência vão assistir juntos a versão cinematográfica de um livro e depois decidir qual é o melhor. E nem sempre é o livro que ganha, um exemplo disso foi o filme baseado no romance de Ian McEwan, Atonement , [Reparação, Cia das Letras: 2002].
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Mulher lendo, 2006
Tina Spratt ( Irlanda, contemporânea)
óleo sobre tela
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Os grupos de leitura se espalharam como um vírus antes de Oprah e Richard & Judy lançarem suas versões na televisão. Ambos os programas fizeram grande sucesso porque fizeram o que todos os bons clubes do livro devem fazer: expandiram os limites de suas audiências. Oprah pediu a uma nação inteira que lesse One Hundred Years of Solitude, de Gabriel García Márquez [Cem anos de solidão, Record: 2009] – e ninguém se assustou. No programa de Richard & Judy os leitores se entregaram às páginas de Half of a Yellow Sun de Chimamanda Ngozi Adichie [ Meio sol amarelo, Cia das Letras: 2009]. Esses livros foram escolhidos, não porque eram apostas seguras, mas porque seriam amados.
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Mulher lendo, s/d
Richard Combes ( Inglaterra, contemporâneo)
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É menos maçante ler um livro problemático se você não está sozinho e mais agradável devorar um excelente livro se você sabe que poderá compartilhar seus pensamentos, quase que imediatamente, após a sua leitura com pessoas amigas que saberão do que você está falando. Um bom livro sempre faz a gente se sentir especial, como se o autor nos tivesse em mente enquanto escrevia. Ser transportado para longe do seu sofá ou da sua espreguiçadeira para a época vitoriana ou para o espaço sideral, é sempre possível. Mas quando você volta à Terra e se encontra em sua cadeira predileta, é muito mais agradável poder falar sobre a sua viagem com alguém que também esteve lá.
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Tradução e adaptação de Ladyce West.
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Para o txto original: The Times
Árvore de Jessé, século XII, anterior a 1195
Abadessa Herrade de Hohenburg (Alsácia, c. 1130- 1195)
Hortus Deliciarum [Jardim das delícias], começado em 1163
Esboço colorido.
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A leitura do mês de junho para o grupo Papa-livros foi a fantástica ficção histórica de Noah Gordon, O Físico. Eu já o havia lido em inglês há muitos anos, mas reli o romance na versão brasileira com tanto gosto como se o estivesse lendo pela primeira vez. Não vou fazer uma resenha desta saga medieval, riquíssima em detalhes e aventuras, que fazem as quase 600 páginas do livro passarem rapidamente, mesmo para os leitores mais exigentes. Simplesmente direi que é um livro para se ler e reler. Vai recomendadíssimo.
Mas há um ponto que volta a me fascinar depois da leitura de O Físico, e que aparece com frequência quando me encontro com algumas ficções históricas: o quase milagre de estarmos aqui, neste momento, vivos. Um mero passeio, mesmo que em ficção, à Europa do século XI, como fiz na leitura desse romance, traz à baila os incríveis percalços encontrados por nossos antepassados (qualquer que seja a nossa origem), para que um dia, um de nós, estivesse aqui, vivo neste momento. A cadeia de dificuldades pela mera sobrevivência em séculos passados (morte ao nascimento, de peste, de fome, de apendicite, de frio) faz de nossos antepassados os grandes heróis de nossas vidas. Todos nós, não importa quem sejamos, tivemos antepassados que sobreviveram tempo suficiente para chegarem à idade de se reproduzirem. Este fato, simplesmente, a passagem de bons genes, a sorte, tudo contribui para que eles já sejam pequenos heróis. Não digo que somos todos descendentes de um Napoleão, Átila, Hercules ou Alexandre, mas de pessoas que mesmo que tenham morrido ainda muito jovens, chegaram a ter filhos e a deixar seus descendentes em condições de saúde, família ou financeira com suficiente lastro para que estes, por sua vez, crescessem e se reproduzissem com sucesso. Não é pouco. Ainda que lutadores cotidianos anônimos, estes antepassados merecem o nosso respeito e agradecimento, mesmo que não consigamos saber quem eram, como se chamavam ou o que faziam.
Do século XI, por exemplo, período representado no romance O Físico, até hoje, poderíamos dizer que foram aproximadamente 40 gerações, se calcularmos uma geração a cada 25 anos. Os estudos mais recentes de antropologia consideram que esta idade estaria mais próxima da realidade, do que o tradicional período de 20 anos, assumido no passado. E 40 gerações até o século XI já é de espantar, imagine-se então que de uma maneira ou de outra estes nossos antepassados vieram, eles mesmos de outras 40 gerações ( para chegarmos ao ano 1 de nossa era) e de mais outras e outras tantas gerações 40 gerações para podermos cobrir o caminho em reverso da nossa existência.
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Peregrino Medieval
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Isso me leva a uma dos meus pequenos passatempos, que é o da genealogia. Muita gente pensa que a genealogia só é de interesse para aqueles que tenham tido algum sangue azul; que é um passatempo para quem quer provar uma origem de importância. O que acontece é que é mais fácil conseguir informação sobre antepassados nobres, ou donos de terras, porque foi por aí que os primeiros documentos citando nomes de pessoas e de seus descendentes, mesmo dos que eram analfabetos, vieram a ser registrados e preservados.
Mas a graça para mim, que até hoje não descobri nenhum sangue nobre na família, não está nisso. Está sim, na tentativa de entender por que peripécias meus antepassados passaram, o que fizeram e como chegaram aqui, em mim, em meus irmãos, vindos de tantos outros cantos do mundo. Isso porque, conhecendo bem a história, sabemos que se paramos por aqui, no Brasil, somos descendentes de sobreviventes espertos, fortes e acima de tudo com grande garra.
Pense bem. A não ser que a sua família tenha chegado ao Brasil com os navios da corte portuguesa em 1808, sua família pode ser considerada uma família de heróis, com pouca chance de sangue azul. Vamos dar uma espiadinha:
Mayuta, o Pajé, 2002
Elon Brasil ( Brasil, 1957)
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Indios nativos do Brasil: somos descendentes daqueles que sobreviveram, quer por fugirem dos invasores, quer por se adaptarem a eles. De qualquer maneira, pensaram que só sobreviveriam se fossem fortes de corpo e alma. No ano passado, por comemoração da passagem do Dia do Índio, publiquei aqui neste blog uma história de livro escolar sobre Araribóia, o fundador da cidade de Niterói. Um dos comentários que recebi me dizia que eu estava dando cobertura a um traidor das nações indígenas, afinal Araribóia havia se aliado aos portugueses contra a invasão francesa. Infelizmente o autor desse comentário o fez de maneira tão rude, repleta de palavras de baixo calão, que não publiquei o comentário nem pude rebatê-lo, para mostrar que se pensarmos bem, Araribóia foi um chefe de tribo que pensou na sua sobrevivência e na de sua tribo.
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Retrato de mulher, s/d
Benedito José Tobias ( Brasil, 1894-1963)
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Negros que chegaram escravos: a seleção já começava nos navios negreiros. A mortalidade nessas naus entre os escravos era imensa. Só chegavam aqui os fortes. E precisavam ser fortes de alma, também para agüentarem os maltratos a que foram, na maioria dos casos, submetidos.
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Portugueses: quer tenham vindo no período colonial ou mais tarde como imigrantes els caem em duas alternativas — 1) se eram de famílias importantes, não eram herdeiros. Eram sim segundos, terceiros, quartos filhos de nobreza ou donos de terra. Sem herança. Ou eram judeus, novos cristãos, degredados, criminosos políticos ou religiosos. De qualquer maneira, vieram para sobreviver aqui, fazer a fortuna desejada, porque na terra natal isso não era possível. 2) ou eram habitantes de aldeias pobres, que decidiram emigrar porque não havia possibilidadesde crescimento em seus rincões e não queriam passar fome onde não tinham como se empregar. A fome ou o perigo da fome sempre rondou os pobres na Europa.
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Beduíno, s/d
Bertha Worms (Brasil, 1868-1939)
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Outros europeus, asiáticos e imigrantes do oriente médio: assim como os portugueses, seus antepassados não tinham perspectivas de sobrevivência onde nasceram. Aldeia, vilarejos dedicados a monocultura, eram lugares de equilíbrio econômico frágil. Esses emigrantes, por mais rudes que fossem na educação formal, mostraram-se corajosos, espertos, lutadores que bravamente procuraram oportunidades onde pudessem ter mais chances. Destemidos, gente brava, pronta para enfrentar os perigos de uma viagem longa e insalubre de navio, para aprender uma língua desconhecida e difícil e para se adaptar na medida do possível a uma cultura radicalmente diferente.
Por mais que se doure a pílula, temos todos pés de barro. Por mais que queiramos dizer que nossos antepassados eram nobres, a verdade é que se paramos neste lado do Atlântico, é porque em algum lugar, anteriormente, a vida era muito, muito difícil e uma mudança brusca se fez necessária para a mera sobrevivência. Mesmo aqueles de nobreza brasileira, não eram nada mais do que os mesmos europeus sem direitos à herança ou à riqueza. Pobres coitados que vieram para cá à procura de sucesso financeiro ou amoroso: enfrentando doenças tropicais e clima inóspito. Todos eram nada além de sobreviventes de condições muito adversas.
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Imigrantes, 1910
Antônio Rocco ( Itália, 1880 – Brasil,1944)
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Com essa perspectiva dois pensamentos me vêm:
1) Profunda gratidão aos meus imigrantes que fizeram parte de meu passado
2) Profunda compaixão pelos elitistas: não têm a menor noção de suas histórias e muito menos respeito pelo valoroso esforço de seus antepassados.
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E hoje, abro o jornal para encontrar um artigo de duas páginas, em que moradores dos bairros ricos e com grande concentração de intelectuais, os “burgos” de Ipanema, Leblon e Gávea, no Rio de Janeiro, se organizam para tentar proibir a chegada do Metrô a esses locais.
Ostensivamente a desculpa é que esses bairros não comportariam muito mais pessoas indo e vindo. Pessoas que já vêm e vão diariamente pois trabalham nesses locais como balconistas, garçons, borracheiros, entregadores, bombeiros, pintores de parede, mecânicos; que trabalham nos edifícios residenciais como porteiros, seguranças, empregados domésticos. Mas sob os panos, debaixo da mesa, sabemos muito bem, que os moradores dessas áreas do Rio de Janeiro querem se esquivar de um encontro com um maior número de pessoas das classes mais pobres, com os outros batalhadores que a exemplo dos antepassados de todos, ainda brigam por sua sobrevivência. Francamente, uma atitude incompatível com as lições que trazemos do passado.